Por Corriente Internacional Socialismo o Barbarie 

Neste 1º de maio, comemora-se o 140º aniversário do feito heroico dos Mártires de Chicago. Em 1886, nessa cidade norte-americana, ocorreu uma enorme greve, cuja principal reivindicação era o direito à jornada de trabalho de oito horas. Em resposta a isso, a “justiça” burguesa acusou falsamente oito líderes operários de colocar uma bomba, dos quais cinco foram condenados à morte (um se suicidou antes de ser executado) e os outros três foram sentenciados à prisão.

Nesta ocasião, esta efeméride operária ocorre em um mundo em plena ebulição. A conjuntura internacional é muito particular: encontramo-nos em meio a um interregno, pois o domínio da extrema direita no Ocidente está sendo questionado.

Isso se deve a um fato de extrema importância, a saber: os governos de extrema direita estão esbarrando nos limites impostos pela luta de classes e pela resistência dos povos, razão pela qual estão sendo impedidos em suas tentativas de impor uma forma de capitalismo ainda mais voraz e de esmagar as conquistas democráticas.

Em nível internacional, por exemplo, Trump fracassou em sua tentativa de derrubar o regime dos aiatolás no Irã. Sem perder de vista que a agressão militar imperialista (em conluio com o governo genocida de Netanyahu) sufocou a justa resistência interna contra o regime teocrático daquele país, é um fato objetivo que o fracasso da Casa Branca no Oriente Médio abriu uma crise na extrema direita internacional e no seio do trumpismo.

Esse revés na política externa repercutiu internamente nos Estados Unidos, alimentando o mal-estar social em relação ao governo Trump, cuja popularidade atravessa atualmente seu pior momento.

Os sinais disso já eram visíveis há meses, principalmente devido à rejeição que a política antimigratória racista e xenófoba da Casa Branca gerou (e continua gerando) entre amplos setores da população norte-americana. Um exemplo claro: o governo Trump levou um verdadeiro tapa na cara em Minnesota, onde a auto-organização dos moradores e das comunidades superou as instituições do Estado americano e obrigou os agentes do ICE a recuar.

Além disso, já se passaram vários meses desde então, mas o governo dos Estados Unidos não montou um novo cerco a outra cidade para “caçar” migrantes, sabendo que isso poderia desencadear um processo de resistência contra o ICE em nível nacional (Trump tem em mente que a rebelião do “Black Lives Matter” em 2020 foi determinante para sua derrota na reeleição naquele mesmo ano).

Pelo contrário, agora o governo dos Estados Unidos mudou de tática e tenta fraudar as eleições de novembro. Para tal, está lançando uma operação para assumir o controle das eleições em pelo menos oito estados, um de cada vez.

Por outro lado, as más notícias não são exclusivas para Trump, pois também afetam outras figuras de referência da extrema direita internacional. Na Europa, Viktor Orbán sofreu uma derrota esmagadora nas eleições na Hungria e, embora o vencedor tenha sido um candidato da direita conservadora, o fato de não ser de extrema direita foi visto como um alívio por amplos setores da população, que estavam cansados do autoritarismo e dos ataques reacionários de Orbán.

No caso da Itália, o governo de Meloni está na defensiva há vários meses, situação que se agravou após a derrota no referendo de março, no qual esperava aprovar a reforma judicial. Da mesma forma, neste momento não se sabe qual será o futuro da Frente Nacional na França.

No que diz respeito à América Latina, o governo de Milei na Argentina atravessa um momento difícil, do qual está tentando se recuperar. Mas é inegável que uma parte do espectro burguês não está satisfeita com sua gestão caótica dos assuntos gerais, o que está provocando um aumento do mal-estar social no país sul-americano. No caso do Brasil, as pesquisas indicam que há um empate técnico entre Lula e Flavio Bolsonaro, que se enfrentarão nas eleições do próximo mês de outubro.

Por outro lado, não podemos deixar de destacar o papel conservador e traidor das formações de centro-esquerda, que atuam apenas no âmbito institucional e não convocam as massas para as ruas. Em contrapartida, a extrema direita combina a ação parlamentar com a extraparlamentar. A tónica dos governos de extrema direita é que eles tensionam e testam os limites do regime democrático burguês (no caso do bolsonarismo, também convocam mobilizações, embora tenham perdido capacidade de mobilização no último período). Enquanto isso, o reformismo e as burocracias limitam-se a “enfrentá-los” pela via institucional e, pior ainda, tentando impedir que o mal-estar contra a extrema direita exploda nas ruas

Apesar de tudo estar contra, o que se vive é um momento de resposta e reação por parte de setores do movimento de massas. As enormes mobilizações do movimento “No Kings” contra Trump são um reflexo do que estamos apontando. Além disso, teve grande impacto o processo de greves na Itália em solidariedade à Palestina, que em 2025 paralisaram o país mediterrâneo em várias ocasiões, contaram com o apoio de até 60% das bases sindicais e mobilizaram milhões de pessoas.

Nesse contexto, outro dado a ser destacado é que está se formando um novo movimento operário. Nos últimos anos, o setor de trabalhadores e trabalhadoras de plataformas cresceu enormemente, um novo ramo produtivo que busca precarizar os trabalhadores em geral e submetê-los a uma gestão do trabalho sob o “chicote” do algoritmo. Diante disso, os trabalhadores e trabalhadoras do setor começaram a buscar ferramentas de organização para enfrentar esse tipo de ataque, valendo-se do desenvolvimento tecnológico que pode servir tanto para perspectivas emancipatórias quanto exploradoras (algo semelhante ocorre com a IA).

Um exemplo disso é que, em breve, será realizado em Los Angeles, nos Estados Unidos, o II Congresso Internacional dos Trabalhadores de Plataformas, com a participação de delegações de praticamente todos os continentes e das principais cidades dos Estados Unidos, algumas das quais foram alvo de perseguições por parte do ICE de Trump.

Ademais, não podemos deixar de destacar o processo de organização pela base que está se desenvolvendo no Brasil, onde os “entregadores” (como são chamados em português) começaram a construir sindicatos e a organizar “breques” (paralisações) em nível federal ou estadual, reunindo, por vezes, dezenas de milhares de trabalhadores nas ruas do gigante sul-americano. Nossa corrente internacional tem orgulho de fazer parte desse processo de organização inicial dos entregadores no Brasil, assim como o faz na Argentina, lutando pelo reconhecimento do Sindicato dos Trabalhadores de Entrega por Aplicativo (SiTraRepA).

Nesse contexto, desde a Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie (SoB), emitimos esta declaração por ocasião do 140º aniversário do 1º de maio. Nossa corrente participará dos eventos que serão realizados em diversos países, nos quais ergueremos as bandeiras da classe operária internacional e contra a extrema direita, defendendo uma perspectiva anticapitalista com total independência das direções reformistas e burocráticas.

Saudamos nossos irmãos e irmãs de classe em todo o mundo e expressamos nosso apoio desde Los Angeles, Paris, São Paulo, Buenos Aires, Costa Rica e de outros países e cidades onde nossa corrente participará dos eventos do 1º de maio.