As invasões da extrema direita nas universidades expressam uma sociedade profundamente polarizada, com perigos e possibilidades, e uma contraofensiva reacionária em curso que busca intimidar a juventude, desmoralizar a universidade pública e enfraquecer nossas formas de organização coletiva. Defender a universidade pública significa defender o pensamento crítico, as liberdades democráticas e o direito da juventude de se organizar politicamente. Diante disso, nossa resposta só pode ser a organização pela base, a mobilização coletiva e a independência de classe para enfrentar o projeto ultrarreacionário.
Por JUVENTUDE ANTICAPITALISTA JÁ BASTA!
No dia 4 deste mês de março, o vereador de extrema direita de São Paulo Lucas Pavanato (PL) e a vereadora da Praia Grande Eduarda Campopiano (PL) protagonizaram mais uma provocação política violenta dentro dos nossos espaços na Universidade de São Paulo. Acompanhados por um grupo de guardas municipais armados à paisana, invadiram o campus do Butantã portando cartazes de caráter misógino às vésperas do Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras.
A ação dos provocadores, carregada de ódio e calculada malícia, teve claro intuito de intimidação e de gerar provocações deliberadas. Uma encenação política típica da extrema direita: provocar, produzir conflito e tentar desmoralizar a universidade pública e a organização política da juventude. O que se viu naquele dia foram tentativas de tumulto e agressões contra os estudantes que reagiram à presença do grupo. Entre os atingidos esteve André, militante da Juventude Já Basta! que reagiu à covarde e criminosa agressão a um estudante.
Esse episódio não é um caso isolado. Nos últimos anos, setores da extrema direita têm utilizado as universidades públicas como palco de suas incursões políticas truculentas. Trata-se de uma estratégia deliberada de guerra ideológica contra espaços onde ainda sobrevivem formas de pensamento crítico, organização coletiva e produção científica relativamente autônoma. Ao provocar conflitos dentro dos campi, buscam deslegitimar a universidade pública diante da opinião pública, apresentando-a como um lugar de “doutrinação”, “desordem” ou “intolerância”.
Trata-se de uma narrativa que serve para preparar o terreno político para medidas de controle, repressão e desmonte da educação pública. Ao pintar estudantes e professores como inimigos da sociedade, tentam justificar cortes de financiamento, perseguições ideológicas, criminalização da organização estudantil e projetos de privatização das universidades. Em outras palavras, não se trata apenas de provocar tumultos pontuais, mas de construir condições políticas favoráveis ao enfraquecimento da universidade pública enquanto espaço de produção de conhecimento, debate crítico e organização política da juventude.
Por trás dessas ações está uma lógica profundamente reacionária: atacar tudo aquilo que pode produzir consciência crítica e resistência social. A universidade pública, com todas as suas contradições, segue sendo um dos poucos espaços onde a juventude trabalhadora pode se encontrar, debater, se organizar e questionar as estruturas de poder existentes.
Além disso, é também um espaço em que milhares de jovens vivem uma nova etapa da vida, marcada pela construção de suas identidades em sentido amplo, de gênero, políticas, científicas e culturais.
É justamente por isso que a universidade se torna um alvo preferencial dessa ofensiva da extrema direita. Atacar a universidade pública significa tentar sufocar um espaço onde se formam pensamento crítico, organização coletiva e novas formas de existência que desafiam a atual ordem social.
Essa agenda ultrarreacionária de Pavanato e companhia promove discursos de ódio e tenta estigmatizar o corpo estudantil, ao mesmo tempo em que busca reverter conquistas históricas da classe trabalhadora. Entre elas estão as políticas de democratização do acesso ao ensino superior, como as cotas raciais e sociais, além de ataques ao direito reprodutivo das mulheres e à própria existência da comunidade LGBTQIAPN+.
A ofensiva também se articula com pressões institucionais que buscam introduzir mensalidades para os estudantes das instituições públicas de ensino superior. Ao defender a privatização das universidades por meio do PL 672/24, querem desmontar a educação pública para transformá-la em um espaço excludente e antidemocrático.
Esses tensionamentos revelam que a extrema direita invade a universidade não somente para gerar views e likes nas redes sociais, mas, sobretudo, para emplacar um projeto político de sociedade no qual mulheres, negros, a comunidade LGBTQIAPN+ e o conjunto de explorados e oprimidos não se encaixam, e por isso esses acontecimentos precisam ser interpretados à luz de um quadro político mais amplo.
Vivemos uma conjuntura profundamente polarizada, marcada por uma ofensiva das forças reacionárias em nível global, mas também por importantes reações populares. A extrema direita tensiona permanentemente o cenário político e social, testando os limites das instituições e dos movimentos. Com as eleições batendo à porta, essas invasões e conflitos tendem a se intensificar e, portanto, impõe-se a necessidade de organizar desde baixo táticas de combate ao ultrarreacionarismo.
Contudo, a reação do movimento estudantil frente à ofensiva da extrema direita revela muitas fragilidades que carecem de uma análise mais atenta. Há um contraste evidente entre as debilidades das atuais direções do movimento e o potencial combativo que expressa a juventude universitária.
A atual gestão do DCE (Diretório Central dos Estudantes), diante deste último ataque, demonstrou dificuldades em formular táticas capazes de enfrentar os provocadores de maneira consequente e organizada. Entre hesitações táticas, descentralização política e posicionamentos formais e insuficientes, evidencia-se um quadro generalizado de desorganização, desorientação e uma política rotineira que, no limite, termina por enfraquecer a capacidade de mobilização do movimento estudantil.
Nossa caracterização sobre a inércia que hoje marca as direções do movimento estudantil se confirma diante do que foi a primeira assembleia geral dos estudantes nesta última quinta-feira (12). Convocada de forma protocolar, sem dar a devida centralidade ao principal espaço de discussão e deliberação do movimento, o que pudemos observar por parte da direção do DCE (Juntos/MES, Correnteza/UP, UJC/PCBR e Rebeldia/PSTU) foi uma postura burocrática, muito aquém das necessidades do momento, mas também das possibilidades reais de recolocar de pé o movimento estudantil para enfrentar a extrema direita dentro e fora da universidade.
Aqui cabe uma breve digressão. Desde que começaram as invasões aos nossos espaços na universidade, nós da Juventude Anticapitalista Já Basta! defendemos a construção unitária de um Comitê Antifascista entre estudantes, professores e funcionários, recorrendo ao que há de melhor na tradição da luta dos trabalhadores: a mais ampla unidade de ação para enfrentar um inimigo de classe comum. No entanto, de maneira sistemática e inconsequente, a direção do DCE vem se negando a construir essa ferramenta imprescindível de luta.
Como se não bastasse, essa mesma direção – saturada por uma política de cálculos de aparato, muitas vezes articulada de forma unilateral com fins eleitorais – também tem se negado a impulsionar um processo real de inflexão, entre estudantes, trabalhadores e professores para construir, através de uma plenária dos 3 setores da universidades, uma política comum de enfrentamento às provocações da extrema direita dentro da universidade.
Voltando à assembleia, para além da condução engessada e desorganizada do espaço pela mesa diretora, a direção do DCE mostrou-se, de maneira preocupante, incapaz de apresentar um plano de lutas à altura dos desafios colocados hoje. De forma recuada – e inclusive à direita de professores da FFLCH que defenderam a necessidade de uma paralisação unitária na universidade na última reunião da direção da faculdade – o DCE limitou-se a apresentar uma atividade de panfletagem sem qualquer objetivo concreto e uma intervenção contra a extrema direita extremamente abstrata e sem qualquer efetividade.
Negaram, assim, a proposta apresentada por nossa juventude: a construção pelas bases, através de assembleias de curso, de um dia de paralisação ativa, culminando em um ato unitário em frente à Câmara Municipal de São Paulo para pressionar pela cassação de Lucas Pavanato. Trata-se de uma posição que demonstra uma grave incompreensão política: a conquista do impedimento de Pavanato significaria uma vitória categórica do movimento estudantil, uma vitória das nossas liberdades democráticas e também do projeto de universidade pública que queremos defender e construir.
Dessa forma, não poderia ter sido diferente a postura sectária e autoproclamatória adotada em relação à campanha que nós do Já Basta! colocamos de pé nesta última semana pela cassação de Pavanato. Em apenas três dias, a campanha reuniu mais de mil assinaturas de estudantes, professores e funcionários. Ainda assim, o DCE se recusou a unificar essa iniciativa, enterrando a possibilidade de ampliar sua extensão e adesão – algo que contribuiria decisivamente para fortalecer a correlação de forças necessária para derrotar Pavanato e a extrema direita, mas também para impulsionar a mobilização do conjunto dos estudantes.
Portanto, superar a inércia e o rotineirismo da atual gestão do DCE (Juntos/MES, Correnteza/UP, UJC/PCBR e Rebeldia/PSTU) exige mais do que notas de repúdio e posições protocolares diante de episódios de provocação. É necessário nos apoiar no que há de melhor na tradição do movimento estudantil e da luta dos trabalhadores: organização pela base, assembleias democráticas, unidade na ação e independência política para enfrentar nossos inimigos de classe. Isso significa virar do avesso o movimento estudantil e superar as velhas direções burocráticas que atravancam a luta em nome de seus próprios interesses, recolocando os estudantes organizados pela base à altura dos desafios do momento.
Diante disso, é preciso transformar a raiva e a indignação em organização e luta política. Nós da Juventude Anticapitalista Já Basta! seguiremos impulsionando a campanha pela cassação do mandato de Lucas Pavanato, convidando todas e todos a se somarem a essa construção. É fundamental pressionar pela realização de assembleias nas bases dos cursos para construir um plano comum de ação contra a extrema direita e em defesa de uma universidade verdadeiramente pública, laica e de qualidade, a serviço dos interesses dos explorados e oprimidos – da nossa classe.
Defender a universidade pública hoje também significa lutar pela democratização real do acesso ao ensino superior. Isso passa pela ampliação das políticas de inclusão e permanência, pela implementação de cotas trans e do vestibular indígena e por avançar rumo à superação de todos os mecanismos elitistas de seleção que mantêm a universidade como privilégio de poucos. Nosso horizonte deve ser claro: caminhar para o fim dos vestibulares e garantir o acesso universal ao ensino superior, para que toda a juventude trabalhadora possa estudar, produzir conhecimento e transformar a sociedade.
Ao mesmo tempo, a defesa da universidade pública exige levantar medidas efetivamente anticapitalistas e manter uma posição de independência de classe. Isso significa lutar por financiamento público massivo para a educação, obtido por meio da taxação efetiva das grandes fortunas e dos lucros do capital, reverter o sucateamento das universidades, ampliar drasticamente a permanência estudantil e enfrentar qualquer tentativa de privatização ou mercantilização da educação. Significa também combater as traições e ataques que partem do próprio governo Lula quando este mantém o ajuste fiscal, os cortes e os limites impostos pelo arcabouço econômico que sufoca os serviços públicos e o Novo Ensino Médio.
Construir a universidade pública que queremos exige independência política frente aos governos e aos interesses do capital, apoiando-nos na mobilização e na auto-organização da nossa classe para derrotar a extrema direita e abrir caminho para uma educação verdadeiramente pública, laica e de qualidade e a serviço dos explorados e oprimidos.
Por um dia de paralisação na universidade com mobilização pela cassação de Lucas Pavanato!
Por uma plenária unificada dos 3 setores: estudantes, funcionários e professores!
Por um Comitê Antifascista da USP!
Por assembleias de base nos cursos para organização e mobilização dos estudantes!
ASSINE NOSSO ABAIXO ASSINADO PELA CASSAÇÃO DE LUCAS PAVANATO









