Por CORRENTE INTERNACIONAL SOCIALISMO OU BARBÁRIE
Declaração preparada por Federico Dertaube sobre o acordo entre Estados Unidos e Irã, e a derrota do trumpismo.
O acordo alcançado por Washington com o regime dos aiatolás é, provavelmente, o principal freio à ofensiva trumpista lançada quando Trump assumiu seu segundo mandato, no início de 2025 (tarifas, ameaças de ocupação da Groenlândia e do Panamá, etc.). Seus resultados foram mistos, mas em nenhum outro caso Trump havia se envolvido colocando literalmente sangue em jogo (embora, no Irã, isso tenha ocorrido em pequenas doses).
Não chega a ser um golpe estratégico para o próprio imperialismo estadunidense, mas é um sintoma de seu enfraquecimento e um revés para o projeto trumpista de resolver sua crise de hegemonia. Não é preciso se impressionar nem considerá-lo derrotado, mas o mundo inteiro está assistindo ao espetáculo da derrota de Trump.
Em janeiro, ele quis iniciar seu segundo ano de mandato com uma ofensiva ampliada. O primeiro golpe foi desferido na Venezuela, de onde saiu vitorioso em uma operação muito mais fácil e não sangrenta do que o esperado. O segundo foi desferido no Irã, inaugurando essa guerra no já distante 28 de fevereiro, seguindo os passos de Netanyahu. Paralelamente, a rebelião de Minneapolis também conteve seu avanço dentro das fronteiras dos Estados Unidos. Até agora, ele não conseguiu sitiar nenhuma outra cidade. É nessas condições, com o povo estadunidense majoritariamente enfurecido com seu governo, que terá de enfrentar as eleições de meio de mandato de 3 de novembro.
Uma guerra desigual
Quando ocorreram as agressões sionistas contra o Irã em 2024, com a proteção do imperialismo tradicional, explicamos qual deveria ser a posição do marxismo revolucionário nesse tipo de guerra entre países imperialistas, ou peões do imperialismo, e países independentes: “A Corrente Socialismo ou Barbárie se posiciona criticamente ao lado do Irã neste conflito, apesar de seu regime ultrarreacionário. O governo sionista de Israel representa um Estado colonizador, racista e genocida (além de agente do imperialismo), que vem perpetrando um brutal genocídio contra o povo palestino.”
Nossa corrente se colocou ao lado do país oprimido.
A guerra iniciada em fevereiro deste ano foi lançada pelo imperialismo ianque e pelo sionismo em meio à crise do regime iraniano, provocada pelas mobilizações de massa que sacudiam o país. A agressão externa inibiu e paralisou o protesto popular, como era de se esperar, e retirou temporariamente das mãos do povo iraniano a possibilidade de lutar por sua própria emancipação.
Triunfo do Irã e derrota de Trump
É o Irã que acaba de sair vitorioso, derrotando a agressão imperialista e colonial. Os pontos do acordo por 60 dias incluem, a princípio, a reabertura do Estreito de Ormuz, que já estava aberto antes de a primeira bomba cair sobre o solo persa. Tudo isso em troca de vagas negociações futuras sobre o programa nuclear iraniano e o urânio enriquecido. Enquanto isso, foi acertada uma compensação econômica ao Irã, por parte dos Estados Unidos e de seus aliados, no valor de 300 bilhões de dólares, o que vem provocando a ira de um número cada vez maior de vozes dentro do Partido Republicano.
Os fatos são categóricos: Trump foi derrotado, ao menos por enquanto. A esmagadora força militar, evidentemente, não é suficiente para vencer uma guerra. A guerra é a continuação da política por outros meios, mas nem a política nem seus meios desaparecem quando as balas começam a zunir. Trump não apenas entrou na guerra seguindo Netanyahu, como também mudou inúmeras vezes os objetivos políticos que havia proposto. Assim não se vence guerra alguma, como lhe disse desde o início quase toda a imprensa imperialista.
Trump elaborou sua “estratégia” partindo da perspectiva de que o regime iraniano poderia desmoronar como um castelo de cartas, como havia acontecido em Caracas. Mas o erro de cálculo foi enorme: os aiatolás demonstraram ter capacidade para se sustentar diante desse ataque. Assim, para alcançar seu primeiro objetivo, substituir ou subordinar o regime político iraniano, Trump teria de colocar em jogo forças militares muito maiores, como uma intervenção territorial direta, com tropas. Isso, porém, ele já não podia fazer, porque a situação política nos Estados Unidos não permitia. Em suas campanhas eleitorais, Trump havia zombado do fracasso da intervenção e da retirada das tropas em solo iraquiano e afegão.
O Irã, com forças militares infinitamente menores (mas contando com drones), precisava resistir militarmente à agressão de (relativa) baixa intensidade, enquanto desgastava politicamente Trump até forçá-lo a negociar em seus próprios termos. O impacto econômico do fechamento do Estreito de Ormuz funcionou como seu “botão nuclear”.
A estratégia do valentão que bate na mesa e espera que as peças se alinhem como ele quer não funcionou. A agressividade gestual foi derrotada. Confirma-se que a sigla do trumpismo é TACO (Trump Always Chickens Out, ou “Trump sempre acovarda”), embora ele continue sendo um grande perigo.
A burguesia e o establishment estadunidense estão divididos e têm diante de si um debate cada vez mais urgente: Trump provavelmente está enfraquecendo suas posições estratégicas. Enquanto corrói suas alianças e seus instrumentos tradicionais de dominação (como a OTAN), fracassa em conquistar novas posições.
Além disso, uma parte não desprezível da força dos Estados Unidos ao longo do século XX residia no fato de que o país podia se apresentar como a encarnação dos valores do Iluminismo: democracia, liberdade, progresso etc. Ainda que fossem apenas a fachada do porrete imperialista, esses valores continuavam imprimindo sua marca em algumas de suas intervenções internacionais. Passar a se apresentar abertamente como uma força de dominação bruta, baseada na força, representa um golpe contra a legitimidade histórica de Washington.
Além disso, o Oriente Médio volta a se transformar no palco da humilhação. Isso não é pouca coisa. Há anos se sabe que o imperialismo ianque precisa deslocar o centro de suas preocupações de outras regiões para passar à ofensiva contra seu principal desafio estratégico: a China.
O trumpismo tentou resolver de forma simplista questões internacionais complexas, avançando do mais fácil para o mais difícil e, uma vez assegurada sua dominação sobre certos atores rebeldes, enfrentar diretamente a questão chinesa. Primeiro foi a Venezuela, depois o Irã… e até aí (por enquanto). A promessa de enfrentar seu grande problema histórico encontrou um freio exatamente no mesmo lugar onde já estava bloqueada.
E, enquanto tudo isso acontece no cenário internacional, muita coisa também acontece internamente: cada fracasso de Trump na política internacional representa uma nova dificuldade na política interna. E vice-versa: cada passo em falso do trumpismo alimenta o crescimento da polarização política nos Estados Unidos. A mesma polarização que deu origem à rebelião e à organização popular de massas em Minneapolis, que impulsionou a rebelião antirracista de 2020 e o fortalecimento da organização sindical da nova classe trabalhadora. É um fato: a era do consenso interno imperialista nos Estados Unidos chegou ao fim.
Em suma: Trump acaba de sofrer uma dura derrota, mas a etapa política reacionária marcada por seu governo está longe de ter terminado. Seria um erro impressionista pensar o contrário. A extrema direita continua sendo a força política burguesa com maior iniciativa no mundo, ao menos no mundo ocidental.
Israel: a bala perdida da situação internacional
Enquanto isso, o acordo com o Irã abriu uma crise política em Israel e uma fissura em suas relações com Washington. O problema é evidente: a ofensiva foi lançada conjuntamente por Israel e pelos Estados Unidos, mas agora está sendo resolvida unilateralmente pelos Estados Unidos. Tel Aviv se transformou em um problema sério até mesmo para o trumpismo.
“Sem os Estados Unidos não haveria Israel. Sem mim, Israel não existiria”, disse Trump, entrando em confronto aberto com Netanyahu. Seu vice-presidente, JD Vance, também discutiu publicamente com os sionistas “pouco agradecidos”, afirmando que eles deveriam tomar cuidado ao criticar o único aliado poderoso que ainda lhes resta.
Trump e o regime iraniano queriam chegar a um acordo havia meses. Mas o governo Netanyahu bombardeou (literalmente) essa possibilidade desde o primeiro anúncio de trégua. Quando o governo estadunidense quis tornar pública a primeira tentativa de acordo, as Forças de Defesa de Israel perpetraram um horrendo massacre no Líbano, mergulhando toda a diplomacia em uma crise. Foi nesse momento que Tel Aviv ficou definitivamente de fora do acordo de paz, também porque Trump enfrenta críticas e acusações cada vez mais frequentes de ser dirigido por Netanyahu, e não o contrário.
Enquanto Trump precisa apagar alguns focos de incêndio para não queimar os dedos, o governo Netanyahu se comporta como um “bombeiro louco”, espalhando combustível por toda parte. Israel é hoje a principal fonte de instabilidade internacional.
O sionismo serve aos Estados Unidos como um porrete regional, mas suas perspectivas estratégicas estão longe de ser as mesmas. O projeto genocida israelense e os interesses dos Estados Unidos parecem estar entrando em choque de forma cada vez mais intensa.
A oposição sionista a Netanyahu o critica por supostamente ter atrelado todo o destino de Israel a Trump, por romper pontes com a União Europeia e com os democratas, etc. Contestam tudo, menos uma coisa: os massacres, a expansão territorial e a ocupação.
Israel vem semeando e colhendo repúdio mundial desde o fim de 2023, quando lançou o genocídio em Gaza. Algo profundo passou a ocupar a agenda internacional: a inviabilidade estratégica e histórica do projeto genocida.
Quando a agressão genocida contra Gaza escalava sem parar, quando o massacre atingia seu ponto máximo, o intelectual israelense antissionista Ilan Pappé afirmou: “o colonialismo de Israel chegará ao fim”.
Naquele momento, Pappé dizia sobre a divisão da sociedade israelense: “a nenhum dos dois lados importa o povo palestino; ambos acreditam que a sobrevivência de Israel depende da manutenção de sua política de eliminação dos palestinos. Mas isso é insustentável. Vai se desintegrar por implosão porque, no século XXI, um Estado e uma sociedade não podem se manter unidos com base na ideia de que seu sentimento compartilhado de pertencimento consiste em fazer parte de um projeto de eliminação genocida.”
O que Pappé afirmava há dois anos hoje é compartilhado por um número cada vez maior de pessoas. As redes sociais do mundo estão inundadas de testemunhos sobre os horrores da sociedade israelense e sobre a agressividade de uma opinião pública e de um Estado que sentem que só podem existir matando tudo o que os cerca. A limpeza étnica no sul do Líbano é a continuação da limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia.
Um projeto como esse só pode se sustentar por meio da guerra permanente ou da consumação da destruição completa dos demais. Mas, quando a destruição do outro é alcançada, sempre surge um novo outro a ser destruído. O sionismo é tão instável quanto o belicismo fascista, e pelos mesmos motivos.
Em junho de 2025, caracterizávamos o governo Netanyahu como diretamente fascista. “Um dos traços do fascismo clássico é a necessidade de um estado permanente de guerra”, dizíamos. E acrescentávamos que a “base social mais sólida do governo são os grupos de colonos, que atuam como força de choque pseudocivil contra os palestinos todos os dias.”
Irã e a mobilização popular
O ano começou no Oriente Médio com as esperanças abertas pelas mobilizações de massa contra o regime de Teerã. Mas as massas populares sofreram dois duros golpes: os massacres perpetrados pelo próprio governo e os bombardeios imperialistas estrangeiros. Por enquanto, o saldo da guerra é que a mobilização de massas foi interrompida.
Os fatos deram seu veredito. Independente do que digam, Trump e Netanyahu demonstraram ser inimigos mortais da mobilização popular. O resultado de sua agressão é que os aiatolás seguem no poder e a mobilização popular, por enquanto, foi sufocada. A agressão militar externa desorganiza toda a vida do povo iraniano, tornando impossível sua organização e sua autoemancipação.
Isso ficou claro desde o início, quando, em nome dos interesses do povo iraniano, os Estados Unidos e o sionismo iniciaram sua guerra perpetrando um massacre de meninas em uma escola. A terrível tragédia de Minab é um emblema da brutalidade da agressão.
Mas a história está longe de ter chegado ao fim. Teerã, apesar de sair vitorioso, demonstrou ser mais frágil do que parecia. É apenas uma questão de tempo para que, uma vez livre da bota ianque-sionista, o povo iraniano esteja novamente pronto para acertar as contas com seu próprio governo.
O Irã é, afinal de contas, um dos países mais mobilizados da região. Os setores populares urbanos iranianos, sua classe trabalhadora e seu movimento de mulheres e pessoas LGBT demonstraram ser perfeitamente capazes de persistir ao longo de décadas de crises, repressão e guerras. Eles, e ninguém além deles, podem ser os artífices de sua própria emancipação. Foi assim na Revolução de 1979 (posteriormente, infelizmente, apropriada pelos aiatolás); foi assim com o movimento de mulheres de 2022.
O regime dos aiatolás demonstrou ter uma capacidade de resistência muito maior do que Trump esperava. Os dirigentes do regime, o clero xiita e os membros da Guarda Revolucionária se confundem profundamente com a própria burguesia iraniana.
A “mudança de regime” buscada por Trump só pode redistribuir o poder no interior da própria classe dominante iraniana. Para se livrar do autoritarismo dos aiatolás e conquistar sua soberania frente às potências estrangeiras, a mobilização popular iraniana precisa adotar a perspectiva anticapitalista da derrubada política e da expropriação econômica de seus opressores.
Isso só pode ser feito pelas mãos dos trabalhadores, das mulheres e diversidades, das etnias oprimidas e de todos os protagonistas do movimento popular que percorreu as ruas do país, erguendo um movimento de autoemancipação e independência nacional de caráter socialista.










