Quando as crises do capitalismo se sobrepõem e a ordem internacional se desestabiliza, a história revela seu movimento real: a articulação dialética entre economia, natureza, geopolítica e luta de classes, sobredeterminando uma “era dos extremos” marcada pela reordenação violenta da ordem mundial.
Por RENATO ASSAD
De início, vale resgatar uma formulação clássica de Trotsky, escrita em meio à carnificina da Primeira Guerra Mundial: “o estampido do canhão em cada parte da Europa proclama a vitória teórica do marxismo”. Ou seja: quando o capitalismo entra em crise aberta, com guerras e barbárie, aquilo que o reformismo prometia – um caminho pacífico, gradual, legal e parlamentar ao socialismo – desmorona pela força dos fatos.
Hoje, mais de um século depois, voltamos a viver uma época em que o poder, a força material, faz o direito: as necessidades de um capital em crise não reconhecem a velha ordem. A legalidade burguesa, os tratados, as instituições internacionais – tudo isso tem sido constantemente atropelado por um capitalismo extremamente agressivo. Não é a lei que limita o capital; é o capital em crise que muda a lei quando precisa.
Portanto, em nossa avaliação, não se trata de uma crise “a mais” apenas, mas de que o capitalismo apresente múltiplas e profundas crises ao mesmo tempo – de maneira simultânea – que são muito difíceis de serem administradas. Assim, podemos definir que estamos em uma “era dos extremos”: um sistema-mundo em descontrole, que tenta recompor a ordem à base de guerras, espoliação territorial, remilitarização e deterioração acelerada das condições de vida dos explorados e oprimidos.
É nessa chave que precisamos compreender a situação política atual.
Uma nova etapa do capitalismo
O contraste entre o capitalismo “ordenado” dos anos 1990 e o capitalismo desregulado e caótico de hoje é evidente. Embora cada crise possua sua própria temporalidade, vivemos em um contexto histórico e inédito de policrise cujos principais eixos são: a crise ecológica (descontrole climático e impotência das cúpulas como a COP), a crise econômica (estagnação, competição feroz e agressividade patronal), a crise de hegemonia imperialista (disputa aberta pela dominação do planeta) e a crise dos centros políticos da democracia burguesa. Do ponto de vista marxista, a situação internacional deve ser lida em três planos combinados:
- a base material – economia e ecologia, marcada pela estagnação, financeirização e crise metabólica com a natureza;
- a relação entre Estados – a geopolítica;
- a luta de classes – a ação concreta da classe trabalhadora e dos oprimidos, suas rebeliões, potencialidades e limites.
Cada situação tem uma combinação distinta desses elementos. Já houve momentos em que o motor principal foi a economia (como em 2008), ou grandes ondas da luta de classes (como nos anos 1960-70-80). Hoje, o fator mais desestabilizador é a crise da ordem internacional, a passagem da “globalização consensual” para um mundo de esferas de influência, ameaças militares e violência discricionária entre Estados.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma inflexão no próprio tipo de imperialismo. A fase da globalização “sem fronteiras” (uma contradição entre fronteiras nacionais e mercado global que não pode ser superada sob o sistema capitalista), baseada, sobretudo, no mais-valor relativo, na produtividade e na expansão “harmoniosa” dos mercados, entra em declínio. Ganha peso um capitalismo da finitude, em que “o bolo não cresce” e a saída das classes dominantes é a pilhagem direta: disputa por terras, rotas estratégicas, recursos naturais e até espaço sideral. Métodos de acumulação por espoliação se combinam com a exploração “normal” do trabalho assalariado, configurando um novo-velho imperialismo territorializado, em que bases militares, bloqueios e guerras voltam a abrir caminho onde o mercado não dá conta.
Extrema direita e a crise de hegemonia
Nesse cenário, a extrema direita emerge como a expressão mais agressiva da crise de governança e hegemonia do capitalismo mundial. O eixo Trump–Netanyahu, acompanhado por figuras como Bolsonaro, Milei, Bukele e, possivelmente, Kast no Chile, opera como o núcleo dirigente dessa nova geopolítica marcada pela territorialização imperialista: uma lógica cada vez mais militarizada, expansionista, racista e colonial, que busca reordenar o mundo por meio da força e da espoliação. Podemos afirmar que o conceito de “espaço vital” (Lebensraum), formulado pela geografia clássica nos séculos XIX e XX por Friedrich Ratzel, recobra centralidade na atual etapa do capitalismo em sua lógica estrutural: a disputa violenta por territórios, recursos e zonas de influência como condição para a sobrevivência e expansão das potências.
A figura de Trump é central não porque tudo se explique pela sua personalidade, mas porque ele expressa a passagem de uma hegemonia imperialista “ordenada” para uma disputa brutal pelo repartimento do mundo: um mundo em que o lema é “meu Estado primeiro”, em que se reabre, em novas condições, a questão de qual hierarquia de Estados vai prevalecer – algo que não se decidirá sem sangue.
A Palestina expressa hoje o ponto mais agudo da luta de classes mundial: Gaza não é apenas um conflito geopolítico, mas uma guerra civil contrarrevolucionária – uma resposta genocida e colonial do Estado sionista contra um legítimo movimento de emancipação nacional profundamente desigual. Trata-se de um evento contrarrevolucionário que reordena o sistema internacional, mas que segue inscrito em relações de força abertas: por mais difícil que seja, uma reversão da fome e do genocídio em Gaza teria impacto qualitativo capaz de alterar a conjuntura mundial.
Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia mostra outro aspecto da crise de hegemonia: trata-se, ao mesmo tempo, de uma guerra justa de defesa nacional do povo ucraniano contra a invasão russa e de uma guerra por procuração entre potências imperialistas que utilizam o território ucraniano como terreno para redefinir zonas de influência. O “plano de paz” de Trump nada mais é que um ultimato de rendição, exigindo cessão de territórios, limitação militar e aceitação, na prática, do triunfo da agressão russa – parte de sua tentativa de redesenhar o tabuleiro global, reacomodar alianças e se apresentar como “artífice da paz” diante de uma população exausta.
Nesse contexto, União Europeia, preocupada com a Rússia e com sua própria vulnerabilidade militar, tenta salvar o projeto de uma Ucrânia alinhada à OTAN e à UE. Zelensky, que apostou desde o início nessa subordinação, se vê encurralado entre a mudança de posição dos seus patrocinadores (os EUA) e a vontade popular de defender uma legítima soberania. Nossa posição permanece nítida: defendemos o direito do povo ucraniano de resistir à invasão; não oferecemos qualquer apoio político nem a Putin, nem à OTAN, nem a Trump, nem à própria União Europeia; e afirmamos que o destino do país deve ser decidido pelo povo ucraniano, por meio de um plebiscito soberano ou de uma Assembleia Constituinte livre, e não por negociações opacas entre potências imperialistas.
No Caribe, a nova doutrina imperial da “guerra às drogas” de Trump expressa a mesma lógica de esferas de influência: militarização do Caribe e do Pacífico, ataques a embarcações, execuções extrajudiciais e fechamento do espaço aéreo venezuelano como ataque direto à soberania de um país independente. Ao mesmo tempo em que rejeitamos incondicionalmente essa ofensiva imperialista e defendemos a autodeterminação do povo venezuelano, não damos qualquer apoio político ao regime burguês e autoritário de Maduro, nem à oposição pitiyanqui que clama por intervenção dos EUA.
Essa combinação entre a ofensiva imperialista, o epicentro palestino, os conflitos na Ucrânia e a disputa no Caribe convive com a erosão das mediações políticas tradicionais: a crise dos partidos de centro e das formas tradicionais da democracia burguesa aprofunda a instabilidade e reforça a polarização política e social. Ainda assim, não estamos para nada diante de uma derrota histórica: tratam-se de governos ultrarreacionários e bonapartistas autoritários, mas não de regimes fascistas consolidados, pois as relações de forças sociais seguem abertas e há espaço para respostas de massas.
Nova classe trabalhadora, juventude universalista e respostas por baixo
Enquanto isso, o mundo social se transforma profundamente: é um mundo novo, belo em sua diversidade, ainda que marcado por forte precarização. Surge uma nova classe trabalhadora e uma juventude cosmopolita, migrante, multirracial, feminista e conectada planetariamente, que encarna uma tendência real à modernização das relações humanas e a uma universalidade inédita.
Esse novo sujeito social choca-se frontalmente com o conservadorismo e com os resquícios da velha sociedade; recebe como resposta movimentos reacionários que tentam conter essa transformação. Há hoje um choque categórico entre a universalidade das novas gerações e os particularismos: a universalidade é uma força revolucionária, enquanto o particularismo é uma força reacionária; e é precisamente desse choque que podem emergir tendências revolucionárias. Essa tensão se expressa de maneira concreta nas respostas radicalizadas por baixo – das rebeliões juvenis que derrubam governos autoritários às mobilizações contra a extrema direita, passando pela organização dos trabalhadores precarizados e pelas greves políticas internacionalistas, como a histórica paralisação italiana em solidariedade à Palestina.
Vemos esse processo também na organização da nova classe trabalhadora uberizada e de aplicativos, como o Congresso Mundial de Trabalhadores de Apps de que construímos, e em rebeliões urbanas como as que ocorreram em Los Angeles contra as batidas e a repressão antimigrante. Esses fenômenos ainda são, em grande medida, de vanguarda mais do que de massas plenas, mas indicam o rumo: uma nova geração entra na cena histórica, e cabe a nós estar ombro a ombro com ela.
Situação reacionária, mas em disputa: tarefas estratégicas
A atual situação política é predominantemente reacionária, mais dura e sangrenta, mas contém em seu interior a possibilidade da reversibilidade dialética com uma nova onda de radicalização política e social. Vivemos uma conjuntura de polarização sem hegemonia: a antiga ordem internacional do pós-1945 está em decomposição, nenhuma nova hierarquia está estabilizada e a tendência é resolver os conflitos crescentemente pela força – entre Estados, na economia (via espoliação) e na luta de classes.
Justamente por isso, não basta comentar a crise: é necessário intervir nela com uma estratégia. Para nossa corrente, isso significa afirmar a independência de classe frente a todas as variantes burguesas, rejeitar o campismo geopolítico, assumir a fundo as lutas democráticas como parte de um programa anticapitalista e reconstruir uma esquerda revolucionária militante, enraizada no mundo do trabalho, na juventude, no feminismo, nas lutas antirracistas e na nova classe trabalhadora precarizada.
Nossa aposta é estratégica, não possibilista; não é para buscar algum carguinho ou adaptação institucional, mas para construir uma esquerda revolucionária do século XXI que faça trabalho de base, expresse as necessidades das trabalhadoras e trabalhadores, do feminismo, das pessoas trans e de todas as das diversidades, e que, para falar ao conjunto da sociedade, fale primeiro aos explorados e oprimidos. Trata-se de recuperar uma perspectiva revolucionária, transformadora e militante que não seja apenas um discurso, mas um vínculo real com as massas. Para isso, é indispensável tirar conclusões estratégicas do século passado: da experiência da Revolução Russa, das experiências anticapitalistas, da burocratização das revoluções, do estalinismo antissocialista e do reformismo socialdemocrata.
Crise do sistema político, conciliação de classes e polarização
No marco nacional, atravessamos uma situação marcada por uma crise do sistema político com tendência ao seu aprofundamento para o próximo período e riscos aos direitos democráticos dos trabalhadores, na qual um semi-presidencialismo de fato – pautado pela hipertrofia do Congresso e do Centrão – combina-se com a contraofensiva da extrema direita e com a tentativa utópica e reacionária do lulismo de “normalizar” a democracia burguesa.
A prisão definitiva de Bolsonaro e de militares de alta patente, antes de qualquer coisa, é um fato progressivo e inédito na história do país: expressa tanto a derrota parcial da principal liderança da extrema direita golpista quanto seu desgaste perante uma parcela importante da classe dominante depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro e das sobretaxas de Trump ao mercado nacional. Essa punição – progressiva, mas limitada –, realizada por cima, pelo Judiciário enquanto instância interlocutora da classe dominante, sem mobilizações de massas e deixando impunes seus crimes durante a pandemia, consagra melhores condições para a luta dos explorados e oprimidos, mas não altera por si só a correlação de forças.
Apesar das prisões dificultarem a reorganização da extrema direita, não a interrompe. Essa força política e social desloca hoje seu polo principal para figuras como Tarcísio de Freitas, tão perigoso quanto Bolsonaro: em São Paulo, conduz um governo ultrarreacionário, marcado por duros ataques aos direitos democráticos e econômicos dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, a direita e a extrema direita articulam novos instrumentos repressivos, como o PL Antifacção, que cria a figura do “domínio social estruturado” e amplia de forma perigosa o conceito de “organização criminosa ultraviolenta”, abrindo espaço para que ações de movimentos sociais, ocupações urbanas ou mobilizações comunitárias sejam caracterizadas como intimidação, controle territorial ou interferência em serviços essenciais – pavimentando, assim, um amplo caminho para a criminalização de toda forma de luta social.
Esse quadro se combina com o fato de que o governo Lula 3 é um governo burguês liberal-social de conciliação de classes: preserva as contrarreformas de Temer e Bolsonaro, aprofunda o arcabouço fiscal, implementa ajustes e busca recompor a governabilidade por cima com o Centrão, enquanto administra concessões extremamente limitadas, como a isenção do IR até 5 mil. Ao mesmo tempo – e mesmo enfrentando contradições internas com a prisão de Bolsonaro e militares – a extrema direita segue sendo um polo de massas e um setor orgânico do Estado burguês apoiado por frações decisivas do capital, agora fortalecido pela presença de um governo imperialista abertamente perigoso (Trump). Opera simultaneamente dentro e fora da ordem e prepara 2026 como um novo momento de choque. A disputa em torno do PL Antifacção, da PEC da Blindagem, do PL da Anistia e da derrubada do decreto do IOF expressa que não está descartado para a burguesia a possibilidade de se formalizar um semi-parlamentarismo ultrarreacionário, blindar seus próprios representantes e manter aberta – com o apoio externo de Trump – a via autoritária.
Fracasso da conciliação lulista e crise da esquerda da ordem
A estratégia de Lula 3 de recompor uma “governabilidade pelo centro”, tentando dissolver a polarização e restaurar uma normalidade institucional, opera hoje sob condições materiais radicalmente distintas das dos anos 2000. Além de sustentar uma agenda de austeridade fiscal, o governo entrega aos setores dominantes seus pilares estratégicos – como os dois maiores Planos Safra da história –, fortalecendo um agronegócio golpista, ecocida, assassino e organicamente vinculado ao bloco de poder da extrema direita. Essa lógica de governabilidade não enfrenta o ultrarreacionarismo; ao contrário, o alimenta e o legitima. Nesse processo, o PSOL – degenerado pelo reformismo possibilista e pela adaptação categórica ao regime – completa sua falência estratégica: integrado organicamente ao governo pela entrada de Boulos como ministro, abandona qualquer horizonte de independência de classe e converte-se, na prática, em ala esquerda do liberalismo-social.
Na outra ponta do espectro político, o economicismo sectário do PSTU e do MRT tampouco oferece saída estratégica. Ao reduzir a conjuntura a uma soma de ataques econômicos e recusar-se sistematicamente a hierarquizar a luta política contra o golpismo, tais organizações desconsideram a dinâmica real do regime e o papel central da extrema direita como fração orgânica do Estado, das Forças Armadas e de importantes setores do capital. Sua incapacidade de articular a defesa das liberdades democráticas com a luta econômica – e de compreender que a derrota política do golpismo é questão central para qualquer avanço das lutas sociais – conduz a um sindicalismo estreito e a uma marginalidade autoimposta. Assim, acabam cometendo erros simetricamente opostos aos da esquerda governista: enquanto uns dissolvem a política no Estado, outros dissolvem o Estado na economia, renunciando à disputa concreta das massas contra a extrema direita.
Entre o possibilismo governista e o economicismo sectário, abre-se um vazio estratégico. É nesse espaço que precisamos intervir com uma alternativa revolucionária enraizada na luta de classes, que combine um programa democrático e anticapitalista, que atue de forma independente dos governos, burocracias e patrões, e que seja capaz de oferecer à vanguarda e aos setores avançados de nossa classe uma saída real frente ao impasse histórico que o país atravessa.
Contraofensiva da extrema direita e necropolítica
A extrema direita edifica hoje sua contraofensiva pavimentando a campanha de 2026 no terreno da “segurança pública”: as chacinas comandadas por Cláudio Castro no Rio de Janeiro (Operação Contenção na Penha/Alemão, maior chacina da história) e anteriormente por Tarcísio na baixada santista, somadas ao PL Antifacção são ensaios de terrorismo de Estado dirigidos contra a juventude negra e trabalhadora. A necropolítica racista – guerra às drogas, encarceramento em massa, execuções sumárias – é o laboratório onde se testam as formas de um regime mais autoritário. E o lulismo não apenas é incapaz de enfrentá-la: é parte ativa da engrenagem, seja com a polícia que mais mata do país na Bahia, seja com a PEC da Segurança Pública e a legitimação de “escritórios de combate ao crime” ao lado de governadores bolsonaristas. A situação nacional deve ser compreendida articulando a questão racial ao enquadramento do fracasso do lulismo combinado à contraofensiva da extrema direita: a defesa da vida negra, o fim das PMs e tribunais militares, a legalização das drogas sob produção e controle dos trabalhadores e o rompimento com a lógica punitivista não são temas secundários, mas eixo central da luta democrática e de classe no Brasil.
Crise climática e COP30
A COP30, longe de representar qualquer resposta real à catástrofe climática, funcionou como um grande palco de greenwashing global: um evento dedicado a blindar o capitalismo ecocida enquanto maquila a crise ambiental com retórica humanitária. Nem mesmo a escolha de Belém como sede – no coração da Amazônia – foi capaz de esconder as contradições do próprio governo Lula 3, que combinou discurso verde com um salto na fronteira extrativista: autorizou a exploração de petróleo na Margem Equatorial e abriu caminho para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O resultado expõe a falência estrutural da política climática internacional – com o Acordo de Paris reduzido a ficção, emissões em alta e uma matriz energética mundial que segue 80% fóssil – ao mesmo tempo em que revela o lugar subordinado do Brasil nesse modelo, onde enchentes, secas, queimadas e desastres crescentes atingem sobretudo os setores sociais mais vulneráveis e marginalizados. Enfrentar essa rota exige romper com o núcleo duro da destruição, o qual o atual governo se submete: latifúndio, mineração, petróleo e o modelo agroexportador. Só um programa anticapitalista pode fazê-lo: reforma agrária radical sem indenização, demarcação imediata de todas as terras indígenas e quilombolas, estatização sob controle dos trabalhadores das cadeias energéticas e um plano de transição ecológica real que confronte frontalmente o agronegócio e o extrativismo.
Tarefas estratégicas: independência de classe, programa e reorganização revolucionária
Nessa situação nacional – marcada pela polarização antecipada de 2026, pela contraofensiva golpista articulada com o Centrão, pela necropolítica racista e pela crise climática – precisamos reafirmar com nitidez um eixo estratégico: independência de classe frente a todos os campos burgueses e reconstrução de uma esquerda revolucionária enraizada na nova classe trabalhadora, na juventude, no movimento de mulheres, negro e LGBTQIA+. Onde houver ascenso de lutas e possibilidades reais de intervenção (partindo de critérios coerentes) devemos disputar, impulsionar e colaborar com esses processos estando à extrema-esquerda em todos eles – o que não significa sectarismo ou atalhos ultraesquerdistas, mas a capacidade de ler cada situação concreta para formular políticas e táticas coerentes. Isso também nos obriga a totalizar um programa anticapitalista e antiimperialista integral e permanentemente atualizado.
Por tudo isso, diante de um processo profundo de reorganização da esquerda revolucionária no país e no mundo, da imensa tarefa de contribuir para o relançamento do marxismo revolucionário para este século, temos que compreender que nossa aposta é estratégica, não possibilista; não hipotecamos o futuro em nome de mínimas e instáveis “garantias” no presente. Não nos adaptamos para buscar algum carguinho ou inserção institucional (mesmo sabendo que devemos um dia passar pela experiência parlamentar), mas para construir uma esquerda revolucionária do século XXI que faça trabalho de base, expresse as necessidades das trabalhadoras e trabalhadores, do feminismo, das pessoas trans e de todas as diversidades, e que, para falar ao conjunto da sociedade, fale primeiro aos explorados e oprimidos.
Trata-se de recuperar uma perspectiva revolucionária, transformadora e militante que não seja apenas um discurso, mas um vínculo real com as massas. Para isso, é indispensável tirar conclusões estratégicas do século passado: da experiência da Revolução Russa, das experiências anticapitalistas, da burocratização das revoluções, do estalinismo antissocialista e do reformismo socialdemocrata. Tendo como lição central que a emancipação dos explorados e oprimidos só pode ser obra deles mesmos, temos como tarefa incontornável organizar nossa intervenção nesse mundo em combustão e nos preparar, desde já, para saltos qualitativos na luta de classes que estão por vir.
Arte: Max Ernst, L’Ange du foyer.











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