Por Martín Camacho– 21 de outubro de 2025
“Bolívia, sem ter chegado a constituir-se plenamente como país capitalista (embora o seja em sua forma dominante), já está destruída. Esta é a tremenda contradição que se vive nas entranhas da crise do país.” — Roberto Sáenz
“Em Bolívia, o socialismo não é uma escolha, mas um requisito existencial: sem seu cumprimento, a nação não poderá ser efetivamente nação.” — René Zavaleta Mercado
A vitória de Rodrigo Paz expressa o desejo de estabilidade, mas também o desafio de governar sobre as conquistas forjadas por duas décadas de lutas sociais. As eleições encerram o ciclo do MAS e inauguram uma fase de transição moderada, em que a Bolívia busca preservar suas conquistas sociais sob um novo equilíbrio de forças.
As eleições gerais de 19 de outubro de 2025, marcaram o encerramento de um ciclo histórico e o início de uma nova etapa na política boliviana. No segundo turno presidencial, Rodrigo Paz Pereira, candidato do Partido Democrata Cristão (PDC), foi eleito com 54,5% dos votos válidos — o equivalente a 3,7 milhões de sufrágios — contra 45,5% (3,1 milhões) obtidos por Jorge “Tuto” Quiroga, seu adversário conservador. O pleito contou com 7,9 milhões de eleitores habilitados e uma participação próxima de 86%, segundo dados do Órgão Eleitoral Plurinacional.
A disputa consolidou uma transição política moderada, marcada menos por ruptura do que por correção de rumo: depois de quase duas décadas de hegemonia do “Movimiento al Socialismo” (MAS), o país optou por um giro ao centro, buscando estabilidade sem abrir mão das conquistas sociais acumuladas desde 2006.
Como destacou El País (19/10/2025), “a Bolívia muda de ciclo, mas não de direção histórica”; e, segundo a DW, o resultado expressa “o cansaço de uma sociedade que quer preservar o conquistado, mas sob novas mãos”.
Ainda assim, esse equilíbrio pode ser breve: Paz enfrenta o dilema de reativar a economia sem tocar os direitos e subsídios que sustentam a paz social.
O declínio do MAS e o voto de transição
Desde 2019, a trajetória do MAS vem marcada por contradições. Após a crise de Evo Morales e a vitória de Luis Arce em 2020, o partido manteve o poder, mas perdeu unidade e vitalidade.
A candidatura independente de Andrónico Rodríguez, dissidente do MAS, obteve menos de 9% dos votos na primeira volta, revelando a dissolução do bloco histórico que sustentou o “processo de mudança”.
Parte expressiva do eleitorado popular que antes votava em Morales e Arce, migrou pragmaticamente para Paz — não por adesão ideológica, mas por temor de retrocessos sociais. Como destacou a CNN em Español (19/10/2025), “os eleitores de Evo Morales desempenharam papel decisivo na balança final, divididos entre o voto nulo e o apoio a Paz”.
As bases populares e camponesas continuam ligadas à figura de Evo, que, mesmo fora da disputa, conserva influência sobre a política social boliviana.
Territórios e clivagens sociais
O mapa eleitoral confirmou uma divisão já conhecida: os departamentos de Santa Cruz, Beni e Tarija se inclinaram à direita, onde Quiroga prevaleceu, enquanto La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí, Chuquisaca e Pando, apoiaram o campo da centro direita liderado por Paz.
Nas capitais e zonas urbanas predominou o voto liberal de classe média; no campo, o evismo e as identidades originárias ainda mobilizam um sentimento de resistência.
Em regiões camponesas do altiplano, o apoio a Paz ultrapassou 90% dos votos, sinal de que a memória do processo de mudança segue viva. A DW resumiu: “a Bolívia mantém-se dividida entre o oriente agroexportador e o altiplano popular”. Essa cisão estrutural não desaparecerá rapidamente, embora as classes médias urbanas tenham dado um giro a posições mais conservadoras.
Rodrigo Paz e a promessa de conciliação
Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989–1993), o novo mandatário — que tomará posse em oito de novembro de 2025 — apresenta-se como herdeiro de uma tradição social-democrata e conciliadora.
Em seu discurso da vitória, afirmou ser “tempo de reconciliação e unidade nacional”, ecoando La Razón (20/10/2025): “Rodrigo Paz inicia a transição com o governo de Arce prometendo estabilidade e diálogo.”
Entretanto, a realidade social é mais complexa que o discurso de moderação. As tensões latentes entre o oriente e o altiplano, o campo e a cidade, a classe média e o proletariado urbano logo colocarão o novo governo à prova.
Advertências do movimento social
A reação das organizações populares não tardou. A Central Obrera Boliviana (COB) declarou que rejeitará qualquer tentativa de eliminar ou modificar a subvenção aos combustíveis, tema central do modelo econômico nacional.
Vale recordar que, em 2010, Evo Morales tentou reduzir o subsídio e recuou após uma onda de protestos — episódio lembrado agora como advertência ao novo presidente. O dirigente evista Vicente Choque, da CSUTCB (Confederação de trabalhadores camponeses), reforçou à Erbol (20/10/2025): “O novo governo não deve tomar decisões econômicas sem consultar o povo. Isso pode ser seu pior erro. Se mexer nos subsídios, o povo não vai suportar.” As declarações da COB reiteram que tocar nos combustíveis é tocar na paz social.
A tensão em torno das subvenções sintetiza o novo cenário político: um governo de centro direita, obrigado a administrar as conquistas herdadas do ciclo de esquerda, fruto das insurreições de 2003 e 2005.
Entre a modernidade trunca e a nova classe trabalhadora
O resultado de 2025 deve ser lido à luz da “modernidade trunca”, conceito formulado por Roberto Sáenz: “A Bolívia, sem ter chegado a constituir-se plenamente como país capitalista (embora o seja em sua forma dominante), já está destruída.”
O capitalismo dependente segue impondo limites estruturais, enquanto o Estado Plurinacional se mostra incapaz de resolver as tarefas democráticas e nacionais que a burguesia jamais cumpriu. Mas, como advertiu Sáenz, “As ladainhas pela morte da classe trabalhadora na Bolívia são injustificadas. Não morreu, mudou. Uma nova classe trabalhadora começa a emergir.”
Essa nova classe — trabalhadores urbanos de El Alto, operários do gás, assalariados rurais e o proletariado informal — compõe o núcleo vivo de uma futura alternativa socialista.
A tarefa estratégica: reconstruir a aliança dos explorados e oprimidos
A tradição revolucionária boliviana ensina que a Revolução de 1952, assim como a insurreição de El Alto em 2003, expressaram a força combinada da classe trabalhadora e dos povos originários. Diante do giro moderado de 2025, essa aliança precisa ser reconstruída a partir de novas bases.
Uma nova perspectiva do socialismo revolucionário no país não poderá ser construída sem levantar bem alto, desde a classe trabalhadora, a bandeira do livre e incondicional direito à autodeterminação das nações originárias.
O governo Paz pode inaugurar um período de estabilidade relativa, mas breve, se tentar desmontar as conquistas que deram legitimidade ao Estado Plurinacional. O desafio histórico não é apenas “preservar o conquistado”, mas recolocar o socialismo no horizonte dos explorados e oprimidos.
O novo ciclo e a prova do real
O giro político de 2025 expressa uma sociedade que não quer retroceder, mas tampouco enxerga saída imediata pela via do velho MAS. O novo governo será testado rapidamente: os dilemas econômicos, a pressão social e a disputa sobre o modelo energético definirão se a centro direita que Rodrigo Paz representa será um intervalo transitório ou o início de uma nova recomposição burguesa.
Enquanto isso, nas ruas de El Alto, as assembleias camponesas junto com os trabalhadores aglutinados na Central Operária Boliviana (COB), permanecem as sementes do que Zavaleta Mercado chamou de “requisito existencial”: “Em Bolívia, o socialismo não é uma escolha, mas uma necessidade sem a qual a nação não poderá ser efetivamente nação.”
Fontes jornalísticas
BBC Mundo. EleccionesenBolivia: Rodrigo Paz gana lapresidenciaenun giro moderado haciael centro. Londres, 19 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c8917y172e0o.
CNN enEspañol. Claves del triunfo de Rodrigo Paz enlaselecciones de Bolivia 2025. Atlanta, 19 out. 2025. Disponível em: https://cnnespanol.cnn.com/2025/10/19/latinoamerica/claves-triunfo-rodrigo-paz-bolivia-elecciones-orix.
CNN Brasil. Novo presidente da Bolívia convida María Corina para cerimônia de posse. São Paulo, 20 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/novo-presidente-da-bolivia-convida-maria-corina-para-cerimonia-de-posse/.
DEUTSCHE WELLE (DW). BalotajeenBolivia: “esto está de infarto, puedepasarcualquier cosa”. Bonn, 18 out. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/es/balotaje-en-bolivia-esto-est%C3%A1-de-infarto-puede-pasar-cualquier-cosa/a-74375757.
EL PAÍS. Bolivia cambia de ciclo en una segunda vueltaelectoral entre dos candidatos de derecha. Madri, 19 out. 2025. Disponível em: https://elpais.com/america/2025-10-19/elecciones-en-bolivia-en-vivo-la-segunda-vuelta-de-las-presidenciales.html.
ERBOL. Dirigente ‘evista’ advierte al nuevogobierno no tomar decisiones económicas sin consultar al pueblo. La Paz, 20 out. 2025. Disponível em: https://erbol.com.bo/nacional/dirigente-%E2%80%98evista%E2%80%99-advierte-al-nuevo-gobierno-no-tomar-decisiones-econ%C3%B3micas-%E2%80%98sin-consultar.
ERBOL. Edmand Lara: “Siempre vamos a respetarel Estado Plurinacional”. La Paz, 20 out. 2025. Disponível em: https://erbol.com.bo/el-%C3%A1nfora-1/edmand-lara-evo-morales-%E2%80%98siempre-vamos-respetar-el-estado-plurinacional%E2%80%99.
LA RAZÓN. Rodrigo Paz inicia transiciónconelgobierno de Luis Arce. La Paz, 20 out. 2025. Disponível em: https://larazon.bo/nacional/2025/10/20/rodrigo-paz-inicia-transicion-con-el-gobierno-de-luis-arce/.
LA RAZÓN. “Es tiempo de reconciliación”, dice Lara y llama a launidaddel país. La Paz, 19 out. 2025. Disponível em: https://larazon.bo/nacional/2025/10/19/es-tiempo-de-reconciliacion-dice-lara-y-llama-a-la-unidad-del-pais/.
ESQUERDA WEB. Bolívia: fim do ciclo do MAS e a recomposição da direita. São Paulo, 2024. Disponível em: https://esquerdaweb.com/bolivia-fim-do-ciclo-do-mas-e-a-recomposicao-da-direita/..
Referências teóricas
SÁENZ, Roberto. Crítica al romanticismo anticapitalista. Buenos Aires: Socialismo o Barbarie, 2005. Disponível em: https://www.socialismoobarbarie.org/webanterior/bolivia_arde/critica_romanticismo_anticapitalista.htm.
SÁENZ, Roberto. La nuevaclasetrabajadora boliviana. Buenos Aires: Socialismo o Barbarie, 2010. Disponível em: https://www.socialismo-o-barbarie.org. Acesso em: 21 out. 2025.
ZAVALETA MERCADO, René. Lo nacional-popular enBolivia. 2. ed. La Paz: Plural Editores, 2013.










