Nem uma a menos! Tomar as ruas contra a violência de gênero e pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito nos hospitais!
A escalada da violência de gênero no Brasil expõe a brutalidade de um sistema que mata mulheres todos os dias no Brasil e no mundo e nega direitos básicos às que sobrevivem. Diante do avanço da extrema direita e da omissão do Estado, torna-se urgente fortalecer a mobilização independente nas ruas contra o feminicídio e pela legalização do aborto. Todes às ruas neste 8 de março!
por Maria Cordeiro
“Como mulher, não tenho pátria. Como mulher, não quero pátria. Como mulher, minha pátria é o mundo inteiro” – Virginia Woolf
Recentemente, tomou as notícias o caso aterrador do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. Notícias como essa infelizmente são comuns no Brasil. A violência de gênero segue em escalada brutal, a cada ano aumentam os casos de agressão, estupro e feminicídio. Em 2025, o número de feminicídios no país bateu recorde: foram 1470 casos, ou seja, quatro mortes violentas de mulheres em média por dia. A violência machista ocorre muitas vezes dentro de casa, cometida por familiares, parceiros ou ex-parceiros.
É importante pontuar que essa violência não atinge todas da mesma forma. No Brasil, ela tem cor e classe. As mulheres negras, trabalhadoras e periféricas são as principais vítimas da violência de gênero e do feminicídio. São também as que mais sofrem com a precarização do trabalho, com o racismo estrutural, com o aquecimento global, o ecocídio e com a ausência de políticas públicas que garantam direitos básicos. A luta contra a violência de gênero, portanto, é inseparável da luta contra o racismo e contra as desigualdades de classe, da luta pelo fim de toda opressão e exploração capitalista.
Nesse cenário, arrancar do Congresso ultrarreacionário e de um governo cúmplice da violência de gênero a legalização do aborto é uma questão urgente de saúde pública, justiça social e autonomia. A criminalização do aborto não impede que ele aconteça; obriga milhares de mulheres e pessoas que gestam a recorrer a procedimentos clandestinos, inseguros e à morte. Por isso, neste 8 de março marchamos contra a violência de gênero e defendemos uma campanha nacional pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, realizado pelo SUS.
A urgência é evidente. Diante das milhares de mortes pela escalada da violência de gênero e pela criminalização do aborto, não podemos esperar soluções vindas de cima. Em um mundo de choques entre os elementos mais dinâmicos da diversidade — de uma juventude cosmopolita, feminista, multiétnica e LGBTQIAPN+ — e uma força contrária que deseja suprimir a própria identidade e vida dessa juventude, a violência de gênero acompanha uma conjuntura polarizada: a ascensão e fortalecimento da extrema direita e de sua misoginia e lgbtfobica que se choca com resistências importantes das mulheres, das diversidades e juventude trabalhadora.
Num mundo em ebulição, as mulheres são ponta de lança contra a opressão e exploração. É na experiência de luta das mulheres indígenas, lideranças das ocupações nas instalações da empresa Cargill que devemos nos inspirar. Em Santarém, em protesto contra a dragagem e privatização do tio Tapajós, Madeira e Tocantins que arrancaram do governo traidor, que se diz aliado dos indígenas, a revogação do decreto 12.600/2025 de privatização dos rios. Como também, nas mulheres iranianas, que historicamente estão na linha de frente dos protestos contra o regime dos aiatolás e contra a polícia da moralidade, após a jovem Masha Amini ser detida e morta por não usar o véu, o país iraniado se incendiou em luta nas ruas e se deflagrou a maior onda de protestos em décadas. Por fim, não devemos esquecer de Renee Good, cidadã estadunidense, poetisa e mãe de três filhos que foi morta pela polícia paramilitar de trump, uma verdadeira gestapo estadunidense antimigrante, A palavra de ordem “Justiça por Renee” junto ao repúdio completo à polícia ICE desencadeou protestos pelo país, principalmente em Minneapolis. Tantos exemplos nos mostram que há resposta contra esse sistema que nos mata, e ela é independente, pelas ruas e tem as mulheres e juventude na dianteira.
Por fim, nenhuma confiança na conciliação de classes! O governo traidor de Lula, em uma expressão cruel de manutenção de uma política assassina contra as mulheres, liberou a bancada do PT para votar como quisesse no escandaloso PL 1904/2024, chamado PL do estupro, que equipara o aborto ao crime de feminicídio. Apenas a partir da mobilização independente do movimento de mulheres nas ruas fizemos o PL recuar!
Além disso, a postura do governo petista se limita à discursos formais sobre o enfrentamento ao feminicídio no país, firmando um pacto abstrato entre os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) para promover espaços de acolhimento e políticas de combate a violência de gênero. No entanto, o Estado é responsável pelas vítimas. A falta de políticas de educação sexual nas escolas, desestruturação e precarização dos serviços de apoio à mulher como delegacias da mulher e centros de acolhimento, impunidade dos assassinos e estupradores e, finalmente, a recusa a se pautar com seriedade a legalização do aborto são as políticas que sustentam o aumento da violência e feminicídio. Por isso afirmamos: nenhuma confiança na conciliação de classes! A história mostra que nossos direitos avançam quando nos organizamos coletivamente e ocupamos as ruas.
Convidamos a todes para uma atividade de preparação para o ato de 8 de Março. No sábado, dia 7 de março, às 15h, realizaremos uma roda de discussão sobre os textos “Crítica marxista da família”, de Patricia Perez, e “Por que a luta contra a extrema direita exige a legalização do aborto?”, de Cecilia Loures, ambos disponíveis no portal EsquerdaWeb. A proposta é debater coletivamente as raízes da opressão de gênero e a importância da luta pelo direito ao aborto legal diante do avanço reacionário. Após a discussão, faremos uma oficina coletiva de confecção de materiais e faixas para levarmos juntas e juntos ao ato do 8M. A atividade acontecerá na Casa Rosa Luxemburgo (Rua Maestro Carlos Cruz, 145). No domingo também convocamos a todes à marcha, às 14h no MASP. Venha fortalecer a organização da luta!
Nem uma a menos!
Tomar as ruas já pelo fim da violência de gênero!
Por educação sexual nas escolas!
Justiça pela vítima de estupro coletivo de 17 anos no Rio de Janeiro!
Por uma campanha nacional pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito nos hospitais!
Pela reabertura do serviço de aborto legal no Hospital Municipal e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha!









