O artigo abaixo de Johan Madriz, nosso companheiro do SoB Costa Rica, apresenta uma análise sobre a longa guerra da Ucrânia, baseada nas categorias leninistas trotskistas  sobre as guerras imperialistas e intra burguesas. Conceitos fundamentais do socialismo revolucionário que no início do ataque imperialista russo foram lidos de forma parcial, muito aquém da formulação de Trotsky da revolução permanente gerando análises campistas, como as do PSTU e MPR, organizações que não compreendem a complexidade de um conflito que combina uma disputa interimperialista com um luta pela autodeterminação, sendo que essa última esta subordinada à primeira, assim, em vez de apostar no fim do conflito e na autodeterminação do povo ucraniano, têm como centro da sua politica o envio de armas (inclusive por países imperialistas) para a Ucrânia e voluntários para atuarem na guerra (em números de julho do Itamaraty, havia a contabilização de 35 brasileiros mortos e 92 desaparecidos). 

Políticas essas que são acompanhadas da defesa de “revolução democrática e de libertação nacional” contra a “contra-revolução russa”, ou seja, perdem o horizonte estratégico da revolução e transição socialista ao não apostar em políticas concretas, tais como o fim da guerra, a autodeterminação ucraniana e a auto-organização política dos trabalhadores. Ou seja,  erram na posição tática e nas bandeiras de transição. Nem falar aqui das posições stalinistas que estão no campo do imperialismo territorial-militar russo que classificaram a invasão como uma resposta defensiva legítima da Rússia contra o avanço agressivo da OTAN.

Esse tipo de análise não ajuda em nada na compreensão de todos os os elementos contraditórios presentes na atual situação, pois,  a guerra não é apenas um confronto entre exércitos, é uma gigantesca reorganização das relações sociais e portanto, como faz o autor, é necessário compreender o conflito em todas as suas dimensões:  a geopolítica, a econômica, a tecnológica e a social. 

De início constata-se que após mais de quatro anos de guerra, o conflito transformou-se em uma guerra prolongada de desgaste, que transformou as economias dos dois países em uma economia de guerra (acompanhada do rearmamentismo impulsonado por Trump na Europa Ocidental) com desenvolvimento tecnológico ascendente de seus armamentos onde drones, mísseis, inteligência artificial e sistemas não tripulados passaram a ter papel central.

Esse estado de coisas trouxe todas as contradições inerentes ao capital quando do uso da violência territorializada na imposição de seus projetos imperialistas: de um lado acelerou o número de mortes dos dois lados e de outro ampliou e modernizou a indústria armamentista gerando mais empregos e a inscrição de cada vez mais jovens nas listas do front, mas, com recursos desviados de áreas como saúde, educação, habitação, transporte e infraestrutura social, gerando no lado russo inflação, escassez de trabalhadores e dificuldades de abastecimento, especialmente de combustíveis. Na Ucrânia, a expansão da indústria de defesa ocorre paralelamente à destruição da economia civil e à necessidade gigantesca de reconstrução.

Na dimensão social aparecem as tensões existentes por trás do front. Na Ucrânia, protestos e conflitos políticos demonstram que a sociedade não foi completamente subordinada à lógica militar. A mobilização permanente também cria uma contradição: o Estado precisa de cada vez mais soldados, enquanto a economia necessita de trabalhadores. Na Rússia, a repressão política dificulta grandes mobilizações, mas as contradições aparecem no mercado de trabalho, nos preços, no abastecimento e no custo econômico e humano da guerra.

No entanto, ainda não existe uma ruptura social generalizada nem na Rússia nem na Ucrânia. As manifestações não significam necessariamente rejeição à guerra, mas demonstram que as sociedades continuam tendo necessidades e interesses próprios, que podem entrar em contradição com as exigências dos Estados em guerra, e que carregam em seu ventre como possibilidade, ainda fora do horizonte, uma crise política que leve a uma crise revolucionária que mova os dois povos contra suas direções burguesas a partir de uma  consciência e direção revolucionárias.

Boa leitura!

Por José Roberto Silva

A guerra da Ucrânia e as tensões por trás do front

Enquanto os governos mobilizam recursos para sustentar um confronto cada vez mais tecnológico e custoso, milhões de pessoas na Rússia e na Ucrânia continuam trabalhando, estudando, protestando e tentando manter sua vida cotidiana em condições extraordinárias.

Por Johan Madriz

Compreender essa dupla dimensão — a evolução militar e geopolítica do conflito, mas também as contradições que começam a emergir nas sociedades que a sustentam — ajuda a entender para onde pode evoluir uma guerra que continua sem oferecer um desfecho próximo.

Antes de entrar de cheio no tema, é importante deixar registrado o caráter complexo que esta guerra apresenta. Como assinalamos em uma declaração anterior, este conflito foi definido entre duas determinações. Por um lado, a invasão russa da Ucrânia constitui uma aberração contra os direitos de autodeterminação de um povo ucraniano; por outro, os imperialismos ocidentais tradicionais instrumentalizaram a justa luta nacional ucraniana em função de seus próprios interesses geopolíticos.

No meio disso, o grande perdedor é o povo ucraniano, que trava uma justa luta nacional conduzida por uma direção reacionária e pró-imperialista como a de Zelensky, ao mesmo tempo em que é bombardeado pelo imperialismo em reconstrução que a Rússia representa.

Diante do exposto, desde nossa corrente sustentávamos que 

“para sair deste labirinto, somente o povo ucraniano tem o direito de decidir sobre seu destino e ninguém mais. Defendemos seu direito à defesa. Condenamos a guerra interimperialista (…) A saída passa pela livre autodeterminação do povo ucraniano e pela luta pelas liberdades democráticas na Rússia, além de lutar contra a remilitarização europeia e por expulsar o quanto antes Trump do governo dos Estados Unidos (uma tarefa difícil, mas nem por isso menos urgente).”

Uma guerra que se prolonga e se transforma

Em um artigo anterior, assinalávamos que a guerra na Ucrânia entrou em uma etapa marcada pelo desgaste. A ofensiva russa não conseguiu uma vitória, mas tampouco uma derrota. O conflito se afastou da expectativa inicial de uma campanha breve e, pelo contrário, consolida-se como uma guerra prolongada, determinada cada vez mais pela capacidade de ambos os lados de repor tropas, produzir armamentos e sustentar economicamente o enorme esforço militar.

Os acontecimentos posteriores seguem, em boa medida, essa tendência. A Rússia conserva a iniciativa em vários setores do front e conseguiu avanços territoriais mínimos, especialmente em Donetsk e Kharkiv, mas em um ritmo lento e com custos humanos e materiais elevados. A Ucrânia, por sua vez, conseguiu sustentar suas linhas defensivas por meio de adaptações táticas, drones e do essencial apoio europeu. O resultado é uma situação de equilíbrio instável, na qual Moscou mantém a pressão militar, mas não consegue convertê-la em uma vitória, enquanto Kiev resiste, mas também não consegue modificar a correlação de forças.

Durante os últimos meses, a guerra se estendeu ainda mais para o interior de ambos os territórios. A Rússia intensificou os ataques com drones Shahed e mísseis contra cidades e infraestrutura energética ucraniana, enquanto a Ucrânia ampliou suas operações de longo alcance contra refinarias, aeródromos, depósitos, instalações militares e outros alvos situados a centenas de quilômetros dentro da Rússia. A distância entre o front e a retaguarda tornou-se cada vez menos significativa, ao mesmo tempo em que drones, inteligência artificial e sistemas não tripulados modificaram as formas de combater.

Essa transformação militar ocorre juntamente com outra: a subordinação de suas economias às necessidades da guerra. A Rússia converteu boa parte de sua indústria para esse objetivo e elevou os gastos militares; a Ucrânia expandiu sua produção de drones e outros sistemas de defesa, mas continua dependendo da assistência financeira e militar ocidental; enquanto os Estados Unidos e os membros da OTAN aceleraram seus próprios processos de rearmamento.

Enquanto os Estados mobilizam recursos, exércitos e indústrias para sustentar a guerra, as sociedades continuam vivendo. Milhões de pessoas seguem trabalhando, estudando, deslocando-se, consumindo e tentando manter certa normalidade em meio a uma situação excepcional que já dura mais de quatro anos. Essa normalidade é diferente em cada parte. Na Ucrânia, é atravessada por ataques, apagões, destruição e mobilização; na Rússia, pelo aumento dos gastos militares, pela escassez de mão de obra, pela inflação, pelas consequências dos ataques à infraestrutura energética e pelo recrutamento permanente de novos efetivos.

É precisamente nesse terreno que começam a aparecer sinais de desgaste social e político. Os protestos na Ucrânia em torno da destituição de Mykhailo Fedorov, as discussões sobre a mobilização, as dificuldades econômicas na Rússia, os problemas de abastecimento de combustível e o peso da guerra sobre o mercado de trabalho mostram que o conflito não pode ser compreendido unicamente a partir das decisões de Putin, Zelensky, Trump ou dos altos comandos militares. Por baixo dessas estruturas existe uma vida social que continua, adapta-se, suporta os custos da guerra e, também, começa a expressar suas próprias inquietações.

Essa guerra de desgaste, portanto, não é somente uma guerra de trincheiras; é também uma disputa pela capacidade de sustentar economicamente o conflito, uma corrida tecnológica, um confronto geopolítico entre blocos imperialistas e um processo que modifica as condições de vida de milhões de pessoas. Seu desenvolvimento exige observar simultaneamente esses níveis: o movimento do front, a produção militar e as relações internacionais, mas também aquilo que ocorre por baixo, nas sociedades que sustentam materialmente uma guerra cujo desfecho continua sendo incerto.

Um front que se move, mas não se rompe

Durante as últimas semanas, a Rússia manteve a iniciativa e continuou pressionando as posições ucranianas, mas os avanços são graduais e territorialmente limitados. O dado mais significativo é precisamente a distância entre o volume de recursos empregados e a magnitude dos resultados obtidos. O balanço da última semana de junho registrou um ganho russo de aproximadamente 21 quilômetros quadrados de território ucraniano, depois de outros 16 quilômetros na semana anterior. São avanços reais, mas extremamente reduzidos para uma ofensiva que exige enormes quantidades de efetivos e munições.

O principal cenário continua sendo o Donbass, onde as forças russas buscam o controle sobre a região de Donetsk e avançar em direção a posições que permitam pressionar o dispositivo defensivo ucraniano a partir de diferentes eixos. Pokrovsk continua sendo um dos objetivos mais importantes por seu valor logístico e sua posição dentro da rede de comunicações ucraniana. Sua conquista permitiria à Rússia melhorar suas possibilidades de pressão sobre outros núcleos urbanos de Donetsk. No entanto, o problema para Moscou continua sendo transformar os avanços ao redor dessas localidades em um golpe capaz de desorganizar o sistema defensivo ucraniano.

A situação se repete em outros setores. Por exemplo, no nordeste, a Rússia mantém pressão sobre o eixo de Kharkiv, enquanto no sul as operações se desenvolvem em um cenário no qual as forças ucranianas também conseguiram realizar ações ofensivas locais. Algumas análises apontam que as operações ucranianas no eixo de Oleksandrivka, no sul de Donetsk e na zona limítrofe com Zaporizhzhia, interferiram nos planos russos para desenvolver sua ofensiva de primavera-verão. Em outras palavras, Kiev não recuperou a iniciativa geral, mas também não se limitou a esperar passivamente os ataques russos.

Isso permite matizar a imagem de uma ofensiva russa incontível. A Rússia conserva uma vantagem importante em capacidade de mobilização, artilharia, aviação e produção militar, mas seus avanços continuam dependendo de operações lentas e custosas. Relatórios do início de julho consideram que a ofensiva russa não conseguiu produzir ganhos operacionalmente significativos. Mais recentemente, os boletins dos dias 25 e 27 de julho registraram jornadas nas quais nenhum dos dois lados conseguiu avanços territoriais confirmados, uma demonstração da natureza altamente posicional do conflito.

A intensidade dos combates continua elevada e se desenvolve por meio de uma combinação de artilharia, bombas planadoras, drones FPV, reconhecimento aéreo e pequenas unidades de infantaria. A presença de drones dificulta que qualquer um dos dois exércitos concentre grandes quantidades de tropas e veículos sem ser detectado. Isso favorece uma guerra fragmentada, na qual pequenos avanços podem exigir semanas de operações e onde uma posição conquistada não necessariamente permite penetrar rapidamente nas linhas defensivas.

O segundo grande componente da ofensiva russa encontra-se fora do front terrestre. Moscou intensificou durante julho os ataques de longo alcance contra a Ucrânia por meio de grandes ondas de drones e mísseis. Na noite de 1º para 2 de julho, por exemplo, empregou um míssil balístico Iskander-M, um míssil guiado Kh-59 e 151 drones, enquanto outros ataques posteriores voltaram a combinar grandes quantidades de drones com mísseis balísticos e de cruzeiro.

A dimensão desses ataques é importante porque mostra que a Rússia tenta compensar a lentidão do avanço terrestre por meio de uma pressão constante sobre o interior ucraniano. Os alvos incluem infraestrutura energética, instalações industriais, depósitos logísticos e centros urbanos. A campanha busca degradar a capacidade da Ucrânia de produzir e transportar recursos militares, mas também obrigar Kiev a gastar a maior quantidade possível de interceptores antiaéreos. Segundo estimativas, a Rússia pode produzir entre 60 e 65 mísseis Iskander por mês, o que ajuda a explicar a preocupação ucraniana com a manutenção das defesas contra mísseis balísticos.

Em 19 de julho ocorreu um dos episódios mais importantes dessa escalada. A Rússia lançou uma enorme onda de drones e mísseis contra diferentes pontos da Ucrânia, em uma campanha que atingiu Kiev e outras regiões. O volume de projéteis demonstrou novamente que o objetivo consiste em manter sob pressão todo o sistema defensivo e produtivo ucraniano. A consequência é uma guerra na qual o conceito de «front» torna-se cada vez menos preciso. Uma pessoa pode estar a centenas de quilômetros de Donetsk e, ainda assim, experimentar diretamente os efeitos da guerra por meio de ataques aéreos.

Mas a mesma transformação ocorre no sentido contrário. A Ucrânia ampliou significativamente seus ataques dentro do território russo, particularmente contra instalações vinculadas à energia e à logística militar. Durante julho, ocorreram ataques contra refinarias, depósitos de combustível, instalações militares e rotas utilizadas para abastecer as forças russas. Em 9 e 10 de julho, por exemplo, as forças ucranianas intensificaram seus ataques de longo alcance contra a infraestrutura energética russa, enquanto Moscou lançou 137 drones contra a Ucrânia.

Um dos principais objetivos é a indústria energética russa, porque o combustível é um recurso indispensável tanto para a economia civil quanto para as forças armadas. A Ucrânia tenta transformar seus drones de longo alcance em uma ferramenta para interromper as cadeias de produção e transporte de combustível, obrigando a Rússia a investir mais recursos em defesa aérea e reparação de instalações. Paralelamente, Kiev intensificou seus ataques contra as rotas marítimas e logísticas destinadas a abastecer a Crimeia. Foram registrados ataques contra navios-tanque vinculados a essas cadeias de abastecimento.

A escala da campanha ucraniana chegou também até Moscou. No início de julho, as autoridades russas informaram uma operação na qual foram interceptados 452 drones ucranianos sobre diferentes regiões da Rússia e da Crimeia, enquanto Moscou voltou a experimentar interrupções relacionadas a ataques contra infraestrutura energética. Mais do que demonstrar uma capacidade ucraniana de paralisar a Rússia — algo que ainda está longe de ocorrer —, essas operações evidenciam que Kiev conseguiu transformar a retaguarda territorial russa em um novo espaço de combate.

Essa dinâmica produz um paradoxo. Os dois exércitos podem infligir danos importantes sem conseguir quebrar a capacidade de combate do adversário. Daí que a guerra de desgaste se aprofunde e cada lado tente compensar suas limitações no front utilizando as vantagens que conserva em outros âmbitos.

Por isso, o balanço militar de meados do ano não permite falar nem de uma vitória russa próxima nem de uma recuperação ucraniana. A Rússia continua tendo a capacidade ofensiva necessária para manter a pressão e conquistar pequenas quantidades de território, mas em um ritmo que não corresponde ao seu custo. A Ucrânia conseguiu estabilizar o front e aumentar seus ataques, mas continua enfrentando restrições de pessoal, munições e defesa aérea.

Isso é fundamental para entender o restante do conflito. Quanto mais difícil se torna conseguir uma vitória rápida por meio de operações terrestres, maior importância adquirem os drones, os ataques à infraestrutura, a produção industrial, o abastecimento energético e a capacidade econômica de cada Estado. O front continua sendo o lugar onde se mede diretamente a correlação de forças, mas depende cada vez mais do que ocorre centenas de quilômetros atrás dela. A guerra de trincheiras se mantém; o que mudou foi tudo aquilo que a sustenta.

As tensões por trás do front

A extensão temporal da guerra começa a produzir efeitos que não aparecem nos mapas militares. Depois de anos de invasão, tanto a Ucrânia quanto a Rússia continuam sustentando seus respectivos esforços bélicos, mas, por baixo disso, surgem sinais de desgaste, conflitos políticos e tensões econômicas. Não se trata ainda de rupturas sociais capazes de colocar em perigo a continuidade de nenhum dos dois governos, nem seria correto apresentar alguns protestos ou dificuldades econômicas como se expressassem uma rejeição generalizada à guerra. O fenômeno é mais complexo: a vida civil continua e, precisamente por isso, começam a aparecer conflitos entre as necessidades das sociedades e as exigências da guerra.

Na Ucrânia, essa tensão se expressou recentemente de forma parcial com as mobilizações contra a destituição de Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa e uma das figuras vinculadas ao desenvolvimento da indústria de drones e à modernização tecnológica das forças armadas. Milhares de pessoas saíram às ruas de Kiev, Kharkiv, Sumy e outras cidades para questionar a decisão de Zelensky. Os protestos se estenderam durante vários dias e sua relevância se deve ao fato de terem ocorrido em plena guerra e em torno de uma questão vinculada à condução militar do país.

Fedorov representava um setor que apoia a modernização militar baseada na incorporação de tecnologia, drones e empresas privadas ao aparato de defesa. Sua saída colocou a descoberto diferenças dentro do alto comando sobre como conduzir uma guerra que se prolonga muito além do esperado. O conflito entre Fedorov e outros setores do comando militar, especialmente em torno da figura do comandante Oleksandr Syrski, mostrou as tensões que também se encontram dentro das estruturas encarregadas de manter a guerra.

As mobilizações, portanto, não podem ser separadas do problema da mobilização militar. Quanto mais a guerra se prolonga, maior é a dificuldade para manter um fluxo constante de soldados sem gerar tensões na sociedade. A Ucrânia precisa repor as baixas e manter suas unidades mobilizadas, enquanto uma parcela importante de sua população em idade ativa permanece vinculada ao exército. A guerra produz uma situação difícil de resolver: são necessárias cada vez mais pessoas para combater, enquanto a economia civil precisa de trabalhadores para continuar funcionando.

Isso ajuda a explicar por que os protestos em torno de Fedorov vão além da disputa ministerial. Existe uma discordância sobre quem deve ocupar um cargo, mas também uma discussão sobre que tipo de aparato militar e de economia pode sustentar a Ucrânia durante os próximos anos. A expansão da indústria de defesa gera novos investimentos e empregos, especialmente em torno de drones e tecnologias militares, mas simultaneamente concentra recursos em setores vinculados à guerra, enquanto as necessidades sociais continuam crescendo. A questão sobre quem administra a defesa transforma-se, portanto, em uma questão sobre quem decide o destino de boa parte dos recursos da sociedade.

Já em 2025, os protestos contra o enfraquecimento das instituições anticorrupção mostraram que a guerra não eliminou a capacidade de mobilização da população civil. Essas manifestações foram importantes porque apontaram que setores da sociedade estavam dispostos a enfrentar o governo mesmo sob condições de guerra. A subordinação da vida política à defesa nacional tem limites. A população pode apoiar a resistência contra a Rússia e, ao mesmo tempo, questionar as decisões do governo. 

Na Rússia, as tensões são diferentes. A estrutura política muito mais autoritária e a repressão da oposição dificultam que o descontentamento social se transforme em grandes mobilizações. Por isso, seria incorreto buscar ali um equivalente direto aos protestos ucranianos. As contradições aparecem de maneira mais fragmentada, no mercado de trabalho, nos preços, nas condições de abastecimento e no custo de sustentar a mobilização militar.

A expansão da produção militar absorveu uma quantidade crescente de trabalhadores e recursos, enquanto os ataques ucranianos contra refinarias começaram a repercutir sobre o mercado interno de combustíveis. Durante julho, Moscou manteve e ampliou as restrições às exportações de derivados de petróleo para garantir o abastecimento doméstico. As autoridades também impuseram restrições sobre o diesel após os ataques contra instalações de refino.

Uma ação militar realizada a centenas de quilômetros do front acaba convertida em um problema cotidiano. O ataque contra uma refinaria reduz a disponibilidade de combustível, eleva os custos de transporte e pressiona os preços dos bens básicos. De acordo com informações recentes, uma parte considerável da capacidade de refino russa foi afetada pelos ataques, obrigando o governo a tomar medidas para proteger o mercado interno.

A economia de guerra gera, além disso, um problema trabalhista. A Rússia conseguiu reduzir o desemprego a níveis historicamente baixos, mas isso não significa que o bem-estar social tenha aumentado proporcionalmente. O complexo militar-industrial absorve trabalhadores, enquanto os setores civis enfrentam dificuldades para encontrar mão de obra. O resultado é uma economia na qual determinados trabalhadores vinculados à produção militar podem ter acesso a salários e benefícios superiores, enquanto outros setores sofrem com escassez de pessoal, inflação e pressão sobre o custo de vida. A expansão militar, portanto, gera crescimento econômico sem que este se traduza em melhores condições de vida.

O Kremlin conseguiu evitar até agora uma mobilização geral comparável à realizada em 2022, recorrendo em boa medida ao recrutamento contratual e a grandes incentivos econômicos. Mas a necessidade de manter um exército numeroso durante uma guerra prolongada persiste. Nesse contexto, deve ser interpretada a cooperação militar com a Coreia do Norte. Volodymyr Zelensky afirmou recentemente que a Rússia solicitou a Pyongyang outros 30.000 soldados e que, desde junho, estavam sendo preparadas instalações para recebê-los na região russa de Voronezh. A informação é, por enquanto, uma denúncia do governo ucraniano e não uma confirmação de que esse contingente será efetivamente enviado.

Além do número concreto, a duração da guerra aumenta a necessidade de combatentes, enquanto a Rússia tenta evitar os custos políticos de uma nova mobilização em massa de sua própria população. Isso mostra até que ponto a guerra exige recursos humanos que os Estados buscam obter por meio de diferentes mecanismos, desde incentivos econômicos e recrutamento local até acordos com governos estrangeiros.

Isso permite observar uma diferença importante entre Rússia e Ucrânia. Na Ucrânia, a guerra está territorialmente presente para uma enorme parcela da população, com ataques aéreos, destruição de infraestrutura, deslocamentos, mobilização e perda de familiares. Na Rússia, por outro lado, boa parte da população pode manter uma existência relativamente normal e distante dos combates, especialmente nas grandes cidades afastadas da fronteira.

Apesar disso, as duas sociedades desenvolveram mecanismos de adaptação e resistência, mas também vivenciam situações diferentes. Na Ucrânia, o cansaço aparece mais diretamente vinculado à destruição, à mobilização e à duração da guerra. Na Rússia, a distância territorial em relação ao front e permite uma normalidade muito maior, mas o custo econômico e humano é distribuído de maneira diferente entre regiões e classes sociais.

Também existe uma dimensão de classe nessa diferença, por exemplo, nas possibilidades de escapar dos efeitos da guerra. Quem possui recursos econômicos, contatos ou uma profissão com alta demanda dispõe de maiores possibilidades de proteger suas condições de vida. Em contrapartida, os trabalhadores de regiões pobres, as famílias dependentes de rendimentos militares e os setores com menor capacidade de mobilidade suportam uma parcela maior do custo da mobilização. A guerra pode ser apresentada oficialmente como um esforço nacional compartilhado, mas seus custos concretos são distribuídos de forma desigual.

Na Ucrânia ocorre algo semelhante, embora sob condições muito mais dramáticas devido à invasão e à destruição. A expansão da economia de defesa abre oportunidades para determinados setores empresariais e tecnológicos, enquanto milhões de pessoas enfrentam deslocamentos, destruição de moradias, perda de familiares ou incerteza sobre seu futuro. Daí a importância política dos protestos: eles mostram que a sociedade não ficou completamente absorvida pela lógica da guerra.

Nesse sentido, as «rupturas» sociais que aparecem por trás do front não devem ser confundidas com uma ruptura generalizada da sociedade. Ainda não existe uma rebelião social contra a guerra nem na Rússia nem na Ucrânia. O que existe são fissuras parciais: protestos, conflitos entre instituições, problemas de mobilização, tensões trabalhistas, dificuldades econômicas, reivindicações de familiares e questionamentos sobre o destino dos recursos públicos. São fenômenos ainda fragmentários, mas adquirem importância porque surgem depois de anos de guerra e podem se ampliar se o conflito continuar sem uma saída.

Além disso, no caso da Ucrânia, o conflito assume uma dimensão particular porque se trata de uma guerra para reafirmar seu direito à autodeterminação nacional, que Putin questiona política e militarmente em nome do avanço de seu projeto de imperialismo em reconstrução.

A principal contradição começa a ser, então, a distância entre as necessidades dos Estados em guerra e as necessidades das sociedades que devem sustentá-los. A Rússia precisa de soldados, combustível, trabalhadores e recursos para manter sua ofensiva; a Ucrânia precisa de soldados, armas, energia e financiamento para sustentar sua defesa. Mas as sociedades também precisam de salários, moradias, escolas, hospitais, transporte e condições de vida previsíveis. Quanto mais tempo a guerra permanece aberta, mais difícil se torna manter separadas essas duas necessidades.

Por isso, os sinais de cansaço social não constituem um fenômeno secundário diante do movimento dos exércitos. Eles fazem parte do próprio desenvolvimento da guerra. Os Estados podem continuar produzindo armas e enviando tropas durante anos, mas precisam de sociedades capazes de sustentar materialmente esse esforço. E precisamente ali, por trás das linhas do front, começam a se acumular contradições que nenhum mapa militar pode mostrar.

A economia se transforma para sustentar a guerra

A Rússia, a Ucrânia e, de maneira diferente, as potências ocidentais começaram, há alguns anos, a reorganizar partes importantes de suas economias em torno das necessidades da guerra. A produção de munições, drones, mísseis, sistemas eletrônicos e defesa antiaérea passou a ocupar um lugar cada vez mais importante na política industrial, no orçamento público e nas relações entre o Estado e as empresas. A guerra, nesse sentido, também se tornou uma competição para determinar quem pode sustentar por mais tempo uma economia militarizada.

Na Rússia, esse processo é evidente: o governo aumentou a produção de armamentos e direcionou uma parcela significativa da indústria para o abastecimento das forças armadas. Fábricas que anteriormente produziam para o mercado civil foram incorporadas direta ou indiretamente às cadeias de fornecimento militar, enquanto as empresas vinculadas à defesa recebem grandes contratos estatais. A economia pode manter níveis importantes de atividade e emprego graças aos gastos militares, mas essa expansão está cada vez mais vinculada a uma demanda estatal que não responde às necessidades ordinárias de consumo da população.

O financiamento dessa máquina depende, em boa medida, das receitas energéticas. As receitas russas provenientes do petróleo e do gás foram estimadas em 4,9 trilhões de rublos no período de janeiro a julho, ainda 11% abaixo do mesmo período de 2025. Para o conjunto do ano, o governo projeta receitas de 8,92 trilhões de rublos, equivalentes aproximadamente a um quinto das receitas orçamentárias. A recuperação dos preços internacionais do petróleo permitiu melhorar temporariamente as receitas durante julho, mas não eliminou as pressões fiscais geradas pelos gastos militares.

Essa dependência energética também permite observar como a guerra começa a afetar diretamente a vida cotidiana russa. Os ataques ucranianos contra refinarias reduziram a capacidade de processamento de combustíveis e obrigaram o governo a prorrogar até o final do ano a proibição de exportar gasolina para tentar garantir o abastecimento interno. Em diferentes regiões surgem problemas de abastecimento e longas filas nos postos de gasolina. Um país que dispõe de enormes reservas de petróleo enfrenta dificuldades para garantir combustível em seu próprio mercado.

A reorganização econômica também produz efeitos sobre o trabalho. A indústria militar absorve trabalhadores, eleva a demanda por determinadas profissões e oferece salários e incentivos importantes para atrair pessoal. Mas essa mesma demanda reduz a disponibilidade de mão de obra para os setores civis. O resultado é uma economia com pouquíssimo desemprego, mas com desequilíbrios entre os ramos produtivos. O crescimento impulsionado pelos gastos militares não equivale necessariamente a uma melhoria geral das condições de vida; pode coexistir com inflação, escassez de mão de obra e dificuldades para produzir bens e serviços destinados ao consumo civil.

Na Ucrânia, a destruição da infraestrutura, a perda de territórios, o deslocamento de milhões de pessoas e a mobilização militar reduziram as capacidades da economia civil. Ao mesmo tempo, o país construiu uma indústria de defesa cada vez mais importante para compensar sua inferioridade armamentista diante da Rússia. A fabricação de drones é o exemplo mais destacado. A Ucrânia se encaminha para produzir entre 6 e 7 milhões de pequenos drones FPV durante 2026, aproximadamente 500.000 por mês, uma escala que inclusive supera amplamente a atual capacidade de produção dos Estados Unidos.

A guerra produziu um processo de inovação industrial próprio, com empresas de tecnologia, engenheiros e fabricantes que desenvolveram sistemas adaptados especificamente às condições do campo de batalha. Mas a autonomia é relativa: Kiev continua dependendo dos Estados Unidos e da Europa para sistemas de defesa aérea, munições, inteligência, financiamento e tecnologias mais sofisticadas. A recente aproximação entre Zelensky e Trump, que incluiu conversas sobre a produção de interceptores Patriot em território ucraniano e o intercâmbio de tecnologia de drones, mostra como a indústria militar ucraniana se integra progressivamente às indústrias da OTAN.

Essa integração implica, por um lado, que a economia de defesa representa uma das poucas áreas em que a Ucrânia consegue gerar investimento, emprego e desenvolvimento tecnológico em meio à destruição. Por outro lado, significa que uma parcela de seus recursos e capacidades produtivas é direcionada para a guerra enquanto as necessidades civis continuam sendo enormes. A reconstrução de moradias, hospitais, escolas, infraestrutura energética e transporte compete por recursos com uma indústria militar que precisa produzir continuamente novas armas.

A Europa está construindo sua própria economia de rearmamento. A União Europeia colocou em funcionamento o instrumento SAFE, dotado de 150 bilhões de euros em empréstimos, para financiar compras conjuntas de munições, mísseis, defesa aérea e sistemas terrestres produzidos dentro da Europa. O programa faz parte do ReArm Europe/Readiness 2030, que pretende mobilizar mais de 800 bilhões de euros em investimentos em defesa. A Polônia, por exemplo, recebeu em maio um primeiro desembolso de 6,6 bilhões de euros, dentro de uma alocação total de 43,7 bilhões.

A transformação industrial europeia também é visível na fabricação de munições. O Programa Europeu da Indústria de Defesa destinou 1,5 bilhão de euros ao seu programa de trabalho de 2026, com mais de 700 milhões direcionados ao aumento da produção de componentes, mísseis, munições e sistemas antidrones. Em junho, a Comissão Europeia informou, além disso, sobre 83 propostas empresariais para ampliar a produção de componentes energéticos destinados a munições; os projetos selecionados contarão com mais de 165 milhões de euros em financiamento e poderão mobilizar até 470 milhões, incluindo investimento privado.

Os Estados Unidos passam por um processo semelhante. A guerra na Ucrânia, combinada com outros conflitos, reduziu os estoques de munições e mísseis do Pentágono e gerou uma nova onda de encomendas para a indústria militar. A Lockheed Martin e a RTX elevaram suas previsões financeiras para 2026. A carteira de pedidos da Lockheed chegou a 230,4 bilhões de dólares, enquanto a da RTX alcançou 289 bilhões. A divisão de mísseis e controle de fogo da Lockheed aumentou suas receitas em 20% na comparação anual, impulsionada pela produção de interceptores PAC-3 e outros sistemas.

A destruição causada pela guerra gera simultaneamente um enorme mercado para a indústria militar. Os Estados destinam recursos públicos para atualizar arsenais, ampliar fábricas e desenvolver novas tecnologias; as empresas privadas recebem contratos bilionários; e a indústria armamentista comemora perspectivas de crescimento a longo prazo. A guerra não apenas destrói riqueza, mas também acomoda os circuitos de acumulação de capital e cria novas oportunidades de lucro em torno da produção militar.

Isso permite compreender por que a sustentação da guerra implica uma reorientação das prioridades econômicas. O Estado determina quais indústrias recebem crédito, contratos, subsídios e investimentos; as empresas adaptam suas cadeias produtivas; os trabalhadores são deslocados para esses setores; e os orçamentos públicos destinam quantidades crescentes de recursos à defesa. Na Europa, a própria Comissão reconhece que o aumento dos gastos militares já constitui uma dimensão importante da política macroeconômica do bloco.

Os gastos militares estimulam a produção, reduzem o desemprego e geram novas tecnologias, mas também implicam que recursos que poderiam ser destinados à habitação, saúde, educação, transporte ou infraestrutura social sejam direcionados para fins militares. No caso europeu, a Comissão calculou que um aumento sustentado dos gastos em defesa equivalente a até 1,5% do PIB poderia elevar o PIB real em relação ao cenário-base, mas também aumentar a dívida pública. A questão não é se os gastos militares «fazem a economia crescer», mas o que é produzido, quem recebe os benefícios e quem acaba pagando a conta.

A experiência russa mostra o mesmo problema por outro ângulo. Uma economia pode crescer enquanto as condições da vida civil se deterioram, porque a produção de um míssil, um drone ou um veículo blindado conta como atividade econômica, embora não melhore diretamente o bem-estar da população. O crescimento da economia de guerra é compatível com uma sociedade submetida a maiores restrições fiscais e com uma redistribuição de recursos para os setores vinculados ao complexo militar-industrial.

Os governos justificam a militarização em nome da segurança, mas as sociedades devem assumir seus custos materiais. Na Ucrânia, isso significa reconstruir uma economia devastada enquanto se continua produzindo armamentos; na Rússia, significa sustentar uma indústria militar gigantesca enquanto aumentam as pressões sobre o mercado civil; e na Europa e nos Estados Unidos, significa financiar uma nova corrida armamentista enquanto se reduz o investimento social e se atacam conquistas e direitos.

Sociedades sob pressão

O conflito entrou em uma etapa de desgaste na qual nenhuma das partes parece capaz de obter uma vitória rápida. A Rússia mantém a iniciativa no front e continua exercendo uma forte pressão militar, mas não consegue transformar seus avanços territoriais em vitórias decisivas. A Ucrânia, por sua vez, conseguiu estabilizar suas linhas defensivas graças à adaptação tecnológica e ao respaldo ocidental, embora também não disponha dos recursos necessários para recuperar a iniciativa por meio de uma grande contraofensiva. O resultado continua sendo uma guerra prolongada cujo desfecho permanece em aberto.

No entanto, o conflito não pode ser compreendido unicamente como um enfrentamento entre exércitos, mas como um processo que atravessa as sociedades. A guerra se desenvolve simultaneamente nas fábricas de armamentos, na produção tecnológica, nas redes energéticas, nos orçamentos estatais e na capacidade das economias de sustentar um esforço militar prolongado. Os ataques à infraestrutura, as tensões no abastecimento energético, o crescimento do complexo militar-industrial, o rearmamento europeu e a integração da Ucrânia aos circuitos produtivos ocidentais mostram que o confronto adquiriu uma profundidade que excede o puramente militar.

Mas é precisamente nesse nível que emerge o elemento frequentemente menos visível, isto é, as sociedades vivas sob condições de pressão extrema. Longe de serem meros suportes passivos das decisões estatais, as populações envolvidas continuam reproduzindo a vida social em meio à guerra. Trabalham, migram, protestam, adaptam-se, resistem e, em muitos casos, expressam formas de desgaste acumulado que não se traduzem automaticamente em explosões políticas, mas que dão conta de um pano de fundo de tensões crescentes. A vida cotidiana não desaparece; organiza-se sob novas restrições e, nesse processo, acumulam-se contradições que atravessam tanto a Ucrânia quanto a Rússia.

Esse cenário expressa o aprofundamento da rivalidade entre blocos em uma fase de militarização. A Rússia busca abrir caminho como um imperialismo em reconstrução por meio da força militar, enquanto os Estados Unidos e a OTAN utilizam o conflito para conter sua influência, impor sua hegemonia e acelerar um processo de rearmamento que dinamiza sua economia. No entanto, para além dessas estratégias estatais, o que se observa é que a guerra se sustenta sobre sociedades que não são homogêneas nem estáticas, mas atravessadas por tensões de classe, desigualdades e formas diversas de adaptação. No caso da Ucrânia, além disso, a população demonstra uma vontade de lutar por seu direito à autodeterminação nacional, embora militarmente seu adversário seja mais poderoso.

Nesse sentido, a experiência histórica oferece um ponto de referência sugestivo. As grandes crises bélicas do passado, incluindo aquelas que precederam a Revolução Russa, mostraram como o esgotamento social e o cansaço diante da guerra podiam se transformar em um fator de ruptura política. A Primeira Guerra Mundial mostrou que até mesmo os conflitos mais devastadores podem modificar a relação entre as sociedades e os Estados que os impulsionam.

Evidentemente, esse antecedente não deve ser transposto mecanicamente para o presente. A Rússia de 1917 estava atravessada por uma crise revolucionária, com sovietes, greves em massa, motins no exército e uma classe trabalhadora organizada que disputava o poder com o Estado. Atualmente não existe uma situação comparável nem na Rússia nem na Ucrânia. Mas a experiência histórica conserva um ensinamento de fundo: as guerras prolongadas não apenas transformam os equilíbrios militares e geopolíticos, como também podem corroer a legitimidade dos governos, aprofundar as contradições sociais e abrir processos políticos inesperados. Isso nos lembra que a duração de um conflito não depende exclusivamente da capacidade dos Estados de produzir armas ou mobilizar tropas, mas também da disposição das sociedades de continuar suportando os enormes custos humanos e materiais que a guerra impõe sobre a classe trabalhadora.

Hoje não se observam dinâmicas nesse sentido, mas sim uma sucessão de tensões, fragmentações e formas dispersas de descontentamento social que ainda não se cristalizam em uma direção definida. O que se procura ilustrar não é a ideia de uma repetição histórica, mas a de uma potencialidade latente, a capacidade das sociedades de transformar sua relação com a guerra caso as condições de desgaste se aprofundem ou se prolonguem ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, a experiência desses anos confirma que a guerra não pode ser sustentada unicamente pelo aparato militar ou tecnológico. Por trás de cada sistema de armas, de cada ofensiva ou de cada estratégia de defesa, existe uma estrutura social que produz, reproduz e suporta o esforço bélico. Essa base social não é inerte: adapta-se, mas também se esgota; resiste, mas também acumula tensões; sustenta a guerra, mas, ao mesmo tempo, é transformada por ela.

Quatro anos e meio depois do início da invasão, a guerra não apresenta sinais de uma resolução próxima. A competição militar, industrial e tecnológica continuará marcando sua evolução, enquanto a militarização se consolida como um traço do novo mundo que está surgindo. No entanto, sob essa superfície, persiste um processo menos visível, mas fundamental: o de sociedades que continuam vivendo, trabalhando e se tensionando sob o peso da guerra. É nesse nível que se joga não apenas a duração do conflito, mas também suas possíveis transformações futuras, não como uma repetição do passado, mas como uma potencialidade aberta que depende do desenvolvimento concreto dessas sociedades sob pressão.