Este é o primeiro de uma série de quatro artigos, em que Marcelo Yunes (dirigente do Nuevo MAS e da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie) trata das dificuldades políticas do governo estadunidense e dos movimentos geopolíticos possíveis no atual estágio da guerra do Golfo, que acelera a transição para uma ordem internacional mais instável e baseada na força.
A relação entre EUA e aliados europeus (OTAN) se fragiliza, esta última em crise profunda, com sua credibilidade e capacidade de dissuasão enfraquecidas, tornando-se mais “transacional” e menos baseada em valores comuns, com profunda queda de confiança mútua, menos compromisso coletivo e maior prioridade aos interesses nacionais, com perda de relevância da ONU e outras instituições multilaterais: uma ordem baseada em que “a força faz o direito”.
A ação errática (sem uma estratégia clara) de Trump que colhe fracassos políticos externos (não garante paz nem mudança de regimes) e internos (vários movimentos sociais e sindicais questionando a política de derrocamento das liberdades democráticas, a política migratória e o crescimento das lutas por formação de sindicatos) apoiando-se em vitórias militares parciais, com base na violação de normas internacionais e de crimes de guerra.
Resultado disso é o profundo choque energético histórico: interrupção do fluxo de petróleo e gás no Golfo, aumento generalizado de preços impondo uma inflação global e menor crescimento, se estendendo a várias cadeias produtivas (fertilizantes, alimentos, indústria), com risco de escassez, não só apenas de encarecimento dos produtos
Sendo sua principal disputa com a China, esta vem aproveitando o desgaste de Trump adotando uma postura pragmática reforçando a estratégia de autossuficiência e diversificação, com possibilidade crescente de reaproximação energética com a Rússia.
Numa atualização do artigo no sentido exposto, Xi Jinping, marcou um encontro bilateral com a Rússia para os dias 19 e 20 deste mês, um dia após ao fim do encontro, na semana passada, com Trump, onde de concreto não se apresentou nada quanto à Teerã e Taiwan e tão somente um protocolo de intenções em algumas áreas de comércio.
Por José Roberto Silva pela Redação
I – A guerra no Golfo e a (des)ordem global
Impacto, lições e perspectivas (provisórias) da terceira guerra do Golfo.
Por Marcelo Yunes
1.1 Uma sacudida nas relações geopolíticas globais
Crise na relação EUA–Europa e na OTAN
No marco da continuidade da disputa pela hegemonia global com a China, para Trump e os EUA a guerra redefine em parte as relações com os “aliados ocidentais” (a União Europeia e o Reino Unido, em primeiro lugar), assim como com os do Oriente Médio e do Extremo Oriente. Essa mudança implica afastar-se cada vez mais do lugar de hegemonia de aliados com os quais estabelece um vínculo baseado na reciprocidade do guarda-chuva protetor, de um lado, e na colaboração subordinada, do outro. Nem um nem outro podem dar-se por assentados no cenário global que se abre. Mais precisamente, o que se consolida é o receio, a desconfiança e a ausência de compromissos-chave que, de certo modo, “liberam” ambas as partes e tornam sua relação mais frágil, mais “transacional” e sujeita a critérios de interesse nacional que a aliança anterior queria, em princípio, colocar em segundo plano.
Tanto os EUA como seus aliados europeus percebem que há ao mesmo tempo menos compromissos firmes e menos amarras. E isso vai ter consequências tanto no nível das estratégias de segurança nacional quanto na possibilidade de respostas conjuntas diante de situações como a guerra no Irã.
Essa maior labilidade nas relações se expressa também, como não poderia deixar de ser, em uma relativa menor hipocrisia quanto aos supostos “valores comuns” subjacentes à aliança. Neste ponto sobram demonstrações de que estamos entrando em um mundo com outras regras além das que regeram tanto durante a Guerra Fria como durante o “interregno unipolar” desde a queda do Muro de Berlim até, digamos, a pandemia. Nem falemos já de Trump: os próprios líderes da União Europeia, supostamente o último bastião da “ordem baseada em regras”, sobem no trem do “pragmatismo transacional” que caracteriza Trump (e Xi Jinping, de passagem).
Um exemplo flagrante são as expressões do chanceler alemão, Friedrich Merz, proferidas em 1º de março, no começo da guerra. Considerou que, dado que o Irã do assassinado Ali Jamenei era um “regime do terror”, não havia motivo para “questionar a legalidade” dos ataques contra o aiatolá e boa parte dos altos comandos iranianos. Merz aceitou que “a mudança de regime é um risco”, mas de todo modo advertiu que a Alemanha não criticaria os EUA e Israel.
Não é de estranhar: já em ocasião dos – completamente ilegais do ponto de vista do “direito internacional” – ataques dos EUA e Israel contra o Irã de junho de 2025, Merz havia que agradecer a Israel por “fazer o trabalho sujo para o mundo”. Em consequência, assinalou em março, “não é momento de dar lições de moral a nossos sócios e aliados. Apesar de nossas reservas, compartilhamos muitos de seus objetivos, que não somos capazes de alcançar por nossa conta”. É difícil conceber um cinismo maior da parte de quem conduz os destinos da principal potência econômica da “democrática e liberal” Europa.
O restante do “Ocidente” não se diferenciou demasiado dessa canalhice mais que nas formas. O presidente francês Macron, que a princípio expressou “preocupação” e sugeriu uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, rapidamente se somou ao consenso e, junto com o Reino Unido e a Alemanha, comprometeu-se a colaborar na destruição dos mísseis e drones iranianos.[1] Na mesma sintonia foram as declarações dos demais países desenvolvidos anglófonos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Ninguém parece preocupar-se com a gravidade dos precedentes que estão sendo deixados quanto aos procedimentos aceitáveis e legais no terreno das relações entre estados. Se este “vale quase tudo” se consolida, não fica claro com que argumento intelectual, moral, legal ou político poderia os EUA, ou qualquer outro, opor-se a que a China, por exemplo, declarando que um partido ganhador das eleições de Taiwan é “separatista e ilegal”, execute um operativo de sequestro (ao Maduro) ou de assassinato (ao Jamenei) de seus líderes.
Na realidade, é quase compreensível que Macron tenha declinado recorrer ao Conselho de Segurança da ONU, na medida em que se trata de uma instituição cada vez mais inane e irrelevante. Aqui também se torna patente a mudança de época: ainda sendo o líder mundial e polícia global indiscutido – ou precisamente por isso –, George W. Bush, tal como fizera seu pai em 1991, buscou o respaldo e a anuência da ONU para sua intervenção no Iraque e Afeganistão, em uma coalizão de 41 países.
Hoje, causa quase gargalhadas imaginar Trump tendo a mais mínima preocupação nesse sentido; Trump sequer julgou necessário consultar, muito menos buscar consenso, entre os próprios membros da OTAN, uma aliança militar liderada pelos EUA. É verdade que o destrato aos aliados por parte de Trump se combina com a incoerência: depois de zombar da debilidade dos membros europeus da OTAN, de ameaçar apoderar-se da Groenlândia e de não fazer a menor consulta ao restante da aliança, queixou-se amargamente de que os países europeus não correram em seu auxílio quando os EUA o pediu… só para tuitar no dia seguinte que “não os necessitamos!”
Neste mundo mais feroz e menos sujeito à Convenção de Genebra e demais tratados internacionais, é compreensível que sejam os EUA os que adotem as formas brutais de Israel, quando a dinâmica do período anterior era que os EUA se encarregavam de restringir os arroubos ilegais do estado sionista. Assim, “quando EUA e Israel atacaram em conjunto o Irã em 28 de fevereiro, elementos-chave da operação refletiram uma lógica israelense, começando pelo assassinato de líderes iranianos. Isso marca uma mudança para os EUA” (“Trump’s war, Netanyahu’s rules”, TE 9489, 7-3-26). Por fim, e como reconhece com resignação o colunista geopolítico do Economist, “está tomando forma uma ordem global onde o direito do uso da força [might-makes-right], uma ordem onde Trump e Netanyahu se movem com toda soltura. A maioria dos aliados ocidentais nunca desejou este mundo. Agora que está chegando, terão que adaptar-se às suas regras” (idem). Observe-se: “adaptar-se” a essa lei do mais forte, não questioná-la – embora nunca a tenham “desejado” – desde uma cândida defesa dos “valores ocidentais”. O pragmatismo invade também as tribunas da “ordem liberal baseada em regras”…
Neste marco, o dano à aliança militar mais poderosa da história, a OTAN, é tão profundo que roça o existencial. O manejo arrogante e caprichoso de Trump, que contrasta brutalmente com a construção de consensos políticos e militares das duas guerras do Golfo anteriores, deixou a OTAN em estado de “morte cerebral” que Macron denunciava, com exagero, em 2017.
“Europa (…) corretamente, considerou a campanha do Irã como apressada e perigosamente vaga. Nisso, os governos refletiam a opinião dos votantes, que temiam ver-se envolvidos em uma guerra para a qual não foram consultados e que desaprovam. (…) Assim, até os atlantistas mais sinceros devem preparar-se para o pior. A terrível verdade é que se a Europa se vê ameaçada, a segurança nacional já não pode basear-se sobre o suposto de que os EUA vão ‘estar aí para ajudar’. O artigo 5 da OTAN, que define um ataque a um de seus membros como um ataque a todos, não está morto, mas seu efeito dissuasivo, a convicção de seus adversários de que os aliados vão atuar juntos, é mais débil que em nenhum outro momento dos 77 anos de história da aliança. (…) Europa tampouco pode consolar-se pensando que a irritação de Trump se vai dissipar. Marco Rubio, seu secretário de Estado, marcou um novo ponto baixo ao questionar também ele o valor da membresia. E o próximo presidente pode estar de acordo com eles” (“The transatlantic divorce”, TE 9494, 11-4-26).
Em outro de seus memoráveis tuítes, Trump adjudicou as fissuras na OTAN por sua renúncia a ceder a Groenlândia aos EUA: “Não querem dá-la para nós. E eu digo: bye, bye” (6 de abril). O secretário de Estado Marco Rubio, uma semana antes, havia qualificado a OTAN de “rua de mão única” (no sentido de que tudo o que devia fazer os EUA o faz) e advertiu que terminada a guerra com o Irã EUA iria a “reexaminar a relação”. Na verdade, desde qualquer ângulo que se olhe, é muito compreensível a afirmação do Departamento de Estado de que o “aliado modelo” dos EUA não é nenhum membro da OTAN, mas Israel, lugar que souberam ocupar os britânicos.
É sabido que Itália, França e Espanha se negaram a permitir o uso de bases e/ou espaço aéreo para aviões com destino ao Golfo (o Reino Unido inicialmente também, mas depois cedeu com a condição de que o material fosse usado de forma “defensiva, não ofensiva”). Também rechaçaram o envio de navios de guerra; França, que enviou aviões para ajudar a defesa contra os drones, rejeitou toda intenção de reabrir o estreito de Ormuz pela força. Demasiada pouca boa vontade para a impaciência de Trump, que lhe deu infinitos puxões de orelha à OTAN (“quando os necessitamos, não estão”, foi o mais suave que se lhe escutou).
O problema para Trump é que a moderada renúncia dos líderes europeus é o reflexo distorcido de uma nada moderada virada anti-ianque na opinião pública europeia. Uma pesquisa do conhecido portal Politico difundida em março – as cifras atuais serão sem dúvida piores conforme o conflito se mantenha – revela que nos países mais importantes da UE (França, Alemanha, Itália e Espanha, além de Polônia e Bélgica), só 12% dos consultados via os EUA como um aliado cercano, enquanto que 36% -o triplo!- o considerava mais como uma ameaça (por comparação, China era vista como uma ameaça só por 29% nos seis países). Como observa um analista britânico, “a aliança atlântica pressupõe o consenso não só da Casa Branca, mas dos povos da Europa” (Patrick Wintour, “Is Iran Trump’s Suez crisis”, The Guardian Weekly, 17-4-26)
Ninguém (nem Trump) sabe o que fará Trump com a aliança durante e sobretudo depois da guerra. Declará-la morta e retirar-se não é a única opção: uma variante mais moderada – porém no fundo quase igual de letal para a segurança europeia – seria retirar tropas e/ou equipamento das bases em solo europeu, ou inclusive retirar o comandante militar da OTAN, que por tradição é sempre estadunidense. Uma coisa é segura: o destino e sobrevivência da OTAN estão sob o signo de interrogação mais grande de sua história.[2]
Os aliados orientais dos EUA titubeiam; China vela as armas
Além das consequências econômicas da guerra, que trataremos mais abaixo, os principais aliados asiáticos dos EUA – Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas e Tailândia – se veem na obrigação de repensar sua estratégia de seguridade diante da possibilidade nada descabellada de que Trump os abandone ou os deslize ao último lugar da lista de prioridades. Por outro lado, não querem imiscuir-se em uma guerra que, se já nos EUA não é popular, nesses países o é ainda menos: 80% dos japoneses, por exemplo, se opõe.
O dilema para eles é que, depois de haver investido fortunas – mais ainda depois das reprimendas de Trump por, supostamente, economizar em gasto de defesa –, não é seguro que os EUA vão prover a assistência militar estratégica prometida. Por exemplo, para a Coreia do Sul o sistema de defesa antimísseis THAAD, desdobrado em 2017, é crucial diante da ameaça de seu vizinho do norte. Porém os re-desdobramentos de porta-aviões, equipamentos e tropas em função das necessidades da guerra no Golfo geram questionamentos cada vez mais profundos sobre a possibilidade de conformar um escudo de defesa alternativo ao de um aliado que exige muito, dá pouco e para completar parte desse pouco o retira quando tem outras urgências.
Enquanto isso, a posição da China, compradora de mais de 80% do petróleo cru que exporta ao Irã (embora isso represente não mais que 10% das importações de petróleo do gigante asiático), é por enquanto de cauteloso otimismo. Por suposto, não pode, senão, desfrutar das contradições permanentes e dos desacertos de Trump, porém, ao contrário do que alguns creem, em Pequim há certa inquietude por um desfecho demasiado desordenado. Uma das tantas assimetrias do conflito é que a China é muito mais importante para o Irã do que o Irã para a China. E talvez o que mais preocupa o gigante asiático é que o saldo da contenda seja um levantamento do tabu das armas nucleares para quem hoje carece delas, com a consequente corrida pela bomba não só no Oriente Médio mas também no Extremo Oriente, com Japão e Coreia do Sul em primeira fila.
Do ponto de vista econômico, há países da região onde a China tem mais interesses do que no Irã, como Arábia Saudita e os Emirados, ambos aliados dos EUA e vítimas dos ataques iranianos. Com este panorama,
“tudo contribui para um enfoque nada sentimental da China. Não vai abandonar o Irã como sócio. Mas pode ser que não lhe importe muito se à sua frente seguem os clérigos ou se outro grupo, saído talvez da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), ocupa seu lugar. O que mais importa à China são seus interesses no Oriente Médio. Se as ações dos EUA resultam em um governo iraniano que renuncie às armas nucleares, tanto melhor. (…) E se os EUA finalmente levantam as sanções contra o Irã, o precedente do Iraque é instrutivo: quando comece a reconstrução, as companhias chinesas, com sua experiência em infraestrutura, tecnologia e comércio, vão ter sua oportunidade” (“An ice-cold calculus over Iran”, TE 9489, 7-3-26).
Por outro lado, tudo o que seja distrair os EUA da confrontação no Mar da China Meridional, mais ainda se implica divisões no Ocidente, perda de prestígio e consenso dos EUA e, não menos importante, um desgaste militar importante que não pode reverter-se em questão de meses, mas de anos, será bem-vindo pela hierarquia do PCCh. Se o inimigo estratégico se mete em problemas sozinho, não há nenhuma razão para ajudá-lo…
1.2 Economia de guerra: disrupção nas commodities, mais inflação, menos crescimento
A interrupção do comércio marítimo que entra e sai do Golfo Pérsico deu lugar, antes de tudo, a uma crise no mercado global de energia não vista desde os anos 70. Segundo a Agência Internacional de Energia, a guerra já está criando “a maior disrupção de fornecimento da história do mercado de petróleo”. O preço do petróleo cru e do gás sobem e levam, em princípio, as manchetes de todas as análises econômicas, porém o impacto da guerra não se limita aos hidrocarbonetos, mas repercute sobre a produção de alimentos pela via de insumos básicos para o agro, como os fertilizantes, e sobre muitos outros ramos industriais. O conjunto redunda em uma sacudida da economia mundial, que agora espera maior inflação e menor crescimento para este ano, além de problemas não já de preços, mas de abastecimento em muitos países asiáticos, e pressão sobre o balanço fiscal dos países emergentes.
A economia mundial é uma das primeiras vítimas da guerra EUA–Irã, inclusive antes de e sem levar em conta o bloqueio (iraniano, estadunidense ou de ambos) ao estreito de Ormuz. A lista de commodities afetadas é imensa e não se limita aos hidrocarbonetos. Porém a disrupção dos mercados de petróleo e gás está, logicamente, em primeiro plano. Não é exagerado dizer que “mais além do que aconteça, o mundo está entrando em uma nova era de insegurança energética” (“An attack on the world economy”, TE 9490, 14-3-26).
Essa insegurança, desde já, não é só econômica, mas geopolítica: “inclusive quando a guerra terminar, o mundo haverá mudado. (…) Mojtaba Jameei agora sabe que o preço da energia é um flanco débil dos EUA. (…) A disrupção nos mercados de energia vai acompanhar as tensões geopolíticas, especialmente se o Irã tira a conclusão de que necessita de armas nucleares para sua segurança. Tal é a nova realidade na qual deverão atuar agora os investidores, as empresas e os políticos. (…) Porém inclusive se os governos acertam com suas políticas, já está ficando claro que a guerra deixará uma economia mundial menos próspera, mais volátil e mais difícil de gerir” (idem).
O desarranjo energético e os preços reféns das perturbações geopolíticas já estão forçando muitos governos a tomar ao menos consideradas medidas preventivas, desde a ampliação (ou criação, onde não as havia) das capacidades de armazenamento de reservas de petróleo e gás até formas de protecionismo energético, subsídios e assistência fiscal para atenuar o efeito das altas de preços sobre a população.
O atual bloqueio de hidrocarbonetos equivale ao dobro da disrupção da oferta que houve na crise do petróleo nos anos 70. Disparam os preços de fertilizantes, nitrogênio, amoníaco, enxofre, ureia e outros insumos essenciais para muitas indústrias e, sobretudo, para o agro. É verdade que o estreito de Ormuz não é o maior gargalo do comércio marítimo do planeta, título que leva o estreito de Malaca (Malásia–Indonésia–Singapura). Porém 22% da ureia, 24% do alumínio, 26% dos diamantes de uso industrial, 26% do glicol (para pinturas), 30% do metanol (essencial para a fabricação de certos plásticos), 33% do hélio e 45% do enxofre que se comercializam globalmente devem passar pelo Golfo. A lista de cadeias de produção e suprimentos afetadas pelo bloqueio de Ormuz é praticamente interminável.
Os mais de 700 barcos encalhados no Golfo devem somar-se ao recorte da produção e distribuição. Não são só demoras – que no caso da Europa podem ser de quatro a seis semanas – para receber a carga, mas um problema de oferta pura: a sexta parte da maior planta de GNL do planeta, a de Ras Laffan, no Catar, ficou inoperável após um ataque iraniano; os reparos poderiam levar entre três e cinco anos.
Não faz sentido criar ilusões sobre a possibilidade de fazer um by-pass ao estreito de Ormuz. É certo que Arábia Saudita e os Emirados têm possibilidade de desviar parte importante de sua produção – entre um terço e a metade –, via oleodutos, a portos sobre o Mar Vermelho e o Mar Arábigo, respectivamente. Porém isso só ameniza o problema sem resolvê-lo, e os mesmos oleodutos podem ser um fator de vulnerabilidade.
Portanto, o FMI já alertou que os governos do mundo devem preparar-se para o “impensável”, segundo Kristalina Georgieva. O dano à economia mundial em parte já está feito e em parte é incerto, segundo o que suceda com as hostilidades e a reabertura ou não do estreito de Ormuz. Sem dúvida, o impacto é e será muito desigual, tanto por regiões como por setores econômicos. Porém é quase seguro que os ganhadores serão muito poucos.
As economias asiáticas e emergentes são as mais expostas: em 2025 a Ásia absorveu 87% do petróleo cru e 86% do GNL que passaram pelo estreito de Ormuz. Catar representa 30% das importações de gás natural liquefeito (GNL) da China, 45% das da Índia e 90% das do Paquistão. Porém apesar de ser a maior importadora por volume, a China não será a mais castigada no imediato. Pode amortecer o golpe em função de vários fatores: a diversificação de provedores, a magnitude de suas reservas tanto de petróleo cru como de gás e os controles de preços, que evitarão um choque inflacionário que já se está notando em outras economias da região.
Coreia do Sul, Japão e Índia já anunciaram que recorrerão a medidas que incluem subsídios, tetos de preços e proteção de mercados para limitar o dano a empresas e consumidores. Porém o espaço fiscal que os estados têm para reduzir a conta energética é muito desigual: enquanto a Índia se prepara para aumentar seu já volumoso orçamento de subsídios, países como Filipinas ou Bangladesh já tiveram de recorrer a medidas de racionamento. Não se trata só dos hidrocarbonetos: muitas importações de origem agrícola ficarão mais caras. E o freio econômico nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) pode afetar uma fonte importante de divisas de vários países asiáticos: as remessas dos trabalhadores que migraram ao Golfo e que serão afetadas pela perda de empregos. Por exemplo, no turismo, que representa 12% do PIB dos Emirados e que ficou reduzido praticamente a zero desde o início do conflito. Para países como Paquistão, a disrupção econômica se traduz em problema fiscal: as remessas de seus imigrantes no exterior equivalem a 10% do PIB, e a metade desses imigrantes estão radicados em países do Golfo, sobretudo Arábia Saudita e os Emirados.
Os países asiáticos são também os mais dependentes do gás do Golfo (Catar, sobretudo, que representa por si só um quinto do GNL global). E, por razões técnicas – o gás liquefeito deve manter-se a temperaturas de 160º abaixo de zero –, as reservas de GNL são muito mais limitadas que as de petróleo cru: Coreia do Sul, a economia mais “folgada” nesse sentido, tinha a meados de março 52 dias de reservas de gás; Japão, 20, Taiwan, 11, e a Índia, apenas 5–6 dias. Todos esses países já estão implementando alguma forma de racionamento. Também aqui, o único provedor que poderia tapar – ainda que sem chegar a fechar o buraco que deixa Catar – é a Rússia. Porém é sabido que os gasodutos que conectam a Rússia com a Europa estão sob sanções da UE, e retomar fornecimentos de gasodutos em desuso é um pesadelo tanto logístico como geopolítico.
Levando em conta todos esses elementos, “um conflito de dois meses de duração pode causar uma contração do PIB de dois dígitos em Bahrein, Catar y Kuwait, de 8% em Emirados e 5% em Arábia Saudita, segundo estimativas de Goldman Sachs” (“Epic consequences”, TE 9490, 14-3-26).
Diante deste panorama, a Agência Internacional de Energia, fundada em 1974 por instâncias da crise petroleira dos 70 e da qual pertencem 32 países, decidiu, dez dias depois de começar a guerra, vender 400 milhões de barris de suas reservas de petróleo cru, um terço do total. É a maior liberação de reservas da história da AIE, que corresponde ao fato de que o fechamento do estreito de Ormuz é o maior choque de oferta de petróleo da história. O diretor da maior companhia petroleira do planeta, Saudi Aramco, já fala de “consequências catastróficas” se a guerra se estende no tempo.
As cifras em jogo são ciclópicas em todos os terrenos. As mega seguradoras, acostumadas a lidar com desastres de magnitude colossal, se veem totalmente desbordadas: embora a Development Finance Corporation tenha reservado 20.000 milhões de dólares para perdas pelos barcos presos no Golfo, o JP Morgan estima que serão necessários 350.000 milhões para cobrir as perdas só dos navios petroleiros encalhados no Golfo, cifra que excede completamente as margens de atuação da DFC.
O bloqueio do estreito gera tal choque de demanda que os EUA tiveram de conceder à Índia uma permissão de 30 dias para comprar 140 milhões de barris de petróleo cru russo, em contradição com todas as sanções impostas desde o início da guerra na Ucrânia. Além disso, Índia é o segundo importador de GNL do Golfo depois da China. A falta de estoque obriga ao racionamento, e enquanto isso o tubo de gás para os lares (na Índia quase não há encanamento de rede de gás) não se consegue, salvo no mercado negro, onde vale quatro vezes mais que o preço oficial regulado.
Para os países asiáticos, as consequências econômicas mais problemáticas como consequência da guerra são três, em estreita interconexão: o aumento dos preços do combustível, o aumento do déficit fiscal (em parte, para amortecer a conta energética para os lares e empresas) e a subida da inflação, não só em energia, mas cada vez mais, em alimentos.
Uma continuidade do fechamento do estreito de Ormuz, por outro lado, geraria um problema não já de preços, mas de fornecimento em si mesmo, o que explica os racionamentos em áreas tão diversas como horários de escritório (Filipinas), crematórios (Índia) e voos internacionais (Nova Zelândia e Filipinas). Diferentemente de outros países que poderiam tentar tapar o buraco petroleiro e de gás com energias renováveis, na Ásia é de se esperar um retorno à fonte de energia tradicionalmente mais abundante: o carvão. E, por suposto, os escrúpulos ideológicos e as pressões dos EUA para não comprar petróleo russo, neste contexto, serão luxos que os países asiáticos não poderão se dar. A guerra na Ucrânia está muito mais longe no tempo, no espaço e nas prioridades do que as restrições que impõe a guerra no Irã.
Por sua parte, a estratégia chinesa no que diz respeito à cadeia de suprimentos é conhecida: alcançar a autossuficiência. O que não equivale exatamente à autarquia isolacionista (meta utópica no capitalismo globalizado atual), mas sim a uma redução de vulnerabilidades mediante uma dispersão do risco. Isso inclui desde a maior diversificação possível de provedores (seja de commodities ou de chips de alta tecnologia) até, no caso da energia, a acumulação de robustos estoques de reservas e a ampliação das possibilidades de energias alternativas. Esta política discreta resulta tão realista que começa a ser vista quase como modelo, tanto por potências europeias como por grandes empresas ocidentais.
Por outro lado, a direção chinesa, habitualmente renitente a estímulos estatais que lhes resultam suspeitos – veja só os “comunistas” inimigos furiosos do Estado de bem-estar –, poderia ter de recorrer a eles se a guerra e a disrupção continuam. Diferentemente da maioria dos países da região, margem fiscal não lhe falta.
Enquanto isso, vários governos das potências capitalistas já estão implementando vias de proteção contra o choque de preços de energia. As receitas vão desde impostos sobre os lucros extraordinários das empresas do setor (proposta do Partido Democrata ianque) até subsídios (Japão, Reino Unido), preços máximos (Coreia do Sul) ou reduções temporárias de impostos (Itália, Espanha). Porém a dimensão do impacto e a limitada margem fiscal inclusive na UE – que vem de um esforço especial, primeiro com a pandemia e depois com o “blindagem energética” após o começo da guerra na Ucrânia – fazem com que muito provavelmente não haja escapatória a uma alta sustentada do custo da energia para veículos e lares, e muito mais se o conflito não se resolve em poucas semanas.
Sendo assim, não são poucos os que começam a ver com bons olhos uma reaproximação com a Rússia, ainda que não fosse mais que por razões de force majeure. Uma medida da renovada fissura europeia a respeito da política a seguir com a Rússia diante da crise energética foram as declarações do primeiro-ministro belga, Bart De Weber, advertindo que “a UE necessita normalizar relações com a Rússia e recuperar o acesso à energia barata”. Não só para os países asiáticos o Golfo Pérsico está mais perto que a Ucrânia; para alguns países europeus parece que também…
Por último, mas não em importância, é preciso tomar nota de um tema que embora esteja fora das manchetes dos jornais e das páginas de análise financeira do impacto da guerra, poderia significar o que o Economist chama “uma tragédia em câmera lenta” pela disrupção dos mercados e preços dos alimentos. Já a guerra na Ucrânia se calcula que deixou mais mortos nos “países emergentes” pelo dano alimentar do que houve no próprio campo de batalha. Segundo o World Food Programme da ONU, se até meados do ano o estreito de Ormuz segue fechado, a quantidade de pessoas em situação alimentar crítica poderia passar em nível global de 300 para 345 milhões de pessoas. Isso se deve a que o hemisfério norte e parte da África estão em época de semeadura, porém se os fertilizantes não podem sair do Golfo, a produção de alimentos cairá e seu preço subirá, com o saldo social assinalado. E inclusive se a guerra terminasse agora, boa parte do dano já está feito: Michael Werz, do think tank Council on Foreign Relations, chama esta situação de “uma máquina de gerar fomes em câmera lenta” e além disso estendidas geograficamente, em oposição às formas convencionais que são fulminantes e localizadas (“Farm alarm”, TE 9495, 18-4-26).
1.3 Segue se reconfigurando o mapa de técnicas e táticas militares
A terceira guerra do Golfo confirma e aprofunda tendências já esboçadas desde a guerra na Ucrânia, como a centralidade dos drones nas “guerras assimétricas”, a desumanização da tomada de decisões, a normalização do recurso ao terrorismo de Estado e a violação sistemática das “regras” do pós-guerra (embora isso ultimamente, claro está, não seja estritamente uma novidade). Outro elemento a levar em conta é a hipótese de que esta gigantesca “distração” dos EUA em uma região que tinha pensado – e havia prometido – deixar em segundo plano abra uma janela de oportunidade para as aspirações da China a respeito da “reunificação” com Taiwan.
Isso deve ser entendido no marco de que, como assinalaram quase todos os observadores, os EUA estão travando uma guerra sem estratégia clara. Se o objetivo da guerra era arrasar a capacidade militar geral iraniana, está amplamente cumprido. Porém se os objetivos eram a mudança de regime no Irã, assegurar a paz no Oriente Médio e fechar o caminho ao Irã para que se transforme em potência nuclear, a guerra foi até agora um retumbante fracasso. E também revelou debilidades insuspeitas para muitos, como a incapacidade de sua indústria militar para reabastecer com rapidez suficiente as munições gastas, ou sua vulnerabilidade em uma guerra assimétrica contra um rival de armamento muito mais limitado em volume e sofisticação.
A guerra no Golfo está deixando uma lição militar que recorda a guerra da Ucrânia: o poder aparentemente onímodo dos grandes exércitos tem entre seus pontos fracos a necessidade de repor as munições e o material tático mais importante, como neste caso os interceptores de mísseis e drones.
Não se trata só do custo econômico, embora só repor as munições gastas nos primeiros quatro dias superaria os 20.000 milhões de dólares. Mais preocupante para o poderio militar ianque é a taxa de desgaste dos mísseis de interceptação THAAD, dos quais já havia sido usada a quarta parte do estoque para defender Israel no ano passado e que não recebem novas remessas desde 2023. Algo análogo acontece com os mísseis Tomahawk: enquanto no início da guerra foram lançados mais de 300, o orçamento deste ano previa incorporar apenas 57.
Em 40 dias de guerra, os EUA esgotaram quase a metade de suas munições totais de defesa aérea de alto calibre (as mais caras). E a isso é preciso agregar os problemas da cadeia de suprimentos, um gargalo para uma indústria como a armamentista, que durante décadas se manejou sem urgências e com prazos de entrega que podiam estender-se ao longo de anos.
Isso explica que esteja em curso uma mudança drástica nas regras, perfil de fornecedores e tipo de equipamento que definem a relação entre o Estado ianque e as empresas de armas. As grandes companhias como RX (ex Raytheon) ou Lockheed Martin estavam habituadas a prover material bélico “tradicional” com longos prazos de aprovação de contratos e prazos de entrega ainda mais longos, algo totalmente inadequado para operações bélicas em curso.
O recurso aos drones e outros dispositivos autônomos sem pessoal humano dentro (e às vezes sequer operando-os desde fora) já é cada vez mais parte da paisagem armamentista desde o começo da guerra na Ucrânia. Neste plano, surgem como novidade as companhias chamadas “neo-primes” como Space X (de Elon Musk, especializada em redes satelitais), Palantir (de Peter Thiel, fornecedora de software para sistemas de inteligência) e Anduril (de Brian Schimpf, dedicada à produção de drones e artilharia anti drones).
As duas últimas – além de seus nomes tomados da saga O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien – compartilham a flexibilidade, capacidade de inovação e resposta rápida e, sobretudo, por colocar no centro dos equipamentos que fabricam o uso de software, inteligência artificial e equipamentos muito mais baratos, leves e adaptáveis.
O exército ianque e o israelense usam ferramentas de IA como Maven para “apoio de decisões militares” com o objetivo de converter o comando militar em uma “ciência preditiva, com ajuda de sistemas”. Em particular Israel deu ampla autonomia a esses sistemas que identificam alvos e criam bases de dados para eventuais ataques. Porém a possibilidade de um excesso de autonomia preocupa não só as próprias empresas criadoras desses programas (embora por agora mais a Anthropic, que teve choques com a Casa Branca pelo tema, do que a Palantir, a desenhadora de Maven), mas oficiais da OTAN, que se perguntam se não se está perto de uma “perda de controle humano”. A questão da “reavaliação de alvos” que não se atualiza com a precisão e velocidade necessárias esteve, segundo uma fonte oficial citada pelo New York Times, por trás do infame ataque a uma escola de meninas em Minab, Irã, que deixou quase 180 mortos, em sua maioria alunas da escola.
Em contraste, as armas e equipamentos convencionais, que seguem sendo insubstituíveis, mostram o lado negativo de sua lentidão de abastecimento e manejo. Por exemplo, manter os porta-aviões em ação e próximos ao Golfo durante tanto tempo também tem um custo material, logístico e operativo. O Gerald Ford sofreu um incêndio acidental de 30 horas e a manutenção se ressente no equipamento e no pessoal. O desdobramento militar é um cobertor curto: o que se coloca em funções em uma região debilita as posições em outra, algo que a China tem muito presente. Segundo Tom Karako, um especialista do think tank CSIS, de Washington, “a escala do gasto recente de munições e a degradação das capacidades de defesa antimísseis podem muito bem reduzir a capacidade dissuasiva no Pacífico pelo resto da década” (“Fire-retardant spray”, TE 9491, 21-3-26).
Aqui é onde pesa o aspecto assimétrico do uso de artilharia e mísseis. A assimetria é em primeiro lugar econômica: usar interceptores que valem milhões de dólares para deter drones de alguns poucos milhares dá vantagem ao lado mais fraco. Porém também tem um lado militar: enquanto os mísseis caros e poderosos devem ser utilizados com critério para não desperdiçar preciosos recursos, o Irã – como também a Ucrânia em sua guerra com a Rússia – pode lançar enxames de drones baratos apostando na força estatística do número: embora a maioria seja destruída, os poucos que se filtrem podem gerar danos significativos. É o que ocorreu, por exemplo, com várias bases estadunidenses na região e com alvos econômicos ou logísticos nos países do Golfo.
Com efeito, ainda com toda a superioridade militar dos EUA – aérea, naval, tecnológica e de artilharia –, o Irã conseguiu fazer com que pagasse um preço surpreendentemente caro em instalações de bases, radares de detecção de mísseis e aeronaves. Não em grande quantidade, mas sim em custo absoluto e em estoque, já que no caso dos aviões-radares E-3 AWACS, perder apenas um é uma baixa considerável, dado que existem somente 16. Daí que “as perdas levantem interrogações sobre se os EUA não foram complacentes em matéria de proteção de instalações e equipamentos valiosos, e se não cabe a possibilidade de que Rússia ou China estejam fornecendo informação ao Irã” (“Defending the base”, TE 9493, 4-4-26).
Ajuda pouco à causa imperialista que Trump se maneje com tão pouca seriedade na comunicação dos fatos de guerra. Sem contar os bombardeios de junho do ano passado, e tomando apenas desde o começo da guerra, em 28 de fevereiro, Trump anunciou nada menos que quatro vezes o triunfo conclusivo sobre o Irã… que misteriosamente voltava a transformar-se em ameaça dias ou horas depois. E não é só Trump o afeito a anunciar vitórias avassaladoras que depois não se verificam: depois dos bombardeios ao Irã em junho de 2025, Netanyahu vangloriou-se de haver “eliminado duas ameaças existenciais para Israel”, a saber, sua capacidade misilística e seu programa nuclear. Porém os mortos que Trump e Netanyahu matam costumam gozar de boa saúde.
As fantasiosas estimativas israelenses sobre a inutilização de três quartos da capacidade misilística iraniana no ataque de junho de 2025 foram, como era de se esperar, exageradas e desmentidas pelos fatos. É certo que a quantidade de mísseis lançados pelo Irã reduziu-se drasticamente a partir da segunda semana do conflito. Porém não há uma única leitura possível desse fato. A realidade é que ninguém pode saber se essa capacidade está efetivamente tão limitada ou se, embora indubitavelmente diminuída, o exército iraniano mantém em reserva certa quantidade esperando o momento – não tão distante – em que as defesas antimísseis dos EUA, Israel e dos países do Golfo estejam quase esgotadas.
Quanto ao programa nuclear iraniano, e seu peso como ameaça potencial e ferramenta de negociação, dependem em primeiro lugar de um estoque de uns 400 quilos de urânio enriquecido a 60% sob a forma de um composto gasoso, o hexafluoreto de urânio (UF6). Todo o estoque cabe em uns 20 recipientes do tamanho de um tubo de oxigênio para mergulho. Os estrategistas dos EUA quebraram e quebram a cabeça buscando como desenhar operativos rápidos, a cargo de comandos especializados, para a localização e apreensão do urânio. Porém não é fácil passar da fantasia hollywoodiana à realidade sobre o terreno. A busca dessa agulha em um palheiro de dezenas de milhares de quilômetros quadrados não pode ser feita de maneira fulminante e discreta, ao estilo do sequestro de Maduro. Os obstáculos logísticos e técnicos, para não falar dos militares, fazem da operação uma quimera a menos que, como disse um ex-chefe militar da OTAN, Trump esteja disposto a “essencialmente, converter essa parte do Irã, por um tempo, em território estadunidense” (“Only the mission matters”, TE 9490, 14-3-26). E isso não pode ser feito sem uma invasão terrestre em grande escala, que envolva dezenas de milhares de soldados. Só um Trump incrivelmente desesperado se atreveria a uma aposta desse calibre.
Sucede que do ponto de vista geográfico-militar, o estreito é inconquistável. Com 54 km de largura no ponto mais estreito e rodeado de montanhas de ambas as margens, não há forma de ocupar suas costas nem de evitar que o Irã lance uma chuva de drones ou mísseis desde quase qualquer parte de seu território. Outra coisa é a factibilidade militar do bloqueio ianque ao estreito, que não oferece maiores obstáculos para a frota mais poderosa do mundo. Porém, de novo, a questão aqui é quem tem maior – ou mais longa, o que é o mesmo – resistência à disrupção econômica: uma economia como a iraniana, acostumada ao isolamento relativo, ou os mercados globais de energia e outras commodities.
Outra alternativa que se cogitou, se descartou e – segundo a marcha dos acontecimentos – poderia voltar a ser colocada sobre a mesa é a ilha de Kharg, quase no outro extremo do Golfo, por onde se carrega 90% do petróleo iraniano, e pela qual Trump tem verdadeira obsessão. No começo da guerra os EUA bombardearam instalações militares na ilha, mas deixaram intactos os terminais de carga. Segundo Trump, por “razões de decência” (!); é óbvio que tinha em mente uma eventual ocupação de Kharg. Porém essa operação, que militarmente não revestiria maior dificuldade dada a esmagadora superioridade naval e aérea dos EUA, pode converter-se rapidamente em um pesadelo logístico se a ideia é manter a ocupação. Por isso, Trump decidiu afetar as exportações de cru iraniano por uma via mais simples e expedita: fazer seu próprio bloqueio dos portos iranianos e do estreito de Ormuz.
Em outra ordem, digamos que uma das marcas d’água da administração Trump é seu perfeito desdém pelas normas legais de guerra que em outras épocas, com as licenças do caso, costumavam ser respeitadas. Nem Trump nem sua equipe mostram a menor consideração por elas, no que, em outro contexto, seria considerado uma incitação aberta a perpetrar crimes de guerra. O ministro da Defesa (autodenominado “da Guerra”, nomenclatura inédita desde a Segunda Guerra Mundial para qualquer país), o ex-colunista da Fox News Pete Hegseth, deixou muito claro que lhe interessa priorizar a “letalidade” acima da “tíbia legalidade”. Praticamente eliminou o orçamento do Pentágono para minimizar danos a civis, incluindo as equipes legais que poderiam chegar a limitar decisões militares invocando regras de guerra e tratados que Hegseth desprezou explicitamente como “regras estúpidas”. Também encarregou-se de expulsar vários generais de altíssimo escalão sem nenhuma justificativa além de seu fanatismo pela “batalha cultural” (uma mulher, um afro-americano, um que se atreveu a formular reservas sobre passar por cima das regras de combate em áreas civis). Nem falemos do critério abertamente medieval de Hegseth de “sem quartel e sem misericórdia” contra inimigos incapazes de combater. Nisso, não faz mais que seguir a “filosofia” de Trump: “As regras são para os perdedores”, o que significa não que as regras só se aplicam contra os perdedores, mas que a mera crença de que devam existir regras implica sacar carteira de perdedor.
Precisamente como parte da circunstância de uma guerra entre estados onde não está muito claro quais “regras de combate” seguem vigentes e quais não é que ambos os lados tiveram poucos escrúpulos em atacar infraestrutura civil. Trump disse com a desenvoltura corporal que o caracteriza que “as plantas dessalinizadoras, as centrais de geração de energia, seriam muito fáceis de atacar”, embora tenha esclarecido, sem muita convicção, que “odiaria” fazê-lo. Dadas as características geográficas da região, as plantas dessalinizadoras para prover e armazenar água são cruciais para os países do Golfo: representam 90% da água potável do Catar, Bahrein, Omã e Kuwait, 70% da Arábia Saudita e 40% dos Emirados; no Irã a cifra é menor, mas água não sobra: um terço de sua população sofre de escassez de água. A água de Riad, a capital saudita, depende em 90% de uma única planta dessalinizadora.
A ideia é tão bestial que vários legisladores democratas chamaram os comandos militares a desobedecer esse tipo de ordens, completamente ilegais e que constituiriam crimes de guerra diante de qualquer tribunal dos EUA ou do estrangeiro. Não obstante, não costuma acontecer que militares de alto escalão dos EUA (ou de Israel, que é diretamente responsável por genocídio, já não por crimes de guerra) sejam acusados com êxito de violar as cada vez mais tênues regras do “direito internacional de guerra”. E aparentemente houve ataques contra instalações desse tipo, um crime de guerra que parecem ter perpetrado tanto os EUA (na ilha iraniana de Qeshm) como o Irã (no Bahrein).
Uma oportunidade para a China?
É um lugar-comum dos think tanks geopolíticos a referência à meta de Xi Jinping da “unificação” da China e Taiwan para 2027. Alguns se apressam em assinalar que o redesdobramento de “ativos militares” ianques do Pacífico para o Golfo Pérsico favorece essa “janela de oportunidade” temporal. Porém a ideia não convence os autores do último informe da Avaliação Anual de Ameaças (Annual Threat Assessment) da inteligência dos EUA, que afirma com surpreendente segurança que “os líderes chineses atualmente não planejam levar a cabo uma invasão de Taiwan em 2027”, e em troca sustenta que o período de risco passaria a algum momento entre 2028 (eleições presidenciais nos EUA e Taiwan) e 2032 (fim do quarto mandato de Xi). Em particular 2028, se Xi percebe que o eventual sucessor de Trump pode assumir um compromisso maior na defesa da ilha.[3]
Enquanto isso, a China foi muito ativa na conformação de uma capacidade aeroespacial que só está atrás dos EUA, com uma frota total de 640 satélites em órbita, o que
“marca o fim do monopólio ocidental na geração das imagens mais avançadas desde o espaço (…). Jilin-1 [a constelação chinesa mais importante, com mais de uma centena de satélites] parece estar à frente de seus pares dos EUA em cadência – a quantidade de vezes que um satélite pode revisitar uma zona –, em grande medida devido ao tamanho de sua frota. E também estão à altura em tecnologias de ponta como a capacidade computacional que permite processar os dados no espaço antes de remetê-los de novo à Terra. (…) As imagens chinesas ajudaram a revelar os danos a plataformas militares dos EUA e instalações de energia no Golfo que esses governos teriam preferido manter ocultos” (“Views of the Middle East” TE 9496, 25-4-26).
Se um dos objetivos tangenciais da guerra dos EUA contra o Irã era lançar uma advertência à China, a jogada saiu decididamente mal. A visão da China a respeito não é muito distinta da do restante do planeta: Trump cometeu um erro garrafal que dificilmente lhe traga algum benefício. Um novo pântano dos EUA no Oriente Médio é talvez a última coisa que necessitava a maior potência mundial, em um contexto em que o eixo geopolítico se desloca decididamente para o Extremo Oriente e o Pacífico. No entanto, um elemento que inocula não temor, mas sim sobriedade na análise é o uso profuso de IA que está demonstrando o comando militar estadunidense, terreno no qual indiscutivelmente – junto com a óbvia experiência sobre o terreno – a China está atrás.
Por outro lado, a desordem econômica em energia e cadeias de suprimentos, para Xi Jinping, confirma a prioridade da autossuficiência nacional nesses e outros planos. A China também pode sair beneficiada de que muitos países tirem a conclusão da necessidade de buscar formas de energia alternativas nas quais o gigante asiático há tempos ocupa um lugar predominante.
Ironicamente, talvez a principal preocupação quanto ao desfecho da guerra não seja uma vitória categórica dos EUA, mas uma perda tão evidente de controle e prestígio na arena internacional que induza Trump a jogadas perigosamente desesperadas. Nada alarma tanto o Partido Comunista Chinês quanto a perspectiva de uma desordem global com um EUA fora de controle. Com bastante cinismo, e realismo, analistas chineses estimam que o ideal para o PCCh seria uma guerra não tão curta a ponto de os EUA não sofrerem suas consequências, mas tampouco tão longa que perturbe demasiado a economia global… e a chinesa.[4]
NOTAS
[1] Essa não é a única “fraqueza institucional” recente de Macron. Quando Nicolás Maduro foi descaradamente e ilegalmente sequestrado por um operativo ianque na Venezuela, Macron, após a formalidade de esclarecer que “não apoiava os métodos” dos EUA, disse o que importava: que a “saída” de Maduro era “uma boa notícia para os venezuelanos”. Exatamente a mesma tônica de Merz aplaudindo o “trabalho sujo” de Israel. Eis aqui os paladinos e defensores da “ordem legal global” contra os caprichos de Trump e o expansionismo ilegal sionista…
[2] Por ora, o vínculo bilateral mais estável de toda a OTAN, a “relação especial”, como a batizou Winston Churchill, entre os EUA e o Reino Unido está, segundo o Economist, “em seu pior momento desde 1956”, quando a crise do canal de Suez separou momentaneamente britânicos e franceses dos EUA. O desgaste é até pessoal. Que Trump diga do primeiro-ministro Keir Starmer “não é nenhum Churchill” é quase galante, vindo de quem vem, mas que o circunspecto e anódino Starmer se atreva a dizer “estou farto, não vou ceder” (veremos quanto dura a resolução do hamletiano primeiro-ministro britânico) dá uma medida de quanto estrago causaram os infinitos caprichos do presidente ianque.
[3] Um elemento a considerar nessas especulações é a recente purga, ou melhor, sucessão de purgas, que Xi Jinping vem levando adiante há quase um lustro. Em nível dos comandos médios e altos, a purga afetou cerca da quinta parte dos generais, enquanto que no escalão máximo de autoridade, a Comissão Militar Central, de sete membros, o único que resta da equipe original designada por Xi é o próprio líder. Todos os demais foram removidos. A acusação mais habitual é a de corrupção, tema recorrente em todas as purgas em outros âmbitos e no PCCh. A intensidade e profundidade das purgas gera sérias dúvidas sobre a real solidez da estrutura militar chinesa, na medida em que vive sob um ambiente de suspeita permanente onde as competências e qualificações “profissionais” ficam em segundo plano (algo próprio, além disso, de todas as instituições stalinistas desde a época da burocratização da URSS).
[4] Outros olhares já exageradamente irônicos colocam a preocupação de que Trump saia tão mal da guerra que fique demasiado debilitado e à mercê dos antigos falcões anti-China que marcaram a tônica de seu primeiro mandato.










