Por ROBERTO SAENZ
Como as lágrimas se comportam na ausência de gravidade não está previsto como parte da agenda de pesquisa da tripulação, mas a mensagem que eles transmitiram à humanidade [ao dar a uma cratera lunar o nome de “Carrol”, em homenagem à falecida esposa do comandante da missão, Reid Wiseman, Carrol Taylor Wiseman] deixa claro que eles acabaram descobrindo isso.
(The Economist, 09/04/26)
Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela é capaz de comportar, e jamais surgem novas e mais elevadas relações de produção antes que as condições materiais para sua existência tenham amadurecido no interior da própria sociedade antiga. Por isso, a humanidade só se coloca objetivos que pode alcançar, pois, ao observar mais de perto, verá que esses objetivos só emergem quando já existem, ou ao menos estão em gestação, as condições materiais para sua realização.
(Karl Marx, “Prólogo” de Contribuição à Crítica da Economia Política, 1859)
A notícia mais inspiradora em nível internacional nas últimas semanas é, sem dúvida, a missão Artemis II. É preciso diferenciar dois planos de análise. Um deles, o mais importante, é abordá-la do ponto de vista das potencialidades da humanidade. A missão foi até o lado oculto da Lua — lembrem-se de Pink Floyd, The Dark Side of the Moon — algo que, na verdade, já havia ocorrido em certo sentido com a Apollo 8, em 1968. Nessa missão, um de seus tripulantes, William Anders, registrou espontaneamente a icônica foto Earthrise, na qual se vê o “nascer” da Terra, em vez do Sol ou da Lua, como ocorre diariamente em nosso planeta.
O Programa Apollo foi encerrado em 1972, com a Apollo 17, porque consumia uma parcela desproporcional do PIB dos Estados Unidos, e ainda não havia tecnologia suficiente para muito além de coletar rochas lunares e retornar. Agora, 50 anos depois, seria realista considerar que a humanidade, caso não se autodestrua antes — por meio das tensões entre Estados Unidos e China —, possa, no médio prazo, estabelecer bases permanentes na Lua com base na água acumulada, congelada na parte não visível do nosso satélite. A ideia é que, a partir dessa presença permanente na Lua, seja possível, nas décadas seguintes, “dar o salto” até Marte (além de extrair dela minerais e outros recursos naturais).
Esse acontecimento, potencialmente, abre um novo horizonte para a humanidade. Raya Dunayevskaya, no início da década de 1960, publicou um artigo citando Leon Trotsky, no qual este rejeitava qualquer razão para o ceticismo nos tempos sombrios do estalinismo (a “meia-noite do século XX”, como a definiu Victor Serge — ele sim, de certo modo, um ser humano excepcional, ainda que algo cético naquele momento):
“Não vejo fundamento para o pessimismo. É preciso tomar a história como ela é. A humanidade avança como fazem alguns peregrinos: dois passos à frente e um atrás. Durante o movimento de recuo, tudo parece perdido para os céticos e pessimistas. Mas isso é um erro de perspectiva histórica. Nada está perdido. A humanidade se desenvolveu do macaco até o Komintern. Avançará da Komintern ao verdadeiro socialismo (…)” (Trotsky citado por Dunayevskaya em nota publicada no Asahi Shimbun, “Subjetivismo e política”, 15/12/65). (Vale notar como Trotsky fala em “verdadeiro socialismo”, diferenciando-o do estalinismo em tempo real! Trotsky foi um verdadeiro gigante.)
Como apontávamos em “Engels antropólogo”, o fato de a humanidade ter sido capaz de se elevar desde os primeiros Homo sapiens, há 200 mil anos, até se colocar a possibilidade de uma humanidade potencialmente extraterrestre é uma expressão de autoelevação universal de proporções extraordinárias:
“O tema da expansão dos hominídeos e humanos ao longo do globo nos tempos pré-históricos é outro campo de investigação que, dadas as condições rudimentares da existência de nossos antepassados, se apresenta como uma façanha tão incrível quanto a conquista das galáxias nos filmes de ficção científica [depois da missão Apolo, há 50 anos, e da missão Artemis agora, já não tão ‘ficção científica’ assim]: um feito humano incomensurável! Um trabalho de autoelevação humana a partir do zero que parece desafiar todas as ‘leis da gravidade [e todo objetivismo!], por assim dizer” (Engels antropólogo, Izquierda Web).
Isso é o que distingue a humanidade de todas as outras espécies do reino animal: a capacidade de interação consciente entre sujeito e objeto (humanidade e natureza). Não há determinismo mecânico possível nem mecanismo automático de “seleção natural” que tenha possibilitado essa auto-elevação, mas sim o papel do trabalho na transição do macaco para o ser humano (Engels); o caráter de “animais fabricantes de ferramentas” dos seres humanos (seu caráter político e social). Uma auto-elevação em condições materiais de necessidade (a natureza pressiona e obriga, a primeira necessidade é alimentar-se), mas que, por sua vez, tem a reversão dialética do sujeito (seres humanos) sobre o objeto (a natureza): a capacidade do ser humano de imaginar em seu cérebro a tarefa necessária a ser realizada (tal como Marx expõe em O Capital, onde também coloca as máquinas – neste caso, a Artemis II – como “órgãos do cérebro humano, produto da mão humana”, superando em 20 anos a definição genial de Engels em “O papel do trabalho na passagem do macaco ao homem”).
Há um limiar que está começando a ser superado; que sai da ficção científica. Um limiar que expressa – algo que Engels também apontava – que a humanidade é marcada, genericamente, por uma dupla tendência dialética: uma tendência – ramo – ascendente e outra descendente.
Aqui cabe também uma definição de Benjamin — obviamente dialética e reversível — que ele apresentou em plena época do fascismo, em suas “Teses sobre o conceito de história” (1940), segundo a qual todo manifesto de civilização é, ao mesmo tempo, um manifesto de barbárie. A dialética do progresso e do retrocesso, pela obviedade de que todo o desenvolvimento humano até os dias de hoje tem sido marcado pela sociedade de classes, por relações de exploração e opressão destinadas a serem abolidas no comunismo.
Como observa até mesmo a revista The Economist, a Artemis II, além de suas conquistas concretas, é uma manifestação de esperança em meio a um mundo capitalista em pleno caos e marcado por atos de barbárie.
“No Natal de 1968, um menino chamado Michael Collins Júnior perguntou ao pai, que estava aos comandos da Apollo 8, quem estava pilotando a nave. Collins pai, que também supervisionava as comunicações com a nave, repassou a pergunta do filho a Bill Anders, um membro da tripulação. Houve então uma pausa. Em seguida, Anders respondeu: ‘Acho que Isaac Newton está conduzindo a maior parte do trajeto neste momento’.”
(The Economist, 26/04/2023)
E TE acrescenta:
“O fato de a missão ter gerado mais emoção do que ciência (…) não é uma crítica (…) A experiência da tripulação é o que realmente se destacou. Mesmo que suas expressões de admiração, humildade e conexão cósmica tenham soado um pouco ensaiadas demais, elas possibilitaram não descobertas, mas uma redescoberta: o lembrete para os milhões na Terra de que fatos como este ainda podem mobilizá-los e inspirá-los.”
(idem, 26/04/09)
(Embora esta edição da TE pareça pouco inspirada, com uma cobertura excessivamente rotineira para a importância do evento, suas afirmações contêm, de qualquer forma, elementos perspicazes.)
Depois, é claro, há o outro lado da moeda. Os novos perigos que pairam sobre a humanidade como resultado desse sistema capitalista feroz e, de certa forma, descontrolado. Thomas L. Friedman, no The New York Times, acaba de alertar sobre os novos avanços da IA e a possibilidade, materialmente concreta, de que ela possa escapar do controle humano responsável. Outra manifestação de barbárie nos últimos dias foi Trump, declarando que iria “destruir uma civilização inteira” no Irã, o que gerou o temor concreto de que, apesar de Trump ser TACO (Trumps always chicken’s out) e de ter saído perdendo no Irã, se lançasse na atitude irresponsável de lançar uma bomba atômica sobre aquele país… (o governo trumpista teve que emitir um desmentido oficial sobre essa possibilidade).
A utopia e a distopia andam de mãos dadas neste século XXI de uma forma que nunca ocorreu antes. E isso acontece porque se combinam o máximo desenvolvimento das forças produtivas e uma fase claramente regressiva do capitalismo (forças produtivas versus relações de produção, para dizer no estilo reducionista do esquemático “Prólogo” à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx, 1859). Isso está ligado à utilização progressiva ou regressiva das forças produtivas conquistadas no contexto da degradação capitalista que estamos vivendo:
“Chega-se a uma fase em que surgem forças produtivas e meios de troca que, sob as relações existentes, só podem ser fonte de males, que já não são tais forças produtivas, mas sim forças destrutivas (maquinário e dinheiro) (…) que todas as revoluções anteriores deixavam intacto o modo de atividade (…) enquanto a revolução comunista se dirige contra o caráter anterior da atividade, elimina o trabalho e suprime o domínio de todas as classes, ao acabar com as próprias classes (…)” (Marx, A Ideologia Alemã, Nuestra América, 2010, 49). (É interessante porque os editores dizem que existe uma frase riscada no original de Marx e Engels que dizia “elimina o trabalho, uma forma de atividade”, o que nos lembra nossa reflexão sobre a dialética trabalho/atividade no comunismo, mas esse é outro assunto.)
O contexto em que se insere o Artemis II é o de um capitalismo ultrarregressivo e voraz, marcado por uma crescente tensão geopolítica a ponto de se começar a vislumbrar a possibilidade de uma terceira guerra mundial, de extrema precarização do trabalho, do domínio de algoritmos impessoais no mundo do trabalho, etc., ou seja, o de uma reversão das forças produtivas para o regresso, ao mesmo tempo em que crescem as potencialidades materiais de emancipação.
Aqui prevalece a dialética da reversibilidade. Na época, Marx foi acusado de ser “prometeico” quando descreveu, no Manifesto Comunista, o caráter do capitalismo, que, ao contrário dos modos de produção anteriores, gera uma constante revolução do modo de produção — forças produtivas e relações sociais de produção — como resultado de sua lógica competitiva (competição entre capitais por uma produtividade e um lucro cada vez maiores; o processo material de produção, o processo de trabalho, submetido ao processo de valorização do capital). [1]
Marx não era um prometeico, embora, em seus primeiros textos sobre a China, de 1851, tenha cometido alguns erros ao enxergar apenas o lado “civilizador” da conquista do subcontinente pelo Império Britânico. Marx corrigiu posteriormente esse tipo de apreciação, sem nunca deixar de questionar as condições desumanas pelas quais “a civilização britânica tirava a Ásia de seu atraso secular” – estamos parafraseando sem ter a citação à mão.
A parte “astuta” da operação Artemis é transformá-la em uma competição geopolítica pelo espaço (os EUA pousariam na Lua em 2027/8 e a China em 2030), algo tremendo: essa potencialidade das forças produtivas é, simultaneamente, potencialidade das forças destrutivas.
Mas seria um erro deixar tudo ofuscado pelo lado capitalista da questão; além disso, a tripulação é WOKE e não MAGA, e os astronautas nem deram bola para Trump quando ele “se comunicou” com eles (ele ficou tão ofuscado por suas trapalhadas no Irã que dificilmente Trump teria conseguido tirar proveito da missão).
Tudo isso nos remete, por fim, e por mais incrível que pareça, aos textos de Marx sobre o mecanicismo, a começar pelo profético “Fragmento sobre as máquinas” dos Grundrisse (1857/8) e os Manuscritos de 1861/3, onde ele antecipa, de certa forma, a transformação do trabalho em atividade como produto do mecanismo (o mesmo fez em A Ideologia Alemã, 1846), essa incrível mistura de natureza e cultura que é o “sistema de máquinas” propriamente dito. Nos mesmos textos, ele coloca como antecessor imediato das máquinas modernas o moinho que tritura o grão. A característica específica da máquina não é o autômato, como se poderia crer, embora o autômato seja uma parte fundamental dela, mas a máquina-ferramenta que vence a resistência do material, afirma Marx: “O mecanismo, em qualquer de seus estágios, é uma fusão entre natureza e cultura: leis da natureza ‘capturadas’ para a produção humana no ‘sistema de máquinas’”. É uma rara síntese entre natureza e cultura, um produto da fusão orgânica entre ambas. É a criação de algo onde antes não havia nada – exceto a matéria-prima natural –, como observou o arqueólogo marxista Gordon Childe a respeito da indústria da cerâmica: “Vê-se como a indústria e a existência, que se tornou objetiva, da indústria [poderíamos acrescentar a indústria aeroespacial, assim como qualquer outro desenvolvimento tecnológico deste século XXI], são o livro aberto das forças humanas essenciais (…)” (Marx citado por Dussel, Cadernos tecnológico-históricos de 1851, “Estudo preliminar de Enrique Dussel”, Universidade Autônoma de Puebla, México, 1984).
Notas
[1] O prometheico remete à crença em um progresso automático decorrente do desenvolvimento das forças produtivas ou à valorização dessas forças sem levar em conta a natureza e o metabolismo humano em relação a ela. Os próprios textos de Marx demonstram que tal crença não era mais do que uma compreensão da natureza dinâmica intrínseca do capitalismo — e, ao mesmo tempo, destrutiva.










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