por Juventude Anticapitalista Já Basta!
Este texto busca realizar um balanço político da greve da USP que se estendeu por 54 dias, de 14 de abril ao dia 8 de junho de 2026. Um importante e profundo processo de lutas, envolvendo estudantes, trabalhadores e professores, que se iniciou no contexto uspiano mas que se espalhou pelas três universidades públicas paulistas. Pela importância histórica e a densidade político-organizativa do movimento, esse balanço não pode resultar em um exercício meramente retrospectivo, deve cumprir um papel fundamental para qualquer movimento que pretenda avançar. Aqui, queremos apresentar uma leitura cujo objetivo é extrair lições, identificar limites, compreender acertos e elaborar sínteses coletivas a partir da experiência concreta da luta.
Desse modo, ainda que com dimensões drasticamente diferentes, por seu desenvolvimento e resultados parciais impostos por uma condução desastrada e desastrosa, não podemos deixar de lembrar das experiências históricas do Maio de 68. Esta análise comparada se faz necessária para tirarmos lições políticas e metodológicas deste processo.
No início do mês de março de 68, em uma universidade em Paris há pouco menos de 60 anos, a partir de um levante estudantil, iniciou-se um movimento de questionamento das estruturas de poder capitalistas do mundo bipolar. Foram realizados debates, ocupações, atos de rua em prol da unificação das lutas universitárias e uma greve geral que paralisou 10 milhões de trabalhadores. O stalinismo francês, no entanto, enxergava o movimento estudantil com enorme desconfiança. O PCF (Partido Comunista Francês) inicialmente atacou os estudantes radicais, chamando-os de “pequeno-burgueses” e “aventureiros”.
Em meados de junho, o número de trabalhadores na rua era de apenas 150 mil e ao final do semestre letivo, a vida voltou à normalidade. No entanto, os levantes do “o ano que nunca acabou” ainda hoje inspiram jovens e trazem importantes lições a respeito da luta revolucionária do movimento estudantil, da necessidade da massificação das greves e o papel contrarrevolucionário do stalinismo e das direções burocráticas. Ao cabo, ainda hoje estes estudantes inspiram gerações em todo o mundo, com sua coragem e seus gritos de liberdade e revolução.
Portanto, em um período de ascensão das mobilizações e reorganização da juventude e da classe trabalhadora, torna-se ainda mais necessário refletir criticamente sobre os processos vividos. Por isso, convidamos todes a ler, discutir, criticar e aprofundar coletivamente as reflexões apresentadas aqui, entendendo que a elaboração política também é parte fundamental da construção das próximas lutas.
A greve e suas razões
O cenário de precarização e evasão da maior universidade do país é histórico e tem suas raízes marcadas pelo higienismo de uma instituição criada para atender às elites da burguesia paulistana. Nos últimos anos, esta herança tem se defrontado com as novas gerações de jovens trabalhadores de escolas públicas e ingressantes por cotas étnico raciais. Longe de ser compreendida como algo apartado, esta contradição é agravada pela política de extrema direita do governo de Tarcísio de Freitas, que tem como projeto político fazer dos serviços públicos terra arrasada, avançando com uma agenda ultra privatista e reacionária em pleno ano eleitoral. O autor das operações policiais mais letais de São Paulo desde o massacre do Carandiru tem como um de seus subordinados, o reitor Aluísio Segurado, empossado em janeiro deste ano.
O crescente mal-estar presente nos diferentes campi da USP se intensificou em abril, momento em que a reitoria anunciou uma gratificação de R$ 4.500 mensais para os docentes durante dois anos, representando uma quebra da isonomia em relação aos técnico-administrativos. Em meio a um cenário de perda salarial e crescente precarização laboral, os funcionários da universidade deflagraram sua greve.
Seguindo este caminho, os estudantes iniciaram sua própria greve em apoio à demanda por isonomia dos trabalhadores e agregando à pauta do movimento as suas reivindicações: a ampliação do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil-PAPFE para o valor de um salário mínimo paulista (R$ 1.804) para toda a demanda; melhorias nas condições do CRUSP e dos bandejões; a implementação de cotas trans; a criação de um vestibular indígena e a revogação de uma minuta da reitoria que ameaçava a autonomia dos espaços estudantis.
Em uma análise mais global, a greve estudantil representou um importante pólo de resistência no país, se unificando às três paulistas (UNESP, UNICAMP e USP), levando visibilidade para a luta contra a extrema direita e o sucateamento da educação pública e se constituindo como propulsora da reorganização de um novo metabolismo político das lutas da juventude e da nova classe trabalhadora. Um importante acúmulo de radicalização em meio a um cenário nacional e internacional marcado por um novo ascenso de lutas e por uma polarização ainda assimétrica, mas que cada vez mais se expressa no campo da luta de classes.
Cabe relevar que esse movimento por nada foi um fato isolado, alienado das lutas em curso. O movimento foi precedido por importantes processos de mobilização protagonizados pela vitória indígena contra a privatização dos rios do Baixo Tapajós, como também as lutas pelo fim da escala 6×1 e o movimento de entregadores na luta contra a escravidão moderna. Essas experiências, juntamente com uma juventude ingressante que não teve seu ensino médio durante a pandemia, foram sedimentando uma disposição crescente de enfrentamento sobre os limites estruturais da universidade e seus três setores.
As concessões arrancadas pela greve
Antes de mais nada, é necessário passar a limpo e caracterizar os avanços concretos diante da intransigente postura da reitoria Segurado.
Diante da reivindicação de aumento do valor das bolsas do PAPFE (Programa de apoio à permanência e formação estudantil), a burocracia universitária comprometeu-se em recompor a defasagem inflacionária desde janeiro de 2022, baseada no indicador do IPC-FIBE. Na prática, isso resultou em um reajuste de R$ 27,00 para as bolsas integrais, que saíram de R$ 885,00 para R$ 912,00, e R$ 5,00 para as bolsas parciais, que saíram de R$ 335,00 para R$ 340,00.
Na pauta dos espaços dos Centros Acadêmicos, destacam-se a derrubada da minuta dos Espaços Estudantis e a criação de um grupo de trabalho paritário para elaborar um novo regulamento.
No que tange a ampliação do acesso à universidade, a reitoria se comprometeu em desenvolver Grupos de Trabalho sobre permanência e bem-estar de estudantes trans, indígenas e PCDs. Além disso, garantiu a participação do movimento trans e indígena na próxima reunião da Câmara de Cursos e Ingresso. Com relação ao Programa Unificado de Bolsas (PUB), a reitoria se comprometeu a instituir o “PUB Ingressante”, voltado a estudantes caloures em situação de vulnerabilidade econômica.
No área do transporte, obteve-se a gratuidade do acesso da linha circular 8085 para toda a comunidade universitária e a utilização do cartão BUSP em linhas de ônibus (7411-10 / 702U – 10 / 701U – 10 / 177H – 10) que conectam o Quadrilátero da Saúde, a Faculdade de Direito e o Campus Butantã a partir de agosto deste ano.
Nos restaurantes universitários, obtivemos a contratação de novos funcionários para o Bandejão Central, a garantia de três refeições durante a semana nos bandejões, a inclusão de proteína no café da manhã e a criação de grupos de trabalho para discutir a alimentação nos campi da capital e do interior.
Também houve um recuo no projeto de privatização do Hospital das Clínicas, com a redução do programa Experiência HC pela metade e o abandono da proposta de expansão para o Hospital Universitário no Butantã. Além disso, instituiu-se um Grupo de Trabalho para debater a implementação de um plano de moradia estudantil para o campus da USP Leste.
Em nossa avaliação da Juventude Já Basta!, tratam-se de medidas parciais diante das necessidades expressas pela base e que exigirão pressão permanente sobre a burocracia universitária para saírem do papel.
Assim, com relação ao insuficiente reajuste das bolsas PAPFE, consideramos que essa pauta ainda segue irresoluta diante da base e que, sem dúvidas, precisará estar nos eixos centrais de luta do movimento estudantil para o próximo período.
Porém é incontestável que os limites dessas conquistas tem seus resultados diretamente relacionados à condução política da greve pela direção do DCE Livre da USP. Desde o início, o movimento foi marcado pela dispersão de pautas e pela falta de estratégia capaz de concentrar as forças das bases de maneira democrática.
A verdade é que a direção majoritária do DCE, composta por Juntos/MES, Correnteza/UP, UJC/PCBR e Rebeldia/PSTU, mostrou-se como um obstáculo para o pleno desenvolvimento da luta nas bases que pudesse centralizar as forças do movimento para golpear nossos inimigos. Enquanto mais de 130 cursos aderiram à paralisação e a greve se transformava em um importante polo de luta em escala estadual e nacional, a direção da entidade representou um entrave adotando uma postura rotineira, fragmentária e impedindo que a base tomasse pelas mãos o curso da luta na universidade.
Ataques sistemáticos à democracia de base
Um dos principais limites da condução da greve foi a ausência de mecanismos efetivos de centralização e totalização da base, as assembleias gerais. Greves são momentos de ruptura com a normalidade cotidiana das categorias, há uma tensão permanente entre a força do movimento e a retaliação da reitoria e dos governos. Por isso, nestes momentos, o funcionamento de espaços de democracia de base são determinantes para uma vitória tanto econômica quanto política.
Dialeticamente, é na plena democracia que se estabelece o espaço do contraditório. E é aí que se materializa o descompasso de direções burocráticas e oportunistas.
Foi nessa seara que houve o desmonte de espaços objetivos de totalização política do movimento, isso ficou muito claro nas instâncias de maior poder deliberativo antes de congressos – as assembleias gerais. Desde 2023 se gesta uma transformação antidemocrática na natureza das assembleias da USP: sua federalização em assembleias “de campi”, ao invés de verdadeiras assembleias gerais capazes de totalizar todo o movimento da universidade. Esta manobra fragmenta os estudantes, impede o diálogo político entre os diferentes campi e condiciona as deliberações do movimento à conveniência das direções do DCE. Quando as propostas das assembleias de campi coincidem com sua linha política, estas são apresentadas como expressão legítima de toda a USP, quando não coincidem, passam a ser relativizadas sob o argumento de que “não representam o conjunto da universidade”.
Como se não bastasse, os estudantes nem sequer possuíam o direito de tomarem consciência da situação da greve nos cursos alheios, visto que a possibilidade de informes das unidades foi sumariamente vetada. Os informes das unidades foram substituídos por apresentações excessivamente longas das organizações que compõem o DCE, chegando a ocupar 20 minutos do tempo inicial da assembleia.
Além disso, multiplicaram-se manobras burocráticas que restringiam o debate político e comprimiam os espaços deliberativos: votações aceleradas, encaminhamentos impostos antes do debate coletivo amadurecer e assembleias convocadas sem tempo suficiente de preparação política nas bases.
Juntamente com a falta de reuniões do comando de greve (único espaço que reunia representantes de todos os cursos da USP, mas que em quase 60 dias de greve foi realizado apenas 3 vezes), esse processo produziu um afastamento crescente entre os setores da vanguarda orgânica do movimento e os espaços de cúpula, em que predominam elementos mais conservadores e atrasados.
A ausência dessa centralização pela base é um projeto de federalização feito de maneira consciente de uma direção que quer dirigir sem críticas, sem viradas de assembleia. Uma estratégia que resultou no enfraquecimento da força das bases para manter o controle da direção por cima, custando vitórias econômicas e políticas centralizadas e representando uma perigosíssima ofensiva burocrática sobre a democracia de base.
A ocupação como centro político da greve
Após o fechamento arbitrário das negociações por parte da reitoria, mesmo sem que os estudantes aceitassem as propostas apresentadas, a greve entrou em um novo momento. Em meio a um cenário já de dispersão crescente do movimento (fruto da federalização da greve), no qual alguns cursos e campi do interior já discutiam a saída, crescia entre os setores mais mobilizados a percepção de que era necessário radicalizar a luta.
Foi nesse contexto que se amadureceu a proposta de ocupação da reitoria. Enquanto a direção do DCE defendia um piquete simbólico e limitado no tempo, setores da base e organizações independentes como a Juventude Já Basta! ventilavam que a conjuntura exigia uma ação mais ousada: a ocupação do edifício blindado, construído como verdadeiro bunker burocrático da administração universitária.
A ocupação rapidamente se transformou em um dos principais marcos políticos da greve. Durante três dias, o espaço foi tomado por atividades culturais, assembleias, plenárias, oficinas, aulas públicas e espaços coletivos de organização. A pauta da permanência estudantil, mais precisamente um aumento real ao valor do PAPFE (auxílio permanência) passa centralizar uma série de contradições estruturais da universidade como a evasão forçada de ingressantes por cotas étnico-raciais e torna-se o eixo central da greve. No entanto, o DCE enfrentou a ocupação com uma postura rotineira. No momento em que era necessário massificar e fazer daquele espaço um patrimônio de toda a sociedade civil, não se dedicaram a construir espaços como mesas políticas com parlamentares e atividades que chamassem o público externo.
A resposta da reitoria e do governo Tarcísio foi a repressão. Na madrugada do Dia das Mães, a Polícia Militar invadiu violentamente a ocupação, utilizando bombas, gás lacrimogêneo, cassetetes e aparato de choque contra dezenas de estudantes. A ação deixou feridos, presos e uma marca política na universidade. O efeito produzido foi contraditório ao objetivo da gestão universitária: longe de desmoralizar o movimento, a repressão gerou ampla solidariedade e ampliou a legitimidade da luta estudantil. Departamentos da universidade e setores de luta passaram a denunciar a violência policial e exigir a retomada das negociações.
Nesse momento a greve teve um reascenso, ultrapassou os limites da USP para inspirar greves nas outras duas universidades paulistas (UNESP e Unicamp) e passou a dialogar com um processo mais amplo em defesa da educação pública no estado de São Paulo. A ocupação e sua desocupação violenta deixaram evidente não apenas o caráter autoritário da gestão universitária e do governo estadual, mas também o potencial explosivo de unificação entre estudantes, trabalhadores e demais setores em luta. A retomada dos métodos radicalizados de luta representou a principal vitória política, que a despeito das traições à democracia imposta pela direção do DCE, foi construída pela base.
A tarefa da expansão e da unificação
A máxima que deve reger toda organização revolucionária é a articulação permanente entre a luta econômica, democrática e política. Ou seja, é preciso transbordar a revolta para todas as categorias da classe trabalhadora. Ora, se a classe operária é uma só, toda conquista sindical deve seguir no sentido de ampliar a consciência de classe dos trabalhadores, a fim do entendimento que apenas a superação do capitalismo por meio do movimento independente socialista e auto-organizado de massas pode acabar com a exploração e opressão.
Nesse sentido, a greve abriu uma oportunidade concreta de unificação entre várias categorias de luta: estudantes das três universidades paulistas, professores municipais de São Paulo, metroviários, técnicos administrativos, entre outros. A massificação da luta gestava um potencial histórico para a articulação de uma greve geral da educação no Estado de São Paulo, contra Tarcísio e seus ataques às instituições públicas.
Nós da Juventude Anticapitalista Já Basta! propusemos e impulsionamos diversas iniciativas nessa perspectiva, tanto na articulação entre as universidades, como a defesa de um comando de greve geral das universidades paulistas (negado sumariamente pelas direções dos movimentos como Correnteza, Juntos, UJC) bem como uma plenária de setores mobilizados para a articulação de um calendário de lutas unificado a se iniciar pela “Marcha pelo Fora Tarcísio” realizada no dia 20/05.
Entretanto, essa potencialidade foi progressivamente bloqueada. Desde a inércia da CSP-Conlutas (principal central sindical independente, dirigida pelo PSTU) na tarefa de articular efetivamente as categorias em luta, até o oportunismo do Correnteza, que desde o início do ano letivo propagandeava a marcha sem abrir mão de seu protagonismo político, o processo que acabou limitado em suas possibilidades de expansão. Ainda que o ato tenha sido expressivo, reunindo mais de 10 mil estudantes nas ruas, ele não conseguiu cumprir o objetivo de unificar os diferentes setores em luta nem alterar qualitativamente a conjuntura da greve na USP. Tampouco se concretizaram as projeções fantasiosas difundidas por setores como a UP, que propagandeavam a possibilidade de ocupação do Palácio dos Bandeirantes e a derrubada política de Tarcísio de Freitas.
Sem centralização democrática por meio das assembleias gerais e comandos e sem a consolidação de um calendário de lutas que fosse para além do dia 20, as direções do DCE apostaram na desmobilização. Não tiveram iniciativa política e criativa para continuar dirigindo a greve, pois haviam apostado tudo no efeito da marcha. A cada reunião de negociação, a ilusão que a reitoria cedesse às reivindicações estudantis se chocavam com a intransigência de Aluísio.
Por fim, outro exemplo das limitações impostas à expansão da greve foi o processo em torno do festival político-cultural Livre proposto pela Juventude Já Basta! para massificar a luta. A ideia surgiu da necessidade concreta de ampliar o diálogo da greve com a sociedade civil, para pressionar a reitoria por um acordo de não retaliação em um cenário de isolamento da greve. Através da criação de um festival amplo com participação dos mais variados setores: estudantes, professores, parlamentares, artistas, sindicatos e movimentos sociais, havia potencial para que o festival se tornasse um instrumento importante de agitação e mobilização nas bases.
No entanto, a atividade foi progressivamente descaracterizada pela direção do DCE, que a converteu em uma celebração dos “50 anos do DCE”, deslocando o eixo de expansão da comunidade externa à USP para uma lógica autoproclamatória e de aparato. Além disso, houve um boicote concreto ao espaço. Enquanto estas direções mobilizam todos os seus militantes para votar nas assembleias, espaços como o festival tiveram um vergonhoso quórum daqueles que o próprio evento homenageava. Assim, uma iniciativa que poderia fortalecer a expansão do movimento acabou aos poucos sendo enterrada conscientemente pela direção do DCE.
Os perigos de uma saída (des)unitária
A partir do dia 21 de maio, a começar pela espera de uma semana entre o dia 20 e a próxima assembleia de campi, instalou-se um verdadeiro apagão político-organizativo, como resultado da inércia, da ausência de planejamento coletivo e da desmobilização consciente das tentativas de massificação. Foi se desarticulando a greve a partir dos centros acadêmicos que as organizações do DCE dirigiam, como IME (matemática), IP (psicologia), IQ (química) entre outros. Rapidamente diversos cursos saíram da greve de forma desarticulada uns dos outros. Vergonhosamente, a próxima assembleia viria apenas duas semanas da última, deixando os estudantes à mercê da retaliação de suas diretorias.
Nesse momento houve um ataque perigoso, em que a diretoria de institutos como o IME declararam fim de greve, como também, na Poli, aplicaram questionários online que definiram a preferência dos alunos pela volta às aulas, ambos ocorridos passaram por cima da assembleia de curso e colocaram um grave precedente à autonomia estudantil. A ideia de uma “saída unitária” da greve, proposta pelas correntes da direção do movimento na última assembleia acabou se convertendo, na prática, em uma falácia política.
Em uma situação em que a greve ainda contava com 30% de adesão, principalmente nos cursos mais mobilizados e politizados, havia fôlego para arrancar um recuo de fato coletivamente vitorioso. Ao invés de consolidar a unificação pela base, o processo terminou gerando o completo contrário que havia sido defendido pela direção central: a fragmentação do movimento, com os cursos isolados enfrentando as represálias de suas diretorias.
Por fim, a última pá de cal sobre a greve ocorreu durante a acirrada votação da assembleia final. Diferentemente do processo de encerramento da greve dos trabalhadores da USP, a saída estudantil foi declarada sem sequer exigir da reitoria um acordo de não retaliação aos grevistas. Apresentada pelo DCE como uma saída “unitária” dos 13 institutos que ainda permaneciam em greve, a decisão deixou os estudantes expostos a possíveis punições acadêmicas e administrativas. A suposta unidade proclamada naquele momento ocultou um processo marcado pelo desgaste, pela fragmentação e pela inconsequência.
A retaliação já se mostra em diversos cursos. Um deles é o escandaloso incentivo que os estudantes da EACH (USP Leste) trancassem seus cursos, impactando toda uma geração de ingressantes, bem como a entrega de trabalhos, provas e seminários no início da primeira semana pós greve e o fechamento do bandejão da EACH. Além destas consequências objetivas advindas da falta de um acordo de não retaliação, há também um resultado subjetivo que pode afetar toda uma geração. Aqueles que sofreram retaliações, perseguições ou processos administrativos após se colocarem na linha de frente da luta podem passar a rejeitar futuras experiências de organização política.
A vitória política construída pelas bases
É inegável que a greve deixou marcas profundas na política uspiana e no contexto das lutas mais gerais contra o governo de extrema direita de Tarcísio. As conquistas da greve surgem de maneira parcial, como aumento nas frotas dos ônibus, proteína no bandejão e três refeições por dia (exceto nos domingos), um plano de moradia para a EACH, a queda da minuta que colocava em risco a autonomia dos espaços estudantis, entre outras. Além disso, houve importantes vitórias políticas como uma demonstração de força do movimento, expressa na articulação de uma greve unificada das três universidades paulistas que há muitos anos não sucedia e na ocupação inédita do novo prédio da reitoria. No entanto, o eixo central da greve do PAPFE, da autonomia dos espaços estudantis e das cotas trans permanece sem resolução definitiva, demonstrando que as contradições que impulsionaram o movimento continuam abertas.
Ao cabo do processo, gestou-se uma nova apropriação crítica, por parte das bases estudantis, sobre a estrutura de poder da universidade e os métodos de luta históricos do movimento estudantil. Uma geração inteira de estudantes se apropriam de ferramentas históricas de luta como greves, ocupações, assembleias e comandos. Como também, fazem sua experiência com os limites de uma condução burocratizada do movimento. Essa bagagem possui um valor político que ultrapassa os limites imediatos da greve e que irá reaparecer em novos ciclos de luta, quiçá em condições ainda mais explosivas.
É justamente nessa contradição, entre a traição das direções por cima aos organismos democráticos de centralização e uma vitória política pelas bases com a retomada dos métodos radicalizados, que reside o principal significado político da greve da USP de 2026. Por outro lado, em que pesa vitórias parciais, muitas questões centrais estão em aberto, a começar pela garantia do aumento do PAPFE para um salário mínimo e a conquista das cotas trans e vestibular indígena para garantir o ingresso, a não evasão e a vida daqueles estudantes mais vulneráveis.
Refundar uma nova tradição de luta no movimento estudantil
Se a greve da USP de 2026 revelou os fracassos das direções burocráticas do movimento estudantil, ela também deixou às bases uma experiência política de radicalização de grande importância. Uma nova geração de estudantes se apropriou dos métodos históricos de luta apesar da direção do DCE, organizando assembleias, piquetes e ocupações e pôde aprender, pela própria experiência, tanto a força da mobilização coletiva quanto os efeitos perigosos da burocratização da luta. A principal lição deixada pelo processo é que as conquistas mais profundas da juventude não poderão ser alcançadas sob a condução de direções que atuam como freio à centralização pelas bases e subordinam a luta aos interesses de aparato. Refundar uma nova tradição no movimento estudantil significa, portanto, recuperar a democracia de base, restabelecendo assim o protagonismo das assembleias gerais e forjando uma direção comprometida com as estratégias de mobilização e auto organização e os interesses históricos e imediatos dos estudantes e dos trabalhadores.
Os desafios colocados pelo nosso tempo exigem muito mais. O perigo da extrema direita, a ofensiva imperialista e a falência dos projetos de conciliação de classes colocam para a juventude a tarefa de reconstruir um movimento estudantil pautado pela independência de classe, pelo internacionalismo e pela unidade operário-estudantil. Novos setores, como os povos originários, trabalhadores da escala 6×1 e entregadores por apps, passam a ser atores capazes de catalisar o conjunto dos explorados e oprimidos. além disso, são parte fundamental de um novo metabolismo da luta de classes no Brasil em que a polarização da luta de classes por baixo passa a ter impacto na realidade política nacional. A experiência da greve da USP e das demais estaduais demonstra que a juventude é parte central desse novo metabolismo, que existe uma imensa disposição de luta entre a juventude. Entretanto, esse processo também evidenciou que essa energia precisa se expressar em uma alternativa política que seja capaz de enfrentar as direções burocráticas e construir uma estratégia anticapitalista à altura dos desafios do presente.
É com essa perspectiva que chamamos todes es estudantes que estiveram na linha de frente da greve e todes que compreendem a necessidade construir uma universidade verdadeiramente democrática e a serviço da classe trabalhadora, a conhecer e construir a Juventude Anticapitalista Já Basta! O mundo que vivemos nos exige batalhar ombro a ombro por um outro movimento estudantil, por uma perspectiva histórica da transformação revolucionária, por um mundo que não seja o da barbárie capitalista, mas do socialismo!










