Do “milagre digital” ao colapso absoluto: como o negócio privado do ex-presidente Santiago Peña arrastou à falência a principal instituição financeira do Paraguai, deixando milhões de trabalhadores e aposentados sem dinheiro.
Por José Valdés
Santiago Peña renunciou. O país vizinho encontra-se em um cenário de extrema tensão depois que o Ueno Bank — a instituição financeira e digital mais importante do país — foi colocado sob intervenção após a identificação de uma forte deterioração em seus indicadores de solvência e irregularidades na concessão de empréstimos fraudulentos. A gravidade da crise está no próprio coração do poder político: o presidente Santiago Peña foi sócio comercial do grupo empresarial proprietário do banco antes de assumir o mandato.
A instituição, pertencente ao Grupo Vázquez, sofreu uma intervenção de emergência do Banco Central do Paraguai (BCP) após a descoberta de um enorme rombo patrimonial. A investigação oficial revelou que o banco autorizava empréstimos milionários de maneira suspeita a corporações diretamente vinculadas aos seus próprios acionistas. O esquema de corrupção provocou imediatamente a prisão de oito dirigentes do banco e a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que, coincidentemente, havia exercido a presidência do próprio Ueno Bank até 2023.
Devido aos seus estreitos e inegáveis vínculos com o grupo empresarial proprietário do banco, o presidente do Paraguai e amigo próximo de Javier Milei, Santiago Peña, viu-se forçado a apresentar sua renúncia nesta quinta-feira, 5 de novembro. No entanto, a Câmara dos Deputados do Paraguai rejeitou sua renúncia e aprovou por unanimidade o libelo acusatório para dar início a um processo de impeachment imediato, encaminhando o pedido ao Senado. Setores da oposição e movimentos sociais alertam que a simples aceitação da renúncia teria permitido a Peña refugiar-se sob as prerrogativas de senador vitalício, protegendo-o das iminentes investigações judiciais por corrupção e desvio de recursos públicos. Com isso, o caminho para a sucessão constitucional pelo vice-presidente Pedro Alliana fica condicionado ao avanço do processo de impeachment.
O caminho do dinheiro, a cumplicidade oficial e a especulação corporativa
O Ueno Bank atendia quase 3 milhões de pessoas — em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes — e custodiava uma enorme quantidade de depósitos públicos e do Instituto de Previdência Social (IPS). A resolução de intervenção, assinada pela diretoria do BCP, foi executada depois de se comprovar que o índice de solvência da instituição despencou para 5,56%, ficando drasticamente abaixo do mínimo regulatório de 12%. Os ajustes contábeis obrigatórios ultrapassaram 1,6 trilhão de guaranis, somados à total incapacidade do banco de recompor o depósito compulsório de 70 milhões de dólares.
Longe de se tratar de um colapso inesperado, as investigações jornalísticas locais revelaram que os inspetores do Banco Central já haviam emitido relatórios internos meses antes, alertando sobre o padrão ilegal de concessão de empréstimos de alto risco. Peña coordenou sua saída formal do grupo empresarial em 2025, justamente no momento em que começaram as manobras mais agressivas de esvaziamento financeiro, minimizando sistematicamente os alertas institucionais e defendendo publicamente a instituição bancária sob o pretexto de combater uma «campanha de difamação». Sob esse manto de proteção política, o dinheiro desaparecia por meio de empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao grupo empresarial Grupo Vázquez. Para escapar dos controles, os técnicos tiveram de rastrear minuciosamente o percurso dos recursos para reconstruir o «caminho do dinheiro», encontrando falhas deliberadas nos processos e a habilitação de serviços de informática sem respaldo.
Entre as operações mais escandalosas que esvaziaram o banco, destacam-se duas:
Mowi SA: Em setembro de 2025, essa empresa do Grupo Vázquez passou para as mãos de José Sala, ex-subgerente do Ueno Bank. Apenas sete dias depois da transferência, a instituição bancária concedeu-lhe um financiamento relâmpago de 42,5 milhões de dólares.
Grupo Hendy SA: Seguindo o mesmo mecanismo, a sociedade foi transferida para o nome de dois funcionários da Itti (empresa de tecnologia do grupo empresarial). Apesar de registrar patrimônio líquido negativo, a empresa conseguiu obter empréstimos do banco no valor de 252,521 bilhões de guaranis.
Juntas, as duas empresas de fachada absorveram cerca de 84,5 milhões de dólares em empréstimos fraudulentos.
Os de baixo pagam pela fraude dos de cima
A dimensão financeira desse colapso se traduz em um drama social imediato para os trabalhadores e aposentados do país. Com a suspensão completa das operações da instituição, metade da população do Paraguai ficou, da noite para o dia, sem acesso ao próprio dinheiro. O bloqueio do aplicativo móvel, dos cartões de débito e das transferências virtuais não apenas paralisou o comércio de subsistência cotidiano, como também desencadeou um pânico bancário generalizado: a corrida de poupadores desesperados para abrir contas em outras instituições acabou sobrecarregando e provocando o colapso das plataformas do restante do sistema bancário paraguaio.
Embora o discurso tecnocrático se apoie no argumento de que o Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis (cerca de 38 mil dólares), protegendo «97% dos clientes», a realidade é devastadora. Os 3% restantes, que ficam completamente desprotegidos, representam mais de 87 mil famílias trabalhadoras cujas economias de uma vida inteira acabam de ser confiscadas para cobrir o rombo provocado pelos dirigentes. A esse cenário soma-se a situação de incerteza trabalhista dos próprios funcionários da instituição: centenas de empregados do Ueno Bank e de empresas associadas ao grupo empresarial, como a Itti, marcharam em direção ao Ministério do Trabalho ao se verem abandonados à própria sorte, sem indenizações e com seus próprios salários consumidos pela falência da empresa que mantinham em funcionamento.
Mas a maior bomba-relógio ameaça os aposentados. O banco administrava mais de 350 milhões de dólares do Instituto de Previdência Social (IPS), comprometendo diretamente os fundos de aposentadoria de 32 mil pensionistas paraguaios. Os recursos acumulados durante décadas de esforço dos trabalhadores foram entregues pelo governo de Peña aos bancos privados para financiar a especulação das corporações do Grupo Vázquez. Hoje, esses aposentados acompanham, angustiados, a possibilidade real de ver suas aposentadorias perderem seu valor.
A renúncia e o iminente processo de impeachment de Santiago Peña expõem brutalmente a estrutura de um modelo no qual o Estado funciona como braço financeiro dos capitalistas. Não se trata de uma falha técnica do sistema; é a consequência direta de uma engenharia de saque, na qual o presidente da nação e o chefe do Banco Central sentavam-se dos dois lados do balcão, utilizando o dinheiro público para inflar seus próprios negócios.
A queda de Peña marca o fim de um governo que pretendia administrar um país como se fosse uma empresa privada. A velocidade do colapso institucional deixou uma metáfora eloquente nas ruas: enquanto equipes de operários removiam às pressas o logotipo do Ueno Bank das paredes do estádio nacional de futebol, numa tentativa de desvincular a marca corporativa do desastre, a Polícia Nacional respondia, nas imediações do Congresso, com gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha contra uma multidão de poupadores, estudantes e aposentados. As mobilizações em massa que cercam o poder político em Assunção já não exigem apenas a devolução imediata dos depósitos bancários; representam a dignidade de um povo que se recusa a continuar pagando, com o sofrimento dos de baixo, pela crise dos banqueiros.










