Por José Roberto Silva

1 – Flávio Bolsonaro sob a possibilidade de renúncia à sua candidatura

Passados oito dias da rejeição do nome de Jorge Messias para o TSE e sete da derrubada do veto à Lei da Dosimetria, teve início um contra ataque do governo à candidatura de Flávio Bolsonaro, que culminou no décimo terceiro dia com a divulgação pelo sítio Intercept Brasil de mensagens e áudios que comprovaram negociações diretas do senador com Daniel Vorcaro no valor milionário de R$ 134 milhões, para o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A euforia do bolsonarismo e do centrão nos dias 28 e 29 de abril por atacarem diretamente um governo central inerte e passivo durante as negociações no Congresso e no Senado ficou demonstrada na pressão imediata para a tramitação da PEC da Anistia. Com a manutenção da Lei da Dosimetria (suspensa por Alexandre de Moraes, até a votação em plenário da inconstitucionalidade da mesma impetrada por dois deputados) a pena de Jair Bolsonaro (e dos outros participantes da tentativa de golpe de estado em janeiro de 2023) pode ser recalculada dos atuais 27 anos e 3 meses para 19 anos e 7 meses de prisão, com progressão para semi-aberto após três anos e três meses de reclusão.

O governo de conciliação de classes preso à uma base de direita e do Centrão inclusive, evidentemente não articulou nenhuma mobilização popular contra o perigo das ações da extrema direita, ao contrário, continuou apostando na institucionalidade e a partir de uma ação claramente seletiva da PF, “tirou o bode da sala” que representava a ligação de membros do governo central, do governo da Bahia e principalmente de membros do STF com o Banco Master, e colocou próceres do bolsonarismo na mira.

O primeiro ataque se deu contra o senador Ciro Nogueira, famigerado ex ministro da Casa Civil de Bolsonaro  e presidente do PP, quando foi alvo de mandados de busca e apreensão na Operação Compliance Zero, que investiga repasses milionários e vantagens recebidas  do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para apresentação de uma emenda à PEC do Fundo Garantidor de Crédito, passando o valor limite de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais) para R$ 1.00.000,00 (um milhão de reais), valor que salvaria o Banco Master da bancarrota iminente.

O que já era um estremecimento e um alerta para a extrema direita de que os celulares de Vorcaro “atiravam“ para todos os lados, consolidou-se em 13 de maio, com o “vazamento” de áudios e vídeos comprometendo o 01 (zero um) numa relação milionária com Vorcaro, pretensamente para financiamento do filme “Dark Horse”, a vida de Jair Bolsonaro, produzido pelo foragido deputado Mário Frias (PL-SP) e pelo 03, Eduardo Bolsonaro (PL SP), vivendo nos Estados Unidos da América, com parte do dinheiro do Master sendo enviado para um fundo sediado no Texas

O que se viu em seguida foi um “barata voa” de explicações desencontradas sem nenhuma coordenação entre Flávio e seus apoiadores, chegando a ser cogitada a sua renúncia à candidatura presidencial, a qual ainda se encontra na pauta devido às dificuldades de defesa de Flávio e de possíveis outros “vazamentos” comprometedores.

Claramente o pêndulo que estava girado e forçado todo à direita, dialeticamente, oscilou um pouco mais à esquerda, por conta das medidas extremas tomadas pela extrema direita que geraram o rebote, ainda que momentâneo, na polarização pelo alto. O desenrolar da atual situação, aproximando-se à campanha eleitoral para as eleições de outubro, poderá se dar pela capacidade das duas forças em luta, numa disputa intra burguesa, de se explicarem para a sociedade quanto ao poço de lama geral, não só do caso Master, mas dos diversos casos de corrupção que vêm sendo apontados como no caso do INSS, em que estão envolvidos.

2 – Um Lula 3 que não avança e completamente comprometido com o capital

O dia a dia do governo Lula 3 cada vez mais se aprofunda na defesa dos interesses burgueses, por sua natureza própria de ser um governo burguês atípico de conciliação de classes.

Ao se juntar a partidos de direita e integrantes do centrão o governo federal e seu partido núcleo o PT, aprofundou a despolitização e desmobilização das massas iniciada em Lula 1 e 2, e continua fazendo acordos por cima, de aplicação de contra reformas ao gosto do capital, para sustentação de um governo que vem cada vez mais perdendo apoio popular.

Assim, em todos os momentos, coloca sua âncora em ações pela institucionalidade, trabalhando, como no caso do banco Master, para criar um âmbito em que amortecesse os problemas criados pela ligação de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes (STF), Guido Mantega (ex-ministro) e Jaques Wagner (ministro/senador) com Daniel Vorcaro.

Mais que isso, durante esse período se negou a constituir uma CPI ou CPMI do caso Master, encaminhada pela oposição, mas que agora, oportunisticamente, recolhe assinaturas para as mesmas por conta da colocação na berlinda de Flávio Bolsonaro, numa perigosa faca de dois gumes que se pode voltar contra ele, se as comissões resolverem levar até o fim as investigações.

Há que se lembrar que Lula tem muitos poucos projetos de apelo popular (ampliação da faixa de isenção do IR e o programa Desonera, de liquidação da inadimplência galopante dos trabalhadores) e que encaminha com artigos ao gosto do capital o projeto contra o regime de trabalho 6×1, podendo incluir dispositivos que definam elementos de contra reforma trabalhista, como a inclusão dos trabalhadores por aplicativo na lei.

O próprio PLP 152, que contava com o apoio de Boulos e Lula, somente foi retirado por ação desde baixo dos entregadores, com a ida a Brasília de lideranças da ONTDR (Organização Nacional dos Trabalhadores sobre Duas Rodas), que encostaram na parede a extrema direita e o governo Lula. Outro projeto de atendimento ao capital, o da privatização do Rio Tapajós, também só foi retirado pela ação dos povos indígenas, notadamente as mulheres, que ameaçaram queimar os barcos da Cargill.

No entanto, após o desgaste provocado pelo caso envolvendo Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master, a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada hoje (19/5) mostra na disputa no primeiro turno que Lula alcança 47% das intenções de voto (uma alta de 0,4 ponto em relação a abril) e Flávio Bolsonaro, por sua vez, recua de 39,7% para 34,3% — uma queda de mais de cinco pontos percentuais.

Técnicamente, Lula ficaria com cerca de 50% dos votos válidos, na fronteira de uma vitória no primeiro turno.

Na amostragem para o segundo turno  o presidente abre vantagem de 7,1 pontos: 48,9% a 41,8%, quando em abril Lula e Flávio apareciam empatados na margem de erro, com o senador numericamente à frente (47,8% a 45,5%). 

No entanto, a aprovação do presidente Lula cresceu apenas 0,6 pontos percentuais, saindo de 46,8% para 47,4%. A partir disso, Lula buscar mudar seu discurso apelando para “nesse hospital não tem dinheiro do Vorcaro”, “governamos não só com a mente, mas também com o coração” tentando reverter seu índice de impopularidade demonstrado nas pesquisas, mas, sem nenhuma ação concreta, pelo contrário,  de atendimento às demandas das diversas categorias em luta em vários estados da nação.

Mas, principalmente no caso da ilegal reitengração de posse da reitoria da USP por ordem de Tracísio de Freitas, Lula não só demonstrou qualquer apoio aos estudantes, como coloca seus representantes da burocracia sindical para impedirem que isso seja feito nos fórums de unidadel.

Aliado ao perigo que constitui a extrema direita a denúncia do governo de conciliação de classes e nenhum acordo com o mesmo ou os que se propõe oportunisticamente a defendê-lo, devem andar conjuntamente, na perspectiva de criação de uma alternativa socialista revolucionária como uma solução que alcance os de baixo. 

 3 – A polarização por baixo

A realidade tem demonstrado aqui e no mundo que elementos de polarização por baixo emergem no cotidiano. Estes são processos de luta de vanguarda, que não alteram a conjuntura como um todo, mas que têm impacto sobre a superestrutura, podendo mudar dinâmicas e abrir o caminho para alterações mais profundas no cenário político. Como exemplos do que estamos falando, temos: o conjunto de lutas travados desde dezembro do ano passado pelos petroleiros e trabalhadores dos correios, passando pela mobilização indigena e dos entregadores, já citadas; encontram hoje em greve os professores municipais do município de São Paulo, os técnicos das universidades federais com 86 dias de paralisação; o estado de greve dos metroviários com paralisação marcada para o dia 25; e, principalmente, a greve dos estudantes das três universidades estaduais de São Paulo contra os ataques da reitor da USP Aluísio Segurado e do governador de extrema direita Tarcísio de Freitas.

A greve dos estudantes da USP, inicialmente conjunta com a greve dos trabalhadores da universidade, já completa um mês com uma escalada das tensões quando a Polícia Militar de São Paulo usou bombas e “corredor polonês” para retirar estudantes que ocupavam o prédio da reitoria da USP, numa ação ilegal, realizada sem mandado com uso de violência extrema.

A condução da greve que tem mantido as assembléias gerais como dirigentes da mesma avançou à construção de uma plenária das três universidades, ampliando a participação dos estudantes da UNICAMP e da UNESP, e neste último final de semana para uma plenária que contou com diversos sindicatos e organizações para um debate de apoio aos estudantes e de unificação das lutas ao menos no âmbito do Estado de São Paulo.

Assim, é de suma importância a participação de todos no ato convocado para este 20 de maio às 14h, com concentração no Largo da Batata e marcha até o Palácio dos Bandeirantes, para encostar de vez o governo de extrema direita de Tarcísio de Freitas na parede e arrancar as reivindicações dos setores em luta. Além disso, essa mobilização pode criar melhores condições para derrotar a extrema direita nas ruas, as contra reformas do governo Lula 3 e para avançar em conquistas econômicas e políticas nacionais.

Para tanto, levantamos:

Atendimento imediato das demandas dos estudantes e todas as categorias em luta no Estado de São Paulo

Por uma greve geral da educação no estado de São Paulo. Fora Tarcísio e Segurado

Contra a escala de trabalho 6×1 e por 30h semanais sem redução de salário

Derrotar definitivamente o PLP 152. Que Lula faça uma MP que atenda a todas reivindicações dos entregadores por app

Investigação autónoma dos esquemas do banco Master

Não à PEC da Anistia, ao PL Anti Facção e  ao PL da Devastação

Contra a anistia para Bolsonaro e demais golpistas.Prisão de Flávio Bolsonaro

Derrotar nas ruas o golpismo da extrema direita e os ataques do governo Lula

Convocar imediatamente uma Plenária Nacional dos setores em luta

Construir uma Frente de Esquerda unificada para a luta e para as eleições

Plano político e econômico dos trabalhadores