Disputar pela esquerda as mobilizações antigolpistas com programa, táticas e organização independente

No último domingo, 30/03, aconteceram atos pela prisão de Bolsonaro em diversas cidades do país, o que foi um importante acontecimento diante da necessidade histórica de mobilizar as ruas pela prisão de Bolsonaro e todos os golpistas de hoje e ontem. Apesar de dirigido pelo governismo, o ato pela prisão de Bolsonaro mobilizou setores independentes e se demonstrou totalmente disputável pela esquerda. É preciso que a esquerda radical supere o abstencionismo e lute para inundar as ruas com programa, táticas e organização independente.

Maria Cordeiro

Romper com o imobilismo e construir um calendário de lutas massivo!

A tarefa imediata da vanguarda consciente no movimento operário internacional, isto é, dos partidos, grupos e tendências comunistas, consiste em saber levar as amplas massas (hoje ainda, na maior parte dos casos, adormecidas, apáticas, rotineiras, inertes, não despertas) para esta sua nova posição, ou, melhor, em saber dirigir não só o seu próprio partido, mas também essas massas no decorrer da sua aproximação, da sua passagem para a nova posição. Se a primeira tarefa histórica (atrair para o Poder Soviético e para a ditadura da classe operária a vanguarda consciente do proletariado) não podia ser resolvida sem uma vitória ideológica e política completa sobre o oportunismo e o social-chauvinismo, a segunda tarefa, que é agora imediata e que consiste em saber levar as massas para a nova posição, capaz de assegurar a vitória da vanguarda na revolução, não pode ser resolvida sem liquidar o doutrinarismo de esquerda, sem superar por completo os seus erros, sem se desembaraçar deles. (V. Lenin – Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo)

Diante de um cenário de dupla crise política nacional, de um lado a do governo e de outro da extrema direita com o processamento de Bolsonaro, a extrema direita está na defensiva, com Bolsonaro no banco dos réus e com pouco apoio nas ruas. 

Nesse cenário, foi convocado um ato neste último domingo (30/03) em todas as capitais do país pela prisão de Bolsonaro e o fim da anistia pela Frente Povo sem Medo (dirigida pela PSOL) e pela Frente Brasil Popular (dirigida pelo  PT). 

Em São Paulo, o ato começou na Praça Oswaldo Cruz e terminou no antigo DOI-CODI, um dos principais órgãos de repressão da ditadura militar, responsável por perseguir, prender, torturar e executar líderes sindicais, militantes e trabalhadores durante a ditadura. Hoje, o prédio é uma delegacia de polícia. 

Assim, o ato contou na capital com cerca de 7.000 pessoas. Apesar de ser dirigido pelo lulismo, estar um pouco disperso e com pouca juventude presente, apresentou reserva de combatividade com a participação de setores independentes e que tinham como centro político a defesa da prisão de Bolsonaro e a não apenas a anistia aos golpistas. 

Em que pese a sua direção e limites programáticos, a marcha foi barulhenta, festiva e muito dinâmica:  uma demonstração orgânica de setores populares e de vanguarda com o objetivo de colocar na cadeia Bolsonaro e todos os golpistas. Dessa forma, o ato foi uma oportunidade ímpar para lutar pela mudança da correlação de forças, colocando, nesse sentido, a unidade de ação em marcha para prender Bolsonaro e derrotar a extrema direita categoricamente.

Entretanto, a direção lulista para não se enfrentar com o Centrão e a classe dominante não aposta nessa tática. Por motivos diferentes, o mesmo abstencionismo ocorre com várias organizações da esquerda (PSTU e MRT), que pelo seu economicismo, sectarismo e esquematismo não apostam nessa tática: uma oportunidade histórica pode ser perdida. 

Memória e justiça em uma nova etapa da luta de classes

Por todo ello, finalmente, este juicio, esta condena, son importantes y necesarios para las víctimas que reclaman y los sobrevivientes que merecen esta reparación (…)

Los argentinos hemos tratado de obtener la paz, fundándola en el olvido y fracasamos; ya hemos hablado de pasadas y frustradas amnistías. Hemos tratado de buscar la paz por vía de la violencia y del exterminio del adversario y fracasamos; me remito al período que acabamos de describir. A partir de este juicio y de la condena que propugno nos cabe la responsabilidad de fundar una paz basada no en el olvido, sino en la memoria, no en la violencia, sino en la justicia. Esta es nuestra oportunidad y quizá sea la última. (Julio Strassera, 24/3/1985)

O cotidiano é explosivo. Vivemos um cenário mundial da eclosão de uma recém chegada totalidade política, econômica e social – uma nova etapa da luta de classes, como temos abordado em diversos textos. Ao passo desigual e combinado da história, vemos ressurgir antigas dinâmicas geopolíticas: a volta do imperialismo com mais características de conquista  militar territorial (colonialismo). Uma política que leva adiante o governo bonapartista reacionário de Trump, que vai à ofensiva como uma reação ao avanço do novo imperialismo chines, à pressão colonial Russa (um imperialismo em reconstrução) e outros processos que fazem com que o papel hegemônico dos EUA esteja profundamente questionado. As fronteiras e o protecionismo comercial voltaram e a ideia de um mundo globalizado em que as leis de mercado se sobreponham aos interesses geopolíticos dos Estados entrou em decadência. A extrema direita avança a nível mundial, enquanto presenciamos a destruição da natureza, que se faz sentir de forma mais aguda nos últimos anos. Há guerras interimperialistas em curso, como a Guerra na Ucrânia, e estamos presenciando dia a dia um genocídio em gaza contra o povo Palestino. 

Tudo isso grita que não estamos em um período de normalidade democrática – de atenuação das contradições metabólicas do capitalismo – e, sem dúvida, ao contrário, de maior polarização política e social. A ideologia da extrema direita não surge do nada, mas sim do fracasso dos governos de conciliação de classes/burgueses normais. Essa é uma forma do capital e suas personificações de intensificarem processos mais coercitivos na luta de classes, pois diante da crise cada vez mais sistemática e destrutiva do capital, faz-se preciso, em sua lógica, aumentar a exploração do trabalho e reprimir de forma cada vez mais violenta as respostas dos de baixo.

Nesse sentido, a ideologia de extrema direita, seus movimentos e governos, têm um papel contrário ao desenvolvimento de formas organizativas das lutas da classe trabalhadora, isto é,  do fortalecimento dos sindicatos, das greves sindicais e políticas, e dos/as levantes/rebeliões populares que provocam mudanças em matéria de organização e consciência frente ao capitalismo.

Um exemplo dessa dinâmica ocorreu no cenário da América Latina e do chamado Sul Global no meio do século passado. A ameaça comunista – na verdade movimentos de libertação nacional ou anticoloniais que poderiam evoluir para processos revolucionários – fez com que os EUA conspirasse com as classes dominantes locais e militares para fazer pipocar ditaduras a torto e a direito, inclusive no Brasil. Os militares brasileiros, nesse sentido, não agiram sozinhos, contaram com o apoio dos países imperialistas, outras ditaduras americanas, com empresas multinacionais e empresários brasileiros que financiaram os centros de detenções e torturas.

Durante esse período, foram milhares de desaparecidos, mortos, torturados e demitidos por suas convicções políticas e sua luta. Além da perseguição aos Partidos de Oposição,  principalmente os de esquerda radical e os sindicatos, materializou-se o fim do direito à organização e mobilização sindical, o que acarretou em um dos períodos de maior arrocho salarial e corrupção em nosso país. Isso se dá uma vez que, no campo da luta de classes, a economia não está desconectada da política. Pois a economia não flutua no ar, ela é executada por agentes do mercado e do Estado direcionados por ideologias, programas, táticas e organizações.

Colocamos aqui, em oposição, dois finais de período ditatorial na América Latina, que se desenrolaram de maneira distinta: Brasil e Argentina.

A ditadura na Argentina foi uma das mais sangrentas, mais de 30 mil mortos e desaparecidos em seus 7 anos de regime: um verdadeiro genocídio. Outra característica sombria deste período foi o sequestro de bebês, filhos das vítimas da repressão que eram adotados por famílias militares.

Além de guerrilheiros, as vítimas incluíam intelectuais, estudantes e membros de organizações trabalhistas que se opuseram ao regime. Foi uma repressão que atingiu a vanguarda de maneira ampla. Desse processo se destacou o movimento das Mães da Praça de Maio, criado em 1977, como um movimento de denúncia dos crimes da ditadura militar que teve impacto internacional. 

A democratização começou com o governo de Alfonsín (1983-1989), que revogou a Lei de Auto-Anistia do regime e possibilitou o julgamento de militares por crimes contra a humanidade. No entanto, a Lei do Ponto Final, aprovada em 1986, sancionou a impunidade, interrompendo os processos judiciais. Esse panorama mudou novamente com ampla mobilização social por memória e justiça, que anulou a lei, permitindo a reabertura de casos e resultando em cerca de 200 condenações até 2017, incluindo na prisão perpétua do ex-ditador Videla.

A vitória contra a anistia dos golpistas e assassinos – arrancada a partir da luta nas ruas – foi um fator de ampla moralização da esquerda na Argentina, com repercussões históricas para a luta de classes desse país e, nesse âmbito, modelo e inspiração para todo o mundo. As mobilizações pelas ruas no país vizinho são historicamente explosivas e, por isso, arrancaram vitórias importantes, como o direito ao aborto em 2020, e mobilizações estudantis com ocupações das universidades contra a lei ônibus de Milei. Além disso, todos os anos, no dia 24 de março, centenas de milhares vão às ruas em memória às vítimas da ditadura e, recentemente, contra o avanço da extrema direita de Milei e Bulrich.

Por outro lado, a redemocratização no Brasil, após 21 anos do regime ditatorial sangrento – como é comum na dinâmica de transformação política no país -, foi extremadamente mediada pelos interesses da classe dominante, no que pese que o processo de mobilização de massas também permitiu a criação de um forte movimento sindical e político, mas que hoje se encontra categoricamente adaptado aos imperativos do capitalismo. A transição, assim sendo, foi tutelada pelas estruturas do regime, foi “lenta, gradual e segura” (jargão usado pelos chefes da ditadura como Geisel e Golbery). Como resultado: nenhum militar, nem empresário golpista foi ao banco dos réus.

O não julgamento da extrema direita na época não apenas afetou os movimentos de esquerda subjetivamente, mas manteve vivas as estruturas fundantes da ditadura até hoje no Estado Brasileiro, como os Tribunais Militares, a asquerosa Polícia Militar e toda a ideologia de que em 1964 houve uma revolução em defesa do país e outras barbaridades.  A Justiça Militar, representada pelo Superior Tribunal Militar (STM), é um dos símbolos mais claros desse ciclo histórico de anistia. Além de sua baixa demanda processual, seu custo exorbitante revela um privilégio institucional injustificável. Ainda hoje, a existência deste tribunal fortalece a lógica de autoproteção das Forças Armadas e das Polícias Militares, dificultando sua responsabilização por crimes. Os eventos do 8 de janeiro de 2023 demonstram o peso que têm as instituições herdadas da ditadura militar na política nacional e, consequentemente, a urgência de reformas que coloquem fim a  qualquer vestígio de tutela militar sobre o poder civil e capacidade institucional de intervir contra a classe trabalhadora, suas lutas e organizações. 

A militarização da segurança pública é outro resquício da ditadura que persiste. Com base na Doutrina de Segurança Nacional, a Polícia Militar foi instrumentalizada para combater “inimigos internos”, assumindo um papel de repressão política e social. Durante os anos 1970, a PM consolidou práticas violentas, especialmente nas periferias e contra opositores do regime. A Constituição de 1988, embora tenha restaurado a democracia burguesa, não rompeu com esse modelo, mantendo a estrutura militarizada da polícia, que hoje é violentíssima, emprega métodos de execução e tortura cotidianamente, e leva a cabo um projeto de necropolítica da classe trabalhadora negra nas periferias. 

O Brasil ainda convive com as pesadas sombras de seu passado autoritário. A impunidade dos agentes da ditadura permitiu que suas práticas fossem recicladas e adaptadas ao presente. Portanto, é preciso, além da prisão de Bolsonaro e todos os golpistas de ontem e hoje, exigir o fim dos tribunais militares e o fim da PM como uma das condições centrais para o avanço da luta de classes e superação desse regime – e Estado – político dos ricos, que sempre está pronto para atentar contra qualquer direito democrático dos trabalhadores e dos oprimidos. 

Bolsonaro no banco dos réus

Os golpes de estado do nosso tempo têm uma novidade: não acontecem apenas com tanques nas ruas, mas normalmente como um processo gradual de fechamento do regime através das suas próprias instituições. Desta forma, o “Capitólio à brasileira” foi mais uma ação no sentido de manter mobilizado um movimento de extrema direita que conta com o apoio de empresários, parlamentares, governantes e uma rede internacional. 

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade no dia 26 de março, tornar réu o ex-presidente Jair Bolsonaro, juntamente com outros sete acusados, no caso da trama golpista. Com essa decisão, o processo avança da fase de investigação e denúncia para a etapa de julgamento no âmbito penal. 

Sem dúvidas, o cenário político e jurídico do Brasil está diante de um momento histórico. A possibilidade de um ex-presidente e militares serem condenados por tentativa de golpe de Estado é algo inédito na história da democracia brasileira e não pode ser desperdiçado politicamente, como tem feito a esquerda brasileira – tanto a reformista quanto a maior parte da esquerda independente.

Porém, a punição do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos envolvidos na tentativa de golpe não está garantida apenas pelo andamento das investigações e do sistema judicial. Apesar da confiança de parte da esquerda – tanto a institucional quanto a revolucionária – de que Bolsonaro será punido, não há qualquer certeza de que isso ocorrerá sem pressão fora do parlamento. As instituições já começam dar sinais de que está se construindo uma pactuação que não irá atingir de forma exemplar os golpistas (vejamos o caso da não denúncia da PGR da falsificação dos cartões de vacinas por Bolsonaro e outras atrocidades cometidas durante a pandemia) e a possibilidade de avançar uma lei para anistiar os golpistas de 8 de janeiro – principalmente a Bolsonaro – no Congresso não está descartada. 

Isto significa que, somente uma mobilização de massas pode assegurar que os criminosos sejam responsabilizados de fato, que não sejam punições totalmente brandas, que todos os responsáveis sejam realmente punidos e tenham seu patrimônio confiscado.  Só assim se pode evitar que novos golpes de estado sejam dados a curto prazo. 

A esquerda da ordem, PT, PCdoB, PSOL e seus satélites, têm um papel de desmobilização consciente da luta nas ruas e uma aposta exclusiva nas instituições burguesas do Estado: nos interlocutores jurídicos da classe dominante. O próprio presidente Lula, inclusive, em entrevista com Kennedy Alencar, disse, sobre a memória da ditadura: “Eu, sinceramente, não vou ficar remoendo e vou tentar tocar esse país para frente”.

Assim, quando surge a oportunidade de colocar Bolsonaro por detrás das grades, a esquerda governista apresenta uma postura de não convocação da luta nas ruas, apostando apenas nas negociatas e na burocracia judiciária. Esta é uma posição extremamente oportunista e traidora: um crime político contra a classe trabalhadora no país. Este setor, que dirige as principais centrais sindicais, a UNE e diversos movimentos sociais, limita-se a chamar para atos protocolares, não construídos,  deixando na mão do STF a punição de Bolsonaro, tudo isso diante dos exemplos históricos da importância do movimento nas ruas contra a extrema direita.

Nesse sentido, é preciso deixar claro o caráter liberal-social do governo Lula-Alckmin. As contrarreformas de Temer e Bolsonaro mantidas e complementadas pelo atual governo – trabalhista, previdenciária, o teto de gastos antigo e novo, assim como o pacote fiscal -, impõe às novas gerações uma única alternativa: trabalhar e tentar sobreviver para garantir a recuperação da riqueza dos mais ricos. É uma combinação de desmobilização consciente, populismo e uma agenda econômica agressiva, que mantém a péssima qualidade de vida das classes populares.

Em nome de uma defesa vaga da democracia, o governo entrega o que a elite exige, enquanto negligencia necessidades básicas dos trabalhadores e oprimidos. É nesse cenário que surge a posição do frenteamplismo. Contraditoriamente, este setor afirma e repete incessantemente que estamos lutando contra o “fascismo”, por isso, seria justificável tanto uma aliança com a direita quanto medidas contra a classe trabalhadora, mulheres, explorados e oprimidos para angariar apoio ao governo frente a uma suposta ameaça fascista que bateria à porta. 

Primeiramente, não se combate a extrema direita historicamente apenas pelas vias eleitorais e por meio de reivindicações e políticas de direita, pelo contrário, é preciso colocar o movimento de massas nas ruas e tensionar para a esquerda a disputa política. Mas, também, colocamos um questionamento: estamos realmente em um período fascista (de derrotas históricas), dos anos 30, como afirma um dos principais dirigentes do PSOL, Valério Arcary?

Esta posição, além de desonesta, é oportunista. Nos parece que não há uma situação em que o fascismo já se impôs, não observamos uma derrota histórica no movimento dos trabalhadores, tampouco a confirmação da extrema direita como um movimento de combate de massas ou o fim do pluripartidarismo e muito menos a sistematização de prisões e assassinatos de opositores políticos, censura da imprensa e exílio. É certo que o Bolsonarismo e a extrema direita no mundo crescem, não podemos menosprezá-los, um regime autoritário/contrarrevolucionário é um risco real, mas não é hoje uma realidade na maior parte dos países, além disso,  existe um importante processo de resistência à extrema direita em vários lugares.

Assim, é preciso pressionar as direções para romper com o imobilismo e construir um calendário de lutas massivo pela prisão de Bolsonaro e todos os golpistas, pelo fim dos tribunais e policiais militares. A CUT, CTB e principais centrais sindicais, além do Movimento Estudantil e demais movimentos sociais, devem convocar suas bases para derrotar os golpistas pelas ruas, e não pela superestrutura.

Marchar separados, golpear juntos! Arrancar a prisão de Bolsonaro e todos os golpistas pelas ruas, sem nenhuma confiança no governo e na burguesia!

Para além do oportunismo da esquerda da ordem, setores da esquerda radical têm uma posição absurdamente abstencionista frente à histórica conjuntura de prisão dos golpistas: aqui fazemos também um debate com o MRT e o PSTU e sua política sectária diante da situação.

As duas organizações se colocam de forma abstencionista, sectária e economicista no debate, mas de formas diferentes. Ao que cabe ao PSTU, foi difícil encontrar menção ao Bolsonaro e aos recentes acontecimentos descritos acima em seu portal de notícias, no entanto, em assembleia do curso de Letras na USP, onde sua juventude milita e dirige o Centro Acadêmico, abstiveram-se da proposta de adesão do curso ao ato sem maiores explicações. 

Como já mencionamos anteriormente, o economicismo do partido se une a um sectarismo frente às tarefas postas de nosso tempo. A respeito da construção de uma oposição de esquerda ao governo Lula, a reivindicam da boca para fora, sua fala não se sustenta, pois na prática negam-se a fazer uma frente única com as demais forças do campo da esquerda independente para a construção dessa oposição no terreno concreto. Em um postura irresponsável, desconsideram que estamos em uma conjuntura que exige as frentes políticas, por isso dissolveram o Polo Socialista Revolucionário em 2022. Não existe qualquer perspectiva real desses companheiros para construir frentes de luta ou políticas na rua, sua linha política não passa de palavras vazias, enquanto estamos diante de sérias tarefas democráticas.

Por outro lado, há a posição abertamente contrária ao chamado de prisão para Bolsonaro e todos os golpistas de ontem e hoje do MRT. Alegam que exigir a prisão é colocar confiança na justiça burguesa, por isso foram contrários à construção independente do ato do dia 30. Como fruto dessa política sectária, o MRT e sua juventude, Faísca, abordam o enfrentamento da extrema direita de forma abstrata e vazia. Reivindicam a punição dos golpistas, mas sem se aprofundarem a natureza dessa punição. Fica em aberto se Bolsonaro irá ao paredão ou à prisão domiciliar no Vivendas da Barra… Apesar de esse ser nosso horizonte estratégico, não há um cenário de cristalização de duplo poder no Brasil, nem tribunais populares. Essa posição do MRT, ao contrário do que dizem, está a serviço, justamente, de se ausentar das ruas e de entregar ao judiciário a possibilidade da imposição de medidas brandas para aqueles que tentaram um golpe de Estado em 8 de janeiro. Ao contrário dessa metodologia diversionista (sob a forma de estratagemas), é preciso sempre atuar no terreno concreto da luta de classes.

Na luta contra a extrema direita e sua expressão máxima hoje, o neofascismo (um movimento ainda muito heterogêneo), coloca-se a necessidade histórica da formação da frente única para lutar nas ruas, diferente da frente ampla eleitoral, e da unidade de ação, duas táticas que devem ser combinadas necessariamente nesse momento.

A frente única contra o neofascismo, como elaborado por Trotsky, é uma estratégia que busca unir diferentes correntes do movimento operário, incluindo organizações reformistas, para enfrentar a ameaça fascista. Trotsky argumenta que, embora haja divergências estratégicas entre os revolucionários e os reformistas, a união a esses setores nas ruas fortalece o movimento de massas. Isso porque as organizações reformistas ainda representam a vontade de importantes frações do proletariado. 

Obviamente que não significa, de nenhuma forma, diluir-se no frenteamplismo do lulismo ou coisa que o valha, mas ter política para construir frentes de luta independentes, sem patrões e/ou representantes diretos dos governos. Nas ruas é que a vanguarda se destaca e pode pressionar o movimento para a esquerda. Golpeamos juntos, inundamos as ruas, mas com nossas próprias bandeiras e consignas próprias e pressionamos o movimento para ir além das pautas sindicais e democrático-burguesas. Nesse sentido, a frente única se destaca da frente ampla pois numa frente eleitoreira, nosso voto é diluído e indiferenciado, ao passo que nas ruas, destacamo-nos e podemos impactar sobre realidade concreta do desenvolvimento histórico dos processos sociais, políticos e jurídicos.

A necessidade dessa unidade se dá pela urgência da luta contra o avanço da extrema direita, o que requer a mobilização de todas as forças disponíveis. Trotsky enfatiza que, mesmo ao se separar das organizações reformistas em questões centrais, os revolucionários devem buscar acordos práticos sempre que as massas que seguem essas organizações estiverem dispostas a agir em conjunto. Essa abordagem visa não apenas fortalecer a luta mas também demonstrar às grandes massas operárias que, apesar das divisões, há um esforço genuíno para facilitar a unidade de ação.

É lamentável essa postura abstencionista, que inclusive faz pouco caso das vítimas da ditadura e do governo de Bolsonaro, virando as costas para a possibilidade histórica de impor uma derrota ao golpismo de ontem e hoje. Nosso papel, enquanto marxistas revolucionários, é sobretudo romper o véu que separa mecanicamente economia e política, que crê que não nos cabe lutar pelas pautas democráticas, pela defesa de melhores condições de existência material e por melhores possibilidades de construção do movimento dos trabalhadores e trabalhadoras. Se nos negarmos a inundar as ruas com nossas bandeiras e consignas, realmente entregaremos o protagonismo à institucionalidade. É preciso apontar a uma perspectiva estratégica de mudança radical de regime, mas sobretudo, refletir nela a dinâmica da luta na conjuntura concreta, colocando os pés no chão. Caso contrário, o movimento se encastela, se torna estéril e não avança.

Lutar nas ruas, participar de atos de unidade de ação – tática que se combina com a da frente única –  pela punição dos golpistas e assassinos de ontem e hoje com um programa próprio não significa, como afirmam os companheiros do PSTU e do MRT, apoiar o sistema judiciário e nem a institucionalidade, é justamente o oposto disso. 

Essas organizações revelam uma incompreensão completa, devido a uma combinação de sectarismo, economicismo e esquematismo político, das táticas políticas necessárias que devem ser levadas de forma independente para lutar por tarefas democráticas diante de um regime burguês com forte viés autoritário fruto da transição feita por cima que vimos anteriormente. Frente a possibilidade tática que se abre, prender a principal liderança da extrema direita do Brasil e da América Latina, a partir da mobilização pelas ruas e de um programa nosso, que supere os entulhos herdados da ditadura militar, é de uma dimensão histórica.  Para isso, torna-se imprescindível a adoção de uma tática de unidade de ação na luta direta, construindo colunas independentes do ponto de vista político, tático e organizativo no interior das mobilizações nas ruas pela prisão de Bolsonaro. Em um momento de ascensão da extrema direita a nível mundial, esta é nossa tarefa como revolucionários. 

É preciso tensionar o movimento pela esquerda, colocar a necessidade não apenas da prisão, mas do fim dos tribunais militares e das Polícias Militares. O ato do domingo (30/3) se demonstrou totalmente disputável nesse sentido: houve grande audiência para palavras de ordem para além dos cantos “sem anistia”. Por isso, o sectarismo-economicismo-abstencionismo dessas correntes, que é disfarçado de radicalismo, é um crime político! É necessário exigir que as centrais sindicais, a CUT, CTB, UNE, MTST, MST, entidades estudantis, movimentos sociais e organizações democráticas tracem um plano nacional de mobilizações para levar adiante a prisão de Bolsonaro e de todos os envolvidos no golpe, a expropriação de seus bens e o fim das estruturas repressivas, como os tribunais militares, as forças policiais e a Lei de Anistia de 1979.