A atual dinâmica do trabalho sob o capitalismo no século XXI, contraditoriamente, combina o alto desenvolvimento tecnológico com condições de trabalho que remontam ao século XIX – no que diz respeito à intensificação do ritmo produtivo e o aprimoramento dos mecanismos de controle sobre o tempo social de trabalho. Empresas como o Ifood, 99, Uber e Keeta, sempre que possível, impõem condições de trabalho extremamente violentas e vorazes. Além de estarem subordinados a jornadas exaustivas de 12, 14 a 16 horas por dia e em ritmo produtivo frenético, os entregadores e entregadoras por app recebem remunerações insuficientes para sua sobrevivência e reprodução social. No entanto, a própria intensificação da exploração do trabalho gerou um mal-estar generalizado na categoria, resultando em reações por baixo como greves, piquetes e manifestações de rua. 

O seguinte texto é uma apresentação da juventude Anticapitalista Já Basta! e da Bancada Anticapitalista a respeito das recentes mobilizações nacionais dos entregadores por aplicativos e de suas perspectivas político-estratégicas e organizativas. 

por André Cerqueira e Maria Cordeiro

Imagem 1 – Breque Nacional  do Apps, São Paulo, 2026

Foto: Danilo Verpa

Na terça-feira, dia 1° de setembro, cerca de 15 estados e mais de 50 cidades em todo o Brasil tiveram suas principais ruas, avenidas e rodovias ocupadas por entregadores e entregadoras por aplicativo num dia nacional de paralisação. O Breque – uma maneira própria da categoria de se referir à tática de suspensão coletiva do trabalho -, tinha como eixos principais: o aumento da taxa mínima por entrega para R$10,00 e R$2,50 por quilômetro adicional rodado, o fim do “+ entregas” e o fim da “semana turbinada“, novas modalidades que reduzem o valor por rota para ínfimos R$3,50.

Na cidade de São Paulo, sob chuva incessante, cerca de 500 trabalhadores sobre duas rodas percorreram a capital, saindo do ponto de encontro da praça Charles Miller, no estádio do Pacaembu, passando pela Avenida Paulista até a sede do Ifood na avenida dos Autonomistas em Osasco. Nós da juventude, entendendo a importância da unidade e solidariedade entre trabalhadores e estudantes, organizamos um café da manhã solidário, pois, como dizemos coloquialmente – não se luta de barriga vazia. No ponto final da manifestação ato (que estava apenas começando) conformou-se um ato para exercer pressão para que representantes da empresa bilionária viessem dialogar com os trabalhadores, o que covardemente não ocorreu. O dia primeiro de setembro conformou mais uma das batalhas de uma importante luta dessa categoria que vêm demonstrado uma força política importante no Brasil e no mundo todo, fazendo parte de um novo metabolismo da luta de classes que é capaz de mudar os rumos políticos das velhas polarizações que se dão por cima.

Imagem 2 – Café da manhã solidário, São Paulo, 2026

Foto: Ana Paula Lescano

Nos últimos 6 anos, demonstrou-se o fortalecimento das relações políticas, organizativas e de solidariedade da categoria. Apesar de que o próprio modelo de trabalho plataformizado condiciona os entregadores à atomização social e ao sofrimento individual, a partir da experiência coletiva desses trabalhadores, essa realidade vem sendo cotidianamente enfrentada.

Esse movimento contribuiu para um processo de síntese coletiva sobre a necessidade crescente de organizar a categoria para enfrentar as empresas de aplicativos que exploram e precarizam o trabalho em todo o país, mas também denunciar o papel omisso e nefasto do governo Lula-Alckmin e do Ministro Guilherme Boulos, que lavam as mãos diante do sangue que jorra no asfalto – com mais de 30 mortes[1] diárias de entregadores por aplicativos -, e ignoram  a sobrecarga do sistema público de saúde, no qual 70% dos leitos da UTI são ocupados por esses trabalhadores.

Diante desse cenário, a categoria dos entregadores por aplicativo se tornou uma das mais combativas e mobilizadas do mundo do trabalho, realizando greves (os famosos Breques) todos os anos desde 2020.

Uma importante vitória recente dos entregadores foi a luta contra o PLP 152/2025. Apresentado como uma proposta de regulamentação do trabalho realizado por meio de plataformas digitais, o texto recebeu forte oposição da categoria. Mascarado como projeto que beneficiaria os trabalhadores, criava a figura do “trabalhador plataformizado” – uma nova categoria jurídica que estabeleceria uma relação supostamente autônoma entre trabalhador e empresa, retirando os direitos previstos pela CLT.

Além disso, o projeto também previa jornadas que chegariam a 12 horas diárias e uma remuneração de R$8,50 por entrega, considerada extremamente insuficiente para cobrir os custos da atividade, tendo em vista a exigência de R$10,00 por entrega pela categoria desde 2020. Outro tema gravíssimo incluído é a computação de horas trabalhadas apenas durante o tempo de rota, ou seja, o tempo de espera nos restaurantes e de disponibilidade do aplicativo não seriam contados como horas trabalhadas.

Por último, o projeto previa a criação de um regime específico para trabalhadores mediados por aplicativos que poderia extrapolar o setor de entregas e motoristas, abrindo espaço para a expansão desse modelo para áreas como logística, serviços, educação e saúde, um ataque direto a toda a classe trabalhadora brasileira!

Para barrar este projeto de lei, apoiado pelo governo Lula e seu ministro Boulos, em Abril deste ano, em Brasília, a Organização Nacional de Trabalhadores sobre Duas Rodas (ONTDR), junto a outros setores independentes, organizou uma caravana nacional para a capital federal e promoveu atos em diferentes cidades do país. A pressão exercida pelas mobilizações resultou em uma vitória importante, embora parcial: o deputado Augusto Coutinho (Republicanos), relator do PLP 152, retirou o projeto da pauta após solicitação do líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT).

A inflexão política e o novo metabolismo da luta de classes

Imagem 3 – Chegada na sede do Ifood, São Paulo, 2026

Foto: Ana Paula Lescano

A indignação e o ódio em relação às condições de trabalho e as sucessivas traições do governo Lula-Alckmin que diz representar os interesses dos trabalhadores, foram a virada de chave para a inflexão das exigências sindicais e políticas, orientando a luta da categoria em reivindicações que cobrassem tanto as empresas quanto a responsabilidade do Estado diante da situação do trabalho plataformizado no país.

Da mesma forma, o governo realiza ataques aos trabalhadores de serviços e demais trabalhadores da escala 6×1. Diante de uma conjuntura que 78% dos brasileiros apoiam o fim dessa escala perversa de escravidão moderna, o governo Lula, diante da conjuntura eleitoral e para atender aos interesses do empresariado, opta por acordos por cima junto ao presidente do senado Davi Alcolumbre para empurrar a votação do fim da escala para depois das eleições, com risco de esvaziar a pauta e diminuir a pressão do voto sobre os senadores. A classe trabalhadora e o regime de escravidão moderna das empresas e governos é um só nesse sentido é preciso unificar as lutas dos entregadores com o fim da 6×1 como parte de uma luta unificada.

Por isso, podemos dizer que há uma inegável e profunda transformação na maneira pela qual a luta social e política vem se desenvolvendo no país. Esse novo metabolismo da luta de classes, isto é, novos sujeitos como entregadores, indígenas, estudantes e trabalhadores da escala 6×1, se descolam das formas tradicionais de organização política e do sindicalismo como a CUT e a CTB, para construir mobilizações independentes, resgatando o que há de melhor na tradição do movimento operário!

E foi justamente nesse processo que a Juventude Anticapitalista Já Basta! e a Bancada Anticapitalista, candidatura coletiva a deputado federal, conquistou um lugar importante no seio da categoria, defendendo lado a lado, e de maneira inegociável, a democracia de base e a independência de classe para enfrentar a precarização do trabalho. Como também, diante da realidade de fome que assola 3 a cada 10 entregadores de app no Brasil[2], realizamos um café da manhã solidário na praça Charles Miller nas primeiras horas da manhã, sob ventos e chuva, convictos da necessidade de fortalecer a unidade entre estudantes e trabalhadores, dialogar com os entregadores, ampliar a capacidade de intervenções políticas e aprofundar relações de solidariedade.

O Breque Nacional dos App´s de 2026 demonstrou que existe um rechaço generalizado da categoria à política burocrática do governo de conciliação de classes de Lula, que sabota conscientemente as mobilizações de rua, sobretudo em ano eleitoral, agindo como afiançador dos interesses das empresas-plataformas e do empresariado em geral.

Enquanto a conjuntura segue polarizada institucionalmente “por cima”, pela disputa Lula-Bolsonaro, o novo metabolismo se aponta como polarização por baixo, produzida pelas mobilizações dos trabalhadores e dos setores oprimidos. A política institucional passa cada vez mais a ser afetada pelas ruas, que passam a produzir fatos políticos capazes de pressionar governos, empresas, o Congresso e até arrancar vitórias.

 

Referências

[1]https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/07/7468697-dia-do-motociclista-brasil-registra-33-mortes-por-dia-no-transito.html

[2]https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-04/tres-em-dez-entregadores-de-comida-enfrentam-inseguranca-alimentar