Por Marcos Pascuan

A decisão de atribuir ao ICE (Immigration and Customs Enforcement) um papel central na segurança da Copa do Mundo não é uma medida de segurança, mas uma operação de legitimação e de iniciativa política. Golpeada na frente interna após os sucessivos recuos de sua ofensiva repressiva em Los Angeles, Chicago e Minnesota — que deixaram suas forças de segurança na defensiva —, e atolada internacionalmente após a escalada bélica com o Irã, a gestão Trump busca se reafirmar e retomar a iniciativa.

Nesse contexto, a militarização do futebol por meio de uma força que atua sob lógicas estatais e paraestatais, respondendo diretamente ao Poder Executivo, tem um duplo objetivo: trata-se de uma tentativa desesperada de limpar a imagem de uma instituição amplamente rejeitada e, ao mesmo tempo, de uma provocação aberta destinada a recuperar a iniciativa política perdida. Por isso, a entrada do ICE na segurança do torneio deve ser interpretada como um sintoma de fraqueza e, simultaneamente, como uma contraofensiva da Casa Branca.

O ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas, em português) surgiu após os atentados de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas. Nesse contexto, o governo de George W. Bush impulsionou uma doutrina de “guerra total contra o terrorismo” e promulgou a Lei Patriota (Patriot Act). Partindo da premissa de que “as fronteiras eram porosas” e de que qualquer pessoa poderia representar uma ameaça, decidiu-se centralizar em um único ministério os controles de fronteiras, da guarda costeira e das alfândegas, além de outras agências federais. Assim nasceu o Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security – DHS), por meio da Lei de Segurança Interna de 2002.

Dentro desse esquema de centralização, que também incorporou os serviços de imigração, foi criado o ICE para o controle e a perseguição de imigrantes dentro do território nacional. Suas funções vão desde a investigação de crimes financeiros, contrabando e narcotráfico transnacional até a atribuição de “caçar”, deter e deportar pessoas sem documentação em qualquer parte do país. Com o passar dos anos, o órgão evoluiu até se transformar em um aparato de controle social interno militarizado, que passou a classificar sistematicamente o imigrante como um “criminoso de segurança nacional”. Além disso, desde o governo Trump, o ICE passou a contar com uma margem de atuação extremamente ampla e com poucas restrições relacionadas aos direitos humanos.

A criação de tribunais migratórios próprios e a redução ao mínimo dos controles burocráticos tradicionais eliminaram grande parte das restrições ao ICE, transformando-o em um braço de intervenção direta do Poder Executivo. Isso permitiu que a agência fosse utilizada como um instrumento político para atuar nos chamados “estados-santuário” — jurisdições que adotam leis e políticas destinadas a limitar, ao menos parcialmente, as medidas anti-imigração —, como Califórnia e Illinois, e para disciplinar o território, contornando a autoridade de governadores ou prefeitos da oposição.

Nesse contexto, e após os duros reveses sofridos pela política repressiva de Trump em Los Angeles, Chicago e Minnesota, que obrigaram suas forças de segurança a recuar, Trump volta à ofensiva para reafirmar sua autoridade e recuperar a imagem desses órgãos de segurança, atribuindo-lhes um papel central nas operações de segurança da Copa do Mundo.

O ICE atuará em coordenação com o Escritório de Investigações de Segurança Interna (Homeland Security Investigations – HSI) e com a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (Customs and Border Protection – CBP) durante a Copa do Mundo de Futebol de 2026.

Durante uma coletiva de imprensa, o xerife do condado de Los Angeles, Robert Luna, confirmou a participação do ICE e de outras forças federais na segurança durante as partidas da Copa do Mundo. Ele declarou que “a cidade não pode prescindir da cooperação federal para a segurança do torneio, já que é necessária a colaboração de todos para garantir a normalidade da competição em todas as sedes, tanto nos eventos controlados quanto nos não controlados”. Também afirmou que “os agentes não realizarão controles migratórios, embora não haja garantia de que agentes do ICE não venham a efetuar detenções durante o torneio”.

Por sua vez, Markwayne Mullin, Secretário de Segurança Nacional dos EUA, explicou que o papel das agências federais durante o torneio “consistirá na detecção e prevenção da falsificação de ingressos nas proximidades dos estádios”.

Para aprofundar ainda mais o cenário repressivo em território estadounidense durante a realização da Copa do Mundo, o promotor distrital de Los Angeles, Nathan Hochman, anunciou a presença de um contingente incomum de forças de segurança na região.

Fica claro que essas forças não se dedicarão apenas a garantir o funcionamento normal de um espetáculo esportivo de tamanha magnitude internacional, mas também a reforçar o aparato repressivo para impedir qualquer manifestação pública que expresse o mínimo descontentamento com as políticas xenófobas, anti-imigração, raciais e imperialistas levadas adiante pelo governo Trump. Nesse contexto, foi anunciado que a presença policial em torno das duas partidas do Irã em Los Angeles será maior do que em outras rodadas do torneio e que as autoridades monitorarão especificamente possíveis protestos ou outras atividades nas proximidades do estádio e das áreas destinadas aos torcedores. 

Para justificar a  tamanha implementação de recursos humanos e financeiros na área de segurança, o governo Trump classificou o evento com a categoria SEAR 1. A classificação SEAR 1 (Special Event Assessment Rating) corresponde ao mais alto nível de segurança e prioridade federal concedido pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (Department of Homeland Security – DHS).

O governo dos Estados Unidos classifica os eventos de 1 a 5 de acordo com sua vulnerabilidade, ameaças potenciais e impacto. Ao atribuir-lhes o nível 1 (o mais alto), isso significa que o evento é considerado de máxima relevância nacional e internacional, o que, segundo esse critério, o transforma em um alvo potencial de alto perfil para ameaças ou ataques. Sob esse amparo legal, o governo dos Estados Unidos se considera autorizado a adotar medidas de apoio e intervenção federal em grande escala. O controle da segurança não fica apenas sob responsabilidade das polícias locais de cada cidade-sede, mas promove o deslocamento obrigatório de agências federais (FBI, Serviço Secreto, TSA — Administração de Segurança nos Transportes —, ICE e equipes de inteligência).

Ao mesmo tempo, isso significa uma transferência de recursos financeiros para executar as tarefas de segurança, para as quais a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) destinou um montante de 900 milhões de dólares.

Essas medidas repressivas estão gerando forte repúdio em diversos setores. Organizações civis e de direitos humanos, como a União Americana de Liberdades Civis (ACLU), além de entidades que representam comunidades migrantes, realizaram um protesto na cidade de Los Angeles na quarta-feira, 27 de maio.

Por sua vez, trabalhadores organizados no “Los Angeles Alliance for a New Economy” (LAANE) e no sindicato “UNITE HERE Local 11”, que representa mais de 2.000 trabalhadores dos setores de alimentação, bebidas e concessões do SoFi Stadium, somaram-se ao protesto para denunciar o sistema de credenciamento exigido pelo comitê organizador da Copa do Mundo. Esse sistema, mantido pela FIFA, exige que as trabalhadoras e os trabalhadores que atuarão durante o torneio forneçam seus dados pessoais: número de seguridade social, endereço residencial, local de nascimento (país de origem) etc., o que, segundo as denúncias, viola as leis de privacidade do estado da Califórnia.

Seria preciso ser muito ingênuo para não suspeitar que a exigência de dados tão sensíveis da vida privada possa ser utilizada pelas forças do ICE e por agências federais de imigração para deter trabalhadores durante as partidas. 

Em âmbito internacional, alguns governos estão alertando seus cidadãos sobre os perigos envolvidos em viajar para território estadounidense. Ainda mais quando o governo de Donald Trump mantém restrições de entrada para habitantes de vários países, entre eles duas nações que disputarão a Copa do Mundo: Haiti e Irã. Embora se afirme que tanto os jogadores quanto as comissões técnicas estejam isentos dessas medidas, vale lembrar a recente deportação, no aeroporto de Toronto, de Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol. São numerosas as dificuldades e perseguições enfrentadas por torcedores de ambas as nacionalidades para assistir aos jogos.

Os fortes sinais de polarização que vêm se desenvolvendo no século XXI invadem os gramados da Copa do Mundo. Por um lado, multiplicam-se os apelos dirigidos a Gianni Infantino, presidente da principal entidade do futebol mundial, por parte de diferentes federações esportivas, exigindo garantias para os direitos dos imigrantes, trabalhadores e estrangeiros diante das políticas da administração de Donald Trump. Por outro lado, o ICE, atuando como um braço estatal e paraestatal diretamente subordinado ao poder presidencial, utiliza a vitrine do megaevento esportivo para recuperar sua legitimidade perante a opinião pública.

A militarização do futebol nada mais é do que uma provocação política planejada para recuperar o terreno perdido nas ruas e na agenda pública. Ainda mais quando a cidade de Los Angeles, onde a Federação Iraniana de Futebol disputará dois de seus três jogos já confirmados, torna-se o principal foco de atenção para a implantação desse amplo aparato de segurança.