Por Juan Cruz Ramat

4 de setembro de 2026 

“Este tema demanda una pausa, que hagamos nuestras armas a un lado y mostremos un frente unido ante el mundo como nación y como sociedad. Hay causas que están por encima de cualquier diferencia política y Malvinas es una de ellas”. (Javier Milei, discurso 3/9/26)  

São vários os motivos de fundo que empurraram Milei a uma retórica cínica da soberania. Entre eles, combinam-se a crise de legitimidade que afeta o governo – cujo desprestígio social disparou após a derrota da lei de estrangeirização das terras e não para de crescer sob a pressão da crise social e do colapso das condições de existência das trabalhadoras e dos trabalhadores – e a tentativa de subordinar a enorme crise social e econômica, que ameaça explodir à medida que encontre um canal de expressão, a uma causa “acima de qualquer diferença política”, segundo suas próprias palavras.A isso se soma o apelo à unidade nacional para impor a pressão do nacionalismo ao amplo espectro político e à sociedade, uma abordagem reacionária das causas justas dos países oprimidos, com o objetivo de submeter as trabalhadoras e os trabalhadores à direção política do governo de extrema direita, tomando as Malvinas como pretexto. E, por fim, a submissão política aos Estados Unidos de Trump, que voltou a impulsionar a doutrina Monroe, cujo objetivo é delimitar o continente como zona de influência ianque.

Um discurso de conteúdo reacionário que remexe no nacionalismo das forças capitalistas e começou a colher simpatias inclusive no peronismo, e que pretende instrumentalizar o legítimo sentimento soberanista que aflorou com o evento político-esportivo entre Argentina e Inglaterra na última Copa do Mundo, enquanto cresce o ódio ao governo devido ao alto custo de vida.

A manobra não parece ter tocado, até o momento, as fibras sensíveis da sociedade, ao mesmo tempo em que as medidas práticas em relação à soberania sobre o território são nulas ou se limitam a sanções econômicas de alcance extremamente reduzido. Uma cortina de fumaça cuja abordagem exige uma ancoragem estratégica anticapitalista como única política anti-imperialista consequente, diante de forças capitalistas como o “peronismo não mileísta”, que denunciam a “galtierização” de Milei, mas sustentam o “Galtieri” libertário e contêm o ódio social para evitar sobressaltos na continuidade do regime da democracia dos ricos; e diante da esquerda bregmanista, que se identifica com o anti-imperialismo puro e simples e cujas posições acabam presas à ladainha nacionalista.

Separar o joio do trigo e da fumaça

“Os efeitos concretos do que foi anunciado por Milei em relação à questão da soberania sobre as Ilhas, no entanto, parecem difusos e não dão sinais de estar encaminhados para uma solução no curto e médio prazo, segundo coincidem diplomatas e acadêmicos especializados.” (Claudio Jacquelin, 3/9/26)

Dias atrás, Donald Trump fez declarações para pressionar a Inglaterra a aumentar o orçamento militar para 3% do PIB até 2030, questão que foi rejeitada pelo primeiro-ministro trabalhista Andy Burnham. Essa pressão ocorre no contexto de um mundo em combustão, no qual o perigo de um conflito mundial aumentou, sob o reordenamento da ordem mundial impulsionado por Trump, que busca reposicionar os Estados Unidos como país hegemônico e dominante diante do avanço do imperialismo chinês e da ameaça da Rússia à União Europeia. Por essa via, Trump exige da Inglaterra e de seus pares da OTAN a elevação do orçamento militar, cujo maior aporte recai atualmente sobre os Estados Unidos, com 60% do orçamento. Entre outras coisas, afirmou que está revendo a posição de “neutralidade” que seu país historicamente manteve em relação à questão das Malvinas. Soma-se a isso o fato de que o governo britânico, por meio da empresa Sea Lion – composta por capitais de origem israelense e inglesa -, busca iniciar a exploração das jazidas de petróleo das Ilhas.

Diante dessa situação, o governo Milei fez pelo menos três anúncios: “dar celeridade” às leis 26.659 e 26.915, que impõem sanções à exploração e à extração de recursos nas ilhas, leis que existem desde 2011 e foram impulsionadas por Pino Solanas durante o governo de Cristina Kirchner. Paradoxos de um governo desesperado.

O segundo anúncio foi “criar” uma Base Naval em Ushuaia, que, na realidade, foi impulsionada durante o governo de Alberto Fernández e começou a ser construída em 2022. No entanto, o atual governo interrompeu seu desenvolvimento sob a política de déficit fiscal zero. Essa medida se entrelaça diretamente com os interesses geopolíticos dos Estados Unidos: há alguns meses, o governo nacional tenta obter financiamento dos EUA para a construção da Base Naval sem recorrer a recursos públicos e, por essa via, abrir a possibilidade de cooperação técnica e militar com o imperialismo ianque. Essa região tem enorme interesse para o imperialismo estadunidense por seu acesso ao oceano Atlântico, à Antártida e à Passagem de Drake, que, assim como o Estreito de Magalhães, conecta-se ao Pacífico. Soma-se a isso a proximidade com as Ilhas Malvinas, que possuem recursos petrolíferos estimados em 300 milhões de barris ou mais.

Isso se insere na redefinição geoestratégica de Trump em relação à América Latina por meio da reativação da Doutrina Monroe – apelidada de Donroe por Donald Trump -, que posiciona o continente como área de influência exclusiva dos Estados Unidos em sua disputa com a China. Sob esse marco, foram impulsionados o golpe na Venezuela, o estrangulamento de Cuba e as declarações de intenção de colocar sob controle direto o Canal do Panamá, além das reivindicações sobre o Canadá e a Groenlândia, ao norte. Essa ambição territorialista dos Estados Unidos diante do imperialismo chinês condensa interesses hegemônicos, de vassalagem política dos países do continente, e motivações econômicas vinculadas aos recursos naturais e ao trânsito comercial e militar.

Fica claro que o discurso “soberanista” de Milei não passa de fumaça, com a qual tenta instrumentalizar uma causa justa de soberania sob um discurso reacionário de unidade nacional, enquanto pretende submeter o país ao imperialismo trumpista. A lógica de seu modelo econômico e político tampouco deixa dúvidas a esse respeito: a “Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada” – frustrada pela mobilização independente de 6 de agosto em repúdio à estrangeirização da terra -; a modificação da Lei de Geleiras para a exploração de zonas periglaciais como complemento do RIGI, e o agora pausado Super RIGI; o pacto “Escudo das Américas” – que impulsiona o uso da força militar dos Estados Unidos na região sob o pretexto do narcotráfico e do terrorismo -; e o acordo de cooperação militar para a compra de drones e o abastecimento de combustível a navios militares ianques, assinado entre o ex-chefe do Exército e atual ministro da Defesa, Carlos Presti, e o embaixador Peter Lamelas, o que evidencia o caráter entreguista das próprias Forças Armadas.

Todas essas medidas, que buscam submeter o país aos interesses políticos dos Estados Unidos e entregar os recursos minerais e aquíferos às multinacionais, evidenciam o caráter reacionário do palavrório do governo, empenhado em reduzir o país a uma republiqueta a serviço de Trump e a economia a uma despensa de recursos naturais para o saque imperialista.

E, por fim, um projeto de lei de “Defesa Nacional” que impulsionaria a criação de um Conselho Nacional de Segurança integrado pelas Forças Armadas, pelo Serviço de Inteligência, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Economia, tudo sob o controle do mesmo governo que impulsionou a venda sem limites de terras para capitalistas estrangeiros. Soma-se ao conteúdo reacionário do discurso a tentativa de revalorizar a desacreditada instituição das Forças Armadas, responsáveis pelo genocídio durante a última ditadura e pela derrota militar do país diante da Inglaterra na Guerra das Malvinas, em 1982, sob o governo de Leopoldo Galtieri. Um descrédito que constitui uma conquista histórica do movimento de massas e de suas organizações na luta pelos 30 mil desaparecidos, pelos Direitos Humanos e pelas liberdades democráticas.

Por trás da fumaça: o fogo social, o bombeiro louco e o bombeiro peronista

A nova conjuntura surgida da ruptura da maioria da sociedade com o governo volta a colocar em cena a enorme capacidade de contenção de todo o regime institucional e político. Se os golpes sofridos pelo governo em 6 de agosto não se traduziram em uma crise política, isso se deve fundamentalmente ao papel de bombeiro desempenhado pelo peronismo, que tenta moderar a temperatura social para que o ódio existente contra Milei não se expresse nas ruas, mas nas urnas dentro de um ano. Apostam que a crise social deixe terra arrasada sobre a qual possam se posicionar como opção eleitoral por falta de alternativa.

Os elementos de perigo tampouco se dissiparam. Se a mobilização permite a expressão política da crise social e expõe suas fragilidades, quando essa mesma crise não encontra um canal de expressão, o governo – e, em particular, Milei – atua como alguém que atiça os ânimos e provoca repetidamente, jogando gasolina no fogo. Busca fazer com que a crise social se recolha ao âmbito privado, ao “cada um com seus problemas”, e seja canalizada pela via da implosão social: a violência nos bairros e no âmbito familiar; a guerra de todos contra todos; a decomposição social; o desânimo e a falta de perspectivas, entre outras coisas. A crise social exige um canal de expressão para colocar em movimento a força social que existe por baixo e que, ao se manifestar, deixa o governo Milei a nu. Em outras palavras, ela deve se elevar ao plano político para conseguir irromper e questionar o governo de extrema direita.

Nesse sentido, embora o problema da inadimplência e das dívidas que milhões de trabalhadoras e trabalhadores carregam tenha alcançado status político devido à pressão social e ao debate instalado nos meios de comunicação e no Congresso, essas questões, enquanto tais, exigem um veículo capaz de superar o manejo dos tempos frouxos e a falta de resolução dos problemas de fundo, próprios do parlamentarismo.

A oposição convocará uma sessão na Câmara dos Deputados para 9 de setembro a fim de tratar da inadimplência e da situação dos setores de pessoas com deficiência; no entanto, nessa sessão não serão discutidas resoluções, mas um requerimento para fixar uma data nas comissões em que os projetos devem ser debatidos previamente, de acordo com o regimento do Congresso. Isso reflete um descompasso absoluto entre a política institucional – à qual se subordinam todas as forças políticas capitalistas, com exceção do próprio governo, que tanto respeita quanto ignora as leis conforme sua própria conveniência – e os tempos “políticos” da vida da sociedade. Esse veículo para elevar a crise social ao plano político não é outro senão a mobilização, como ficou demonstrado nas numerosas jornadas de mobilização massiva do último ano.

Nesse sentido, o conjunto da esquerda deveria convocar, para a próxima quarta-feira, 9 de setembro, uma mobilização à Praça do Congresso para abrir um canal de expressão à indignação social, que não pode esperar pelas eleições nem por atos eleitorais. O Fórum das Pessoas com Deficiência, que reúne as organizações e os trabalhadores mais representativos, convocou uma concentração em frente ao Congresso para esse dia, além dos aposentados, que se mobilizam todas as quartas-feiras. Não é possível construir uma alternativa para milhões dando as costas às necessidades das maiorias sociais.

Organização, organização e mais organização

A construção de uma alternativa exige sensibilidade política para não se dissociar das enormes dificuldades que afetam a maioria da sociedade e, em particular, a juventude. Mas, ao mesmo tempo, exige realismo. A esquerda em seu conjunto não possui força objetiva suficiente para convocar, ao seu bel-prazer, mobilizações massivas que permitam a irrupção social e questionem o governo, marcando datas no calendário sem relação com os acontecimentos políticos mais gerais. Nesse sentido, a convocação para o ato impulsionado pelo PTS de Myriam Bregman e por outras organizações de esquerda ficou fora de tempo e, além disso, foi marcada para um sábado. Em nossa opinião, as organizações que nos reuniremos no próximo dia 5/9 no Parque Lezama deveríamos convocar uma enorme marcha para a próxima quarta-feira, dia 9, como dissemos anteriormente. Temos uma oportunidade política diante de nós e não devemos deixá-la passar por motivações eleitorais que não resolverão, no fundo, os problemas das trabalhadoras e dos trabalhadores.

As oscilações da conjuntura, por outro lado, nos impõem uma tarefa imediata, mas de caráter estratégico: impulsionar a organização permanente contra a política de Milei, que aponta para a desorganização e o recolhimento social ao âmbito privado, com a colaboração do peronismo. Milhares de ativistas e setores de vanguarda são arrastados quando a mobilização diminui e voltam a irromper em cena, acompanhados por setores de massas, quando as ruas recuperam protagonismo. Por isso, é fundamental disputar a consciência de amplos setores de vanguarda em torno da necessidade de consolidar uma organização permanente, para impactar com mais força quando a onda voltar a crescer e, assim, sermos cada vez mais determinantes nos acontecimentos políticos.

Com esse objetivo, o Ya Basta! [Juventude Já Basta!) impulsiona sua segunda Plenária Nacional contra Milei e os fascistas na Faculdade de Filosofia e Letras, abrindo suas portas à juventude e buscando construir uma enorme força militante. A partir do Nuevo MAS [Novo Mas], e junto com Manuela Castañeira, apostamos para que esse evento se torne uma referência para os jovens, as trabalhadoras e os trabalhadores e todos aqueles que queiram se somar à construção de uma organização política que seja referência na luta contra o governo e por uma saída anticapitalista.