Por Agustín Sena 

Por ser um livro, em certa medida, raro e tardio na obra do revolucionário russo, faremos inicialmente um breve percurso por sua trajetória editorial antes de entrar no texto propriamente dito. Como toda a sua obra, foi um livro maldito para o estalinismo. Oitenta anos após sua primeira aparição (incompleta), Stalin permanece atual por sua contribuição complementar para compreender uma das tragédias históricas do século passado: a contrarrevolução estalinista.

1 – Um texto perseguido e deturpado

O primeiro aspecto a destacar para abordar Stalin é o caráter problemático do próprio texto. Ele foi escrito entre 1938 e 1940. Trata-se do último período da produção literária e teórica de Trotsky, interrompida por seu covarde assassinato pelas mãos de um sicário stalinista, em agosto de 1940. O período de redação coincide com o dos textos reunidos no folheto Em Defesa do Marxismo, centrado na luta de tendências no interior do trotskismo norte-americano.

O projeto de Stalin teve início como uma proposta da editora norte-americana Harper & Brothers

“Em 15 de fevereiro de 1938 (um dia antes do assassinato de Leon Sedov, filho de Trotsky, em Paris), Trotsky foi contatado pela Harper & Brothers […] com uma oferta de 5 mil dólares, a serem pagos em parcelas, para escrever uma biografia de Stalin. Trotsky, profundamente abalado pela trágica perda de seu filho, não demonstrou qualquer interesse pela proposta […]. Além disso, Trotsky já havia começado a trabalhar em outro livro, uma biografia de Lenin, cuja primeira parte ele já havia concluído em novembro de 1934.”

Embora o texto tenha surgido a partir de uma proposta editorial (que Trotsky provavelmente necessitava aceitar devido às dificuldades econômicas enfrentadas em seu contexto de exílio e perseguição), é impossível ignorar que Stalin pertence ao campo do testamento teórico e literário de seu autor. Trata-se de uma obra de imenso valor histórico, não apenas por seu rigor documental e riqueza de detalhes, mas também pela profundidade de sua abordagem, tornada possível pela experiência direta de toda uma época histórica, vivida e personificada na figura de Trotsky.

Ao mesmo tempo, Stalin é uma obra politicamente ambiciosa. Trotsky não se limitou a reconstruir a biografia pessoal de Stalin. Sob esse pretexto, delineou uma história do bolchevismo e do movimento socialista na Rússia — desde 1905 até 1917, passando pelos anos da Guerra Civil e da Nova Política Econômica (NEP) — que complementa seus trabalhos anteriores, particularmente a monumental História da Revolução Russa, escrita entre 1929 e 1932, com observações de enorme sensibilidade política e partidária.

O trabalho de redação foi interrompido e retomado diversas vezes ao longo dos dois anos seguintes, em razão dos sucessivos atentados stalinistas contra Trotsky no México, bem como de outras exigências de sua atividade política e literária. No momento de sua morte, o texto permaneceu inacabado. Vários capítulos e passagens ficaram em estado fragmentário — não apenas o final do livro, mas também a introdução. Os seis primeiros capítulos chegaram a ser corrigidos, traduzidos e revisados pelo próprio Trotsky. O sétimo capítulo (que completava o primeiro volume) não pôde ser revisado em sua versão traduzida antes de seu assassinato. O restante da obra (destinado a compor o segundo volume) permaneceu em estado bruto e foi amplamente modificado pelo editor para sua publicação.

A relação entre o autor e a editora foi problemática desde o início, fato que prejudicou o livre desenvolvimento do texto. A editora designou como tradutor do manuscrito (que Trotsky escreveu em russo) Charles Malamuth, um eslavista e jornalista com algum conhecimento da política soviética devido ao seu trabalho anterior como correspondente em Moscou. Já nos primeiros meses do projeto, Trotsky manifestou sua rejeição a Malamuth, demonstrando insatisfação tanto com a qualidade de sua tradução quanto com sua postura em relação ao texto. “Malamuth parece possuir ao menos três qualidades: não sabe russo, não sabe inglês e é tremendamente pretensioso. Duvido que seja o melhor dos tradutores”, escreveu Trotsky em uma carta a seu secretário, o militante norte-americano Joseph Hansen.

A queixa de Trotsky surgiu depois que o tradutor mostrou os manuscritos, sem autorização, a Max Shachtman e James Burnham. Tratava-se de duas figuras do SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores) norte-americano com as quais Trotsky polemizou duramente na mesma época, como se pode observar nos artigos reunidos em Em Defesa do Marxismo. Burnham e Shachtman lideravam a ala oportunista do partido. Naquele período, haviam iniciado uma polêmica aberta com Cannon e Trotsky a respeito do caráter social do Estado soviético, defendendo a definição incorreta de “coletivismo burocrático”. Para sustentar essa posição, recorriam, de maneira significativa, a uma postura revisionista: o abandono da dialética como método[1]. Com o passar do tempo, ambos se afastaram cada vez mais do marxismo. Após deixar o SWP em 1940, Burnham romperia suas relações com Shachtman e ingressaria no Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), organismo que antecedeu a CIA. Esse fato dá uma ideia do tipo de pessoas a quem Malamuth escolheu mostrar os manuscritos de Trotsky.

O problema editorial agravou-se após o assassinato de Trotsky. A Harper & Brothers concedeu a Malamuth autoridade não apenas para traduzir, mas também para editar os manuscritos restantes, correspondentes ao Volume II. Sob o pretexto de “eliminar repetições” e conferir “fluidez e clareza” ao texto, Malamuth introduziu milhares de linhas de sua própria autoria, que foram intercaladas entre colchetes na primeira edição do livro. O resultado foi um aumento de cerca de 30% na extensão da obra e uma vergonhosa deturpação das ideias de Trotsky. Como assinala o marxista norte-americano Rob Sewell:

Essas adições não autorizadas serviram para distorcer e falsificar as posições políticas de Trotsky e contrariavam o espírito político do livro. Elas apresentavam o stalinismo como o resultado inevitável do bolchevismo, uma interpretação em contradição direta com a posição defendida por Trotsky, claramente expressa em sua biografia de Stalin.

Malamuth não demonstrou qualquer respeito — político, editorial ou literário — pelo texto com o qual trabalhava. Em cartas pessoais da época, referia-se a *Stalin* como uma oportunidade para impulsionar sua carreira pessoal. Após a morte de Trotsky, amparado pela pressa da Harper & Brothers em monetizar a obra, dedicou-se a traduzir e editar o texto sem qualquer critério de rigor teórico ou linguístico. Malamuth não era exatamente um trabalhador meticuloso. A tradução dos manuscritos restantes foi realizada de forma apressada. Ele ditava a tradução a seus assistentes, que a datilografavam sem o menor conhecimento do conteúdo da obra. Essa é a razão pela qual centenas de nomes próprios citados na primeira edição apresentam erros tipográficos. Malamuth era um tradutor deficiente e um analfabeto político ansioso por obter projeção pessoal. O resultado foi uma edição grotesca e deturpada de um texto de enorme valor histórico. Trata-se de um exemplo de como personalidades insignificantes podem causar grandes danos em contextos de imensa importância histórica. No caso de Malamuth, os prejuízos limitaram-se ao plano textual. Ainda assim, vale a pena reter essa ideia. Trotsky oferece inúmeros exemplos concretos para ilustrar como Stalin se elevou da insignificância pessoal à grandeza dos ditadores, apoiado em um processo histórico absolutamente singular.

Já na primeira tentativa de publicação de Stalin, Natalia Sedova, viúva de Trotsky, e o advogado Albert Goldman procuraram impedir essa falsificação do texto. Décadas depois, nos anos 1960, Esteban Volkov, neto de Trotsky, faria o mesmo. Todas essas tentativas, porém, foram infrutíferas.

A edição deturpada preparada por Malamuth já estava em processo de impressão, em 1941, quando uma intervenção do governo dos Estados Unidos interrompeu sua publicação e distribuição. Com a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, o governo de Roosevelt passou a dar especial atenção à preservação de suas relações diplomáticas com Stalin, que evidentemente não tinha qualquer interesse em ver publicado um livro que expunha seus anos de esforços para sufocar o processo revolucionário iniciado em outubro de 1917, incluindo numerosos crimes, traições e vergonhas pessoais.

Somente em 1946, já encerrada a guerra e com o esfriamento das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, a versão deturpada de *Stalin* veio a público.

Cinco anos depois de ter sido barrado para evitar o constrangimento de Stalin, [o livro] passou a ser visto como um útil porrete para golpeá-lo. E as inserções de Malamuth forneceram os ‘ajustes’ necessários para transformar a obra de Trotsky em uma arma de combate não apenas contra o stalinismo, mas também contra o próprio bolchevismo. Por sua vez, a Harper & Brothers estava satisfeita em lucrar com sua publicação tardia. Todo o episódio foi marcado pelo mais evidente cinismo de todas as partes envolvidas: os editores, Malamuth e o governo norte-americano. Todos conspiraram para usar e abusar desse livro em benefício de seus próprios interesses. A única voz que foi silenciada foi a de seu autor, Leon Trotsky.”

Stalin foi publicado com uma advertência preliminar assinada por Natalia Sedova. Nela, a viúva de Trotsky esclarecia que os comentários inseridos entre colchetes eram de inteira e exclusiva responsabilidade de Malamuth, a quem qualificava como um “adversário político” de Trotsky. Essa foi a edição que circulou de forma mais ampla, tanto em inglês quanto nas sucessivas traduções para o espanhol e o francês. Inclusive em russo, embora seja importante observar que o texto só foi publicado nessa língua em 1985, na terra de seu idioma original. Tal foi a extensão dos efeitos da censura stalinista nos Estados burocráticos.

Em 2016 (setenta anos após a publicação da edição da Harper), apareceu pela primeira vez uma edição restaurada de Stalin. Ela foi resultado de um valioso trabalho de pesquisa arquivística, tradução e edição realizado por Alan Woods e Robert Sewell. Durante uma década, ambos se dedicaram a recuperar, transcrever e reorganizar os manuscritos originais em russo, preservados nos arquivos da Universidade de Harvard. Nos meses que antecederam sua morte, Trotsky demonstrou especial preocupação com o interesse de Stalin em destruir sua obra escrita. Por essa razão, enviou pessoalmente os manuscritos para Boston. A edição organizada por Woods e Sewell elimina corretamente todos os acréscimos de Malamuth, que em vários capítulos chegavam a superar, em extensão, os textos efetivamente escritos por Trotsky.

 2) Trotsky e a história do bolchevismo

Após essas precisões editoriais, interessa-nos examinar a inserção de Stalin no conjunto da obra de Trotsky, bem como sua recepção no interior das interpretações marxistas. Para isso, vale recuperar a seguinte observação de Tony Cliff a respeito de outra obra central de Trotsky, História da Revolução Russa:

A obra monumental de Trotsky é uma realização extraordinária, escrita por um homem de gênio que foi um dos principais dirigentes da revolução. Diante desse magnífico trabalho, surge naturalmente a questão: por que seria necessário escrever outro livro sobre o mesmo período? O livro de Trotsky possui enormes virtudes, mas também, a meu ver, uma séria limitação. Comecemos pelas virtudes: a revolução é analisada e descrita de forma brilhante como um acontecimento em que milhões de oprimidos, mantidos de joelhos durante séculos, se levantam e passam a falar por si mesmos. As transformações na consciência dos trabalhadores, camponeses e soldados sob as condições febris da luta são retratadas de maneira admirável. O que está notavelmente ausente, porém, é o Partido Bolchevique: sua militância, seus quadros, seus comitês locais e seu Comitê Central. Essa lacuna na obra de Trotsky deve ser compreendida, em certa medida, como uma imagem invertida da distorção stalinista sobre o papel do Partido Bolchevique em 1917 […]. Trotsky, que permaneceu fora do campo bolchevique […] até depois da Revolução de Fevereiro […], estava naturalmente preocupado em demonstrar que ser um ‘velho bolchevique’ não resolvia tudo. E, de fato, nesse aspecto Trotsky tinha razão. Contudo, ao defender esse ponto de vista, acabou subestimando o partido como um todo. Ao longo de sua “História da Revolução Russa”, o partido é apenas mencionado.” (Tony Cliff, Lenin: All power to the Soviets, 1976, tradução nossa)

Em primeiro lugar, é preciso assinalar que Cliff parece deixar de lado a sensibilidade partidária e militante[2] presente na História da Revolução Russa de Trotsky: a dialética de massas, vanguarda e partido constitui justamente o ponto nodal da constelação teórica da obra. Não se trata simplesmente de um belo relato da revolução, como a citação do marxista inglês pode sugerir. Além disso, é evidente que a abordagem de Trotsky não é histórico-descritiva, mas histórico-conceitual. Isso se expressa claramente na própria estrutura do livro, organizado em extensos capítulos temáticos.Não é uma mera justaposição cronológica de acontecimentos. Na verdade, Trotsky narra e analisa diversas vezes os mesmos eventos e datas ao longo de capítulos sucessivos, examinando-os sob diferentes ângulos. (no marco de distintos problemas conceituais, teóricos e políticos relativos ao processo revolucionário) em cada capítulo

Obviamente, a sensibilidade partidária de Trotsky não podia se expressar por meio de uma apologia linear ou formal da experiência bolchevique, e muito menos de seus organismos enquanto máquina . Ideologemas simplistas, como o do partido único, constituem uma herança (anti)teórica do stalinismo. Essa não era a concepção de partido de Trotsky nem de Lenin. Para além da influência que possa ter exercido a trajetória relativamente autônoma de Trotsky em relação às duas principais frações do POSDR, a pluritendencialidade não foi apenas uma posição política adotada por Lenin e Trotsky nos primeiros anos da Rússia soviética, mas também um pressuposto tácito de uma perspectiva marxista sobre a atividade partidária[3].

O postulado de Cliff é uma ideia fácil de compreender, mas, no mínimo, imprecisa. Os limites de sua observação são excessivamente estreitos. A sensibilidade partidária — entendida como sensibilidade para as tarefas do partido e para a militância revolucionária enquanto atividade de construção coletiva de uma subjetividade histórica — não se reduz ao simples rastreamento nominal do Partido Bolchevique ao longo da cronologia de 1917.

É inegável que, em História da Revolução Russa, o bolchevismo está presente como ator dirigente. A profundidade particular da abordagem de Trotsky (que Cliff parece confundir com uma omissão) reside em mostrar em que medida a organização bolchevique foi um fator subjetivo que se transformou em fator objetivo no processo revolucionário. Ao narrar as sucessivas ofensivas repressivas contra os bolcheviques, Trotsky descreve repetidamente como a organização partidária ressurgia justamente nos momentos em que parecia não restar nada.

Mas também seus organismos, suas “tropas e quadros”, estão presentes. Justamente porque Trotsky se esforça para diferenciar o papel desempenhado por determinados setores do partido em contraste com outros organismos partidários, soviéticos e das massas em geral. A História da Revolução Russa passa em revista a atuação do Comitê Central (CC) bolchevique, de sua Organização Militar, do Comitê de Vyborg, do Comitê de Petrogrado, do Comitê Militar Revolucionário do Soviete, do Congresso dos Sovietes, dos sindicatos, do Vikzhel ferroviário e os comitês de fábrica, entre outros..

Já em 1929–1930 (anos em que Trotsky escreveu a História da Revolução Russa, tomando como base o esboço anterior de Como Fizemos a Revolução Russa, texto publicado em 1918 ), para historicizar a Revolução de Outubro era necessário desmistificar a realidade paralela criada pela narrativa stalinista, que ainda em processo de construção. Parte das teses que percorrem a História da Revolução Russa é justamente a da desigualdade interna do Partido Bolchevique (essa desigualdade se manifestava entre a base partidária e a maioria do Comitê Central, bem como entre os diferentes organismos do partido e seus comitês locais) durante o ano da revolução..

A reconstrução histórica realizada por Trotsky possui ressonâncias de uma narrativa épica. Já haviam se passado doze anos desde a revolução, e a impressão transmitida pelo texto permanece vívida e vibrante. Uma narrativa que evita qualquer determinismo do processo histórico justamente por meio da exposição da lógica interna dos próprios acontecimentos. E o papel protagonista atribuído por Trotsky às massas constitui um elemento orientador fundamental de toda essa reconstrução. 

Seria ridículo ver nisso uma diminuição do papel do partido, que Trotsky se ocupa de destacar e analisar insistentemente em todos os pontos nodais da narrativa. Sobretudo em relação ao problema concreto do poder nos dois momentos críticos do ano (Fevereiro e Outubro). Mas não se trata de um mero relato apologético. As consequências dos eventuais erros cometidos pelo bolchevismo (desde a entrega do poder à burguesia em Fevereiro até o perigo de abortamento revolucionário e de um refluxo contrarrevolucionário entre agosto e outubro) são mais um sintoma do papel decisivo que cabe ao partido (e que nenhum outro ator ou organismo pode desempenhar) quando chega a hora da disputa pelo poder.

De todo modo, o inacabado Stálin preenche com sobra o (suposto) “vazio” historiográfico apontado por Cliff. Se o que Cliff necessitava eram mais detalhes sobre as particularidades da hierarquia partidária durante 1917, Stálin acrescenta uma análise minuciosa dos organismos do Partido Bolchevique (e dos movimentos de Stálin em seu interior). Para escrever a biografia política de Stálin, Trotsky reconstrói a biografia política do bolchevismo e do socialismo militante russo. O resultado é um texto que supera ambiciosamente o projeto que seu título prometia.

Ao longo do Tomo I, Trotsky revisita o mesmo período percorrido por Tony Cliff em Lenin: Construindo o Partido. Mas não segue Lenin, e sim Stálin. Cliff acompanha as mudanças de rumo e as buscas de Lenin para construir uma ferramenta política revolucionária da classe trabalhadora. O Stálin de Trotsky, por sua vez, oferece um panorama das enormes pressões e rigidezes contra as quais Lenin precisou lutar para alcançar esse objetivo, inclusive dentro do próprio Partido Bolchevique. Não se trata apenas de pressões subjetivas ou de problemas ligados às capacidades e ambições individuais. Trata-se, antes de tudo, das pressões objetivas do próprio material social com o qual se trabalhava: as enormes pressões exercidas pelo atrasado interior do Império Russo sobre as concentrações operárias de Petrogrado e Moscou (e, consequentemente, sobre o Partido Bolchevique). Trotsky apresenta Stálin como a personificação dessas pressões em um contexto de crise histórica, efervescência revolucionária e, posteriormente, de reação e contrarrevolução.

3) Antídoto contra a falsificação stalinista

Nossa época é, acima de tudo, uma época de mentiras. Não quero dizer com isso que outros períodos da história humana se distinguissem por uma maior veracidade. A mentira é fruto das contradições, das lutas, do choque entre as classes, da supressão da personalidade e da ordem social […]. Não creio que em toda a história humana se possa encontrar, nem de longe, algo que se assemelhe à gigantesca fábrica de mentiras que foi organizada no Kremlin sob a direção de Stálin. E uma das principais finalidades dessa fábrica é elaborar uma nova biografia de Stálin […]. Algumas dessas fontes foram fabricadas pelo próprio Stálin. (Trotsky, Stálin, Tomo I, pp. 10-11. Negritos nossos).[4]

Stálin é um dos textos menos conhecidos e estudados de Trotsky. Mas nem por isso é menos atual e relevante para a nossa época. Trotsky já havia dedicado outras obras a caracterizar e tentar compreender o fenômeno original do stalinismo: a burocratização da primeira revolução socialista vitoriosa, uma contrarrevolução conduzida por setores do partido dirigente à frente de uma nova “camada” social.[5] O projeto de escrever uma biografia do burocrata georgiano acrescenta uma nova questão: como um mesmo indivíduo passa de integrante da direção do partido que lidera a revolução a principal articulador de sua burocratização e de uma das contrarrevoluções mais sangrentas da história?

É o tipo de questão que a crítica burguesa gosta de vulgarizar até o ridículo. Foi o que fez o próprio Malamuth ao sustentar que o problema do stalinismo já estava presente no partido de Lenin desde o início, equiparando revolução e contrarrevolução em uma demonstração de absoluto analfabetismo político e autocomplacência. Não foi o único, nem seria o último a fazê-lo. Se essa aberração teórica é possível, isso se deve não apenas à má-fé da opinião pública burguesa, mas também ao trabalho permanente de falsificação que acompanhou a contrarrevolução stalinista. Stálin dedicou quantidades inimagináveis de recursos humanos, organizativos, materiais e financeiros à construção de uma história alternativa da Revolução Russa. Uma história na qual Stálin aparecia como o principal dirigente bolchevique em todos os aspectos: a mente por trás da insurreição, o ideólogo do novo Estado, o estrategista militar da guerra civil, o melhor amigo pessoal de Lenin e tudo mais que fosse necessário para apagar a verdadeira história de Outubro e até mesmo das duas décadas anteriores.

Para desvendar essa história apócrifa, Trotsky apresenta um extenso trabalho documental, que deve ter sido ainda mais difícil devido às condições de isolamento e urgência em que foi escrito. Com o arquivo da revolução, produzido em tempo real, blindado pela censura stalinista, Trotsky recorre ao seu arquivo pessoal e a um punhado de publicações da época. Isso lhe basta para desmentir, por meio de uma reconstrução minuciosa e tortuosa, a fantasia biográfica criada em torno de Stálin. Da infância de Stálin até sua ascensão ao poder após a morte de Lenin, o texto confronta as fontes documentais com a narrativa que Stálin e seus escribas construíram nas publicações soviéticas.

As refutações são contundentes. Stálin não provinha de uma família operária, como proclamavam suas biografias oficiais, mas de uma família desagregada da pequena burguesia empobrecida da Geórgia. Não se formou como um grande leitor do marxismo clássico, mas como um seminarista rebelde, mais movido pelo ressentimento contra a ordem czarista do que por ideias políticas claramente definidas. Também não era um “homem de aço”, como sugere seu pseudônimo, mas um homem de sussurros e intrigas, mais inclinado a destruir e arruinar os projetos alheios do que a impulsionar os seus próprios.

Já em sua época de militância georgiana em Tíflis, Stálin não se destacava como ativista público nem era reconhecido pelas massas. Era, ao contrário, o modelo vivo dos *komitetchiki* (“homens de comitê”), contra os quais Lenin travou uma disputa sobre critérios organizativos no Congresso de 1905.

Krupskaia observa que […] o ‘homem de comitê’ […] costumava ser uma pessoa presunçosa; estava possuído pela enorme influência que as atividades do Comitê exerciam sobre as massas […] não reconhecia qualquer democracia dentro do Partido […] sentia desprezo pelo ‘centro no exterior’, que se enfurecia, gritava e armava confusões” (Stálin, tomo I, p. 92).

Esse protótipo partidário correspondia a um setor provinciano e tosco, formado por ativistas habituados e moldados pelas condições de militância clandestina de um longo período reacionário. Stálin era “o ‘homem de comitê’ por antonomásia. Já em 1901, no início de sua carreira revolucionária em Tíflis, opôs-se à entrada de trabalhadores em seu Comitê” (idem). A incorporação de trabalhadores aos comitês locais era uma exigência defendida por Lenin durante os debates de 1905.

Debatendo o tema em Tíflis, Stálin pediu aos trabalhadores social-democratas que reconhecessem, “com a mão no coração”, que nenhum deles era digno de ingressar no comitê (idem, p. 93). Trotsky demonstra que, se Stálin não ficou comprometido por essa polêmica, foi simplesmente porque, naquele momento, ainda era um completo desconhecido para a cúpula bolchevique. O ano de 1905, que constituiu um ensaio geral para os revolucionários russos, passa para Stálin como um ano obscuro, um turbilhão de renovação no qual o provinciano komitetchik não consegue se orientar. No período que antecede a explosão revolucionária de 1917, Stálin parece mais inclinado a levar uma vida bucólica no exílio siberiano do que a fugir e retornar à militância clandestina, como fizeram muitos bolcheviques na mesma época.

Os horrores políticos de Stálin atravessam todo o ano da revolução, como Trotsky já havia demonstrado em História da Revolução Russa. Em fevereiro, a partir da redação do Pravda, Stálin defende uma formulação menchevique: a “divisão de tarefas” da revolução democrática (poder burguês acompanhado de sovietes meramente decorativos). Talvez o aspecto mais significativo de tudo isso seja a absoluta falta de protagonismo de Stálin nos dias da tomada do poder. Em outubro, enquanto Lenin consegue impulsionar o partido rumo à ação e Trotsky organiza a insurreição ao lado de Sverdlov, Stálin permanece à margem, circulando pelos organismos da direção bolchevique e ausentando-se com frequência das reuniões do Comitê Central.

Após chegar ao poder e já ter construído sua imensa máquina de falsificação, Stálin encarregou-se de “corrigir” esses pequenos tropeços. Livros oficiais, arquivos, biografias, textos acadêmicos e manuais de história foram alterados para, primeiro, dissimular; depois, equilibrar; e, por fim, deformar absurdamente cada ação e omissão de Stálin desde o dia de seu nascimento até a data de publicação da obra. Da noite para o dia, inventaram-se supostos organismos nos quais Stálin teria traçado a linha de ação da insurreição. Milhões de documentos e fontes de valor histórico foram ocultados ou destruídos. Mais uma contribuição — e não das menores — de Stálin ao patrimônio universal da ignorância e do obscurantismo. Uma manipulação dessa magnitude não poderia deixar de ser grotesca. À medida que Stálin atualizava sua história apócrifa de acordo com suas necessidades imediatas, deixava para trás milhões de pequenas e grandes contradições, lacunas, absurdos e pontos cegos na narrativa histórica e nas fontes adulteradas. O texto de Trotsky dedica-se precisamente a reduzir cada uma dessas monstruosidades documentais à sua verdadeira dimensão histórica.

4) Contra o maquinismo burocrático

Hitler insiste […] que somente a palavra viva, oral, revela o líder […]. Esse critério […] baseia-se em grande parte […] no fato de que ele não sabe escrever. Marx e Engels conquistaram milhões de seguidores sem recorrer, durante toda a sua vida, à arte da oratória […] Um orador não produz escritores […], um grande escritor pode inspirar milhares de oradores […]. Stálin […] não é um pensador, nem um escritor, nem um orador. Tomou posse do poder antes que as massas aprendessem a distinguir sua figura […], não valendo-se de suas qualidades pessoais, mas com a ajuda de uma máquina impessoal. E não foi ele quem criou a máquina, mas a máquina que o criou. Essa máquina, com sua força e autoridade, era o produto da luta persistente e heroica do Partido Bolchevique, que surgiu das ideias. A máquina era portadora da ideia antes de transformar-se em um fim em si mesma. Stálin decapitou a máquina no momento em que cortou o cordão umbilical que a unia à ideia, convertendo-a em uma simples coisa. Lênin criou a máquina por meio de uma associação contínua com as massas […]. Stálin não criou a máquina, mas tomou posse dela.” (Trotsky, Stálin, vol. I, pp. 10-11.)

Trotsky desenvolve diversas caracterizações políticas sobre Stálin ao longo dos dois volumes. Uma delas é seu caráter antiteórico. Stálin foi, durante toda a sua trajetória, um homem da prática. Nas reconstruções mais benevolentes, ele é qualificado como organizador. Na realidade, porém, não foram poucos os seus erros organizativos, alguns deles muito perigosos. Durante a Guerra Civil, destacou-se por sua negligência na organização de ações coordenadas nas frentes em que interveio. Não parecia ser o trabalho de um organizador de excelência. Trotsky atribui isso à sua inclinação para a intriga e à sua ambição pessoal, suficientemente fortes para colocar em risco partes do território apenas para garantir uma melhor distribuição de funções, recursos e prestígio. A estreiteza de visão foi uma marca permanente da carreira política de Stálin.

Em termos de perspectivas estratégicas, a trajetória de Stálin deixa claro que seus instintos estratégicos originais estavam mais próximos do menchevismo do que de Lênin. O que o leva, então, à organização bolchevique? Para Trotsky, o único elemento que atrai Stálin para o bolchevismo é seu caráter de organização centralizada, hierárquica e funcional, em oposição à frouxidão antipartidária e antimilitante do menchevismo. Partindo desse postulado, Malamuth procura identificar, na forma organizacional leninista, o espírito embrionário das Purgas.

Ao contrário, Trotsky assinala que, se todo partido implica uma ou outra forma de máquina política, Stálin não era um político, mas apenas um maquinista. Na concepção stalinista, a máquina deixa de ser uma ferramenta para converter-se em um fim em si mesma, um sujeito automático. Uma concepção alienada da organização, que reduz o partido ao nível da matéria inorgânica. O partido stalinista não vive, mas, ainda assim, move-se e age. Não se mobiliza para dar expressão e canalizar a ação das massas, mas para se autoabastecer.

Um elemento incontornável para compreender a contradição stalinista é o caráter provinciano de sua formação política e pessoal. Já mencionamos a pressão das inércias territoriais sobre os komitetchiki. No contexto provinciano da Geórgia, para o seminarista frustrado Dzhugashvili (ainda faltavam alguns anos para que se tornasse Stálin), o aspecto particular do leninismo não era a perspectiva da revolução internacional, mas a simples constituição de uma máquina centralizada e funcional que permitisse se sobrepor a interminável desagregação do interior do Império Russo.

Trotsky toma diversos trechos de escritos iniciais de Stálin, publicados em folhetos e periódicos do Cáucaso, para delinear sua evolução política. Neles, Stálin procura reproduzir as posições da fração leninista, mas as empobrece e degrada imediatamente. Assim, Trotsky compara dois textos de 1905, um de Stálin e outro de Lênin. Escreve Stálin:

“[…] ‘Juntemos nossas mãos e agrupemo-nos em torno dos Comitês […] somente os comitês podem nos guiar dignamente […] somente eles podem iluminar nosso caminho rumo à Terra Prometida’ [7] […].Naqueles mesmos dias, Lênin escrevia […]: ‘Abri caminho ao furor e ao ódio que se acumularam em vossos corações durante tantos séculos de exploração, sofrimento e martírio!’. O contraste entre essas duas personalidades, em sua atitude diante daquilo que as unia politicamente (a Revolução), não poderia ser expresso de forma mais concisa nem mais eloquente.” (Trotsky, Stálin, vol. I, p. 96).

5) O individuo e a história

“Stálin precisou contar com praticamente vinte anos para impor ao país uma visão histórica na qual substituiu os verdadeiros organizadores da insurreição e lhes atribuiu o papel de traidores da Revolução. Seria injusto pensar que ele começou com um plano de ação já plenamente delineado para seu engrandecimento pessoal. Circunstâncias históricas extraordinárias deram à sua ambição um alcance assombroso, até mesmo para ele próprio. Em um aspecto, porém, manteve-se constante: independentemente de quaisquer outras considerações, aproveitou cada situação concreta para consolidar sua própria posição às custas de seus camaradas […], passo a passo, pedra por pedra, pacientemente, sem se perturbar, mas também sem se comover. É na tarefa de tecer intrigas continuamente, na cautelosa dosagem de verdades e mentiras, no ritmo orgânico de suas falsificações, que melhor se revela Stálin como personalidade humana e como dirigente da nova camada privilegiada. (Trotsky, Stálin, vol. II, p. 69).

Escrever uma biografia política não vulgar de Stálin implicava, mesmo sem ser um projeto central, mas secundário para Trotsky, uma certa quantidade de dificuldades. Além de uma abordagem marxista do problema original da burocratização, era necessário realizar uma reconstrução que situasse a figura de Stálin em sua justa proporção dentro da cena histórica. Trotsky resolve esse problema desde as primeiras páginas do texto. Stálin não se destaca na história por aptidões pessoais irrepetíveis, mas por representar fielmente uma nova camada social exploradora. Não se distingue de outros burocratas por diferenças substanciais, mas por sua maior determinação, força de vontade, capacidade de esforço, abnegação e ausência de escrúpulos. Em relação à burocracia soviética que dirige, Stálin é menos um criador do que uma criatura.

Não se trata de afirmar que Stálin fosse um mero produto da nova camada social, mas sim de reconhecer que foram as condições gerais do desenvolvimento histórico (as contradições do atraso russo diante da maior revolução da era moderna) que criaram as condições de possibilidade para sua ascensão política, no processo pelo qual “um revolucionário provinciano se transformou em ditador de um grande país” (idem, p. 245).

A contrarrevolução burocrática não é uma mera emanação da sede de sangue de Stálin, explicação repetida por muitos historiadores vulgares diante de qualquer fenômeno ditatorial. Em relação às características sanguinárias e anti-humanistas de Stálin, Trotsky procura destacar que não se trata de uma qualidade estritamente pessoal. A barbárie stalinista foi gestada menos na psique de José Dzhugashvili do que nas fúrias da contrarrevolução, reflexo invertido e deformado da revolução acossada pelo imperialismo e pelo refluxo da luta de classes. Isso não impede, contudo, que a criatura tenha se tornado criadora ao se consolidar como ditador de uma contrarrevolução político-social consumada por meio do processo que compreendeu a supressão da Oposição, a coletivização forçada e os Grandes Expurgos da década de 1930.

De todo modo, Trotsky demonstra clareza metodológica ao abordar um tema nada simples nem desinteressado, tendo em vista que, poucos dias antes de começar a escrever *Stálin*, este havia concretizado o assassinato de León Sedov a um oceano de distância de Coyoacán. Sobre sua inimizade direta com Stálin e o papel da personalidade na história, afirma Trotsky ao final do Tomo II:

Durante meu atual exílio de mais de dez anos, os agentes literários do Kremlin têm sistematicamente se esquivado da necessidade de responder adequadamente ao que escrevo sobre a União Soviética, recorrendo habilmente ao meu ‘ódio’ a Stálin. O falecido Freud não tinha a menor estima por esse gênero barato de psicanálise. O ódio é, afinal de contas, uma espécie de vínculo pessoal. Mas Stálin e eu fomos separados por acontecimentos tão terríveis que consumiram nas chamas e reduziram a cinzas tudo o que havia de pessoal, sem deixar o menor resquício. No ódio existe certo elemento de inveja […]. Stálin é meu inimigo. Hoje alimento tão pouco ódio por Stálin quanto por Hitler, Franco ou o Mikado. Acima de tudo, procuro compreendê-los, a fim de estar melhor preparado para combatê-los. Em termos gerais, quando se trata de questões de importância histórica, o ódio pessoal é um sentimento mesquinho e desprezível. Não apenas degrada, mas também cega. Porém, à luz dos acontecimentos recentes na arena mundial e na URSS, até mesmo muitos dos meus adversários já estão convencidos de que eu não estava tão cego assim” (idem, II, p. 244).

6) Trotsky escritor e os problemas da literatura marxista

Encerramos esta aproximação a Stálin com algumas considerações gerais sobre seu lugar na obra escrita de Leon Trotsky. As observações sobre sua trajetória editorial, já examinadas anteriormente, remetem a problemas mais gerais da literatura marxista clássica. Esta foi marcada, do começo ao fim, pelas dificuldades de sua produção e circulação.

Em termos de produção, é evidente que os clássicos do marxismo revolucionário dedicaram ao trabalho teórico o tempo que, em certo sentido, subtraíram de suas demais obrigações. Para dar apenas um exemplo, Estado e Revolução, de Lenin, uma das maiores obras do marxismo, nasceu como um folheto “popular”, escrito no calor da Revolução Russa, e permaneceu inacabado. Também ficou incompleto o próprio O Capital, de Marx, embora, nesse caso, isso se devesse à enorme magnitude da tarefa intelectual desenvolvida pelo fundador do comunismo científico. As duríssimas condições de vida de muitos revolucionários marcaram profundamente sua produção intelectual. Basta mencionar Gramsci: a maior parte de sua obra foi escrita na prisão, isolado pelo fascismo da realidade social e política em uma das épocas mais críticas da história moderna. As condições urgentes de produção da teoria marxista no século passado ( não apenas em razão da repressão, da perseguição e da pobreza, mas também pela urgência de seu conteúdo) imprimiram, em diferentes graus, um caráter críptico, hermético ou fragmentário à obra de vários autores clássicos (além de Gramsci, vem-nos à memória o caso de Christian Rakovsky, condenado ao exílio na Sibéria sob terríveis condições de vida).

O mesmo ocorre na esfera da circulação. A circulação de textos na sociedade contemporânea não é um livre ir e vir de ideias e palavras. A mera mediação do mercado editorial, regido pelas leis do intercâmbio mercantil antes que por qualquer filosofia ou critério teórico, já é, por si só, um condicionamento enorme. Stálin é um exemplo claro disso. O interesse lucrativo da Harper & Brothers permitiu que Malamuth deformasse o texto ao seu gosto. O livro de Trotsky circulou durante exatamente 70 anos sob uma forma degradada. Ainda hoje, apesar da existência da edição organizada por Woods e Sewell, a versão que mais circula continua sendo a de Malamuth. Não apenas o mero lucro da editora, mas também os desígnios do governo dos Estados Unidos e a pressão contrarrevolucionária do stalinismo atuaram sobre o texto.

O stalinismo foi (e segue sendo) um enorme obstáculo adicional à circulação da literatura marxista em escala global. Não apenas suprimiu parcial ou totalmente a obra de diversos autores[8], como também deformou seu conteúdo de formas inimagináveis em épocas anteriores. É evidente que a obra mais afetada por esse fenômeno foi a do próprio Trotsky, um aspecto que talvez se perca de vista devido à própria volumosidade de seus escritos. Sewell recorda que, já durante seu exílio em Prinkipo, agentes do stalinismo invadiram e destruíram parte do arquivo pessoal do revolucionário russo. Posteriormente, um serviço do GPU que atuava sob o pseudônimo de Etienne infiltrou-se nas organizações da Quarta Internacional na Europa para repassar materiais diretamente ao escritório de Stálin em Moscou. No último período de sua vida, Trotsky decidiu enviar parte de seus manuscritos a Harvard (entre eles as dezenas de folhas que comporiam o Stálin) para que fossem resguardados por pessoal qualificado.

A deformação stalinista deixou uma camada de descrédito sobre o marxismo que continua operando nos principais circuitos de leitura e crítica[9]. Isso explica mais de uma lacuna na apropriação da obra literária marxista. O caso de Trotsky é significativo justamente pela imensidão de sua obra escrita.

Trotsky foi um dos grandes escritores do século XX. Vivenciou eventos de significação histórica e produziu um corpus textual diverso e de enorme qualidade, que não se limita à teoria política. Escreveu uma monumental obra histórica sobre o evento fundante de seu século (a História da Revolução Russa). Minha Vida, sua autobiografia, iguala e até supera muitas das principais narrativas de não ficção dos últimos cem anos. Durante os anos posteriores a outubro, produziu diversos textos que constituem exemplos valiosos da abordagem marxista dos problemas culturais mais amplos. Literatura e Revolução, de 1924, reúne os debates sobre as novas tendências literárias, especialmente aquelas identificadas com as vanguardas. Esse texto foi amplamente menosprezado pela academia. Isso, porém, não impediu que ele continue sendo uma referência obrigatória no estudo desse período até hoje.

Dizer que a década de 1920 foi a mais produtiva para a literatura do século XX seria até pouco[10]. Seria mais exato afirmar que a literatura desse período moldou a produção literária dos 70 anos seguintes, assim como a Revolução Russa moldou os 70 anos posteriores da vida social, política e ideológica internacional[11]. Literatura e Revolução foi criticado por seus juízos talvez excessivamente taxativos em relação às vanguardas. Em todo caso, já havia nesse texto formulações metodológicas corretas: não era possível superar no campo da arte aquilo que não tivesse sido superado no conjunto da vida social.

O estilo literário de Trotsky tem talvez algo de oitocentista, o que a crítica burguesa quis contrastar com a velocidade da vanguarda[12]. É inegável que sua escrita tem complexidade e que sua obra é densa. Poderia ser de outra forma? O material com que Trotsky trabalhou não era leve nem breve. A vida do século XX correspondia mais à épica do que à lírica[13].

Stálin encerra a obra de Trotsky não por uma particularidade interna do corpus, mas porque foi ali que a máquina de perseguição stalinista interrompeu sua produção. O período tardio de sua escrita é talvez o menos estudado e o mais diverso. Deixou textos polêmicos, históricos, biográficos e até notas filosóficas de grande densidade. Caso não tivesse sido interrompido pelo assassinato, Trotsky teria continuado escrevendo e produzindo de forma praticamente ininterrupta.

Muitos escritores ganharam prêmios e alcançaram a imortalidade crítica por muito menos. Com a mesma facilidade, também passam continuamente ao esquecimento. A obra de Trotsky, em contrapartida, perdura para além do reconhecimento que lhe concedem as instituições acadêmicas e a crítica política, cultural e literária. E perdura para além do ponto em que foi interrompida, pois sua obra se atualiza dia a dia, já que as necessidades da luta política exigem a reapropriação de seus escritos pelas novas gerações. Trotsky é, até hoje, um escritor infinito.

Bibliografía:

Cliff, Tony: Lenin: Building the Party. Pluto Press. Londres. 1975.

Cliff, Tony: Lenin: All the power to the Soviets. Pluto Press. Londres. 1976

Sáenz, Roberto: El marxismo y la transición socialista. Tomo I: Estado, poder y burocracia. Editorial Prometeo. Buenos Aires. 2024.

Sáenz, Roberto: Trotsky, la «Historia de la Revolución Rusa» y la escuela de Lenin. IzquierdaWeb. 2024.

Trotsky, León: En defensa del marxismo. Editorial El Yunque. Buenos Aires. 1975.

Trotsky, León: Historia de la Revolución Rusa. Juan Pablos Editor. México. 1972.

Trotsky, León: Literatura y Revolución. Editorial Antídoto. Buenos Aires. 2002.

Trotsky, León: Stalin. Editorial El Yunque. Buenos Aires. 1975.

NOTAS

[1] A exposição de Trotsky em torno desse tema nos artigos contra Burnham remete a outra dimensão de sua obra: sua faceta como polemista. O tratamento é sumamente pedagógico na medida em que (para além das particularidades da disputa de tendências em questão) expõe a primazia de um método para abordar qualquer crítica. Burnham defendia o abandono da dialética como uma questão “filosófica, de segundo plano” em relação aos problemas políticos imediatos (a posição que deveria ser assumida frente à URSS como formação social e no contexto geopolítico da Segunda Guerra Mundial). Trotsky demonstra como o abandono do método (a dialética materialista) conduz necessariamente à desorientação geral, levando à adoção reiterada de posições aberrantes no terreno da política imediata.  Uma conclusão que muitas organizações que se reivindicam “trotskistas” não parecem ter assimilado, 80 anos depois.

Aliás, esses artigos são um excelente modelo da polêmica como gênero. Em poucas dezenas de páginas, Trotsky pulveriza seu adversário até reduzi-lo ao ridículo. Por outro lado, é necessário assinalar que em alguns trechos dessa obra Trotsky incorre em certas afirmações objetivistas ao caracterizar a natureza do Estado soviético (dissociando o regime político da estrutura econômica), que foram posteriormente replicadas de forma acrítica e doutrinária pela maioria das correntes trotskistas no pós-guerra. Mais uma vez, vale sublinhar o esforço de recuperação (filológico) necessário para restituir o sentido de contexto da elaboração marxista. Os artigos reunidos em *Em defesa do marxismo* não são textos pensados para exposição abstrata ou para manuais de marxismo, mas ensaios críticos e polêmicos dedicados a uma leitura situada: a polêmica em tempo real com a fração de Burnham e Shachtman, que ameaçava pôr a perder a incipiente construção do trotskismo na América do Norte. Na polêmica, Trotsky acentua determinados pontos para marcar o contraste entre posições, mas outros elementos se deslocam, tornando-se unilaterais. Os artigos foram reunidos e publicados posteriormente à morte de Trotsky, alterando objetivamente as chaves de leitura do texto.

[2] Sobre o valor militante de História da Revolução Russa, ver o tratamento exaustivo do tema em “Trotsky, a História da Revolução Russa e a escola de Lenin”, de Roberto Sáenz. 

[3] As organizações “socialistas” que continuam alimentando ideários de tipo unicista se reduzem conceitualmente ao nível de seitas. Essas concepções ocultam a pluritendencialidade como princípio de seleção objetivo para justificar as práticas mais anti-socialistas que existem. No estalinismo, essas práticas assumiram dimensões de tragédia histórica. Em algumas seitas atuais, a questão se reduz a um nível ridiculamente autoproclamatório. A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. A sentença de Marx descreve a trajetória “teórica” de mais de uma organização que se reivindica marxista — inclusive trotskista — mas que deixa de lado, por ignorância ou decisão política, a própria história do movimento marxista do último século.

[4] Para as seções seguintes, permitimo-nos citar extensamente diversos trechos do texto de Trotsky. Todas as citações foram retiradas de uma edição popular publicada na Argentina na década de 1970 pela editora El Yunque. A tradução é, obviamente, a de Malamuth. Omitimos citar qualquer passagem que inclua os “comentários” do tradutor. Obviamente, o estatuto problemático do texto exige um tratamento crítico e cuidadoso para recuperar os argumentos de Trotsky.

[5] A burocracia soviética, que passaria de ser uma mera camada a uma nova classe política, segundo a definição do oposicionista ucraniano Christian Rakovsky. O abnegado esforço de Trotsky constituiu, obviamente, um trabalho progressivo atravessado por grandes dificuldades objetivas. Remetemos a O marxismo e a transição socialista: Estado, poder e burocracia, de Roberto Sáenz, especialmente ao capítulo 5.

[6] Não há, a priori, nenhum matiz pejorativo na palavra “máquina”, que Trotsky utiliza recorrentemente no texto para se referir ao partido bolchevique. Trata-se justamente do aspecto organizativo do partido, de seu corpo: a ligação de pessoas e organismos para tornar concreta a política. Mas Trotsky se ocupa em assinalar que, em uma organização socialista e revolucionária, a máquina é uma ferramenta subordinada a uma política, justamente para efetivá-la. O maquinismo stalinista é uma inversão antissocialista: subordina a política (e o partido em seu conjunto) a uma máquina que passa a ser patrimônio exclusivo da burocracia e que serve apenas aos seus interesses de casta diferenciada (eventualmente, de uma nova classe política).

[7] O estilo messiânico parece ter sido uma constante da produção literária stalinista durante seus primeiros anos, evidentemente herdado de sua formação inicial como aspirante a papa. O de Lenin, por sua vez, é marcadamente terreno.

[8] Um caso exemplar é o dos marxistas antistalinistas da Europa Oriental, cuja obra foi destruída ou ocultada durante décadas pela perseguição da burocracia. Roberto Sáenz recupera a produção desses autores no capítulo 9.4 de O marxismo e a transição socialista. Tomo I: Estado, poder e burocracia. A recuperação desse corpus textual é crucial, não apenas por seu valor historiográfico, mas pela originalidade de sua contribuição ao acervo geral do marxismo, por se tratar de uma produção escrita a partir do próprio terreno em que operava um fenômeno igualmente original (a burocratização da primeira revolução socialista vitoriosa).

[9] Referimo-nos principalmente aos circuitos institucionais e acadêmicos. A precisão é necessária na medida em que a crise internacional do capitalismo empurra objetivamente para um revival do marxismo, que parece também ser uma marca desta época. Ainda assim, obviamente, não basta a mera crise para gerar novos aportes significativos à tradição teórica marxista.

[10] Não nos referimos aqui à literatura marxista (o corpus de textos que contém a elaboração política e filosófica do marxismo revolucionário), mas ao campo literário e à literatura como arte. Vale mencionar que o século XX foi marcado por constantes desafios às divisões estanques entre gêneros textuais. Testemunho disso foram fenômenos como a literatura de não ficção e as vanguardas, que colocavam em questão a própria instituição-arte em geral.

[11] Na realidade, as vanguardas literárias do início do século continuam moldando a literatura contemporânea até os dias de hoje. Mesmo a ruptura pós-moderna na virada do século não conseguiu apagar as referências construídas no período iniciado com as vanguardas que responderam à Primeira Guerra Mundial e que se nutriram da Revolução Russa como força vital. A influência das vanguardas do século XX não se encerra porque os contornos impostos por elas não foram superados, assim como a vida política não conseguiu superar a referência da Revolução. Isso não significa, contudo, que a virada do século, com seus próprios problemas e fenômenos originais, não coloque em perspectiva o surgimento de novas vanguardas literárias e artísticas. Trata-se de uma dialética arte–vida que admite determinações, mas não determinismos.

[12] Até hoje, mais de um crítico tenta identificar o Trotsky de Literatura e Revolução com as perspectivas grosseiras e imbecilizantes do realismo estalinista. Trata-se de uma operação tosca e pouco original. Basta lembrar o exemplo de Malamuth ao igualar leninismo e stalinismo.

[13] Exemplos literários de recuperação da épica com grande vertiginosidade são as obras de Joseph Roth e Bertolt Brecht, para citar dois casos.