O público simpatizante reivindica a unidade da esquerda, e não a existência de um único partido, o que soa como uma proposta de aparato. Ouvir as necessidades apresentadas pela nossa classe é (ou deveria ser) algo elementar para qualquer pessoa que se reivindique socialista e revolucionária.

Por Juan Cruz Ramat

Na segunda-feira, 29 de junho, uma delegação da direção do Nuevo MAS compareceu ao Fórum de Debate da FIT-U para apresentar às direções de seus partidos e à militância nossa carta aberta “A esquerda diante da oportunidade histórica de se unificar e se tornar uma alternativa para milhões”. Como é de conhecimento público, nela expressamos a intenção de participar do debate, tomando como base a proposta pública do PTS de “incorporar outras organizações políticas que queiram participar do debate“, algo que nos foi negado, juntamente com a possibilidade de ler a carta após o painel.

Ainda assim, assistimos ao debate como ouvintes, cujos enormes limites ficaram evidentes para toda a militância e podem ser revistos na publicação dos vídeos.

Nesta nota, queremos abordar alguns dos problemas que permaneceram sem solução no debate e ir além desses encontros fechados, restritos à participação exclusiva dos integrantes da FIT-U, partindo do fato de que as oportunidades colocadas para a esquerda argentina surgem em uma nova etapa internacional, considerando seu impacto e assimilação no país. Em linhas gerais, podemos dizer que:

– A reabertura de uma etapa de crises, guerras, barbárie e revoluções, impulsionada pela tentativa de reconfiguração do capitalismo em sua forma neoliberal por meio do retorno a formas mais explícitas de imperialismo territorial e de espoliação, com o objetivo de redefinir a correlação de forças política e econômica entre os Estados Unidos e a China, além da União Europeia e da Rússia.

Em suma, reabriu-se a disputa pelo domínio do planeta e de seus recursos naturais e sociais, cujo reverso dialético é a possibilidade do retorno da guerra mundial e, ao mesmo tempo, da revolução, como Lenin demonstrou já em 1914.

A ascensão de setores da extrema direita que tensionam os regimes democrático-burgueses com elementos bonapartistas e cuja virulência contra os trabalhadores e as grandes maiorias sociais coloca em crise consensos conquistados por meio da luta de classes e da correlação de forças entre as classes sociais. Além disso, no caso dos países dependentes — como a Argentina sob o governo de Javier Milei —, esses setores atacam a estrutura social e econômica do país, bem como sua relação com os imperialismos e com o mercado mundial.

– Uma conjuntura reacionária, marcada por uma enorme instabilidade e pelas indefinições próprias de um momento de interregno, no qual a extrema direita não consegue consolidar uma nova ordem mundial e que, apesar de seus ataques permanentes, abre espaço para manifestações da luta de classes como resposta. Ao mesmo tempo, permanece aberta a possibilidade de que ela não seja ratificada eleitoralmente e perca a continuidade no governo (como no caso de Trump nas próximas eleições de meio de mandato ou de Milei, que disputará a continuidade de sua presidência em 2027).

A crise de representação expõe um peronismo sem um programa alternativo, que atua como garantidor da governabilidade diante dos setores de vanguarda. Ao mesmo tempo, evidencia seu caráter de partido de Estado com uma organização de massas e com a direção de centrais sindicais, sindicatos e centros estudantis. Isso exige uma abordagem unitária de todo o conjunto da esquerda nos planos político, sindical e eleitoral para oferecer uma alternativa ao peronismo, algo que não pode ser resolvido, no curto prazo, por uma figura “salvadora” nem por um único partido de esquerda.

– O exposto anteriormente coloca para a esquerda revolucionária argentina tarefas muito importantes que não são, no imediato, a de chegar ao governo, algo que exigiria, além disso, uma organização muito mais desenvolvida e uma ascensão das massas. Trata-se de desenvolver iniciativas fundamentais para construir-se como um fator de organização política (e não apenas eleitoral), diante da possibilidade eventual de uma ruptura de setores até agora conduzidos pelo peronismo, bem como de outros setores sem partido, decepcionados com o centro político.

– Essas tarefas pressupõem, como ponto de partida, unir a esquerda e seus simpatizantes em uma Frente Única Anticapitalista para superar os limites organizativos de cada partido isoladamente e, assim, projetar uma alternativa para milhões. E impulsionar, a partir dessa F.U.A., canais de auto-organização e coordenação para milhares de ativistas e setores amplos da vanguarda, decepcionados com o peronismo e órfãos de organização e/ou representação política.

Uma medida como essa responderia à reivindicação de milhares de simpatizantes da esquerda de pôr fim ao divisionismo artificial imposto pela FIT-U, que parte do terreno eleitoral e, por vontade de seus partidos, estende-se a uma divisão política forçada (com a ausência absoluta de canais de diálogo político com organizações externas à frente eleitoral, mesmo quando existem coincidências programáticas), impedindo inclusive a recuperação de organismos sindicais, o impulso à construção de polos de referência na luta de classes, a celebração de acordos ou, ao menos, o debate sobre formas de abordar conflitos de grande importância.

Um Fórum Ultimatista

“A FIT não basta. É uma resposta rotineira, sem ambição.”

(Laura Liff, dirigente do PTS)

O fórum expôs, diante de cerca de 650 pessoas presentes e de aproximadamente 14 mil que, até a data de hoje, assistiram ao debate pelo YouTube, as discussões que vêm sendo conduzidas de forma fracional entre os partidos da FIT-U. Trata-se da mesma lógica que, durante 15 anos, se expressou na divisão da esquerda por meio da exclusão de nosso partido e de outras organizações, e com a qual hoje são definidas as correlações de forças no interior da própria coalizão.

Além disso, uma das primeiras conclusões é que o PTS, dirigido por Bregman, reafirmou e consolidou como definitiva a natureza estritamente eleitoral da FIT-U, deixando claro que essa frente não será um fator de organização política nem de luta para os setores simpatizantes da esquerda e para outras organizações e partidos.

Essa reafirmação da frente como uma mera “cooperativa eleitoral”, da qual, em determinado momento, se beneficiaram os partidos que a compõem, foi elevada à condição de princípio pelo PTS, que dirige a orientação da FIT-U. Agora, a lógica cooperativista se volta contra seus “sócios menores”, diante da ascensão da figura de Bregman.

Assim, a oportunidade que o conjunto da esquerda revolucionária (todos os seus partidos e organizações) tem de ocupar um espaço não apenas eleitoral de maior envergadura, mas também de constituir-se como um fator de organização política e de luta para milhares de pessoas, acaba ficando presa, em primeiro lugar, ao debate interno da frente (“a oportunidade é minha e somente minha”, diz a FIT-U como um todo) e, em segundo lugar, à orientação de sua corrente dominante (“a oportunidade é minha e somente minha”, reafirma o PTS).

Para além das propostas do PO, IS e inclusive do MST de impulsionar comitês únicos da FIT-U (esclareçamos que, para serem realmente unitários, seria necessário ir além dos limites da frente), cujo objetivo seria organizar setores mais amplos, o PTS deixou claro que “a FIT não basta. É uma resposta rotineira, sem ambição“. E que, para aquilo que não é estritamente eleitoral (reservado como tarefa exclusiva da frente que deve impulsionar Bregman), o PTS conduz comitês partidários. Esse foi o resultado do não debate no Fórum. Uma discussão encerrada antes mesmo de começar. 

Nesse contexto, também ficaram evidentes uma série de propostas falsas ou simplesmente manobras impulsionadas pelo PTS, como a do “movimento por um partido único”. Como temos afirmado em diversas oportunidades, não é verdade que seja uma condição obrigatória, para estar à altura das possibilidades colocadas para a esquerda, a existência de um único partido, algo que soa como uma tentativa de passar por cima da experiência das trabalhadoras e dos trabalhadores, das direções, dos militantes e das organizações construídas, de maneira ultimatista e stalinista.

O público simpatizante reivindica a unidade da esquerda, e não a existência de um único partido, algo que soa como uma proposta de aparato. Ouvir as necessidades apresentadas pela nossa classe é (ou deveria ser) algo elementar para qualquer pessoa que se reivindique socialista e revolucionária, na medida em que a relação entre o partido e as massas implica um metabolismo no qual o partido torna consciente e estratégica a direção para a luta pelo poder, mas que exige o processamento da experiência junto com as trabalhadoras e os trabalhadores, ao mesmo tempo em que se nutre de sua classe. Esse elemento de sensibilidade (que faz parte da “arte da insurreição”, mas também da arte e da ciência da política revolucionária) é fundamental na concepção estratégica de nossa corrente internacional SoB e de nosso partido, o Nuevo MAS.

Trata-se da concepção estratégica baseada na experiência revolucionária do século XX e nas concepções clássicas do marxismo revolucionário, para as quais, sem o protagonismo da classe operária, sem seu papel de direção e controle sobre o planejamento da economia e da política por meio de seus organismos e junto com seus partidos, não há Estado Operário nem transição ao socialismo possíveis. Somente assim se compreende em sua dimensão profunda a frase de Marx: “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Vale dizer que, ainda que essa não seja a concepção do restante da esquerda argentina nem de suas correntes internacionais — que assimilam de maneira economicista a transição socialista e o Estado Operário à mera expropriação da propriedade privada sob controle dos partidos e do Estado, excluindo o controle e a direção da classe operária auto-organizada —, essa diferença estratégica e programática não elimina a possibilidade, e inclusive a necessidade, de propor espaços de atuação, espaços políticos e formas de coordenação conjuntos.

A vontade de iniciar um caminho de Frente Única Anticapitalista, que parta da independência de classe e valorize os pontos em comum existentes na esquerda, surge como resposta à necessidade de um espaço de intercâmbio e de elaboração política comum, além de um canal de organização de milhares de simpatizantes. Um espaço a partir do qual possam ser impulsionados outros âmbitos de frente única para a luta, sem exigência de filiação política à esquerda, nos quais se integrem setores massivos dispostos a lutar consequentemente contra o governo de Milei. Uma resposta ambiciosa e não rotineira para um problema e uma necessidade reais, que seria perfeitamente realizável e sem a pretensão de impor a ninguém algo que não decorra da experiência da luta de classes nem de uma necessidade concreta, como ocorre com a proposta de partido único.

Esses pontos em comum são os que nos permitem atuar juntos em muitos episódios da luta de classes, mas que, por ação consciente do restante da esquerda, não se transformam em pontos de partida para construir um fator permanente de organização impulsionado por nossos partidos.

Pelo contrário, a proposta de um “movimento por um partido único dos trabalhadores” mostrou-se como uma discussão falsa, além de rotineira e sem ambição (são anos repetindo a mesma proposta). Nas palavras de Castillo no próprio fórum: “se temos diferenças programáticas, os limites políticos para avançar (em um partido comum) são complicados“. Mas essas diferenças programáticas são justamente o que explica o surgimento e a existência de partidos e correntes distintas na Argentina e em qualquer lugar do mundo. Uma questão que, além disso, e para além das paixões que essas diferenças despertam, constitui uma condição elementar da democracia operária. Então, se é muito difícil “avançar em um partido comum quando existem diferenças programáticas”, por que propor de maneira ultimatista que é preciso unificar os partidos?

Essa premissa ardilosa não poderia ser compreendida sem o segundo pressuposto, que é propor comitês não apenas por Bregman — questão à qual o restante da FIT-U parecia disposto a conceder com alguns acréscimos —, mas também por um partido único como condição excludente, para o qual, segundo seus próprios dirigentes, não existem condições. Por meio dessa guinada ultimatista disfarçada de “debate estratégico”, o PTS transforma os supostos comitês abertos em seu território particular, no qual a participação exige não apenas fazer parte da FIT-U e apoiar Myriam Bregman, mas também concordar com a necessidade de um “movimento por um Partido da nova classe trabalhadora”, cujo programa excludente é o do PTS. Assim sendo: diante de uma oportunidade histórica, o PTS aparece girando em torno de si mesmo, como o cachorro que morde o próprio rabo.

A partir desse ponto de partida, a proposta de “mesas de coordenação” de “Chipi” Castillo, em nome do PTS, como uma “coordenação dos setores em luta, para mobilizar milhares” e “ir reorganizando a classe operária“, aparece como uma saída sindical, sem vínculo político com a oportunidade para a esquerda da qual estamos falando.Se a Frente Única é reduzida a uma mera frente eleitoral que exclui o restante da esquerda; se os “comitês” são reduzidos a espaços de construção partidária, cuja condição de participação é assumir como próprio o programa do PTS; e se são propostos espaços de coordenação das lutas de forma separada, o resultado é eleitoralismo, por um lado, e sindicalismo, por outro, reduzindo as trabalhadoras e os trabalhadores a “eleitores” nos anos ímpares e “lutadores sindicais” nos anos pares. Enquanto isso, “a política” fica limitada à existência de cada partido isoladamente.

Dois becos sem saída e um caminho a explorar

Nesse contexto, existem, em linhas gerais, três posições na esquerda a respeito de como aproveitar essas possibilidades. A do setor politicamente minoritário da FIT-U (PO, IS e MST, ainda que com suas diferenças e nuances), cuja proposta parte de manter a exclusão daqueles partidos e organizações que estão afastados da frente eleitoral e, a partir dessa plataforma, impulsionar, agora sim!, a organização de setores não organizados, mas dentro do estreito marco de uma frente que não superou os limites de uma cooperativa eleitoral.

A posição do PTS, que no fórum deu por encerrada a discussão e legalizou aquilo que já era uma realidade desde sua origem: que a coalizão possui apenas um papel eleitoral, impondo ao restante a orientação interna por meio da figura de Miriam Bregman. Por um lado, estimulando o divisionismo aplicado para fora da FIT-U dentro da própria frente e reduzindo toda orientação política à construção estrita do PTS por meio de comitês de seu próprio partido.

Por outro lado, propondo canais de “auto-organização” ou mesas meramente sindicais de coordenação das lutas, excluindo as trabalhadoras e os trabalhadores da possibilidade necessária de encontrar espaços de organização política e de atuação comum sob uma frente de delimitação anticapitalista e de independência de classe. Além disso, a proposta de Castillo pareceu reduzir-se a um mecanismo de debate interno, mais do que a uma proposta real, pelo destaque dado à formação de “uma coordenação não entre dirigentes, como é hoje o PSC que os companheiros reivindicam (PO e IS), mas de centenas de trabalhadores e, depois, de milhares“.

Por último, deixamos apresentada a posição do Novo MAS que, eventualmente, também poderia ser a de outros setores de vanguarda e intelectuais com preocupações reais sobre como a esquerda deve atuar neste contexto. Trata-se de apostar na construção de uma Frente Única Anticapitalista, que inclua todos os partidos da FIT-U e o nosso, mas também todas as organizações políticas de independência de classe, e que seja um canal de organização política para milhares de simpatizantes da esquerda e para a ampla vanguarda sem organização, ao mesmo tempo em que impulsione uma expressão eleitoral comum.

Junto a isso, que proponha espaços de organização para setores mais amplos — peronistas desencantados e setores sem partido — dispostos a lutar contra todos os ataques do governo de Milei. Somente dessa maneira, em nossa opinião, são colocadas em debate de forma séria as possibilidades da esquerda e as tarefas que delas decorrem.

Deixamos esses elementos apresentados para o debate entre a ampla vanguarda, os simpatizantes da esquerda, os intelectuais e os partidos da FIT-U.