Publicamos a seguir a transcrição revisada do informe apresentado por Antonio Soler durante a Conferência de Meio Ano da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie (SoB), dedicado à análise da atual conjuntura eleitoral brasileira e dos desafios políticos colocados para a esquerda revolucionária.

Redação Esquerda Web

Brasil: polarização, intervenção imperialista e novo metabolismo da luta de classes

 Por Antonio Soler

Nós estamos numa conjuntura político-eleitoral aberta, indefinida, polarizada e instável. Temos presentes na realidade, tanto externos quanto internos, elementos extremamente disruptivos. Essa é a primeira constatação. 

Entramos em uma conjuntura marcada por uma polarização consolidada por cima. De um lado, o lulismo; de outro, a extrema direita bolsonarista. Mas essa polarização não ocorre num cenário estabilizado. Pelo contrário: está atravessada pela intervenção imperialista estadunidense, pela crise do regime político brasileiro, pelo fortalecimento do Centrão, por elementos importantes de decomposição social, pela crise climática e, ao mesmo tempo, por uma nova dinâmica de mobilização que começa a aparecer por baixo. 

Um dos signos incontornáveis dessa conjuntura é justamente a intervenção trumpista. Ao mesmo tempo, a resposta do lulismo, do governo da conciliação de classes, é extremamente errática e, como não poderia deixar de ser, permanece presa aos limites estreitos dessa estratégia.

Desde o início de 2026 identificamos também um elemento novo e muito importante na situação política brasileira: aquilo que podemos chamar de um novo metabolismo da luta de classes. A luta dos povos originários, as mobilizações dos entregadores por aplicativo, os processos na juventude universitária e outras experiências demonstram o surgimento de lutas que, mesmo partindo muitas vezes de setores específicos e ainda sem uma coordenação nacional, impactam a situação política do país. 

Temos também elementos de polarização por baixo, mas essa ainda não conseguiu se nacionalizar: os processos são fragmentados, desiguais, não possuem uma estrutura nacional comum e enfrentam permanentemente a ação das burocracias sindicais e políticas. Mas são lutas que conseguem modificar cursos, impor recuos ao governo e aos patrões e produzir fatos políticos nacionais. Esse é um elemento qualitativamente diferente em relação à eleição de 2022.

Existem ainda outros fatores importantes de instabilidade. A crise climática pode voltar a produzir acontecimentos de enorme magnitude, como demonstraram as enchentes no Rio Grande do Sul, enquanto outras regiões enfrentam secas cada vez mais intensas. Ao mesmo tempo, o enorme endividamento das famílias, a expansão das bets, o aprofundamento da precarização social, o crescimento do crime organizado e a crise da segurança pública produzem fenômenos de decomposição que também podem provocar mudanças bruscas na conjuntura. 

Por isso, quando dizemos que a situação está indefinida, não estamos falando apenas de pesquisas de intenções de votos. Existem elementos estruturais e disruptivos capazes de modificar rapidamente a relação de forças.

Uma eleição sob a intervenção do trumpismo

O trumpismo e a tentativa de retomar agressivamente a hegemonia mundial dos EUA, particularmente sobre a América Latina, constituem um dos elementos fundamentais da situação. Assim, em relação à eleição de 2022 existe uma diferença importante. Naquele momento, embora já estivesse colocada a disputa estratégica entre os Estados Unidos e a China, não havia intervenção política sobre o Brasil com o grau de agressividade que observamos atualmente [1]. 

A ofensiva imperialista combina pressão econômica, política, diplomática e ideológica. Tarifas comerciais, ameaças à soberania dos países latino-americanos, ingerência direta sobre processos políticos nacionais, pressão sobre governos e utilização do combate ao chamado “narcoterrorismo” como possível instrumento de intervenção fazem parte de um esforço mais amplo de recomposição da hegemonia estadunidense sobre a região.

É nesse sentido que podemos falar numa atualização da velha Doutrina Monroe. O Brasil, por sua dimensão econômica, territorial, populacional e diplomática, por sua relação com a China e pelo papel que desempenha nos BRICS, ocupa necessariamente um lugar central nessa disputa. Os tarifaços, as ameaças econômicas, a pressão diplomática e os questionamentos dirigidos às instituições brasileiras devem ser entendidos dentro desse processo mais geral. 

Não se trata simplesmente de uma disputa comercial. Existe uma dimensão diretamente política nesse processo porque a extrema direita brasileira aparece como o principal ponto de apoio interno desta ofensiva. O bolsonarismo entra nessa eleição não apenas com suas próprias forças nacionais, mas contando com um poderoso aliado imperialista disposto a utilizar instrumentos econômicos, políticos e comunicacionais para interferir sobre a realidade brasileira.

As grandes empresas de tecnologia e as redes sociais possuem um peso enorme nesse processo. O questionamento das urnas eletrônicas reaparece no discurso da extrema direita, e a combinação entre esse questionamento, a intervenção externa e a capacidade das plataformas digitais de organizar campanhas políticas, difundir desinformação e modular percepções sociais constitui um problema real. 

Seria um erro minimizar esse aspecto. O Brasil possui outra estrutura estatal, outra dimensão econômica e outra localização internacional em comparação com países submetidos a formas mais diretas de intervenção, como é o caso da Venezuela, mas isso não elimina a capacidade das big techs e do imperialismo de atuar sobre uma eleição extremamente polarizada[2].

É justamente nesse ponto que aparecem os limites da resposta governamental. Diante da ofensiva imperialista, o governo oscila, busca canais diplomáticos, procura negociar com Washington e tenta evitar o confronto, mas não organiza uma resposta política independente, não mobiliza os trabalhadores e os setores populares contra a ingerência e tampouco articula essa resistência com medidas concretas contra os interesses econômicos do imperialismo. 

Essa limitação não decorre simplesmente de uma deficiência tática: é consequência direta da estratégia de conciliação de classes. Lula poderia utilizar politicamente a ingerência imperialista para colocar a extrema direita na defensiva, denunciar sistematicamente a aliança entre bolsonarismo e trumpista, organizar mobilizações de massa e combinar essa batalha democrática com medidas econômicas contra os grandes interesses capitalistas. Mas fazer isso significaria desencadear forças sociais que o próprio governo procura controlar.

Esse é o drama da conciliação de classes. Uma mobilização anti-imperialista consequente poderia rapidamente colocar na ordem do dia não apenas a luta contra Trump ou contra a extrema direita, mas também reivindicações contra bancos, grandes empresas, multinacionais, privatizações e o próprio programa econômico defendido pelo governo. Por isso, as possibilidades de impor derrotas políticas mais profundas à extrema direita são constantemente limitadas pelo receio de que a mobilização ultrapasse os limites institucionais definidos pelo lulismo.

Num eventual segundo turno entre lulismo e extrema direita, praticamente toda a direita tende a se unificar contra Lula e, diferentemente de 2022, existe agora a atuação mais direta do trumpismo como aliado internacional da extrema direita. Ao mesmo tempo, existem dificuldades objetivas para o campo bolsonarista, particularmente a ausência de sua principal figura como elemento direto de mobilização. Isso representa uma vantagem relativa para o lulismo, mas apenas relativa, porque a conjuntura continua atravessada por enorme instabilidade [3].

Por isso, a luta contra a ingerência imperialista constitui um dos problemas centrais para a esquerda revolucionária. Mas esse anti-imperialismo não pode permanecer num plano abstrato. Não basta defender formalmente a soberania nacional ou denunciar a pressão estadunidense, como faz o MRT, por exemplo. É necessário conectar a luta contra a intervenção com medidas anticapitalistas concretas, enfrentando os interesses do capital financeiro internacional, das multinacionais e das grandes corporações que estruturam a dependência brasileira. Um anti-imperialismo consequente precisa ser independente também da burguesia nacional, porque essa mesma burguesia está profundamente integrada ao capital internacional e não possui nenhum projeto de ruptura com a dependência. 

Uma situação política dramática 

O resultado político desse impasse por cima é uma espécie de movimento pendular que gera uma situação dramática. Estamos em uma situação em que oscilam rapidamente conjunturas em que o governo passa à ofensiva e a extrema direita entra na defensiva; em outros, o movimento se inverte. 

A ofensiva tarifária estadunidense, por exemplo, produziu uma reação nacional importante e permitiu ao governo recuperar iniciativa porque o bolsonarismo apareceu associado diretamente a uma ação estrangeira contra o país. Posteriormente, acontecimentos relacionados à segurança pública, às votações no Congresso, aos escândalos e às próprias dificuldades econômicas da população voltaram a modificar a correlação conjuntural.

O escândalo do Banco Master é um exemplo importante[4]. Em um primeiro momento, o envolvimento de setores ligados à extrema direita favoreceu eleitoralmente o governo. Mas, à medida que as investigações e outros escândalos passaram também a atingir pessoas e setores próximos ao governo, parte dessa vantagem começou a se reduzir. Ao mesmo tempo, seguem atuando os problemas sociais de fundo: endividamento das famílias, custo dos alimentos, precarização das relações de trabalho, baixos salários e deterioração das condições gerais de vida.

Existe também outra dimensão dessa crise. As instituições do regime funcionaram nos últimos anos como barreiras parciais diante de determinados movimentos golpistas da extrema direita. O STF e o TSE tiveram um papel importante nessa contenção. Reconhecer esse fato não significa atribuir a essas instituições um caráter progressivo ou tratá-las como instrumentos dos trabalhadores; significa analisar concretamente as contradições dentro do regime burguês. Agora, com mudanças na composição e na direção dessas instituições, o desgaste crescente do STF e a continuidade dos ataques da extrema direita, surgem novas incertezas para o processo eleitoral.

Essa dramaticidade da situação política aparece de maneira particularmente clara na luta pelo fim da escala 6×1. Trata-se de uma das reivindicações mais populares do país porque toca diretamente a experiência cotidiana de milhões de trabalhadores submetidos a jornadas extenuantes, baixos salários e ausência de tempo livre. 

Essa reivindicação possui um enorme potencial para funcionar como catalisadora de uma mobilização nacional, unificando setores diferentes da classe trabalhadora e colocando no centro do debate político a questão da exploração. Mas, em vez de organizar a força social existente para impor a redução da jornada, o governo procurou administrar institucionalmente a pauta e subordiná-la ao calendário político e às negociações parlamentares.  

Em determinado momento houve interesse em utilizar eleitoralmente a reivindicação, mantendo-a como uma promessa capaz de diferenciar o governo da extrema direita. Depois, diante das mudanças na conjuntura, tornou-se necessário tentar destravar a pauta. E aqui aparece novamente o mecanismo da conciliação: ao mesmo tempo em que se busca apresentar aos trabalhadores a possibilidade de um avanço na redução da jornada, realizam-se acordos com o Centrão e a direita em torno de medidas de ajuste fiscal. 

O PLP 114 é mais um exemplo emblemático porque articula justamente essas contradições. Enquanto se tenta apresentar uma concessão social num terreno, são aceitos mecanismos de contenção de gastos que atingem áreas fundamentais como saúde e educação. O cenário chega a assumir um caráter tragicômico: oferece-se aos trabalhadores uma possível redução de jornada enquanto se limita o crescimento de serviços públicos utilizados por esses mesmos trabalhadores. Essa é uma síntese da conciliação de classes: concede-se parcialmente num terreno enquanto se garante, em outro, que os interesses estratégicos do grande capital não permanecem apenas preservados, mas ganhem progressivamente mais terreno.

Essa mesma lógica percorre toda a política governamental. O governo procura administrar demandas populares sem mobilizar a força social necessária para impô-las. Busca negociar permanentemente com um Congresso cada vez mais reacionário e, para obter concessões parciais, aceita contrapartidas que preservam ou aprofundam mecanismos de ajuste. Dessa maneira, mesmo reivindicações que poderiam servir como ponto de apoio para uma ofensiva dos trabalhadores acabam aprisionadas na lógica parlamentar da conciliação[5].

O problema de fundo é que o projeto lulista de reconstruir uma estabilidade orgânica do regime democrático burguês depois da derrota eleitoral do golpismo fracassou por completo. A conciliação de classes não eliminou a extrema direita, não fortaleceu de maneira duradoura as instituições democráticas e tampouco solucionou as causas sociais e econômicas que alimentam o reacionarismo. Ao contrário, preservou grande parte das relações econômicas e institucionais das quais esse mesmo reacionarismo se alimenta.

Por isso, a eleição de outubro permanece indefinida. Existe um núcleo relativamente consolidado de eleitores do lulismo e outro da extrema direita, mas uma parcela significativa da população ainda oscila. É justamente sobre esse setor que se trava parte decisiva da disputa. O governo possui vantagens importantes, entre elas a máquina federal e a dificuldade da extrema direita de reproduzir integralmente a capacidade de mobilização existente anteriormente. Mas, devido aos limites políticos e sociais do lulismo, essas vantagens relativas não podem ser aproveitadas, o que produz uma crônica política de instabilidade permanente.

Fim da escala 6×1, direito dos entregadores e novos sujeitos da luta de classes

Se por cima temos esses impasses, por baixo existe uma situação diferente. Estamos entrando nessa eleição com uma experiência política maior com o governo do que existia em 2022, e isso tem consequências. Existem setores que fizeram experiências de luta direta contra medidas do próprio governo sem, por isso, aproximarem-se da extrema direita. Pelo contrário: enfrentaram simultaneamente governo, empresários, direita e extrema direita em defesa de suas próprias reivindicações. É justamente essa experiência que começa a abrir mais espaço à esquerda do lulismo.

Não se trata de afirmar que existe uma radicalização nacional homogênea das massas. Isso seria completamente unilateral. O que existe são processos de vanguarda capazes de produzir impactos políticos nacionais. Esse é o sentido da ideia de um novo metabolismo da luta de classes. São lutas que muitas vezes surgem por fora dos grandes aparatos tradicionais, desenvolvem formas próprias de organização e, em determinadas situações, conseguem modificar a correlação de forças, obrigando empresas e governos a recuar. Esse fenômeno possui uma importância estratégica porque mostra que a passividade não é absoluta e que a polarização eleitoral não esgota toda a dinâmica política do país. Existe vida por baixo da polarização institucional.

A luta dos povos originários é um exemplo importante desse processo. As mobilizações contra projetos de privatização, dragagem e transformação dos rios amazônicos em corredores logísticos para o agronegócio demonstraram uma enorme capacidade de ação direta. Não se tratava apenas de uma reivindicação ambiental localizada, mas de uma batalha contra uma política que subordinava territórios, rios e comunidades às necessidades das grandes corporações e do agronegócio exportador. A mobilização combinou organização territorial, unidade entre diferentes povos, protagonismo da juventude e métodos de ação direta. Sob a pressão da luta, empresas e governo foram obrigados a recuar. Politicamente, isso é muito importante porque uma luta inicialmente localizada conseguiu atingir interesses transnacionais, enfrentar uma política governamental e produzir impacto nacional.

O outro exemplo central são os entregadores por aplicativo. O PLP 152 procurava institucionalizar uma nova figura jurídica para os trabalhadores plataformizados. Sob o discurso da regulamentação e da autonomia, o projeto criava na prática um regime paralelo de relações de trabalho, separado da CLT, legitimando juridicamente uma forma extremamente precarizada de exploração. Era uma contrarreforma trabalhista de enorme alcance potencial, não apenas porque atingia diretamente entregadores e motoristas, mas porque poderia abrir caminho para a expansão desse modelo para outros setores da economia.

O projeto estava articulado entre setores do governo, do Centrão, da extrema direita e das empresas de plataforma. Mas os trabalhadores reagiram. A mobilização organizada pela ONTDR (Organização Nacional dos Trabalhadores Sobre Duas Rodas) – organização sindical dos entregadores por app da qual somos fundadores -, a revolta pela base, a pressão nas ruas e a intervenção direta sobre o Congresso conseguiram retirar o projeto da pauta. Foi uma vitória parcial, evidentemente, porque a ofensiva das plataformas continua e iniciativas semelhantes podem retornar, mas politicamente foi uma vitória importante da luta direta. Um dos setores mais precarizados da classe trabalhadora conseguiu bloquear uma contrarreforma apoiada por forças econômicas e políticas extremamente poderosas, isto tem uma dimensão histórica que não foi totalmente assimilada pela opinião pública.

Talvez ainda exista dificuldade de dimensionar suficientemente essa vitória. O fato de entregadores e motoristas terem conseguido impedir a aprovação de uma medida dessa natureza demonstra que setores apresentados apenas como vítimas da precarização, como faz a academia e parte da esquerda, podem transformar-se em sujeitos políticos centrais. Também demonstra que novos sujeitos podem desempenhar um papel muito mais amplo do que aquele reservado às reivindicações corporativas e impor vitórias que possuem alcance para o conjunto da classe trabalhadora.

O grande problema é que esses processos permanecem fragmentados. Povos originários lutam contra os interesses do agronegócio e das multinacionais, entregadores enfrentam as plataformas, estudantes e trabalhadores das universidades enfrentam governos e reitorias, enquanto milhões de trabalhadores apoiam o fim da escala 6×1. Temos movimentos reais, disposição de luta e inclusive vitórias parciais, mas ainda não existe uma estrutura capaz de reunir politicamente esses processos e transformá-los numa força nacional.

A burocracia sindical não cumpre esse papel. Ao contrário disso, as direções governistas procuram desviar sistematicamente as lutas para negociações institucionais e impedir que adquiram autonomia política. Ao mesmo tempo, boa parte da esquerda independente tampouco apresenta qualquer política com o objetivo de superar a fragmentação. Essa é uma das grandes contradições da situação: existe polarização por baixo, mas ela ainda não possui uma expressão organizativa e política correspondente. 

Por isso, ao contrário do que faz o PSTU – força majoritária na CSP-Conlutas -, que não tem nenhuma incita concreta para mobilizar a vanguarda em um cenário de maior espaço à esquerda, uma das tarefas centrais é construir instâncias comuns, democráticas e independentes dos setores em luta, capazes de transformar experiências isoladas numa força política nacional. Sem essa mediação, a polarização por baixo encontrará enormes dificuldades para disputar em pé de igualdade a dinâmica política com as forças reacionárias e governistas.

Espaço à esquerda e crise estratégica 

Durante muito tempo, a polarização entre lulismo e bolsonarismo funcionou como um mecanismo extremamente poderoso de fechamento do espaço político à esquerda. Toda crítica ao governo era apresentada como ajuda à extrema direita, enquanto toda luta contra a extrema direita era utilizada como justificativa para subordinar os movimentos ao governo. 

Os processos recentes começam, ainda de maneira parcial, a romper esse engessamento político. É possível lutar de maneira consequente para derrotar a extrema direita e os ataques do governo e para  ir além do lulismo. Esse é o terreno sobre o qual precisa ser construída uma alternativa socialista independente: nem neutralidade diante da ameaça representada pela extrema direita, nem subordinação ao lulismo em nome de combatê-la, como faz o PSOL e a maioria das suas correntes políticas.

Mas aí encontramos outro problema: a situação das próprias correntes da esquerda, como o PSTU e o MRT. Existe uma enorme dificuldade de totalização política. De um lado temos correntes que preservam sua independência em relação ao governo, mas cuja intervenção está profundamente marcada pelo economicismo, doutrinarismo e sectarismo. A crítica dentro dessa lógica unilateral ao governo não consegue se transformar numa política concreta para a disputa nacional. Isso ocorre porque a luta contra medidas do governo é muitas vezes separada mecanicamente da luta contra a extrema direita[6].

Isso aparece de forma particularmente evidente diante da luta pelo fim da escala 6×1. Uma reivindicação apoiada por uma enorme parcela da população deveria ser utilizada para organizar milhões de trabalhadores, disputar consciência, unificar categorias e transformar uma demanda econômica numa grande batalha política nacional. Mas parte da esquerda independente possui enorme dificuldade de construir essa mediação concreta entre reivindicação imediata e estratégia político-eleitoral quando não liga sua campanha, suas bandeiras gerais, ao chamado à luta direta e aos temas imediatos.

No outro extremo aparece o politicismo. Setores que historicamente reivindicavam uma tradição revolucionária, como o MES e outros setores da esquerda do PSOL passaram a subordinar cada vez mais sua intervenção às estruturas do parlamento, governo e à estratégia de conciliação de classes. Aqui ocorre o movimento inverso: se o economicismo reduz a política à luta reivindicativa e perde a totalidade, o politicismo separa a política nacional da auto-organização independente da classe trabalhadora e deposita todas as suas expectativas nas instituições do Estado. Fala-se em derrotar a extrema direita, defender a democracia, industrializar o país, melhorar políticas públicas e realizar reformas progressivas, mas sem construir a estratégia independente de mobilização que coloque os trabalhadores como sujeitos do processo para que estes estejam na frente de medidas anticapitalistas concretas.

Temos, portanto, um duplo problema: de um lado, um economicismo incapaz de totalizar politicamente a luta de classes; e do outro, um politicismo que substitui a independência dos trabalhadores pela confiança crescente nas instituições e no governo. Mas ambos padecem da letargia, da passividade política e da rotineira adaptação eleitoral. Superar esses dois desvios é uma tarefa estratégica.

Polarização e alternativa anticapitalista independente

Esse é, em última instância, o problema colocado pela conjuntura. A dramaticidade é um dos signos centrais da conjuntura não apenas na polarização entre lulismo e bolsonarismo, mas também entre o potencial de luta por baixo, no novo metabolismo da luta de classes, e a passividade política de parte da esquerda independente.

Existem lutas, novos sujeitos e experiências concretas que demonstram ser possível impor derrotas aos patrões, às grandes corporações, aos governos e à extrema direita. Mas ainda não existe uma alternativa política nacional capaz de totalizar essas experiências. Enquanto essa alternativa não for construída, a crise continuará sendo disputada fundamentalmente pelos de cima.

De um lado, o bolsonarismo procura transformar a insatisfação social em reação política, autoritarismo, nacionalismo reacionário e guerra contra os setores oprimidos. De outro, o lulismo procura canalizar o medo da extrema direita para preservar a conciliação de classes e impedir que a mobilização ultrapasse os limites institucionais. A tarefa da esquerda revolucionária é romper essa falsa alternativa: derrotar a extrema direita nas ruas e nas urnas, enfrentar a ingerência imperialista, combater os ataques do governo e do Centrão, apoiar e unificar as lutas dos trabalhadores, da juventude e dos povos originários e construir organismos independentes de mobilização.

O desafio é enorme, mas a própria conjuntura demonstra que existem possibilidades. A polarização por baixo ainda é fragmentária, mas existe e tende a manter-se. Novas vanguardas surgem fora dos grandes aparatos. Os povos originários conseguiram impor recuos a grandes interesses econômicos; os entregadores bloquearam uma contrarreforma trabalhista; a juventude protagonizou importantes experiências de luta; e a batalha contra a escala 6×1 encontra respaldo entre milhões de trabalhadores. Nada disso constitui ainda uma alternativa política nacional, mas são elementos concretos sobre os quais ela pode ser construída.

A questão decisiva é se conseguiremos ligar essas experiências, ajudá-las a se coordenar, tirar suas conclusões políticas e transformá-las numa força independente. Porque, diante da ingerência imperialista, da ameaça da extrema direita, da crise das instituições e do fracasso da conciliação de classes, a resposta estratégica não pode vir das manobras por cima. Ela precisa ser construída por baixo, na luta de classes, na auto-organização dos trabalhadores e na construção de uma alternativa anti-imperialista, anticapitalista e socialista.

O economicismo é um dos problemas mais importantes colocados para a esquerda revolucionária. Há uma desconexão entre teoria, estratégia, política e tática. Uma corrente revolucionária precisa ter uma estratégia de transformação socialista da sociedade, mas essa estratégia precisa se expressar na política concreta, e a política concreta precisa encontrar táticas capazes de dialogar com o nível real de consciência, organização e experiência dos trabalhadores.

Sem essas mediações, os princípios transformam-se em propaganda abstrata. No movimento inverso, quando as táticas eleitorais e institucionais se autonomizam da estratégia, o resultado é a adaptação ao Estado burguês. O desafio consiste justamente em reconstruir essa totalidade: lutar contra a ingerência imperialista sem apoiar a burguesia nacional; derrotar a extrema direita sem subordinar os trabalhadores ao lulismo; enfrentar os ataques do governo sem estabelecer mecanicamente um sinal de igualdade entre ele e o bolsonarismo; participar das eleições sem transformar a campanha eleitoral num fim em si mesmo; intervir nas lutas econômicas sem reduzi-las ao sindicalismo; e defender reivindicações imediatas conectando-as a uma perspectiva anticapitalista.

Essa combinação é decisiva porque permite estabelecer pontes entre a experiência concreta das massas e uma estratégia socialista. Sem essas pontes, a política revolucionária fica condenada ou à marginalidade sectária ou à adaptação oportunista. A construção de uma alternativa depende justamente da capacidade de evitar esses dois caminhos e elaborar uma política que parta da experiência real dos trabalhadores sem se limitar ao seu nível imediato de consciência.

É nesse marco que ganha sentido uma intervenção eleitoral independente. Existem razões concretas para avaliar os limites de uma candidatura: o tamanho da organização, o desgaste militante, as tarefas acumuladas e as enormes dificuldades materiais de uma campanha. Mas a conjuntura abre um espaço político. Existe mais espaço à esquerda do lulismo e também dentro da própria esquerda, justamente porque as principais correntes independentes apresentam dificuldades para ligar a campanha eleitoral aos processos reais da luta de classes.

É no marco de enfrentar esses desafios que lançamos a nossa Bancada Anticapitalista. Uma candidatura anticapitalista só tem sentido se fizer exatamente o movimento contrário. Não se trata de organizar uma campanha eleitoral tradicional, voltada exclusivamente para votos ou para ocupar espaços institucionais. Trata-se de utilizar a tribuna eleitoral como instrumento para desenvolver as lutas existentes, fortalecer processos de organização, ampliar a propaganda socialista e dar expressão política aos setores que vêm protagonizando a resistência por baixo. A campanha deve ser compreendida como parte da luta de classes e não como uma interrupção dela.

Nesse sentido, a ligação com os entregadores é particularmente importante. A campanha pode dialogar diretamente com uma das experiências mais avançadas de auto-organização de um novo setor da classe trabalhadora. Da mesma maneira, pode apoiar-se nas experiências da juventude e de todos os setores que enfrentam simultaneamente a extrema direita e os ataques dos governos. A intervenção eleitoral deve servir para transformar revolta em organização, ampliar relações políticas e desenvolver uma camada de ativistas capazes de dar continuidade à construção depois das eleições.

Existem dois terrenos particularmente estratégicos. O primeiro é a juventude. As experiências recentes das universidades demonstraram a disposição de luta de uma nova geração de estudantes, muitos deles estudantes-trabalhadores, que enfrentaram diretamente administrações universitárias, governos e burocracias do movimento estudantil. A possibilidade de construir uma organização revolucionária nessa juventude depende de transformar essa experiência de luta numa experiência política mais profunda, o que exige organização permanente, formação teórica e batalhas concretas pelos organismos do movimento estudantil.

O segundo terreno são os entregadores. É significativo que praticamente nenhuma corrente que se coloca no campo da revolução no Brasil – como PSTU e MRT – tenha ao menos tentado construir um trabalho político orgânico num setor que reúne centenas de milhares de trabalhadores e que protagonizou algumas das mobilizações mais importantes dos últimos anos. Isso diz algo não apenas sobre a categoria, mas sobre a própria esquerda. Uma esquerda que não consegue construir entre os setores mais dinâmicos da nova classe trabalhadora precisa revisar profundamente seus métodos. Não se trata de proclamar artificialmente a existência imediata de um núcleo revolucionário entre os entregadores, mas de avançar através de mediações: fortalecer ativistas, ampliar a formação política, organizar debates, sistematizar as experiências de luta e desenvolver uma camada de trabalhadores capaz de pensar politicamente a própria experiência.

Por último, existe uma tarefa que atravessa todas as outras: transformar as experiências políticas em construção. Uma luta pode produzir milhares de ativistas e, ainda assim, deixar pouco saldo construtivo se não existir uma política consciente para sistematizar essa experiência. Uma campanha eleitoral pode alcançar milhares de pessoas e desaparecer no dia seguinte à eleição se não estiver articulada com um projeto de organização permanente. 

Da mesma forma, o lançamento da obra Marxismo e transição socialista no Brasil e em vários outros países pela nossa corrente internacional, não pode ser tratada apenas como iniciativas isoladas de propaganda. Encaramos o trabalho teórico em conexão profunda com o político-prático, um dos pilares fundamentais da construção revolucionária, como foi para o marxismo clássico, aliás. As lições do balanço crítico e militante das revoluções do século XX estão incorporadas em nosso programa, estratégias e táticas políticas e eleitorais cotidiana. Para além das eleições de outubro,  vamos organizar debates, grupos de estudo e atividades capazes de ligar as experiências imediatas da luta de classes aos problemas estratégicos da transformação socialista. 

Enfim, o objetivo da campanha eleitoral é contribuir com a luta dos novos protagonistas da luta de classes para derrotar a extrema direita e o imperialismo e superar o lulismo, avançar em nossos trabalhos estruturais na juventude e na nova classe trabalhadora, aproximar e incorporar novos ativistas à nossa corrente política. 

Em um mundo que tende cada vez mais à uma nova “Era dos extremos”, contribuir para preparar as novas gerações de militantes para as lutas decisivas que se aproximam em conexão com as tarefas imediatas da luta de classes, é tarefa central. Para isso, está a serviço a candidatura da Bancada Anticapitalista, seu programa e seus esforços de campanha.

NOTAS

[1] A conjuntura nacional está fortemente marcada pela situação mundial. Isso não é uma novidade histórica. Durante a Guerra Fria, a bipolarização internacional atravessou profundamente o Brasil e toda a América Latina, interferindo diretamente na dinâmica política dos países da região. Posteriormente, a ofensiva neoliberal mundial teve sua expressão nacional nos governos que promoveram privatizações, abertura econômica, ataques aos direitos trabalhistas e uma reorganização profunda das relações entre Estado e capital. Agora entramos novamente numa situação em que a dinâmica internacional atua mais diretamente sobre a conjuntura brasileira.

[2] De acordo com a pesquisa Fox divulgada na última sexta-feira 29/08, o impasse continua colocado e o derretimento inicial de Flávio Bolsonaro desapareceu diante da inércia, investigações da PF e continuidade dos acordos por cima atacando os trabalhadores que aflige o governo Lula/Alckmin. Para a Fox o retrato de momento mostra, no primeiro turno, Lula com 37,1% e Flávio com 34,8% e para o segundo turno uma inversão de posições em relação à pesquisa do BTG Pactual de 24 de agosto que apontava Lula com 46% e Flávio com 45%. Para a Fox a situação atual dá Flávio com 45,1% e Lula com 44,5%.

[3] Uma nova crise econômica, escândalos, acontecimentos internacionais, uma crise climática de grande escala, intervenções das big techs ou novos processos de mobilização podem alterar rapidamente a situação. Por isso seria um erro tratar essa eleição como simples repetição de 2022. A estrutura da polarização permanece, mas os elementos que a atravessam são diferentes e, sobretudo, existe hoje uma experiência de luta por baixo que não possuía a mesma densidade quatro anos atrás. Existem ainda fenômenos de decomposição social que a esquerda precisa incorporar seriamente à sua política. O endividamento das famílias atingiu proporções enormes e as bets transformaram-se numa verdadeira praga social, drenando renda dos trabalhadores e intensificando situações de dependência e desagregação familiar. Ao mesmo tempo, o crime organizado ampliou profundamente sua presença econômica, territorial e institucional, tornando a segurança pública um tema impossível de ser ignorado.

[4] Não se trata simplesmente de um episódio de corrupção individual, mas de uma crise que revela conexões estruturais entre capital financeiro, Congresso, Judiciário e diferentes setores do regime político.

[5] Para compreender plenamente esse cenário, entretanto, é necessário ir além da disputa entre lulismo e bolsonarismo. Existe um elemento estrutural da política nacional que precisa ser incorporado à análise: a crise do chamado presidencialismo de coalizão e o crescimento extraordinário do poder do Congresso. A estrutura política organizada a partir da Constituição de 1988 sofreu transformações profundas. O Executivo perdeu parte importante de sua capacidade de controlar diretamente o orçamento e organizar maiorias parlamentares segundo os mecanismos tradicionais, enquanto o Legislativo acumulou instrumentos materiais e políticos de enorme importância, particularmente através do controle crescente sobre parcelas do orçamento público. Esse processo produziu uma hipertrofia do Congresso e fortaleceu particularmente o Centrão. Temos, portanto, duas grandes expressões que polarizam eleitoralmente o país – o lulismo e o bolsonarismo -, mas existe uma terceira força estrutural dentro do regime: um bloco parlamentar burguês, profundamente fisiológico e reacionário, que acumulou poder econômico, institucional e territorial. Independentemente de quem ganhe a eleição presidencial, é bastante provável que esse bloco continue exercendo um papel decisivo na política nacional. Uma vitória eleitoral do lulismo, sem lutas diretas a frio, não significaria automaticamente uma estabilização da situação, assim como uma vitória da extrema direita produziria uma conjuntura qualitativamente diferente e muito mais perigosa.

[6] Palavras de ordem como independência de classe, socialismo, ação direta e greve geral são evidentemente corretas como princípios gerais, mas podem transformar-se numa espécie de juramento à bandeira quando não são mediadas por uma estratégia e por táticas adequadas às condições concretas da luta de classes. Essa é a crítica ao doutrinarismo: não basta proclamar princípios; é necessário encontrar as mediações entre teoria, estratégia, política e tática.