A derrota sofrida por Trump nas eleições de meio de mandato (Midterms), a histórica virada no Brasil e as mobilizações da juventude na Europa podem estar constituindo uma mudança na situação política internacional.
Foi o que explicou Roberto Sáenz, dirigente do Nuevo MAS e da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie:
«Surra na extrema direita nos EUA. Trump, transformado em um pato manco até o final do mandato, não teve margem para desconhecer o resultado. Os democratas foram o instrumento de um voto de protesto histórico contra o governo trumpista, que ficou em minoria nas duas casas do Congresso e traz novos ares à situação internacional. Além disso, os setores mais à esquerda do partido, como o DSA e outros, saíram claramente fortalecidos».
Ele também destacou o impacto internacional dessas eleições:
«Se somarmos a revolta da juventude e popular na Europa, com epicentro na França, a derrota de Flávio Bolsonaro no Brasil e agora o golpe duro contra Trump, temos uma virada à esquerda na conjuntura internacional de polarização, que fortalece os de baixo e dá fôlego a todas as causas emancipatórias para passar à contraofensiva. Ainda é muito cedo para tirar todas as conclusões, mas a luta de classes colocou sua marca na situação internacional e isso está apenas começando».
Midterms: uma derrota esmagadora de Trump
O que estava em disputa mais acirrada nessas eleições era o controle do Senado, a Câmara Alta do Congresso dos Estados Unidos. Os democratas precisavam de 51 cadeiras para assumir o controle e conseguiram isso com ampla margem. Neste momento, possuem 54 cadeiras, a apuração ainda não terminou e podem conquistar mais. Essa era a vitória mais difícil de todas.
A diferença de representação no Congresso é tão grande que pode bloquear qualquer legislação trumpista. Inclusive, se não fossem tão covardes, os democratas poderiam abrir um processo de impeachment, embora precisassem de votos republicanos para conseguir concretizá-lo.
A derrota republicana é tão grande que perderam alguns de seus redutos mais sólidos. A mudança mais expressiva ocorreu no Texas, que mantinha uma hegemonia republicana incontestável desde 1992. Não é pouca coisa: era o estado dos Bush, um bastião do republicanismo reaganista. A esmagadora vitória democrata representa o fim de uma era política: com 55% dos votos, os democratas deixaram os republicanos muito para trás (42%). É preciso sempre ter em conta que os vencedores são os democratas, que não são a «esquerda lunática» das alucinações trumpistas, mas o que aconteceu no Texas não deixa de ser um sinal dos tempos: Gina Hinojosa venceu as eleições estaduais e será a primeira governadora hispânica da história do estado.
Mas as coisas não terminaram aí: os republicanos também perderam em seus redutos da Carolina do Sul e do Kansas, onde os democratas conquistaram uma cadeira no Senado pela primeira vez… desde 1932. Ao que parece, a rejeição a Trump é tão grande que estão entrando em movimento forças muito maiores e mais antigas do que o próprio Trump. Outros estados normalmente disputados foram claramente conquistados pela «onda azul»: Carolina do Norte, Iowa e Ohio. Os votos ainda estão sendo contabilizados no Alasca e no Mississippi.
Um dos dados mais significativos é que a realidade das transformações históricas das últimas décadas nos Estados Unidos penetrou em seu sistema político. Há pouco mais de vinte anos, o perfil social de todos os seus principais funcionários públicos era o do homem branco, bem penteado, rico e protestante, que dividia o poder com outro homem branco, bem penteado, rico e protestante, de outro partido. A sociedade dos Estados Unidos se diversificava, mas seus governantes não. Isso mudou primeiro à direita, com o trumpismo e seus candidatos ricos, mas outsiders, e acaba de mudar também em um sentido mais «progressista» (embora não de esquerda), com a entrada em funções de representantes hispânicos e muçulmanos. Aber Kawas acaba de se tornar a primeira palestino-americana da história a ingressar no Senado de Nova York.
O valentão do mundo é derrotado em casa
A ampla vitória eleitoral de Trump no final de 2024 parecia anunciar uma nova era política para os Estados Unidos e também para o mundo. Assim que venceu, abriu a perspectiva de uma divisão do mundo em zonas de influência. Ameaçou tomar a Groenlândia, o Canal do Panamá e ocupar a Venezuela.
Os perigos foram e continuam sendo muito reais. Aqueles meses de 2024 abriram uma onda de vitórias eleitorais da direita em nível continental. Todos pareciam se alinhar a Trump, colocando a América Latina a seus pés. Isso foi demonstrado pelas vitórias de Fujimori no Peru, de la Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Paz na Bolívia, Noboa no Equador e Milei na Argentina. Foi o Brasil, o maior país do subcontinente, o primeiro a impor um freio. E o segundo foram os próprios Estados Unidos.
Para impor seus planos ao mundo, o valentão precisa de hegemonia em seu próprio país. As eleições de meio de mandato (Midterms) acabam de retirar de Trump qualquer maioria, quanto mais uma hegemonia. A postura ultradireitista de se apresentar como o novo grande mandatário do mundo não serviu como substituto para uma política capaz de manter os Estados Unidos na posição de potência hegemônica internacional.









