VÍCTOR ARTÁVIA

«Cadáveres anônimos.
Nenhum esquecimento os reúne,
Nenhuma lembrança os separa…
Esquecidos na relva invernal
Sobre a via pública
(…)
“Eu sou a vítima!”. “Não, eu sou
a única vítima!”. Eles não replicaram:
“Uma vítima não mata outra.
E nesta história há um assassino
E uma vítima”
Cadáveres anônimos.»

— Mahmud Darwish

Em outubro de 2023, Israel iniciou o que chamou de “guerra defensiva” contra o Hamas, apresentado como o agressor pelos fatos de 7 de outubro. Esse relato lhe serviu durante muitos meses, principalmente porque as grandes potências capitalistas fecharam fileiras com a ofensiva sionista, alegando que lhe assistia o direito à “legítima defesa”.

Passaram-se dois anos desde então e, embora o governo de Netanyahu insista em assumir a posição de “vítima”, a opinião pública mundial converge cada vez mais na condenação da campanha de devastação e extermínio do sionismo na Faixa de Gaza.

Não é para menos. O que acontece em Gaza é um genocídio colonial. Não é uma guerra, não é um conflito entre dois Estados, não é uma luta entre iguais. Trata-se de um ato de barbárie planejada, executado por um dos exércitos mais poderosos do mundo que, com o respaldo incondicional do imperialismo estadunidense, utiliza todo o seu poder destrutivo contra um povo oprimido, que não conta com um Estado nem um exército regular próprios.

Em notas anteriores, desenvolvemos vários aspectos históricos e conceituais em torno desse genocídio [1]. Para esta ocasião, analisaremos o momento político deste evento disruptivo, dando conta do incremento na brutalidade da ofensiva sionista, mas também do isolamento político de Israel e da reabertura do debate programático para a Palestina.

“Gaza está ardendo”

Essa foi a frase que o ministro da Defesa sionista, Israel Katz, usou recentemente para se referir à intensidade e brutalidade contidas na ofensiva israelense sobre a Cidade de Gaza.

Essas três palavras, por sua vez, são úteis para ilustrar os contornos da etapa mundial, marcada pela agudização dos conflitos geopolíticos e o retorno do imperialismo da territorialização. A corrida armamentista, a luta pela configuração de esferas de influência – ou “espaços vitais” – e o recurso à força militar para resolver disputas são algumas de suas manifestações.

Em suma, estamos em trânsito rumo a um “novo mundo”, no qual se passa cada vez com mais facilidade da brutalidade das palavras à brutalidade dos fatos. Ou, como disse Gramsci para se referir aos convulsos anos vinte: “O velho mundo morre e o novo tarda a nascer, e nesse entremeio de claro-escuro surgem os monstros.”. Netanyahu e Trump encarnam à perfeição esse papel de “monstros”.

Pois bem, é válido questionar-se por que Gaza e por que neste preciso momento. Para responder a essas questões, é preciso articular dois níveis de análise, de forma a compreender as causas internas e externas a partir das quais se desenvolve a barbárie do genocídio.

Por um lado, Israel é um Estado colonial. Uma ocupação colonial não é um evento específico, é antes de tudo uma estrutura. Trata-se de um processo de longa duração que, no caso do sionismo, experimentou uma radicalização acumulativa. Por isso, passou de empregar métodos de dominação semelhantes ao apartheid sul-africano a desenvolver um genocídio que, por seus métodos e pela assimetria de poder, só é comparável ao genocídio perpetrado pelo nazismo.

A colonização imperialista nos países periféricos assumiu diversas formas ao longo da história. Por exemplo, os britânicos dominaram a Índia com a presença direta de uns 40 ou 50 mil ingleses, apoiando-se em sua superioridade militar e econômica, além de desenvolver uma engenhosa política de acordos com grupos locais — o famoso “dividir para governar”.

Também houve empreendimentos coloniais baseados no assentamento de massas de colonos, com o consequente deslocamento e extermínio da população originária. Tomemos o caso dos Estados Unidos e da expansão colonial sobre os territórios indígenas, os quais foram exterminados e reclusos em reservas. Outro exemplo foi a colonização do que atualmente conhecemos como América, durante a qual se exterminou 90% da população indígena e se demoliram seus centros cerimoniais para erguer igrejas católicas.

Visto o anterior, é claro que há uma diferença com o colonialismo clássico, cujo fim primordial é apropriar-se dos recursos naturais e explorar a força de trabalho nativa. No caso do colonialismo de povoamento, o objetivo central é construir uma nova “pátria” numa terra que não lhes pertence do ponto de vista histórico; os colonos são um corpo estranho implantado de fora pela via da força.

Pois bem, Israel é um caso contemporâneo de colonialismo de assentamento ou povoamento, cuja lógica consiste em suplantar a população nativa com a implantação de uma população forânea. Com o agravante de ter sido realizado sobre uma região com alta densidade populacional.

Além disso, Israel foi fundado em meados do século XX, ou seja, justamente quando estavam em curso os processos de descolonização na África e na Ásia. Esse fato, somado à instrumentalização da memória do Holocausto, beneficiou o sionismo ao “disfarçar” sua natureza colonial e a limpeza étnica que estava realizando, a qual apresentou como “ações defensivas” no marco de “disputas religiosas” ou motivadas por antissemitismo (esse foi o relato agitado no início do genocídio em Gaza).

O anterior explica que a colonização sionista da Palestina pareça uma história sem fim, pois Israel está em estado de guerra permanente contra o povo palestino, dado que sua finalidade é expulsar o povo colonizado para apropriar-se de suas terras e recursos.

Mas a única forma de levar a cabo uma limpeza étnica é mediante o uso sistemático da violência extrema, pois, do contrário, é impossível expulsar enormes quantidades de nativos de suas terras originárias. E, dado que é sumamente difícil (para não dizer impossível) transferir completamente uma população nativa para outra região, a limpeza étnica traz implícita a pulsão genocida.[2]

De acordo com Ilan Pappé (2022), a execução da violência colonial extrema emprega vários dispositivos ideológicos para auto-justificar-se. Em primeiro lugar, aponta a lógica da eliminação, que consiste em criar os meios e as justificativas morais para expulsar a população nativa. No caso do sionismo, acrescenta, ela também contém a lógica da desumanização, mediante a qual apresenta os outros como bestas que devem ser exterminadas.

Para não deixar dúvidas, vejamos as palavras que pronunciou o então ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, no início da operação de devastação em Gaza: “Estamos impondo um cerco total a Gaza (…) nem eletricidade, nem comida, nem água, nem gás, tudo fechado (…) Estamos lutando contra animais e agimos em consequência”.

O exposto assemelha-se à narrativa empregada pelo nazismo para desumanizar os judeus, com a qual preparou as condições para desdobrar a barbaridade genocida no Leste Europeu e na invasão à URSS. Essa é a conclusão exposta por Ian Kershaw ao analisar a “Noite dos Cristais”, como ficou conhecido o sangrento pogrom realizado pelos nazistas na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, durante o qual assassinaram cerca de uma centena de judeus, destruíram mais de 8.000 lojas “judaicas” e demoliram ou queimaram centenas de sinagogas, tudo em represália ao assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um judeu polonês:

“A escala e a natureza da barbárie, e o objetivo evidente de potencializar ao máximo a degradação e a humilhação, refletiam o sucesso da propaganda ao demonizar a figura do judeu (…) e acelerar substancialmente o processo, iniciado com a chegada de Hitler ao poder, de desumanização e exclusão dos judeus da sociedade alemã, um passo decisivo no caminho rumo ao genocídio.” (KERSHAW, 2019, p. 606-607).

Por outra parte, a liberação da pulsão genocida latente no sionismo não se explica somente pela dinâmica intrínseca do processo de colonização. É, ao mesmo tempo, consequência das mudanças abruptas no plano internacional, em particular da ascensão de governos de extrema direita e da consequente ruptura dos consensos que ordenaram o mundo desde a segunda pós-guerra até há pouco tempo.

Desde nossa corrente caracterizamos que ingressamos numa “era da combustão”, isto é, um mundo em que se rompeu o equilíbrio internacional e impera um “caos sem ordem à vista”. Ficou para trás a etapa da “ordem consensual hegemônica” e, em contraposição, atualmente as potências imperialistas brigam como “capangas” pela repartição de territórios a serem espoliados:

“(…) ao imperialismo da globalização impôs-se outro tipo de imperialismo, o da territorialização. Ao capitalismo do mais-valor relativo impôs-se outra lógica, para dizê-lo redondamente, a do mais-valor absoluto. Ao capitalismo da acumulação especificamente capitalista (isto é, sem elementos extraeconômicos) impõe-se, ou agrega-se, a ‘acumulação primitiva’ (a acumulação por meios violentos, por exemplo, pela apropriação de territórios, como diria Marx em sua teoria da renda agrária e mineira, de porções da atmosfera e inclusive do cosmos). Ao capitalismo da exploração agrega-se o da espoliação, dos recursos naturais e dos seres humanos.” (SÁENZ, 2025).

Trata-se de um “capitalismo da finitude”, no qual as burguesias imperialistas e suas sócias menores (sub-imperialistas ou potências regionais) avaliam que não há espaço para crescimento e, portanto, a depredação dos recursos existentes é a melhor forma de manter ou melhorar sua posição. Em outras palavras, reabriu-se uma nova repartição do planeta manu militari.

A respeito disso, é interessante retomar a análise de Ernest Mandel em Late Capitalism (1976, Capitalismo Tardio), na qual sustenta que a acumulação primitiva de capital e a acumulação de capital por meio da produção de mais-valor não são fases sucessivas na história do capitalismo, mas processos econômicos simultâneos no espaço e no tempo:

“Ao longo de toda a história do capitalismo até o presente, os processos de acumulação primitiva de capital coexistiram constantemente com a forma predominante de acumulação de capital mediante a criação de valor no processo de produção.(…) A situação que define os processos de acumulação primitiva hoje em dia é obviamente muito diferente. Isso ocorre no marco de um modo de produção capitalista já estabelecido e de um mercado mundial capitalista; portanto, encontram-se em constante competição, ou intercâmbio metabólico permanente, com o modo de produção capitalista já estabelecido.” (MANDEL, 1976, p. 46-47).[3]

O anterior nos serve para compreender e dimensionar o genocídio em Gaza. É uma tentativa do governo fascista de Netanyahu de esmagar a luta de libertação nacional do povo palestino, para o que executa uma campanha de devastação contrarrevolucionária. Dessa forma, o sionismo espera consumar uma nova limpeza étnica que lhe permita colonizar a Faixa de Gaza (com a clara cumplicidade e participação dos Estados Unidos). Em suma, é um ato de acumulação por despossessão em desenvolvimento.

Isto não é “teoria da conspiração”. Pelo contrário, são muitas — e cada vez mais explícitas — as manifestações dos líderes políticos de Israel e da Casa Branca a favor de apropriar-se do enclave palestino. Por exemplo, recentemente o ministro das Finanças sionista, Bezalel Smotrich, referiu-se à Faixa de Gaza como um “negócio imobiliário” e afirmou que “a demolição já está feita”, restando apenas reconstruir e obter enormes dividendos. Também afirmou que apresentaram uma proposta concreta ao governo dos Estados Unidos para repartir em porcentagens o território de Gaza.

Do mesmo modo, no início de setembro, o Washington Post teve acesso a um documento de 38 páginas da Casa Branca, intitulado “Fideicomisso de Reconstituição, Aceleração Econômica e Transformação de Gaza”. Nesse texto, a administração de Donald Trump delineou seu projeto para o “dia seguinte” em Gaza — isto é, o que sobreviria quando terminasse formalmente a “guerra” (assim o imperialismo e o sionismo denominam o genocídio) e se desse início à reconstrução da zona.

Como o nome sugere, o objetivo é transformar o enclave palestino num “fideicomisso” administrado pelos Estados Unidos durante um prazo mínimo de dez anos. Durante esse lapso, Trump aspira construir um complexo turístico e um centro de manufatura de alta tecnologia.

Com relação à população nativa, o documento assinala que promoverá a realocação temporária dos dois milhões de palestinos, mediante o que denomina “saídas voluntárias” a outros países ou em “zonas seguras” dentro da Faixa. Uma forma sutil de denominar uma operação de limpeza étnica!

Para incentivar as saídas voluntárias, o documento prevê conceder um pagamento em dinheiro de cinco mil dólares, assim como subsídios para quatro anos de aluguel em outro país e o pagamento de um ano de alimentação.

Supondo que o sionismo (que comete o genocídio) e o imperialismo estadunidense (que o respalda) cumpram seus compromissos financeiros, seria uma troca totalmente desigual e colonial, pois forçariam milhares de palestinos a abandonar seus lares e sua terra natal, tudo em troca de alguns milhares de dólares e da assinatura “voluntária” de um contrato para “legitimar” a limpeza étnica e o roubo de terras em Gaza.

Junto a isso, enquanto os olhos do mundo estão postos sobre Gaza, o sionismo avança com a construção de assentamentos na Cisjordânia. Em 1993, quando foram assinados os “Acordos de Oslo”, havia 110.000 colonos sionistas na Cisjordânia distribuídos em 128 assentamentos. Mas, desde 2010, quando Netanyahu chegou ao poder, os assentamentos não pararam de crescer e, atualmente, contabilizam-se 148 colônias com uma população de 450.000 israelenses e 1,5 milhão de palestinos (a ANP alega que, na realidade, são 650.000 colonos israelenses e 2,5 milhões de palestinos).[4]

Tudo o que foi exposto evidencia a articulação/coexistência entre a acumulação primitiva de capital e a acumulação de capital mediante a criação de valor no processo de produção, tal como explicava Mandel. A despossessão do povo de suas terras originárias mediante um brutal genocídio é vista como uma oportunidade de negócios pelos colonos sionistas e por Donald Trump.

Um exemplo daquilo que Marx sentenciou em um dos capítulos de O Capital, no qual se refere à acumulação primitiva assim: “Se, segundo Augier, ‘o dinheiro veio ao mundo com manchas naturais de sangue em um de seus rostos’, o capital chega a ele suando sangue e lama por todos os poros.” (MARX, 1973, p. 740).

“Há muitas pessoas presas sob os escombros e podemos ouvir seus gritos”

Com essas palavras cruas, Ahmed Ghazal, um jovem de 25 anos que reside na Cidade de Gaza, ilustrou as condições de barbárie extrema às quais está submetida a população da Palestina.

Em Gaza está em curso uma espécie de “solução final” contra a causa palestina. Explicamo-nos melhor. Sob o regime de segregação e apartheid que imperou durante décadas nos territórios ocupados, aos palestinos era questionada sua condição de cidadãos por meio da violência sistemática, de restrições à mobilidade e da ausência de direitos fundamentais. Agora, sob o genocídio, a brutalidade deu um salto de qualidade, pois o que está em questão é a condição humana.

Os setores mais radicais do sionismo cruzaram a linha vermelha do genocídio e, por essa via, tentam avançar com a construção de seu “espaço vital”, o “Grande Israel”, sobre a totalidade da Palestina histórica. Com o apoio incondicional dos Estados Unidos, utilizam o que há de mais avançado em ciência e tecnologia militar para exterminar seres humanos em escala industrial e apropriar-se de suas terras.

Segundo dados do Ministério da Saúde do enclave palestino, já são 65 mil as pessoas assassinadas pelos ataques israelenses. No entanto, essa estatística compreende as mortes plenamente confirmadas e, portanto, é fato que a quantidade de falecidos é muito maior, porque há milhares — ou dezenas de milhares — de cadáveres sob os escombros.

É isso que reflete o relatório “Desmascarando a História: A odiosa política de contar os mortos de Gaza”, elaborado pelos doutores Richard Hil e Gideon Polya, que afirmam que um terço da população gazeti morreu por causas relacionadas à agressão militar sionista. Em números absolutos, sustentam que já são 680.000 gazeteis assassinados (até abril de 2025), entre os quais estimam 380.000 crianças menores de 5 anos, 99.000 crianças acima dessa faixa etária, 63.000 mulheres e 138.000 homens.

Além disso, o grau de devastação da infraestrutura na Faixa de Gaza não tem precedentes. A ONU estima que 90% das moradias foram destruídas. A reconstrução do enclave palestino levaria catorze anos de trabalho ininterrupto e a remoção de mais de 30 milhões de toneladas de escombros, o que teria um custo aproximado de 40 bilhões de dólares.

Do mesmo modo, entre 53% e 71% dos sítios históricos foram destruídos ou severamente danificados pelos bombardeios. Trata-se de edificações com séculos de antiguidade, como a Grande Mesquita Omari, construída no século XIII, ou o Museu Cultural Al-Qarara, que preservava objetos datados de 4000 a.C.

A destruição das moradias e dos sítios culturais é parte do genocídio, pois tem por objetivo acabar com as condições materiais que permitem a reprodução material e simbólica do grupo étnico que se pretende exterminar. Ou seja, o genocídio não se mede somente pelo número de vítimas, mas também pela destruição do tecido social e cultural do grupo atacado.

Pior ainda, há algumas semanas Israel iniciou a incursão terrestre sobre a Cidade de Gaza, precedida por várias semanas de intensos bombardeios. O governo sionista alega que é o último reduto do Hamas e, segundo seus cálculos, ali se escondem entre 2 e 3 mil combatentes da milícia palestina. É um dado impossível de corroborar, mas é o que Netanyahu utiliza para “justificar” o deslocamento forçado de um milhão de pessoas que residem na cidade, onde ainda restavam (ou restavam) alguns edifícios e infraestrutura sanitária de pé.

É um frenesi de morte e destruição por toda parte, do qual há poucos precedentes na história moderna. Inclusive, o que sucede em Gaza apresenta muitas particularidades que o distanciam de outros genocídios recentes.

Vejamos o caso do genocídio de Ruanda em 1994. Também foi um ato de barbárie planejada que ceifou a vida de entre 800 mil e um milhão de tutsis às mãos dos hutus, que utilizaram facões para assassinar suas vítimas. Do mesmo modo, ocorreu em um país periférico, isto é, que não faz parte do centro capitalista nem do imaginário cultural ocidental.

No caso de Gaza, ocorre algo diferente. O genocídio é realizado por um Estado que, durante os últimos setenta e sete anos, foi considerado um embaixador do “mundo Ocidental” no Oriente Médio. Mais que isso: Israel foi criado pelo establishment imperialista na segunda pós-guerra (com o apoio traidor da União Soviética stalinista [5]) e, até há pouco, era promovido como um exemplo bem-sucedido de “democracia liberal” — para os colonos, não para a população palestina submetida a um regime de apartheid — em meio ao “atraso” de uma região acostumada a regimes autoritários ou islamistas.

Não é nossa intenção fazer uma comparação odiosa para determinar qual genocídio é pior. Ambos são casos de violência extrema que produziram resultados terríveis do ponto de vista humanitário.

No entanto, entre ambos há diferenças ao avaliar suas implicações no plano internacional e histórico. Assim, enquanto em Ruanda se utilizaram facões como principal arma do crime, em Gaza o responsável é um Estado que possui armas nucleares, utiliza inteligência artificial para executar suas chacinas cotidianas e articulou um conglomerado de poderosas empresas transnacionais no que as Nações Unidas já denominam uma “economia do genocídio” (isso desenvolveremos adiante).

Aí reside o particular do genocídio em Gaza. É um exemplo contemporâneo do emprego de métodos racionais para alcançar fins irracionais. Em termos mais claros, da utilização do que há de mais avançado na ciência e na tecnologia do momento para levar a cabo um ato de extermínio de seres humanos em escala industrial.

O único ponto de comparação na história recente é o genocídio nazista na Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, Gaza é um acontecimento histórico que, além de conter a brutalidade própria de todo genocídio, ao mesmo tempo parece sinalizar a abertura de uma “nova era dos extremos” no século XXI, isto é, do enfrentamento cara a cara entre a revolução e a contrarrevolução.

Porque esse é o pano de fundo do genocídio em Gaza. É uma tentativa do governo fascista de Netanyahu de implementar uma “solução final” contra a luta de libertação nacional do povo palestino.

Tudo o anterior deve nos servir para entender algo: o direito legítimo do povo palestino de lutar com métodos de guerra civil por sua libertação nacional, o que somente será possível mediante a destruição do Estado colonial, racista e genocida de Israel e a construção de uma Palestina laica, democrática, não racista e socialista.

“O genocídio continua (…) porque é lucrativo para muitos”

Em julho do presente ano, a relatora da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, publicou o informe From economy of occupation to economy of genocide (Da economia da ocupação à economia do genocídio), no qual denunciou a teia corporativa em torno do massacre em Gaza.

Apesar das limitações políticas de qualquer documento emitido pelas Nações Unidas, é interessante analisá-lo porque expõe a relação estrutural entre a colonização sionista e o capital imperialista. Ou seja, evidencia a articulação/coexistência entre a acumulação primitiva de capital e a acumulação de capital por meio da criação de valor no processo de produção.

Segundo a investigação, a ocupação colonial da Palestina apoia-se em um enorme emaranhado de corporações locais e transnacionais, que fornecem armas, tecnologia, recursos financeiros e conhecimento a Israel para que controle e oprima a população palestina. Por exemplo, vejamos o que diz no ponto 24: “As entidades corporativas desempenharam um papel chave no asfixiamento da economia palestina, sustentando a expansão israelense nos territórios ocupados e facilitando a substituição dos palestinos. As draconianas restrições — ao comércio e ao investimento, ao plantio de árvores, à pesca e à água para os colonatos — debilitaram a agricultura e a indústria e converteram o território palestino ocupado em um mercado cativo; as empresas lucraram explorando a mão de obra e os recursos palestinos, degradando e desviando os recursos naturais, construindo e abastecendo de energia os colonatos e vendendo e comercializando os bens e serviços deles derivados em Israel, no território palestino ocupado e em todo o mundo.”

Do mesmo modo, no item 26 o informe indica que, depois de outubro de 2023, essa teia corporativa transformou-se na “infraestrutura econômica, tecnológica e política” utilizada por Israel para “infligir violência massiva e uma destruição imensa”. Em outras palavras, as corporações não tiveram problema moral em passar de colaborar com o regime de ocupação e de apartheid ao desenvolvimento do genocídio, pois isso lhes rende enormes ganhos.[6]

De fato, a ilegalidade que rodeia a ocupação colonial e agora o genocídio é vista por setores da indústria de armas e de tecnologia como um “campo de provas ideal”, devido a não haver qualquer tipo de supervisão que limite o uso de seus produtos sobre os palestinos.

O informe destaca a contradição de alguns governos “progressistas” que, embora façam declarações fortes contra Israel, de fato não tomam medidas para impedir que, a partir de suas economias, exportem-se matérias-primas fundamentais para sustentar a máquina militar e a economia sionista.

É o caso da Colômbia, que, em meados de 2024, era o maior fornecedor de carvão para Israel. Embora o governo Petro tenha “suspendido” as exportações de carvão a esse país em junho do ano passado, até hoje o mineral colombiano abastece os sionistas por meio de duas multinacionais, a saber, a suíça Glencore e a estadunidense Drummond.

Outro exemplo é o do Brasil, dado que BP e Chevron aportaram 16% do petróleo consumido por Israel entre outubro de 2023 e julho de 2024 (8% cada conglomerado), em grande parte com petróleo extraído de campos petrolíferos brasileiros nos quais a Petrobras (empresa estatal) é a sócia majoritária.

Recentemente, a Anistia Internacional publicou o informe Enfrentar a economia política global que facilita o genocídio, a ocupação e o apartheid de Israel, cujo conteúdo coincide com as avaliações expostas pelas Nações Unidas. Mais ainda, fornece uma lista detalhada das principais empresas transnacionais cúmplices de Israel, entre as quais figuram “as multinacionais estadunidenses Boeing e Lockheed Martin; as empresas armamentistas israelenses Elbit Systems, Rafael Advanced Defense Systems e Israel Aerospace Industries (IAI); a empresa chinesa Hikvision; a fabricante espanhola Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles (CAF); o conglomerado sul-coreano HD Hyundai; a empresa de software estadunidense Palantir Technologies; a empresa tecnológica israelense Corsight; e a estatal israelense de águas Mekorot”.

Em consequência, esses informes oferecem insumos para explicar a natureza anticolonial e anticapitalista que deve revestir a luta do povo palestino para lograr sua libertação da ocupação sionista, a qual se apoia na força das armas do exército sionista e numa poderosa teia de corporações capitalistas [7].

Isto último é importante na hora de formular um programa para a luta contra o sionismo, porque dota o movimento de solidariedade com a Palestina no exterior de uma tarefa anticapitalista. Por exemplo, mediante o boicote às empresas que apoiam o genocídio e a ocupação, o que pode significar desde um chamado a não consumir certos produtos até impedir a circulação das mercadorias de certas empresas nos portos.

“Esta Volta já foi vencida pela Palestina”

No dia 14 de setembro, nas ruas de Madri, realizou-se uma gigantesca mobilização contra o genocídio em Gaza. Mais de cem mil pessoas marcharam contra a participação da equipe Israel-Premier Tech na Volta Ciclística da Espanha, uma das mais prestigiadas do circuito internacional.

Apesar do forte aparato repressivo, os manifestantes não recuaram e, aos gritos de “Netanyahu assassino” e com bandeiras palestinas nas mãos, derrubaram as barreiras de segurança e ocuparam trechos do percurso da última etapa da competição, obrigando à sua suspensão.

“A Volta serviu como catalisadora da impotência das pessoas (…) Como uma forma de nos despojarmos da responsabilidade do silêncio, da cumplicidade (…) Já é hora de percebermos que sim, é possível parar as coisas. Por mais propaganda que nos vendam para nos forçar a aceitar com passividade tudo o que acontece”, declarou à imprensa Daniel Gómez, porta-voz da associação Interpueblos.

Foi uma ação que os próprios organizadores qualificaram como disruptiva, isto é, que alterou a normalidade para dar visibilidade ao genocídio e repudiar o “branqueamento” da política de Israel por meio de um evento esportivo. Devido à magnitude do protesto e ao prestígio da competição, a ação ganhou enorme repercussão midiática e evidenciou o crescente ódio social contra Israel em nível internacional.

Mais significativo ainda foi a enorme greve nacional realizada na Itália em 22 de setembro sob o lema “Bloqueemos tudo com a Palestina no coração”. Segundo a imprensa internacional, o movimento estendeu-se por mais de oitenta cidades do país mediterrâneo, com o objetivo de denunciar o genocídio em Gaza, solidarizar-se com a frota humanitária Global Sumud e exigir ao governo Meloni que reconheça o Estado palestino.

Em Roma, capital do país, aproximadamente 100 mil pessoas marcharam da Piazza dei Cinquecento até a Porta Maggiore, gritando palavras de ordem como “Palestina livre!” e “Israel terrorista”.

A greve afetou o funcionamento do transporte público, de centros educativos e dos portos. Na capital, manifestantes bloquearam a estação Termini, a principal da Itália. Em Milão e Bolonha, ocorreram fortes enfrentamentos com a polícia.

O paro foi convocado pela União de Sindicatos de Base (USB), que apoia a frota humanitária Global Sumud. “Somos um mar de humanidade, e isso diz muito do nosso senso de dever de estar aqui para denunciar o que está acontecendo na Palestina: um genocídio que queremos deter”, declarou Sasha Colautti, do secretariado nacional da USB.

O anterior é sintomático de duas coisas. Por um lado, de que está em curso uma nova onda de protestos massivos contra o genocídio em Gaza, com foco na Europa. Do mesmo modo, que as mobilizações tendem a ser cada vez mais disruptivas, em grande medida como resposta à radicalização do governo fascista de Netanyahu e sua campanha de extermínio contra o povo palestino. Igualmente, nos últimos meses aumentaram os posicionamentos contra Israel no mundo da cultura e do esporte.

Isto último é de suma importância, pois dá conta de um fenômeno já apontado por muitos analistas: Israel gastou o “crédito do Holocausto” e, cada vez mais, setores da população mundial o percebem como o lado agressor e genocida.

De fato, um artigo recente da The Economist (ver America is falling out of love with Israel) sustenta que, após o término abrupto e unilateral da trégua em março passado, mudou significativamente a percepção de Israel nos Estados Unidos: 43% dos estadunidenses consideram que comete um genocídio em Gaza e 50% têm opinião desfavorável desse Estado.

Junto a isso, nos últimos meses cresceram as denúncias internacionais contra a atuação do sionismo. Em meados de setembro, a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre os territórios palestinos ocupados da ONU declarou que Israel cometeu quatro dos cinco atos genocidas definidos na Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio: matar, causar lesões físicas ou mentais graves, submeter deliberadamente a condições de vida destinadas a destruir os palestinos e impedir a natalidade em Gaza. Navi Pillay, presidente da comissão, afirmou que “é evidente que existe a intenção de destruir os palestinos de Gaza mediante atos que cumprem os critérios estabelecidos na Convenção sobre o Genocídio”.

Essa passagem de vítima a algoz explica que Israel esteja se convertendo em um Estado pária em nível internacional. Em questão de poucos meses, uma série de países europeus se distanciaram de Tel Aviv e pronunciaram-se pelo reconhecimento de um Estado palestino. Entre os casos mais significativos, contam-se Irlanda, Espanha, Noruega, Eslovênia e, mais recentemente, França e Reino Unido.

Que impacto tem o reconhecimento de um “Estado palestino” por parte de vários governos europeus? Por um lado, é sintomático da enorme pressão que emana da sociedade civil. O repúdio ao genocídio é de massas em muitos países, como refletiram algumas mobilizações na Europa ou na Austrália. Também gera pressão sobre o governo fascista de Netanyahu, que se posiciona abertamente contra os Acordos de Oslo que Israel subscreveu nos anos 1990.

Por outro lado, não podemos esquecer que se trata do reconhecimento de um “Estado” palestino nos marcos dos Acordos de Oslo. Em termos mais claros, é uma posição diplomática que reconhece a existência de Israel como Estado colonial e propõe a existência de um mini-Estado palestino sem viabilidade alguma.

Mais ainda, o informe de Francesca Albanese que citamos previamente é bastante crítico desses acordos, pois “consolidaram essa exploração, institucionalizando de facto o monopólio de Israel sobre 61% dos recursos na Cisjordânia (Área C). Israel se beneficia dessa exploração, enquanto à economia palestina ela custa ao menos 35% de seu PIB.”

Também é interessante ouvir o que dizem as vozes palestinas. Em uma mesa redonda organizada pela Al Shabaka (The Palestinian Policy Network), vários analistas palestinos expuseram críticas a essa onda de reconhecimentos diplomáticos do “Estado” palestino na Europa. Diana Buttu, por exemplo, destacou como inquietante que o reconhecimento europeu “continua preso à lógica das negociações bilaterais”, algo que considera equivocado porque promove a ideia de que os palestinos “devem negociar todos os aspectos de sua liberdade, como se a libertação tivesse que ser sempre condicional, gradual e mediada por seu colonizador. Essa é a lógica na qual seguimos presos”. Além disso, sustenta que é uma estratégia que beneficia a desacreditada Autoridade Nacional Palestina (ANP), liderada por Mahmoud Abbas, que se apresenta como o ente legitimado internacionalmente para representar a Palestina perante o mundo.

Mais contundente ainda é a posição de Yara Hawari, que qualifica o reconhecimento como uma “distração” e chamou a centrar a pressão em exigir que “os Estados reconheçam o genocídio antes de reconhecerem um Estado palestino”, dado que isso tem implicações mais reais para pressionar Israel a deter a chacina.

Critério semelhante é o exposto por Gilbert Achcar (ver O reconhecimento não é suficiente), ao criticar que “os planos ocidentais para um Estado palestino estão muito longe da autodeterminação”, porque “impõem severas limitações à sua futura soberania”.

Para Achcar, muitos governos ocidentais fecharam fileiras com Netanyahu depois de 7 de outubro de 2023, pois consideravam que Israel eliminaria o Hamas e passaria o controle de Gaza à Autoridade Nacional Palestina. Mas esse não era o plano do governo israelense: seu primeiro-ministro há décadas declara opor-se à criação de um Estado palestino e, apoiando-se na aliança com os partidos extremistas dos colonos, optou por um curso mais radical contra os palestinos, inclusive ultrapassando Joe Biden pela extrema direita. Com a chegada de Trump à Casa Branca, Netanyahu liberou plenamente seus planos genocidas.

Tudo o anterior, somado às terríveis imagens da fome, provocou uma mudança na opinião pública europeia e, os até então pró-sionistas governos da UE, tiveram de girar sua política com uma postura simbólica a favor de um Estado palestino, embora sem romper suas relações com Israel.

Isso ficou manifesto na “Declaração de Nova York”, promovida por França e Arábia Saudita há alguns meses, na qual se promove a conformação de um “Estado” palestino com direitos políticos somente para quem aceitar a dominação da Autoridade Nacional Palestina (ANP); além disso, essa entidade não contaria com um exército para se defender (em primeiro lugar, de seu vizinho Israel), dispondo apenas de armamento para reprimir sua própria população.

Além do genocídio em Gaza, o governo de Netanyahu cruzou muitas linhas vermelhas nos últimos dois anos, incluindo o bombardeio a vários países da região e, por que motivo, começou a ser percebido pelos Estados árabes como um rogue state (Estado canalha). Após atacar o Irã de forma súbita, há poucos dias Israel atacou o Catar, um aliado dos Estados Unidos que inclusive tem uma base militar norte-americana em seu território. O motivo foi assassinar a delegação negociadora do Hamas que reside naquele país, que assumiu o papel de mediador com a milícia palestina a pedido dos EUA há vários anos.

O anterior acendeu alertas na região, pois Israel reafirma-se cada vez mais como o “capanga” do Oriente Médio, que não tem pudor algum em cometer atos de terrorismo de Estado para impor-se pela força. Uma fórmula muito arriscada que, embora possa render alguns êxitos momentâneos, é pouco rentável no longo prazo.

A respeito disso, é muito sugestiva a análise apresentada por Marcus Schneider, um quadro social-democrata da Fundação Friedrich Ebert (FES) radicado em Beirute:

“A ordem que se cristalizou na região desde 7 de outubro de 2023 é a da supremacia israelense, praticamente sem restrições militares. Mas, embora o Estado judeu seja sem dúvida dominante, não é um hegemon. Uma potência hegemônica ofereceria à região uma visão, ao menos parcialmente positiva, que os Estados satélites seguiriam também por interesse próprio. Pelo contrário, Israel nada tem a oferecer a seus vizinhos além de bombas, colapso estatal e subordinação.”

Reabriu-se o debate programático sobre a Palestina

O genocídio em Gaza, o avanço dos assentamentos de colonos na Cisjordânia e as declarações de representantes do governo fascista de Netanyahu contra os Acordos de Oslo reabriram o debate estratégico sobre qual programa seguir para a libertação da Palestina.

Embora a (falsa) solução dos dois Estados esteja em cuidados intensivos, vários governos europeus e o establishment liberal imperialista tentam, desesperadamente, reavivar essa “folha de rota” que não questiona a ocupação colonial da Palestina e que, no melhor dos cenários, garantiria a existência de um “mini Estado” palestino inviável e tutelado por Israel.

Por outra parte, o chamado “eixo da resistência”, encabeçado pelo Irã, demonstrou não ser alternativa para frear Israel. Não dizemos isso apenas pela superioridade militar do sionismo em relação a seus adversários regionais, mas principalmente porque de Teerã não pode provir alternativa emancipadora. O regime dos aiatolás é uma teocracia burguesa ultraconservadora.

O mesmo podemos dizer de China e Rússia. Pequim encabeça um imperialismo em construção que, a cada dia, mostra mais suas tendências expansionistas no que considera seu “espaço vital” (Mar da China e Taiwan). No que concerne a Moscou, é um imperialismo territorial em reconstrução que, atualmente, disputa no campo de batalha e na mesa de negociações como repartir boa parte do território ucraniano. Em suma, são duas potências que brigam por seus próprios territórios para oprimir e espoliar, pelas quais é impossível que sejam aliadas estratégicas de um povo que luta por sua libertação nacional de uma força colonizadora.

Israel tem muito hard power, mas carece de soft power. Assim, é muito difícil construir hegemonia que legitime um projeto de Estado-nação. Por mais armas que possua, o sionismo está rodeado de centenas de milhões de árabes nativos que não aceitarão docilmente seus mandatos. Nem sequer conseguiu dobrar os palestinos após quase oitenta anos de ocupação colonial!

Por outra parte, ao sionismo custará normalizar suas relações internacionais sob a lógica expansionista do “Grande Israel” ou do “Estado de Judá”, pois praticamente todos os seus vizinhos são potenciais territórios a colonizar. É um Estado que não tem consenso sobre suas fronteiras (razão pela qual não tem Constituição, para não fixar limites) e, governado por fascistas fundamentalistas, pode justificar a extensão da colonização por “direito divino” até onde lhes ocorra.

Quanto à sociedade palestina, já antes do genocídio percebia-se o surgimento de uma nova geração em Gaza e na Cisjordânia que experimentou na pele que a (falsa) “solução” dos dois Estados é totalmente inviável e, em consequência, é mais propensa à perspectiva de lutar por uma Palestina única.

Dito o anterior, pontuamos três critérios políticos e programáticos que nos parecem centrais para reorientar a luta contra o genocídio e pela libertação final da Palestina:

  1. A primeira tarefa é impulsionar mobilizações e campanhas disruptivas para deter o genocídio. A enorme greve na Itália e o que ocorreu na volta ciclística da Espanha são exemplos do que dizemos: ações radicais que dialogaram com o sentimento de rejeição a Israel e ao genocídio que cresce no movimento de massas. A brutalidade do fascismo sionista nos coloca o desafio de radicalizar a resistência internacional para frear o massacre em Gaza e o avanço da colonização na Cisjordânia.
  2. Não basta pensar a luta contra o sionismo apenas a partir da descolonização. É preciso dotá-la de conteúdo anticapitalista, que aponte para refundar a Palestina sobre novas bases sociais que permitam à autodeterminação nacional e a emancipação social. A “economia do genocídio” denota um emaranhado de grandes corporações que lucram com a colonização, que precisam ser expropriadas na Palestina e sabotadas internacionalmente. Além disso, a propriedade privada colonial é ilegítima desde sua origem e deve ser utilizada como fundo para garantir o direito de retorno dos refugiados e desenvolver políticas de reparação histórica.
  3. A luta pela emancipação do povo palestino tem caráter internacionalista e anti-imperialista. Israel não existiria sem o apoio do imperialismo tradicional (além do apoio da URSS stalinista para sua fundação, uma de suas maiores traições). Não existe “libertação em um só país”, ainda mais tratando-se de um processo de colonização tão assimétrico.
  4. Por último, mas não menos importante: Israel é um Estado colonial, supremacista e genocida. Em outras palavras, não pode ser reformado; é necessário lutar a fundo por sua destruição. A solução dos “dois Estados” é uma utopia reacionária. A libertação do povo palestino é uma das grandes tarefas para a emancipação da humanidade no século XXI. Mas não poderá ser levada a cabo por nenhuma facção islâmica ou burguesa. Basta de genocídio em Gaza. Palestina será única, laica, democrática e socialista — ou não será.

“Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã / E do jamais, sairá o ainda.”
— Com estes versos, Bertolt Brecht encerrou seu poema “Louvor à dialética”. Pareceram-nos pertinentes para ilustrar uma ideia em que insistimos desde nossa corrente: que na época está inscrita a dialética da contrarrevolução e da revolução, pelo que é possível reverter situações adversas mediante a irrupção do movimento de massas. Isso vale para a luta contra o genocídio em Gaza, assim como para a tarefa mais estratégica de derrotar o projeto colonial sionista em seu conjunto.

Bibliografia

Notas

[1] Referimo-nos a Anatomia de um genocídio; A barbárie sionista em três atos; e Colonialismo-genocídio e resistências na Palestina, todos disponíveis em Izquierda Web.

[2] Essa ideia foi exposta por Ian Kershaw, historiador inglês e um dos principais especialistas em nazismo. Em várias obras (A ditadura nazista e Hitler), explica que o plano inicial dos nazistas era expulsar os judeus da Europa, mas, devido às dificuldades para materializar tal empresa em meio à Segunda Guerra Mundial, terminaram executando a “solução final”, isto é, o Holocausto. “A ideia de reassentar os judeus (…) era em si mesma latentemente genocida” (KERSHAW, 2019, p. 600).

[3] Doravante, todas as traduções do inglês e do português ao espanhol são nossas.

[4] Há alguns dias lemos uma nota que dizia que, em vez de se chamar “Acordos de Oslo”, deveria se chamar “Recordações de Oslo”, porque nada do que se dizia se cumpriu e Israel já deixou claro que não tolerará um Estado palestino, inclusive na versão reduzida e tutelada que se estabelecia nesses acordos.

[5] Em Dez mitos sobre Israel (Editora Tabla, 2022), Ilan Pappé assinala que a União Soviética apoiou com entusiasmo a criação do Estado de Israel. Com a mediação do Partido Comunista Palestino, proporcionou armas tchecoslovacas aos sionistas antes e depois de maio de 1948. O stalinismo abasteceu parte do armamento utilizado na Nakba! Duas foram as razões: primeiro, a burocracia soviética considerou que o novo Estado sionista seria socialista e antibritânico, inclinando-se ao “bloco soviético” nas disputas geopolíticas; segundo, caracterizou o sionismo como um movimento de libertação nacional. Com essa lógica de realpolitik funcionava a burocracia do Kremlin, para a qual os interesses de seu Estado tinham mais importância que os de um povo que lutava contra seu submetimento colonial. Por isso, é fundamental processar o balanço do stalinismo, cujas sequelas são perceptíveis nos principais conflitos e problemas do século XXI (veja-se o caso da Ucrânia, ou a crise ecológica).

[6] Um exemplo menos significativo, mas não menos repugnante, é a criação de um mirante “turístico” na cidade de Sderot, ao sul de Israel, para onde vão excursões observar os bombardeios das FDI sobre Gaza. A notícia foi divulgada pela emissora alemã DW.

[7] O ângulo anticapitalista da luta palestina escapa inclusive a correntes que se reivindicam trotskistas. No caso das procedentes do morenismo (como o PSTU do Brasil ou o MST da Argentina), limitam-se a sustentar um programa democrático-radical, sintetizado na consigna “Por uma Palestina laica, democrática e não racista”. O componente socialista, segundo o morenismo, viria como subproduto de um movimento objetivo no enfrentamento com o imperialismo. E a consciência e o programa? “Obrigado, não fumo.” No caso do PTS-FT, embora em algumas ocasiões agregue “socialista” na consigna, trata-se de formulação formal que frequentemente deixa de lado. Veja-se, por exemplo, o artigo Invasão de Gaza: rumo à “solução final”? de Claudia Cinatti, no qual se indica que “a luta contra o genocídio tem necessariamente um componente anti-imperialista, e está objetivamente unida às lutas em curso, que como na França ou na Argentina enfrentam os ataques dos governos capitalistas ajustadores, cúmplices do colonialismo israelense.” Esse programa coincide com o das correntes morenistas que, vale dizer, o PTS qualificou em seu momento como o “trotskismo de Yalta” e carente de estratégia revolucionária. O PTS é um caso de objetivismo tardio, um traço que aparece cada vez mais por sua falta de um balanço a fundo do stalinismo e das tarefas próprias da transição ao socialismo.