Por Danilo Moreira
Nas últimas semanas recebemos diversas informações sobre a situação financeira dos Correios e dos rombos sucessivos nos últimos anos. Fruto da má gestão governamental e institucional, em que houve troca de gestores por pessoas que não tinham ou têm relações com a empresa, valendo-se apenas da política em que os governos utilizam a gestão de empresas públicas como moeda de troca.
Após a realização da terceira auditoria do ano, foi apresentado o balanço financeiro com um rombo de 6 bilhões, com queda de 9,5% em relação ao ano anterior na receita no primeiro semestre, totalizando 8,9 bilhões. Isso se reflete na má administração da empresa pelo governo, em que parte das dívidas decorre do não pagamento de precatórios, dívida que vem se acumulando.
Atrelado à queda do lucro, a empresa vem enfrentando forte concorrência com empresas multinacionais e com o avanço das tecnologias, que diversificaram o mercado com o e-commerce e, nos grandes centros urbanos, oferecem uma logística mais eficiente, mas que está ligada também à precarização do trabalho, em que esses trabalhadores cumprem jornadas exaustivas e muitas vezes utilizam os serviços dos Correios em diversas situações e localidades.
Entre os pontos de reestruturação está o Programa de Demissão Voluntária, inclusão da escala 12×36 e remodelagem dos custos com o plano de saúde, 100% de adimplência com fornecedores, modernização e readequação do modelo operacional e infraestrutura tecnológica, além de iniciativas como monetização de ativos e venda de imóveis (potencial de receita de R$ 1,5 bilhão), otimização da rede de atendimento com redução de até mil pontos deficitários, expansão do portfólio para e-commerce e parcerias estratégicas. Segundo a empresa, essas medidas irão viabilizar o equilíbrio financeiro nos próximos 12 meses.
Há ainda a determinação da direção sobre o remanejamento de carteiros e atendentes comerciais para atender às necessidades logísticas e melhorar o desempenho na triagem dos objetos nos Centros de Tratamento e Distribuição. Por último, a empresa anunciou o corte do benefício concedido aos trabalhadores no fim de ano, o vale-peru, dada a crise, e aguarda o subsídio do Tesouro Nacional de até 6 bilhões para arcar com despesas de fim de ano, como o pagamento do 13° e outros encargos administrativos, enquanto não retoma a negociação do empréstimo com os bancos.
Temos também a situação do fundo de pensão dos trabalhadores dos Correios, mal administrado durante a gestão de Paulo Guedes, ex-ministro da economia do governo Bolsonaro, nos anos de 2010 a 2016, investigado pela PF sobre supostas fraudes e envolvimento em esquema de corrupção no fundo Postalis. Sem uma conclusão na justiça, mas com consequências sustentadas pelo bolso dos trabalhadores, que tiveram que aumentar a contribuição motivada pelos desvios.
Houve também a terceirização de serviços como o convênio médico, administrado pela Postal Saúde há mais de 10 anos, com um alto valor de contribuição que afetou o salário dos trabalhadores, fazendo com que muitos se desligassem, ficando sem assistência ou buscando outras alternativas.
Como se não bastasse, no governo Bolsonaro, durante o acordo coletivo de 2020, mais uma greve foi mediada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), resultando na retirada de 50 das 79 cláusulas do acordo coletivo. Medidas essas que fazem parte do plano de sucateamento da empresa para facilitar o caminho para a privatização.
Mesmo com os prejuízos, a empresa apresentou diversos investimentos nos últimos anos. Em 2019 e 2020, foram destinados aproximadamente R$ 1,1 bilhão à infraestrutura. Desse total, R$ 313 milhões foram aplicados na ampliação e modernização da frota, com aquisição de mais de 13 mil veículos; R$ 101 milhões em ativos de tecnologia, voltados ao aumento da capacidade de armazenamento de dados e atualização do parque computacional; R$ 153 milhões para automação do tratamento de objetos; e R$ 430 milhões para expansão da infraestrutura de encomendas.
Em 2023, os investimentos somaram R$ 755,47 milhões, enquanto em 2024 chegaram a R$ 830,27 milhões. Segundo a empresa, somente na modernização da frota foram aplicados R$ 698,58 milhões, além de R$ 601,25 milhões destinados à manutenção da infraestrutura operacional e R$ 267,68 milhões em tecnologia da informação, entre outros setores.
Desde o último concurso realizado em 2011, a empresa passou a recorrer cada vez mais à terceirização para suprir necessidades em vários setores. O que era uma alternativa enquanto não se realizavam concursos se tornou regra. Para além da segurança e da limpeza, atividades-meio que já eram terceirizadas, setores como transporte e distribuição domiciliar, que fazem parte das atividades-fim, também passaram por esse processo. Esse movimento ganhou legalidade após a aprovação da Lei de Terceirizações (Lei nº 13.429/2017), parte da Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017), do governo Temer, que permitiu a terceirização de atividades-fim em empresas públicas e privadas, com a promessa de melhorias, mas que levou à precarização da classe trabalhadora.
Esse processo permitiu a entrada massiva de mão de obra terceirizada: os Correios contam com cerca de 82 mil trabalhadores e vêm buscando reduzir esse número, enquanto cerca de 10 mil terceirizados atuam em unidades nas quais em algumas eles compõem a maior parte do efetivo. Essa realidade pode comprometer o andamento das atividades, especialmente diante da insatisfação desses trabalhadores, que enfrentam assédio moral, metas abusivas e pressão constante pela possibilidade de demissão sem justificativa. Somam-se a isso os atrasos nos pagamentos, descontos indevidos e salários menores que os dos concursados. Esse conjunto leva à exaustão física e mental e à alta rotatividade.
Há uma leitura equivocada de parte da sociedade ao equiparar uma empresa privada a uma pública. O equívoco está em ignorar que a empresa privada opera sob a lógica da competição e do lucro, enquanto a empresa pública tem caráter social e busca oferecer serviços a custos reduzidos para garantir o atendimento à população.
Os Correios cumprem um papel essencial ao atender todo o território nacional com serviços públicos, como a entrega do programa Leve Leite, envio de livros didáticos, transporte das urnas eletrônicas, logística do Enem, entre outras operações. Além disso, chegam a regiões remotas e de difícil acesso onde empresas privadas não têm interesse comercial. Também demonstraram sua importância na pandemia de COVID-19 e na catástrofe das chuvas no Rio Grande do Sul em 2024.
Todas essas movimentações visam atacá-la e entregá-la ao escrutínio público, o que está ligado à precarização com a entrada massiva de trabalhadores terceirizados após a lei e ao sucateamento da empresa — formas de facilitar a privatização. Parte da população vê isso com bons olhos, mas basta observar os casos das privatizações da Enel e Sabesp, que após o processo passaram por demissões e encarecimento dos serviços, entregando resultados muito aquém do esperado. Não podemos esquecer escândalos no setor privado, como o das Americanas ou o da Fast Shop, que contradizem a falácia de que o setor privado é a melhor alternativa.
Setores privados sobrevivem com subsídios do Estado, como ocorre neste momento com as taxações do governo Trump, em que foi lançado um pacote de ajuda de mais de 30 bilhões de dólares, além do agronegócio brasileiro, que recebeu mais de 400 bilhões com o Plano Safra. Isso pressiona o governo em qualquer política pública voltada aos de baixo.
Com o prejuízo apresentado no último período, a empresa busca um empréstimo de 20 bilhões, mas as negociações foram suspensas devido aos elevados custos da operação. A questão é: se o governo lança programas para subsidiar empresas privadas, por que não fazer aportes em empresas públicas, como os Correios? Ao invés de recorrer a bancos privados — caso os Correios não consigam arcar com o empréstimo, a dívida recairá sobre o Tesouro Nacional, ou seja, sobre o contribuinte.
No último dia 02, aconteceu a primeira assembleia dos trabalhadores dos Correios após mais de 4 meses de negociação, sendo aprovado o estado de greve. Haverá uma caravana com direções sindicais em Brasília dias 9, 10 e 11 para pressionar o governo e buscar uma definição para o acordo coletivo, com nova assembleia dia 15 e votação para início da greve no dia 16, caso não haja resposta da empresa. A justificativa para o atraso nas negociações, segundo a empresa, foi a troca recente da presidência, após o pedido de demissão de Fabiano Silva dos Santos, em julho, e a posse de Emmanoel Schmidt Rondon em 26 de setembro, ex-funcionário do Banco do Brasil.
Os sindicatos atuam em unidade diante de um programa de reestruturação que promete sustentabilidade e defesa da função pública da estatal, mas que ataca diretamente os trabalhadores. A atuação sindical, porém, tem sido insuficiente nos últimos anos, com inúmeros ataques, retirada de direitos e pouca mobilização da base. Em 2025, não tem sido diferente. Mesmo com meses de atraso nas negociações, a direção permanece priorizando o diálogo com a empresa, com pouca devolutiva aos trabalhadores, falta de plenárias e assembleias, e ainda impedindo delegados da oposição de participar das mesas de negociação, expondo métodos burocráticos e distanciamento da categoria.
Portanto, nossa luta deve se concentrar em exigir as seguintes reivindicações:
- Contra as medidas de reestruturação que atacam diretamente os trabalhadores.
• Reedição do acordo coletivo.
• Contra a escala 12×36.
• Pelo fim da escala 6×1.
• Pela contratação imediata dos aprovados no concurso público e efetivação dos terceirizados.
• Pela defesa de um Correios público e pela revogação das privatizações, com as estatais sob controle dos trabalhadores.










