Por Juan Cruz Ramat
…. O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
…. O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo.
(“O QUE SERÁ (À flor da pele)”, Chico Buarque)
O presente texto está baseado em sucessivas discussões coletivas, incluindo uma reunião de balanço entre a direção do nosso partido e a direção do SoB Brasil, realizada em 27/10 passado.
O movimento de massas brasileiro, impulsionado pelas mobilizações de uma vanguarda massiva, deu uma lição à região e ao mundo sobre como enfrentar e derrotar a extrema direita. O resultado de 25 de outubro — com uma virada de 10,3 milhões de votos — é a expressão de um acontecimento da luta de classes desenvolvido ao longo de várias jornadas em todo o Brasil, diante do perigo que representava a vitória de Flávio Bolsonaro, que havia superado Lula por mais de dois milhões de votos no primeiro turno, para terminar sendo derrotado por 4 milhões no segundo turno.
Trata-se de uma vitória do movimento de massas, com um papel protagonista da juventude, inspirada pelas revoltas da geração Z na França e na Europa. O fio condutor desse processo é a experiência de um capitalismo voraz que ameaça o futuro dos jovens no mundo inteiro, situação agravada nos países governados pela extrema direita ou submetidos à pressão da remilitarização e ao perigo da guerra.
A etapa atual, que caracterizamos como reacionária e de retorno das crises, guerras e revoluções, expressa-se com enorme dinamismo, com reviravoltas e mudanças de cenário vertiginosas que configuram a conjuntura. Como avaliamos recentemente em “Um novo dinamismo social enquanto os problemas espreitam”, essa mudança de cenário se expressou no deslocamento dos fatores dinâmicos: da geopolítica e do conflito entre Estados — com o protagonismo de Donald Trump e das principais figuras das potências mundiais — e dos processos eleitorais, cujos resultados repercutem globalmente devido à aposta da extrema direita em se consolidar por meio deles (Estados Unidos, Espanha, França e Argentina); para a luta de classes, que hoje assume a dianteira e faz soprar novos ares pelo mundo.
Essa mudança, por si só de grande importância, ganha um significado ainda maior com o Brasil: para além do impacto na política local, as jornadas brasileiras demonstraram que as mobilizações impulsionadas pela vanguarda de massas podem influenciar amplos setores da sociedade e, eventualmente, incidir nos processos eleitorais para impedir a vitória de expressões da extrema direita. Isso poderia apontar para um novo metabolismo entre os setores de vanguarda que protagonizam os conflitos nas ruas e a massa social que se expressa eleitoralmente. Falamos, além disso, da possibilidade de convivência temporária entre os processos eleitorais e as mobilizações de massas, um cenário que o caso brasileiro coloca em evidência, mas que deverá ser verificado na realidade de outros países.
Em relação à própria extrema direita, permanece uma questão ainda sem resposta: qual é a situação desse espaço político reacionário em nível mundial? As eleições de meio de mandato do próximo dia 3 de novembro nos Estados Unidos poderão começar a fornecer algumas pistas, caso se confirme um retrocesso de Donald Trump na Câmara dos Representantes ou até mesmo no Senado. Não obstante, já é fato que, nas últimas semanas, ele sofreu golpes contundentes, como a derrota de Flávio Bolsonaro, um aliado fundamental de Trump para sua doutrina Donroe e um apoio regional essencial para Javier Milei. Em termos gerais, observa-se um distanciamento progressivo de certas instituições de poder — como o Papa, os grandes meios de comunicação e os quadros políticos da direita do regime — em relação a essas experiências de extrema direita; um afastamento que, no entanto, é compensado pela contenção destinada a impedir que as mobilizações derrubem esses governos antes do fim de seus mandatos. Caso essa tendência ao isolamento se consolide, poderemos entrar em novas condições para o desenvolvimento dos acontecimentos políticos e sociais, em um mundo que, ainda assim, continua dominado por uma etapa marcada por graves perigos, mudanças de cenário vertiginosas e potencialidades revolucionárias.
Um evento da luta de classes com impacto nas eleições
A iminência de um novo governo bolsonarista e a consciência do perigo que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representava para as liberdades democráticas foram o que provocaram a reação juvenil, comoveram as entranhas da sociedade democrática e tocaram as fibras sensíveis de um setor de massas que assumiu a dianteira em uma verdadeira mobilização massiva no próprio domingo, 25.
Essas jornadas de mobilização, nas quais a vanguarda de massas conseguiu romper o cerco e arrastar setores mais amplos, ficaram inscritas na história do Brasil. A posterior fuga de Flávio Bolsonaro — o miliciano fanfarrão que escapou covardemente para os Estados Unidos — também é um subproduto do duríssimo golpe recebido pela extrema direita: a cereja do bolo de uma vitória categórica contra o perigo golpista.
Em uma demonstração contundente do caráter lumpem desses personagens, o miliciano foragido primeiro se autoproclamou presidente e, depois, líder do Brasil, ao mesmo tempo que agradeceu a Javier Milei e Donald Trump por facilitarem sua fuga. Um escândalo completo que agrava, em particular, a situação de Milei, um dos poucos chefes de Estado do mundo — ao lado de Trump — que não reconheceu a vitória de Lula da Silva e que facilitou a fuga, mesmo quando a Justiça brasileira havia proibido sua saída do país para prestar contas por corrupção. Vale dizer, de passagem, que também não caiu bem na burguesia argentina o fato de Milei ter dinamitado as pontes com Lula, presidente do país que representa o principal destino das exportações argentinas em todo o mundo (cerca de 13%).
As consequências da fuga de Flávio ainda estão por ser vistas, mas, de imediato, abriram uma crise na extrema direita e em seu partido (Partido Liberal, PL), que conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados (de um total de 513) e 19 das 54 vagas em disputa no Senado, elevando sua bancada para 28 senadores (de um total de 81).
Depois de muitos anos, as mobilizações nas ruas voltaram a se tornar um fator determinante da política brasileira. Isso ocorre em um país de dimensões continentais — cuja capital, Brasília, que foi construída entre 1956 e 1960 para blindar as instituições contra os protestos nos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro — e onde os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário costumam operar em um ecossistema no qual a sociedade civil fica relegada ao papel de mera espectadora da política nacional. Entretanto, a reação contra o perigo e a ativação de uma nova relação de forças colocaram novamente o país na vanguarda regional.
Esse fenômeno condiciona, por sua vez, o próprio governo de Lula da Silva, cujo mandato anterior frustrou milhões de pessoas ao manter sem alterações as principais contrarreformas dos governos de Jair Bolsonaro e Michel Temer: a trabalhista e a previdenciária. Lula, como principal dirigente de um governo burguês convencional — independentemente de sua origem de classe como trabalhador —, priorizou o funcionamento do Parlamento sem “interferências externas”, mesmo quando o próprio Congresso bloqueou repetidamente suas iniciativas, colocando em crise o caráter presidencialista do regime de governo. A isso se somou sua recusa em convocar a mobilização popular para enfrentar a extrema direita entrincheirada nas instituições de poder. De fato, foi a própria pressão das mobilizações durante as jornadas contra um eventual governo Bolsonaro que impulsionou o debate sobre a escala 6×1, que havia sido engavetado pela oposição. A conquista da escala 5×2, anterior à derrota de Flávio, demonstrou que a força da mobilização era capaz de derrubar as medidas reacionárias herdadas.
Agora, o quarto governo de Lula se desenvolverá sob o condicionamento de uma sociedade que conquistou uma nova correlação de forças e tomou consciência do impacto de sua mobilização. Consciente desse cenário, o próprio Lula advertiu, em seu discurso de vitória, que também deverá governar para aqueles que votaram na direita e na extrema direita. Esse reordenamento político poderá ampliar a polarização em uma disputa tripartite: a mobilização popular, a direita/extrema direita e o PT como fator de contenção.
Da vitória parcial de Bolsonaro à virada histórica
O resultado do primeiro turno eleitoral, no domingo, 4 de outubro, provocou um enorme impacto no Brasil e na região. As pesquisas e projeções davam como certa a realização do segundo turno, mas estimavam uma pequena vantagem a favor de Lula. Ao contrário, naquela jornada, Flávio Bolsonaro conquistou uma vitória parcial, com uma diferença de 2,2 milhões de votos em relação ao candidato do PT.
Naqueles dias, a juventude na França ocupava a Praça da Bastilha, enquanto os estudantes do ensino médio incendiavam o cenário político com a ocupação de 2 mil liceus em todo o país, em protesto contra o orçamento de Macron. A revolta se estendia aos universitários, que ocupavam faculdades e campi. O contraste com o resultado eleitoral no gigante latino-americano não poderia ser maior: Flávio Bolsonaro se autoproclamava novo presidente do Brasil e, junto com ele, festejava a extrema direita regional — com Milei à frente —, enquanto Donald Trump, em busca de uma peça-chave no mapa sul-americano para sua doutrina Donroe, compensava suas dificuldades internas.
A vitória parcial de Bolsonaro teve um impacto direto em um contexto institucional extremamente complexo, atravessado por acusações de corrupção que atingiram o Supremo Tribunal Federal (STF) e, particularmente, o ministro Alexandre de Moraes — responsável pela condução do processo e pela prisão de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado —, envolvido em um escandaloso caso de lavagem de dinheiro e fraude ligado ao Banco Master. Para além dos detalhes, o descrédito da instituição, somado ao avanço do bolsonarismo no Congresso, ao anúncio de Flávio de que sua primeira medida seria libertar o pai e à sua proposta de promover uma reforma constitucional para instaurar uma “verdadeira democracia”, evidenciavam a existência de um perigo real.
A tentativa de mudança de regime, em detrimento das liberdades democráticas, respaldada pelos setores mais reacionários da burguesia brasileira e por suas instituições permanentes (Exército e Polícia Militar), fortalecidos pelo resultado eleitoral, constituiu uma ameaça direta e iminente.
Três semanas de mobilizações ininterruptas
No dia seguinte, 5 de outubro, uma mobilização multitudinária de jovens estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, tomou a dianteira contra uma possível vitória definitiva de Bolsonaro e o perigo real que isso representava para as liberdades democráticas. A reação juvenil tocou as fibras profundas e históricas do povo brasileiro, trazendo à memória sua luta democrática contra a ditadura militar, nas históricas mobilizações pela campanha das eleições “Diretas Já!”, de 1984-1985, e até mesmo a resistência dos trabalhadores em 1978 e 1979, quando eclodiu uma greve geral contra o regime militar, impulsionada em São Paulo por um jovem Lula. Um Lula classista, cujo perfil mudaria alguns anos mais tarde, no contexto dos sucessivos governos burgueses que presidiu.
As enormes jornadas de protesto percorreram todo o país ao longo de três semanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Niterói, Campinas, João Pessoa, Florianópolis, Curitiba, Maceió e Natal estiveram entre as mais de 70 cidades nas quais irrompeu uma vanguarda de massas que transbordou a campanha passiva de Lula, do PT e do PSOL. Diferentemente do movimento democrático impulsionado pela juventude nas ruas, o governismo apareceu paralisado em uma orientação reduzida à campanha “vira-voto”: percorrer os bairros para explicar às pessoas que haviam votado errado e que deveriam mudar sua escolha.
Nas palavras de Fernando Haddad — ex-ministro de Lula e candidato do PT ao governo de São Paulo, derrotado por Tarcísio de Freitas —: “Está fácil fazer campanha (sic), como sempre (sic), sobretudo com esse adversário que temos, que está loteando o governo. Ele nem sequer ganhou as eleições e já está loteando o governo (…). Ele falou que vai seguir o plano econômico de seu pai. Temos que fazer a população lembrar o que isso significa.” (Folha de S.Paulo, 9/10/26).
Nenhuma palavra sobre o perigo que um mandato bolsonarista representava para as liberdades democráticas do movimento de massas, muito menos um chamado à mobilização.
As convocações espontâneas e independentes tiveram seu primeiro grande momento no domingo, 11, após o primeiro turno. O chamado para uma concentração democrática e pelo fim da escala 6×1 teve seu epicentro na Avenida Paulista, no coração de São Paulo. O crescimento exponencial da convocação e a pressão sobre a política passiva do PT obrigaram Lula a mudar de posição às 20 horas do dia anterior, anunciando sua participação.
Foi um dos momentos culminantes, com doze quarteirões da avenida ocupados pela juventude e por setores democráticos da sociedade, um marco que se repetiu e se ampliou no sábado, 24, com uma participação ainda maior, reunindo cerca de um milhão de pessoas. Mobilizações semelhantes ocorreram simultaneamente no Rio de Janeiro, nas principais cidades do Brasil e em dezenas de cidades pequenas e municípios do interior.
Essa jornada histórica, impulsionada pela vanguarda de massas, que comoveu amplos setores da sociedade, estendeu-se até o próprio domingo, 25, dia do segundo turno. Diante da tentativa de boicote eleitoral por meio de lockouts patronais nas frotas de ônibus, com o objetivo de impedir que a população fosse votar, surgiu a auto-organização independente dos aparatos, colocando carros particulares e meios de transporte à disposição da população. E não apenas nas áreas urbanas: em regiões de acesso limitado e sem conexão terrestre na Amazônia, a população se organizou em barcos e canoas para rejeitar a extrema direita.
O saldo dessas jornadas de mobilização de massas e a repercussão política gerada no dia da votação reverteram categoricamente o resultado. O governismo passou de uma derrota por 2 milhões de votos no primeiro turno para uma vitória por 4 milhões no segundo turno: o reflexo direto de um processo de luta de classes expresso eleitoralmente. Uma virada histórica que voltou a colocar em evidência a enorme reserva de forças dos explorados e oprimidos do Brasil, comovendo o ânimo e a sensibilidade das maiorias sociais e dos anticapitalistas em todo o mundo.
Essa façanha deixa enormes ensinamentos sobre a possibilidade real de derrotar a extrema direita e sobre os métodos para alcançar esse objetivo. A alegria nos irmana, transcende as fronteiras e nos dá forças na luta contra a extrema direita em todos os lugares: sim, é possível! Viva a luta da juventude e do povo brasileiro! Viva a luta da juventude na França e em toda a Europa! Força aos explorados e oprimidos do mundo que lutam contra o capitalismo e a extrema direita!
SoB Brasil, protagonista na luta contra a extrema direita
Nossa jovem corrente Socialismo ou Barbárie (SoB) no Brasil foi parte integrante e impulsionadora dessa luta histórica. Apostou na irrupção da juventude, alertando sobre o perigo que representava o retorno do bolsonarismo, e convocou à intervenção independente nas ruas. Nesse contexto, nossa corrente realizou um chamado público ao voto ultracrítico em Lula, uma posição que se mostrou acertada.
Ao contrário, o MRT (o PTS na Argentina) desconheceu o caráter das mobilizações contra Bolsonaro ao equipará-las a meros atos eleitorais e não participou ativamente das jornadas de luta. Não deixa de impressionar como o sectarismo pode distorcer a leitura da realidade: entre as poucas correntes independentes da esquerda no Brasil, esse grupo ficou à margem da história, abstendo-se de participar das imensas mobilizações que transbordaram o PT e defenderam as liberdades democráticas. Um erro grave e, a esta altura, irreparável; abster-se de participar da luta nas ruas contra a extrema direita é indefensável. Acrescentemos, como corolário dessa orientação desastrosa, o chamado envergonhado ao voto nulo, tão envergonhado que foi transmitido apenas de boca em boca, sem coragem suficiente para torná-lo público.
Por sua vez, as correntes do PSOL — principalmente o MES e o grupo liderado por Valério Arcary — liquidaram a independência política ao integrarem uma frente ampla com o PT e Geraldo Alckmin (PSB, partido historicamente burguês), limitando-se a seguir a política passiva do PT e a chamar o voto em Lula. Ainda está por se ver como a vanguarda processará a experiência dessa frente ampla após o novo patamar conquistado pela mobilização. Se, em 2022, esses grupos atribuíram a vitória de Lula contra Jair Bolsonaro à frente de conciliação de classes, a contundente vitória da mobilização independente em 2026 — após a experiência de um governo que não concedeu mudanças de fundo — deixa novos ensinamentos que deverão ser colocados em debate.
Na Argentina, o Nuevo MAS assume a tarefa de elaborar um balanço, junto à vanguarda, sobre a atuação da esquerda no Brasil, como um ensinamento para enfrentar a luta contra a extrema direita na Argentina e no mundo, e abrir um debate com o peronismo, cujo papel de contenção constitui o principal obstáculo na luta contra o governo de Javier Milei. O peronismo tentou reduzir o fenômeno brasileiro a uma campanha nas redes sociais e ao uso massivo de grupos de WhatsApp por parte de um deputado do PT, buscando esconder seu próprio papel de contenção diante de Milei, ao evitar repetidamente a massificação dos protestos por meio do controle das centrais sindicais, dos sindicatos e dos centros estudantis que dirige. Embora essas ferramentas digitais cumpram um papel fundamental, teriam sido impotentes sem a reação massiva diante do perigo bolsonarista.
De nossa parte, com esse entusiasmo e com as forças renovadas, nos preparamos para que a Marcha do Orgulho, no próximo dia 7 de novembro, seja uma expressão das mobilizações que hoje percorrem o mundo e fazem tremer a extrema direita com sua força anticapitalista.










