Desde que a burguesia tomou o poder político na Revolução Francesa conhecemos a violência de seus atos contra os movimentos operários e socialistas em defesa do livre trânsito do capital. Sua face mais reacionária e contrarrevolucionária aflora durante os processos revolucionários de 1848 e contra a Comuna de Paris, onde promove uma carnificina contra os comunards.

No entanto nos acontecimentos entre os anos 20 e 40 do início do século XX, , quando ela apresentou a sua face mais brutalizada e desumana através do nazi-fascismo, numa disputa intraburguesa pela hegemonia imperialista, buscou, prioritariamente, impor uma derrota definitiva à classe operária, atacando-a por sua condição de etnia, de credo, de posição política (progressista ou de esquerda), colocando no poder uma extrema direita que usou de todas as formas barbarescas e genocidas para isso, mas, que foi derrotada pela resistência dos trabalhadores e trabalhadoras e pelo conjunto da sociedade civil

Atualmente estes processos vem sendo aplicados paulatinamente por uma extrema-direita renascida, reenergizada e amplamente apoiada por Trump, com um programa nacionalista, quase xenófobo, sem mediações e de ataques diretos à soberania das nações no plano externo e de perseguição feroz aos explorados e oprimidos pelos sistemas de segurança  no plano interno, na tentativa de manter a hegemonia norte americana, em livre queda, sobre o mundo, agindo de forma violenta e genocida, entre seus mais claros matizes.

A forma como Trump trata os assuntos quanto à Venezuela, por exemplo, tem a mesma origem, aparentemente absurda, com que trata as trabalhadoras e os trabalhadores, à juventude e aos movimentos LGBTQIA+, de seu próprio país.

Agora, decretando que tudo o que for “anticapitalista” ou “antifa”, num momento em que a opinião, religião, etnia, gênero e condição de classe, de grande parte da população civil dos Estados Unidos é classificada como violência, ou mais claramente de esquerda, amplia a sua sanha persecutória , como demonstra José Valdés no artigo abaixo.

REDAÇÂO

Por JOSÉ VALDÉS  

O uso da força e do assédio repressivo de Trump contra o “anticapitalismo” faz parte da mesma ofensiva com a qual ele tenta conceder impunidade e liberdade de ação aos grupúsculos fascistas que o apoiam. Algumas semanas atrás, publicamos uma nota sobre o governo Trump e sua política de designar o coletivo Antifa como grupo terrorista doméstico. Trata-se de uma ação extremamente provocadora, mas que, como explicamos bem, não tem qualquer sentido prático. O Antifa não é uma estrutura nem uma organização. É um rótulo, um símbolo, e sua tentativa de censura, por mais mal-intencionada que seja, é impossível de aplicar, pois não existe uma organização real a ser atacada.

É apenas uma desculpa para pressionar diversos grupos de esquerda, a juventude e os trabalhadores que se organizam contra os grupos fascistas realmente existentes. E, ao mesmo tempo, é uma tentativa de legitimar a violência reacionária praticada por esses grupos fascistas.

E, embora esse precedente já pareça o cúmulo dos absurdos, ainda ficamos aquém.

No início do mês, o novo diretor de segurança do país classificou o anticapitalismo como um precursor da violência política. O que isso significa? Que qualquer organização de esquerda passa a se tornar alvo de perseguição. Eles continuam usando o assassinato de Charlie Kirk como desculpa para atacar seus opositores.

É preciso ter em mente que o suspeito do crime, até onde se sabe, nunca pertenceu a nenhuma organização de esquerda. O assassinato de Kirk foi, claramente, um ato individual. Provavelmente teve motivações políticas, mas isso é muito diferente de afirmar que tenha sido impulsionado por uma organização política.

O memorando de Trump é, supostamente, para combater o “terrorismo doméstico”. Não se trata de algo menor: a última vez que os Estados Unidos lançaram uma “guerra contra o terror” foi uma justificativa grosseira para invadir e saquear países, bem como reprimir a liberdade de expressão dentro de suas fronteiras. E agora a palavra volta a ganhar força internamente, como soube fazer o fantasma da guerra interna promovida pelo governo Reagan nos anos 1980.

Os agora “pré-criminosos” da “violência política” se encontram em um limbo. Não existe um registro do que ou quem entra nessa categoria. É um conceito ambíguo, uma expressão incerta quanto a quem se destina. Trump declarou de forma fanfarrona que “prometia executar extrajudicialmente os vampiros, expondo-os à luz do sol”.

O memorando persecutório de Trump em questão se intitula “Countering Domestic Terrorism and Organized Political Violence” (Contrarrestando o Terrorismo Doméstico e a Violência Política Organizada, para os íntimos), conhecido como NSPM-7. É a sétima expansão desse tipo no âmbito das políticas de segurança interna, mas, pelo seu conteúdo, é a que mais causou alvoroço. Trata-se de uma diretriz persecutória da esquerda para todo o território dos Estados Unidos.

O documento anti-anticapitalista de Trump enumera as ideologias que são candidatas à perseguição, vigilância e controle policial:

  • antiamericanismo,
  • anticapitalismo,
  • anticristianismo,
  • apoio à derrubada do governo dos Estados Unidos,
  • extremismo em imigração,
  • extremismo em raça ou etnia,
  • extremismo em gênero,
  • hostilidade em relação àqueles que defendem valores americanos tradicionais sobre as famílias,
  • hostilidade em relação àqueles que defendem valores americanos tradicionais sobre a religião,
  • hostilidade em relação àqueles que defendem valores americanos tradicionais sobre a questão moral.

Como no Sr. Cobranza, mas agora te perseguem se você for gay, te perseguem se você for trans, te perseguem se você opina, se imigra, se é de esquerda, se compra um iPhone barato só para ter… ou se, simplesmente, pensa por conta própria, ao que parece. É, pura e simplesmente, cair sob suspeita por ter alguma das características da lista de padrões de crenças da ala esquerda, subjetivamente marcadas como extremismo, e que supostamente predisporiam alguém à violência.

Você passou por um processo e/ou tratamento de mudança de gênero? Saiu às ruas para marchar pelos seus direitos? Sua cor de pele não passa no teste do meme do Family Guy? Você é contra o genocídio em Gaza? Se a resposta a alguma dessas perguntas for sim, você poderia tranquilamente ser objeto de investigação ou até mesmo detenção. Eles vivem reclamando dos grupos islamistas do Oriente Médio, mas, e agora, se eu disser que sou ateu em solo norte-americano, vou preso? A opinião de grande parte da população civil dos Estados Unidos é classificada como violência.

O memorando de Trump é uma tentativa de dar carta branca às gangues fascistas que o apoiam. O terrorismo doméstico nos Estados Unidos é quase exclusivamente trumpista: a imensa maioria dos crimes de ódio, da violência e dos assassinatos por motivos políticos é perpetrada nos Estados Unidos pela extrema direita.

A extrema direita foi responsável por 73% dos ataques terroristas nos Estados Unidos entre 2001 (após o 11 de setembro) e 2017. Para não ir mais longe, os grupos fascistas provocaram várias mortes quando tentaram invadir o Capitólio em janeiro de 2021. E esses grupos de violência organizada foram perdoados por Trump e puderam circular novamente livremente pelas ruas.

Há apenas um caso nos Estados Unidos de “violência de esquerda” que entraria, segundo alguns meios de comunicação, dentro dos parâmetros do memorando: o assassinato de Aaron Danielson. Danielson havia assediado violentamente participantes de uma marcha que pedia justiça pelo assassinato racial de George Floyd. Seu assassino morreu baleado por forças de segurança, que estavam sob comando de Trump em seu primeiro mandato.

O foco do trumpismo no “terrorismo doméstico” de esquerda é uma narrativa claramente falsa. Desde o “atentado doméstico” com mais mortes até o número total de vítimas em tiroteios cometidos por grupos de supremacistas brancos, a extrema direita ocupa o primeiro, segundo e terceiro lugares em todos os pódios da violência política norte-americana. O memorando de Trump não busca prevenir nenhum terrorismo; quer aterrorizar seus opositores com a ameaça de violência, enquanto concede toda a impunidade possível às gangues violentas que protagonizaram a invasão do Capitólio.