A rebelião na RDA (República Democrática Alemã ou a antiga Alemanha Oriental) seria o pontapé inicial de um ciclo de rebeliões antiburocráticas, cujo principal resultado foi a revolução húngara de 1956. Embora a burocracia tenha conseguido conter a rebelião operária na RDA com uma mistura de concessões e repressão, ficou claro que a situação política nos países do Glacis era complicada por problemas econômicos, governo autoritário e inquietação com a pilhagem descarada da Rússia nos países do Leste Europeu.
Victor Artavia
18 de junho, 2025
O dia 17 de junho marcou o 72º aniversário da rebelião operária na República Democrática Alemã (RDA). Em junho de 1953, os trabalhadores de Berlim iniciaram uma greve contra as péssimas condições de vida e de trabalho na RDA stalinista. A luta rapidamente se transformou em uma batalha campal contra o poder da burocracia soviética e seus lacaios locais.
A rebelião na Alemanha Oriental seria o pontapé inicial de um ciclo de rebeliões antiburocráticas, cujo principal resultado foi a revolução húngara de 1956. Compartilhamos um trecho do ensaio The Forging of Anti-Bureaucratic Revolutions (A formação de revoluções antiburocráticas), publicado originalmente no Izquierda Web em março de 2021, que analisa esse evento histórico.
O segundo episódio de revolta operária ocorreu na RDA em junho de 1953. Nesse país, as condições de vida haviam se deteriorado acentuadamente nos anos anteriores, devido às medidas de ajuste tomadas pela burocracia stalinista contra a classe operária. Por exemplo, o ritmo de trabalho nas fábricas foi intensificado em 1951 e, no ano seguinte, muitos recursos estatais foram redirecionados para a construção de um exército próprio, o que afetou o investimento na indústria de bens de consumo.
Ambas as medidas levaram a uma queda nos padrões de vida e à emigração em massa para a Alemanha Ocidental, o que agravou os problemas econômicos do país. Diante disso e da urgência de cumprir as metas do plano imposto pela URSS, a burocracia stalinista na RDA intensificou seus ataques à classe operária e à população em geral, como declarou o então secretário do PC de Berlim Oriental: “O preço da carne, do açúcar, da geleia e de outros gêneros alimentícios foi aumentado; os bilhetes de ida e volta até então concedidos aos operários foram abolidos; a classe média foi privada de seu cartão de alimentação; a pressão sobre os camponeses e artesãos para forçá-los a entrar em cooperativas foi acentuada” (citado em Nagy, People’s Democracies, 114).
O mal-estar com o governo na RDA era compartilhado por grande parte da população, por isso a burocracia implementou, em 9 de junho de 1953, algumas concessões econômicas… porém em benefício da burguesia e da pequena burguesia restantes! Em troca, no dia seguinte, ela decretou mais medidas de ajuste contra a classe operária, impondo um aumento de 10% nas cotas de produção e vinculando os salários à produtividade. Isso resultou em uma redução nos salários operários que, no caso do setor de construção (um dos maiores em meio à reconstrução pós-guerra), caiu entre 10 e 15% (Lauria, 2019).
A organização operária começou várias semanas antes, pois em 28 de maio houve paralisações parciais no setor de construção civil por questões salariais, o que gerou um clima de debate nas fábricas e pedreiras alemãs. Portanto, não foi surpreendente que a greve contra o decreto de 10 de junho tenha começado no setor de construção civil, especificamente no canteiro de obras do Stalinalle Boulevard, onde milhares de operários realizaram uma reunião em massa e concordaram em marchar até a sede do governo nacional para apresentar suas reivindicações diretamente a Walter Ulbritch, chefe do governo da RDA.
Lá, eles foram recebidos por funcionários de segundo escalão e, apesar de terem recebido a garantia de que o aumento das cotas seria suspenso, os mais de dez mil operários que compareceram ao protesto não ficaram satisfeitos até ouvirem isso do próprio Ulbritch e, por isso, decidiram continuar a greve. Nesse momento, a greve passou a combinar demandas econômicas e políticas, uma dinâmica semelhante à vivida pela greve na Tchecoslováquia. Os principais slogans do movimento, a partir de então, foram: a) cancelamento do aumento das cotas de trabalho; b) redução dos preços nas lojas estatais; c) aumento geral do padrão de vida da classe trabalhadora; d) abandono da tentativa de criar um exército (porque isso enfraquecia o setor de bens de consumo); e) eleições livres na Alemanha (Dale, 2016).
As notícias da luta operária em Berlim se espalharam por todo o país e a greve se espalhou para outras cidades, onde assumiu a forma de uma insurreição operária e popular contra a burocracia. Comitês de greve foram formados de forma espontânea para exigir a reintegração dos operários demitidos, o cancelamento da cota de trabalho, a igualdade de remuneração para as mulheres, a legalização da ação operária nas indústrias, a libertação dos presos políticos, a renúncia dos governantes e eleições livres. Além disso, os manifestantes não perderam nenhuma oportunidade de expressar seu profundo ódio contra a opressão nacional russa e os órgãos repressivos do Estado: “Eles arrancaram a propaganda das paredes; crianças em idade escolar destruíram seus livros didáticos russos; e, em uma cidade, os manifestantes arrastaram os oficiais da Stasi (polícia política da RDA, VA) para fora e os trancaram em um canil com uma tigela de comida de cachorro na frente deles” (Dale, 17 de junho de 1953, p. 5).
A insurreição foi particularmente forte nos casos em que os comitês de greve das fábricas ou regiões estavam vinculados, formando organismos de duplo poder. Um caso notável foi o de Bitterfeld-Wolten, onde trinta mil operários votaram em um comitê composto por representantes das fábricas, mulheres “donas de casa” e estudantes. Esse comitê organizou grupos de centenas de operários para tomar os locais estratégicos da cidade: prisões, correios, o palácio do governo municipal, as instalações da Staci, a central telefônica etc. Algo semelhante aconteceu em Görlitz, onde até mesmo o comitê de greve demitiu a polícia e nomeou novos oficiais, libertando imediatamente os presos políticos.
Nessas cidades, a insurreição foi fortalecida pelas grandes concentrações operárias, mas também pela presença de ativistas com experiência anterior de luta que contribuíram para a organização e a formulação de consignas. É importante observar esse último aspecto, pois confirma que a rebelião da RDA combinou uma explosão operária espontânea com as tradições e memórias de lutas anteriores.
O nazismo, apesar da forte repressão que desencadeou durante doze anos, não desmantelou completamente as tradições organizacionais socialistas e comunistas do movimento operário alemão, que sobreviveu na clandestinidade nas áreas industriais do país. De acordo com a pesquisa de Gareth Dale, cerca de 150.000 comunistas participaram da resistência ilegal, enquanto outras camadas de operários optaram por evitar o perigo da repressão, mas se esforçaram para manter vivos os valores e as memórias do movimento operários em seus grupos de amizade, locais de trabalho e alojamentos (Balhorn, 2019).
Isso facilitou a transmissão das memórias de luta para as novas gerações, o que ficou evidente na rebelião alemã de 1953 devido às contribuições diretas de ex-ativistas políticos comunistas, social-democratas e ativistas contra a ditadura nazista. Há vários casos documentados desse fato: Otto Reckstatt, líder da greve em Nordhausen, era militante do partido social-democrata e representante do conselho de sua cidade durante a República de Weimar; Wilhelm Grothaus, organizador da conferência de delegados de Dresden em junho de 1953, teve sua primeira ação grevista aos 12 anos de idade em 1905, filiou-se ao Partido Social Democrata em 1919, depois ao Partido Comunista em 1933 e foi preso, torturado e condenado à morte (foi poupado no final da guerra) pelos nazistas em 1944 (Dale, 2016).
Um total de meio milhão de operários participou da greve, e estima-se que 10% da população tenha participado das manifestações nas ruas. Diante disso, a burocracia foi forçada a fazer algumas concessões econômicas, como ajustar os salários, reduzir os preços dos bens de consumo básicos, modificar ligeiramente o plano para fortalecer a indústria de bens de consumo e, a partir de 1º de janeiro de 1954, a URSS entregou à RDA a administração direta de várias joint ventures e liquidou os valores pendentes das reparações de guerra (Nagy, 1968).
Da mesma forma, o stalinismo implantou uma forte operação repressiva contra as cabeças da rebelião operária, resultando em 267 manifestantes mortos (da parte do governo, o stalinismo matou 116 agentes alemães e 18 soldados russos); deixou mais de dois mil feridos, 46 condenados à morte e cerca de 25 mil presos políticos (Nagy, 1968; Dale, 2019).
Embora a burocracia tenha conseguido conter a rebelião operária na RDA com uma combinação de concessões e repressão, ficou claro que a situação política nos países da Glacis era complicada por problemas econômicos, governo autoritário e desconforto com a óbvia espoliação russa dos países do Leste Europeu.
Traduzido por Mariah Sinem, do original La rebelión obrera anti-burocrática de 1953 en la RDA.









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