A entrada em cena das novas gerações mudou a dinâmica política, impulsionou a conquista do fim da escala 6×1 e abriu a possibilidade de uma virada eleitoral, expondo, contraditoriamente, o fracasso da conciliação de classes. Derrotar Flávio e a extrema direita, com voto ultracrítico em Lula e independência política, exige ampliar a mobilização, exigir das direções políticas, sindicais e estudantis a convocação do dia 24 como dia nacional de mobilização e organizar essa força para as lutas que seguirão além do segundo turno.
Por RENATO ASSAD
A dinâmica do processo eleitoral mudou entre o primeiro e o segundo turno, e o núcleo dessa mudança está na entrada em cena das ruas em todo o país. Depois do salto alto do “já ganhamos” e do impacto da derrota no primeiro turno – tanto na disputa pelo Executivo quanto na composição do Congresso -, o lulismo e a esquerda da ordem viram sua estratégia de frente ampla expor seus categóricos limites para combater a ofensiva da extrema direita. A reação que alterou esse cenário nasceu de baixo, de um fenômeno espontâneo protagonizado pelas novas gerações, que materializou as reservas de resistência e a disposição de luta de amplos setores da sociedade.
As mobilizações, iniciadas pela juventude em Niterói, foram capazes de catalisar um sentimento de massas de ódio e repulsa ao bolsonarismo e à possibilidade real do perigo da eleição de Flávio Bolsonaro. Demonstraram, assim, que a paralisia das direções tradicionais não correspondia à disposição das bases. Foi essa iniciativa que rompeu a inércia política da esquerda e abriu a possibilidade concreta de uma virada eleitoral, evidenciando o contundente fracasso da frente ampla em oferecer uma resposta à altura do perigo colocado pelo bolsonarismo.
A primeira definição, portanto, é que o novo metabolismo da luta de classes ganhou outra dimensão, ainda que momentânea: os novos sujeitos sociais, que antes protagonizavam manifestações de vanguarda com impacto nacional, passaram a mobilizar setores de massas e a alterar a dinâmica política, impondo, contraditoriamente, um cenário muito mais favorável ao lulismo para o segundo turno.
Mas essa mudança ocorreu apesar e para além da atuação do próprio lulismo e da esquerda da ordem. Seu impulso veio de uma iniciativa espontânea das bases, sobretudo da juventude, que revelou reservas de resistência que a estratégia da frente ampla é incapaz de mobilizar pela sua própria natureza política e de classes. É essa a contradição central deste segundo turno: o lulismo se beneficia eleitoralmente de uma dinâmica que transborda sua orientação política e expõe seus limites – se dependesse dessas direções, a eleição já estaria sacramentada em favor da extrema direita. Ou seja, enquanto a conciliação de classes subordinava o enfrentamento à extrema direita aos acordos por cima e ao cálculo eleitoral (à uma campanha gelada), a entrada em cena das ruas abriu possibilidades que essa estratégia mantinha bloqueadas.
Contudo, é importante ressaltar que isso não significa que os setores mobilizados tenham do dia pra noite rompido politicamente com o lulismo ou adquirido automaticamente uma consciência anticapitalista. Significa, centralmente, que sua ação contém uma experiência que ultrapassa o horizonte institucional e eleitoral: a percepção de que é possível intervir coletivamente, enfrentar a extrema direita e impor mudanças pela própria força da mobilização de base. A continuidade e o desenvolvimento dessa experiência dependerão da disputa política, da organização pela base e da capacidade de sustentar a mobilização para além do segundo turno.
Assim sendo, as ruas expressam hoje um contraponto de dupla natureza: primeiro, à inércia e ao rotineirismo do lulismo e de toda a esquerda da ordem; segundo, aos perigos reais do bolsonarismo, com seu projeto golpista e vassalo ao imperialismo territorializado de Trump. Ao tomarem a iniciativa, os setores mobilizados enfrentam a ameaça reacionária e, ao mesmo tempo, transbordam os limites da estratégia da frente ampla, demonstrando que a disposição de luta das bases vai além dos cálculos eleitorais e dos acordos institucionais de suas direções.
A conquista do fim da escala 6×1, parcial, mas de dimensões históricas, foi produto direto da mobilização de rua, especialmente do histórico 11 de outubro – a maior mobilização do campo da esquerda desde a campanha pelas Diretas Já, em 1983–1984 -, cuja iniciativa passou ao largo da orientação do lulismo e da esquerda da ordem. É significativo que Lula tenha confirmado sua participação apenas às 22h da véspera. Essa confirmação tardia expressa o quanto a aposta na mobilização estava – e segue estando – ausente da estratégia de conciliação de classes da frente ampla.
Essa ausência tem uma razão de classe: desenvolver a mobilização dos explorados e oprimidos significa colocar em movimento uma força social cujas reivindicações se chocam com os interesses da classe dominante e com os compromissos que sustentam a frente ampla. Apostar nessa força exigiria enfrentar seus aliados burgueses e abrir caminho para uma ruptura por esquerda com essa estratégia. A dificuldade de estabelecer um vínculo orgânico com os setores que tomavam as ruas revela, portanto, os limites de uma orientação comprometida com a contenção dos conflitos de classe. Foi a força dessa mobilização, transbordando os limites impostos pelas direções tradicionais, que obrigou a extrema direita e o Senado como um todo a ceder, resultando numa votação praticamente unânime pelo fim da escala da escravidão moderna, com apenas um voto contrário.
Tal conquista revela uma outra contradição de enorme importância: em meio à ofensiva político-eleitoral da extrema direita e ao fracasso da conciliação de classes, a mobilização impôs uma vitória que cria, objetivamente, melhores condições para as lutas do próximo período, inclusive se o bolsonarismo sair vitorioso. Por exemplo, se Flávio for eleito e se atrever a tentar revogá-la, poderá incendiar o país. Além disso, um dia a mais de descanso significa, materialmente, melhores condições para a organização e a mobilização dos explorados e oprimidos, seja contra os ataques da extrema direita, seja contra os da frente ampla.
A disposição de luta voltou a se expressar no último domingo (18), com centenas de mobilizações pelo país, demonstrando que a conquista inflamou ainda mais as ruas. Mais uma vez, destacou-se o protagonismo da juventude, com formas de expressão características da revolta da geração Z – um novo fenômeno da situação internacional que irrompe nas ruas de diferentes países e agora se manifesta também no Brasil. As imagens que circulam na imprensa e nas redes mostram sobretudo jovens com bandeiras de One Piece, rostos mascarados, sinalizadores e cartazes nas mãos, evidenciando uma dinâmica que transborda as formas tradicionais e burocráticas de mobilização sindical e partidária do velho metabolismo da luta de classes.
Mesmo com o boicote e a sabotagem do lulismo e da esquerda da ordem – do PT ao PSOL, passando pelas centrais sindicais -, o ato no Largo da Batata foi extremamente vitorioso: a praça foi tomada por dezenas de milhares de manifestantes! Antes de sua intervenção no carro de som, um companheiro de 18 anos me relatou que parlamentares do PSOL e quadros do PT haviam entrado na reunião virtual convocada por ele para construir a mobilização e tentado intimidá-lo, assim como aos demais jovens presentes, para que cancelassem a convocação do ato.
Com a praça lotada, porém, a tentativa consciente de conter a luta nas ruas foi atropelada pelas bases. As direções do PT e do PSOL foram politicamente pisoteadas por um movimento cuja disposição de luta não souberam reconhecer. Sua adaptação à ordem é tamanha que compromete a própria capacidade de perceber os processos que amadurecem por baixo e de dialogar com as expressões espontâneas e radicalizadas da luta dos explorados e oprimidos. O que se revelou foi a distância entre direções integradas à administração da ordem e bases que buscavam nas ruas uma saída para enfrentar a extrema direita. Nossa posição como corrente, testada na prática, mostrou-se extremamente acertada!
Para a nossa organização Socialismo ou Barbárie e sua Juventude Anticapitalista Já Basta!, a manifestação representou um marco histórico: pela primeira vez em nossa recente trajetória, codirigimos, do começo ao fim, um processo dessa dimensão. E isso não é pouca coisa! Companheiros e companheiras, há muito espaço para nossa atuação e nossa política, para o anticapitalismo! Precisamos assimilar o alcance dessa experiência para dar maior envergadura à nossa organização, formar novos quadros dirigentes e ampliar nossa base militante. Com isso, queremos também alertar: o maior espaço que se abre para nossa atuação e para nosso crescimento como corrente, ainda em etapa fundacional, não se traduz automaticamente em avanço organizativo. Não há automatismo nem relação mecânica entre essas possibilidades e sua realização. É preciso militar e militar nas bases, disputar cada centímetro, defender nossas posições e levar adiante nossa linha, nossa agitação e nossa propaganda!
Portanto, toda essa experiência deve ser compreendida de maneira dialética, em suas particularidades e em sua relação com a totalidade da situação internacional. O processo brasileiro não é uma simples reprodução de fenômenos externos, mas uma expressão, sob condições nacionais específicas, de contradições e tendências mundiais. Isso nos remete a outra definição central: a mundialização desses fenômenos. Se, de um lado, a extrema direita constitui um fenômeno internacional, embora heterogêneo – caracterizar todas as suas expressões como fascistas é um erro impressionista que desarma a luta! -, de outro, a resistência e a ocupação das ruas, com protagonismo da geração Z, também assumem uma dimensão internacional, como vemos na França, na Itália, na Albânia, na Bélgica, na Espanha, na Alemanha, em Portugal, na Grécia, na Argentina, no Chile e agora, no Brasil.
Por que aprofundar essa definição é fundamental para orientar nossa atuação? Por duas razões:
- Não há nenhuma derrota histórica dos explorados e oprimidos em escala mundial, nem mesmo em Gaza que resiste diante das condições mais bárbaras, como afirmam os reformistas e oportunistas de plantão. Apesar de uma situação política internacional muito difícil e reacionária, a luta de classes volta a se afirmar por seus próprios meios e demonstra que é ela quem dá a última palavra. A entrada em cena das novas gerações e sua capacidade de transbordar os limites impostos pelas direções reformistas são expressões dessa dinâmica.
- Há um processo de balanço crítico com a social-democracia em escala internacional, sobretudo entre as novas gerações, que abre e seguirá abrindo espaços à esquerda do possibilismo e de suas direções. É nesse terreno que a perspectiva estratégica de relançamento do marxismo revolucionário pode encontrar maior receptividade. Nossa experiência no Largo da Batata dá uma expressão concreta a essa possibilidade e reforça a tarefa de nos prepararmos política e organizativamente para processos de maior envergadura e choques mais profundos da luta de classes que virão.
Dito isso, e sem tempo para nos debruçarmos sobre outros elementos da campanha deste segundo turno, como o último debate presidencial, as pesquisas mostram um “fechamento da boca do jacaré” e um empate técnico entre Lula e Flávio – que já se considerava eleito e dava declarações sobre a composição ministerial de seu governo. Essa mudança é produto direto das mobilizações de rua, que alteraram a dinâmica política e abriram a possibilidade de uma virada. As pesquisas apontam, assim, para um segundo turno que poderá ser decidido por uma margem muito pequena – talvez a menor da história.
O cenário eleitoral segue em aberto, numa reta final dramática e indefinida. A disputa assume o caráter de um duplo plebiscito: sairá vitorioso o antipetismo ou o antibolsonarismo. Mais do que uma adesão ou alinhamento social ao projeto de conciliação de classes ou ao projeto da extrema direita, o resultado expressará a força relativa da rejeição a cada um deles.
Dito isso, nem uma vitória de Flávio nem, muito menos, uma vitória de Lula significarão a constituição de uma nova hegemonia no país. O resultado eleitoral deste segundo turno, por si só, não cristalizará mecanicamente uma nova correlação de forças sociais. Não caberá concluir que “o fascismo venceu” e recomendar que todos fiquem em casa para “poupar vidas”, como fazia a juventude do PT na USP em 2018, tampouco proclamar que “a democracia triunfou” e que “o ovo da serpente morreu”. Aliás, caso Lula vença, a tendência é que seja por uma margem minúscula, e é muito provável que Flávio e a extrema direita, com o apoio de Trump, não reconheçam o resultado. É preciso estar preparado para enfrentar esse cenário. Ambas as leituras atribuem ao resultado das urnas um caráter definitivo que ele não possui, apagando as contradições da situação e o papel decisivo da luta de classes. A polarização seguirá como elemento transversal da situação política nacional e internacional, assim como a tensão permanente entre perigos e possibilidades.
É verdade que uma extrema direita vitoriosa poderá pretender prolongar o mandato de Flávio, revogar o fim da escala 6×1 e atacar direitos trabalhistas e democráticos básicos. Mas há uma distância entre anunciar uma ofensiva e reunir as condições políticas e sociais para concretizá-la. A disposição de luta expressa nas ruas é parte da correlação de forças que qualquer governo terá de enfrentar, e uma vitória eleitoral não lhe dará poder ilimitado para impor seu programa.
Isso não diminui, evidentemente, o enorme perigo que uma vitória de Flávio, em alinhamento com Trump, representaria para as liberdades democráticas e os direitos dos explorados e oprimidos. Também se faz necessário se preparar política e organizativamente para esse cenário e seguir atuando para impedi-lo. É nesse sentido que o voto nulo envergonhado dos companheiros do MRT, mais uma vez, como em 2022, constitui um escândalo sectário e irresponsável: a necessária independência política em relação ao lulismo não pode servir de justificativa para a abstenção diante da tarefa concreta de derrotar eleitoralmente a extrema direita.
É também à luz dessa distinção entre o resultado eleitoral e a dinâmica da luta de classes que devemos avaliar os possíveis efeitos de uma derrota de Lula. A desmoralização não atingirá necessariamente os setores que protagonizaram as mobilizações e experimentaram nas ruas a força de sua própria ação. Ela poderá se concentrar na esquerda da ordem – no PT, no PSOL e nas centrais burocráticas -, cujos limites foram expostos pela iniciativa das bases. Uma eventual derrota poderá aprofundar o desgaste histórico dessas direções e de sua estratégia de conciliação de classes, sem encerrar as possibilidades de resistência e reorganização dos explorados e oprimidos. Veremos.
Dessa análise decorre nossa orientação para a reta final. É preciso inundar as ruas do país para virar o jogo e derrotar Flávio Bolsonaro nas ruas e, como consequência, nas urnas, com um voto ultracrítico em Lula. O resultado eleitoral expressa, de maneira mediada e distorcida, uma determinada correlação de forças sociais; por isso, nossa tarefa é intervir ativamente sobre ela, ampliando a mobilização e a organização dos explorados e oprimidos. A mobilização direta, na mais ampla unidade de ação, deve seguir no centro de nossa orientação, mantendo nossa independência política – marchando separados e golpeando juntos. Todas as demais iniciativas devem estar subordinadas a essa tarefa.
Nestes últimos dias que antecedem o segundo turno, precisamos batalhar, em todos os locais em que atuamos, para exigir do lulismo, da esquerda da ordem, das centrais sindicais, das entidades estudantis e dos movimentos sociais que façam do próximo dia 24 de outubro um dia nacional de mobilização, convocando atos em todas as cidades onde houver condições de tomar as ruas.
A força que abriu a possibilidade de uma virada precisa ganhar as ruas novamente, tanto para derrotar a extrema direita quanto para preparar as lutas que seguirão para além das urnas!
Incendiar as ruas do país neste 24 de out para derrotar Flávio e a extrema direita!










