Os acontecimentos das últimas semanas foram decisivos para configurar uma nova conjuntura política no Brasil. Este cenário se consolidou com a volta das manifestações de extrema direita às ruas, a prisão domiciliar de Bolsonaro, a entrada em vigor do tarifaço e o motim da extrema direita no Congresso. Nesse quadro, persiste a ausência de uma política de mobilização das massas orientada por um programa anti-imperialista e anticapitalista que seja capaz de enfrentar tanto o bolsonarismo quanto o imperialismo e o projeto de conciliação de classes do governismo.
ANTONIO SOLER
A entrada em cena do imperialismo estadunidense com o tarifaço de Donald Trump – o Brasil foi o primeiro país em que o tarifaço teve como parte da sua motivação uma causa abertamente política – no cenário nacional acabou por romper com o desenho conjuntural anterior de dupla crise dos últimos meses: do lulismo; este que vinha perdendo cada vez mais poder; e do bolsonarismo que está diante da iminente prisão de sua maior liderança.
Combinada com o tarifaço, a tomada do Congresso pelo bolsonarismo marca uma confrontação ainda mais direta entre os dois polos políticos nacionais: lulismo e bolsonarismo. Entre os dias 5 e 6 de agosto de 2025, em uma ação nunca vista, parlamentares da oposição de extrema direita tomaram os plenários da Câmara dos Deputados e do Senado em protesto contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro e em defesa de pautas ultrarreacionárias como a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, o fim do foro privilegiado e o impeachment de Alexandre de Moraes. Essa foi uma ação diretamente golpista que contou com grupos de extrema direita, incluindo militantes remanescentes dos acampamentos golpistas de 8 de janeiro, lideranças de movimentos bolsonaristas regionais, empresários do agronegócio e representantes de associações de transportadores que vinham ameaçando paralisações.
Depois de negociações favoráveis ao bolsonarismo, Motta recupera a Presidência da Câmara, mas sai do episódio extremamente enfraquecido. O ato de retomada da Cadeira da Presidência, inclusive, ocorreu de maneira que demonstra sua fragilidade. Quando adentrava o Plenário, em um cenário de empurra-empurra generalizado, teve a sua passagem dificultada por parlamentares do PL que se encontravam a dezenas em torno da Mesa Diretora e que ainda ocupavam a Cadeira da Presidência. Diante do tumulto, parecia desistir da tentativa de recuperar seu posto e indicava que iria voltar ao seu gabinete, mas foi empurrado por outros parlamentares do Centrão à cadeira do Presidente e, finalmente, reabriu oficialmente os trabalhos para logo encerrá-los ainda com vários bolsonaristas fazendo pressão em seu entorno.
No discurso de encerramento da sessão afirmou que a tomada do Congresso abria um “precedente gravíssimo”, mas que a desocupação foi “resultado de diálogo” e que se tratou de “uma guerra vencida sem precisar atirar”. E, em uma clara demonstração que havia cedido ao bolsonarismo afirmou que “não haveria preconceito contra propostas de qualquer espectro ideológico” e que caberia ao Colégio de Líderes pautar o temário conforme o “sentimento da maioria” da Casa.
O que foi negociado para que Motta voltasse à Presidência da Câmara e para que os projetos do governo pudessem voltar a tramitar foram dois projetos que fortalecem ainda mais a extrema direita e a hipertrofia do Congresso diante dos demais poderes: fim do foro especial em que Deputados, Senadores, Presidentes e Ministros só podem ser julgados pelo STF – com o objetivo de afetar o processo de Jair Bolsonaro e de outras figuras na trama golpista de 2022 – e outro projeto que exige a autorização do Congresso para que parlamentares sejam investigados. Ou seja, além de provavelmente os parlamentares do PL não sofrerem nenhuma punição séria pela tomada do Congresso, a extrema direita parece sair vitoriosa politicamente do motim.
Em que pese que provavelmente Bolsonaro será julgado em setembro e a jurisprudência impede alterações de competência nessa etapa do processo, uma possível aprovação do fim do foro privilegiado será mais um elemento favorável ao bolsonarismo na conjuntura. Fator este que, somado aos ataques de Trump que podem se ampliar e à capacidade de mobilização popular da extrema direita – no último ato da extrema direita em São Paulo compareceram no pico 37,6 mil pessoas nas ruas, bem mais do que o ato do oficialismo pela prisão de Bolsonaro, que contou com cerca de 15,1 mil na capital paulista -, pode exercer enorme pressão política e institucional. Os resultados políticos desse contra ataque não podemos determinar ainda, mas um cenário com traços ainda mais golpistas pode se colocar nos próximos meses.
Os fatos da semana expressam de maneira contundente que entramos em uma nova conjuntura política nacional. Os cenários estão abertos, podem levar a uma correlação de forças mais favorável se a luta contra o tarifaço de Trump, pela prisão de Bolsonaro e contra os ataques vindos do Centrão e do governo forem assumidas pelo movimento de massas. Mas, o contrário também pode ocorrer, não podemos esquecer que estamos em meio a um ataque imperialista que pode ser ainda mais agravado com o aumento da taxação, extensão das represálias a mais membros do STF ou outras medidas ainda mais graves com o objetivo de fortalecer ainda mais a extrema direita.
Polarização fraca do lulismo não pode enfrentar o imperialismo
Mesmo após sair momentaneamente das cordas diante da ofensiva bolsonarista, o governo Lula não conseguiu converter essa sobrevida política em um aumento significativo de popularidade. Em julho, pesquisa Genial/Quaest mostrou que a avaliação “ótima ou boa” subiu de 43,4% no início do mês para 46,6%. Já a avaliação “ruim ou péssima” recuou de 49,4% para 48,2%. A percepção de governo “regular”, por fim, chegou a 5,1%, depois de estar em 7,2%.
Muito embora tenha havido uma reação pontual frente à escalada tarifária de Trump, esse aumento permanece modesto e ainda abaixo de 50% de avaliação positiva explícita (46,6%). Esses números indicam que a saída do governo das cordas está longe de garantir a governabilidade do governo de conciliação de classes, principalmente sob o ataque imperialista e da retomada da ofensiva da extrema direita.
A reação do governo Lula diante do contra-ataque pela derrubada do IOF foi recorrer ao STF. Poder que lhe devolveu parte da prerrogativa de ajustar a alíquota sobre tal imposto. Depois, com o tarifaço de Trump o governo continuou a jogar parado: segue insistindo em uma “negociação” que não existe com o país imperialista e planeja fazer concessões tarifárias e regulatórias que beneficiam grandes exportadores, sem qualquer compromisso de contrapartida em preservação de empregos ou defesa da indústria nacional.
Agora, Lula – e parte do governismo (PT, PSOL – vergonhosamente – e PSB) – enquanto veta apenas parcialmente a PEC da Devastação, comprometendo ainda mais fiscalização ambiental, e diante do sequestro da Mesa do Congresso, limita-se ao “pedido de suspensão sumária, por seis meses, dos mandatos de cinco parlamentares do PL que paralisaram, entre terça-feira e quarta-feira, os trabalhos da Casa”. O mesmo tom de capitulação oportunista está contido em uma declaração assinada por estes e outros partidos da ordem quando afirmam que, em tom nacionalista abertamente liberal, “a bandeira do nosso país é aquela que melhor nos representa contra qualquer tentativa de imposição ou de ameaça” e que diante dos ataques de Trump “o Brasil vai seguir no caminho do diálogo, da diplomacia e do desenvolvimento econômico e social”.
Uma coisa é defender a soberania nacional de um país dependente frente a um ataque imperialista como estamos vivendo, outra totalmente diferente é não qualificar que se trata de um país capitalista em relação ao qual temos que defender nossa soberania diante do imperialismo com uma política anticapitalista, a única que pode oferecer uma alternativa viável às massas trabalhadoras. Além disso, não apresentam nenhum enfrentamento político real ou qualquer medida concreta para levar definitivamente Bolsonaro à prisão e impor uma derrota categória à extrema direita. A depender destes senhores e senhoras do politicismo oportunista não vamos longe…
Esquerda independente entre o economismo e o maximalismo
Já no campo da esquerda independente, encontramos dificuldades de outra natureza, são geralmente as do economicismo sectário. Mas vale recordar que o sectarismo também se manifesta de forma maximalista por vezes. Vejamos resumidamente a seguir o que diz o mais recente texto do PSTU sobre a crise nacional.
Além de tardar para assumir a necessidade política central de lutar pela prisão de Bolsonaro em unidade de ação e com independência de classe, o fazem de maneira não-orgânica à situação e à conjuntura nacional. Fazem uma série de afirmações que nos parecem totalmente protocolares, pois não estão em diálogo concreto com a realidade e a sua prática política. Afirmam que “a classe trabalhadora vem dando o exemplo [de luta anti-imperialista]”, que o processo exige “a prisão de Bolsonaro na cadeia” e, no final, que a verdadeira soberania virá de “uma sociedade socialista”.
Assim, descobrem a necessidade da unidade de ação para prender Bolsonaro, mas sem fazer nenhum balanço prático da sua política ultraecomicista. Desta forma, não avançam para a necessidade de construir urgentemente um fórum para impulsionar um plano de lutas contra os ataques imperialistas e para derrotar a extrema direita com a prisão de Bolsonaro pela ação direta. O que lhes resta é uma agitação maximalista da luta pelo socialismo sem a menor mediação com a realidade concreta.
No caso do MRT, essa organização também apresenta uma faceta maximalista – e sectária – diante da enorme crise política que vivemos. Sequer chegaram à elementar conclusão de que é necessário pautar a prisão de Bolsonaro – mesmo de forma protocolar como faz o PSTU – como uma das tarefas centrais para enfrentar o imperialismo e a extrema direita. Em sua formulação aparece a ideia de que diante da crise capitalista o Estado burguês busca “uma concentração de poder cada vez maior nas mãos de poucos”, assim a saída passa pela defesa de uma “Assembleia Constituinte”, para “refazer as regras do jogo de cima para baixo” e, assim, se une “a luta por uma verdadeira democracia dos trabalhadores à luta contra a dominação imperialista”.
O que se pode observar em seu argumento é um forte traço facilista, pois não identificam que nesse processo de concentração de poder, de fortalecimento de formações políticas – e governos – de extrema direita, se coloca o perigo de fechamento do regime, fato que poderia significar uma derrota histórica os explorados e oprimidos. Outro aspecto que podemos notar é que a tentativa de escapar aos desafios colocados pela via do economicismo acaba, provavelmente por pressão da realidade, também numa orientação maximalista muito parecida com a do PSTU. A proposta do MRT de Assembleia Constituinte – que pode ser uma agitação necessária quando o movimento nas ruas estiver mais dinâmico – é pura abstração! Isso porque abre mão por completo, de maneira irresponsável e inconsequente, da principal tarefa democrática colocada hoje: a prisão e expropriação de Bolsonaro e de todos os golpistas, além de medidas de dissolução de mecanismos e instituições ultrarreacionários da época da Ditadura civil-militar, como fim dos tribunais e polícias militares, do artigo 142 da Constituinte e da Lei de Anistia de 1979.
Por uma Plenária Nacional de Ativistas
Diante de uma polarização assimétrica e cada vez mais perigosa entre extrema direita e o governo de conciliação de classes – sendo que o segundo elemento pelo seu caráter político burguês não pode fazer de fato frente ao primeiro elemento, principalmente com a entrada em cena dos ataques imperialistas -, temos uma conjuntura de evolução para cenários políticos cada vez mais perigosos.
No entanto, existem reservas de combatividade no interior da classe trabalhadora. Embora a esquerda da ordem tenha tentado transformar o dia 10 de junho em uma jornada formal, distante das reais necessidades e combatividade da classe trabalhadora, é importante destacar que a própria data revelou uma significativa disposição de luta. Nas mobilizações desse dia, foi possível perceber as reservas de disposição de enfrentamento que existem no interior da classe trabalhadora, juventude, mulheres e etc. Outros processos também evidenciam o anterior com a luta dos entregadores, a resistência contra a escala 6×1 e outros processos de mobilização que vêm ganhando força. Além disso, a opinião pública demonstra um posicionamento majoritário contra o tarifaço imposto por Trump, refletindo um sentimento coletivo que se opõe às medidas imperialistas. Assim, apesar dos esforços de setores da esquerda da ordem para desmobilizar o movimento dos trabalhadores e oprimidos, as bases sociais seguem mostrando potencial para a luta autônoma e radical.
Sendo assim, é urgente que a CSP-Conlutas e outras organizações independentes convoquem o mais amplamente possível uma Plenária Nacional de Ativistas com o objetivo de construir um programa mínimo e unitário e um calendário de mobilizações para lutar contra o tarifaço e a extrema direita. Esse encontro é fundamental para orientar a vanguarda lutadora no sentido de preparar a luta e exigir que as centrais sindicais, estudantis e populares realizem novas ações anti-imperialistas, pela prisão de Bolsonaro, contra o PL da Devastação e em defesa dos direitos dos trabalhadores. Neste processo, é necessário discutir e construir desde os locais de trabalho e estudo um programa de mobilização anti-imperialista, anticapitalista, antifascista e independente dos governos e patrões. Programa esse que não pode deixar de ter como tarefa central a prisão de Bolsonaro e de todos os golpistas!
- Abaixo o tarifaço de Trump e o conjunto da intervenção imperialista sobre o Brasil!
- Prisão imediata de Jair e Eduardo Bolsonaro e de todos golpistas do 8 de janeiro e do motim do Congresso!
- Expropriação sob controle dos trabalhadores das empresas que demitirem em massa!
- Suspensão da remessa de lucro de todas empresas estadunidenses e quebra de patentes de medicamentos e outros produtos!
- Fim de todas isenções fiscais das grandes empresas e taxação do grande capital!
- Suspensão imediata do pagamento da dívida pública aos grandes investidores!
- Abaixo o PL da Devastação, o arcabouço fiscal de Lula, os cortes orçamentários e revogação de todas as contrarreformas dos governos anteriores!
- Fim da escala 6×1, redução da jornada de trabalho para 30h semanais e garantia dos direitos dos entregadores e todos precarizados!
- Pela construção de um plano político e econômico dos trabalhadores!
Foto da capa:Pedro Ladeira – 6.ago.25/Folhapress











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