O governo argentino demorou dois meses para inventar uma narrativa — bastante ruim e na qual ninguém acredita — para tentar encerrar o caso Adorni. Como no caso brasileiro do Banco Master em relação às desculpas apresentadas pelos envolvidos, de Dias Toffoli até Flávio Bolsonaro, é tão absurda que chega a ser vulgar.

Por Flor Alegría

Em primeiro lugar, o Chefe de Gabinete declarou que possuía meio milhão de dólares em bitcoins armazenados em um pendrive havia mais de uma década. Em outras palavras, confessou diante de todo o país que é um sonegador com muito orgulho.

Sabendo que essa versão seria questionada imediatamente e, para “justificar” por que não declarou o meio milhão de dólares ao fisco, afirmou em uma entrevista que guardou o pendrive porque é um «colecionador de computadores e coisas antigas. Além de o ganho ser importante, guardei-o como um troféu».

Além disso, Adorni aderiu há alguns dias à reforma da Lei 27.799 (mais conhecida como Lei da Inocência Fiscal). Em outro artigo, foi apontado como a modificação dessa lei representava um presente para os sonegadores em geral, com um acréscimo específico claramente destinado a ajudar Manuel Adorni. O dispositivo que protege as operações realizadas em dinheiro vivo blinda essas transações da fiscalização da ARCA.

De fato, Adorni solicitou sua adesão ao regime simplificado do imposto de renda no dia seguinte à aprovação da reforma, com o objetivo de ficar impune diante das acusações de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito que pesam contra ele e sua esposa. Recordemos que ele está sob investigação pelo pagamento de somas exorbitantes de dinheiro em espécie, justamente para a compra e reformas de casas e apartamentos. Por exemplo, comprou uma casa em Indio Cua, pela qual pagou 120 mil dólares em dinheiro vivo na compra, além de outros 245 mil dólares em dinheiro vivo em reformas.

Não é por acaso que o governo veio a público com seus velhos cavalos de batalha justamente na mesma semana em que começa a Copa do Mundo. Da Casa Rosada, há a esperança de que os olhos das massas se desviem do escandaloso caso de corrupção que envolve o Chefe de Gabinete. Além disso, aproveitaram o fato de que os reitores traíram a luta pela implementação da Lei de Financiamento Universitário, com o que o governo conquistou uma trégua em um conflito que contava com amplo apoio da sociedade.

Aproveitando essa brecha, o governo inventou uma narrativa e se valeu da reforma da Lei da Inocência Fiscal para tentar salvar Adorni da acusação de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro.

A defesa de Adorni é que ele realmente sonegou o fisco, mas não roubou. Nunca ganhou dinheiro do Estado; os centenas de milhares de dólares que lhe foram descobertos viriam do seu “trabalho” no setor privado (especificamente, de seus investimentos em bitcoin). Evidentemente, trata-se de uma defesa que, à primeira vista, apresenta lacunas por todos os lados.

Não é nenhuma novidade que membros do governo enriqueçam com dinheiro do Estado; os exemplos são inúmeros. Os capitalistas não apenas roubam o trabalhador de forma particular em cada local de trabalho, mas também buscam extrair, por meio de impostos redobrados — enquanto recorrem a mil e uma artimanhas para sonegar o fisco — até a última gota da riqueza social produzida pelos trabalhadores.

Enquanto para os de cima se concedem toda sorte de favores e isenções fiscais, para os de baixo restam apenas mais encargos tributários (como o “imposto de renda”), ao mesmo tempo em que todos vemos a educação e a saúde públicas cairem aos pedaços. O governo de Milei apoiou-se nessa realidade para fazer campanha: em seus discursos contra a casta e o Estado, os impostos eram classificados como um roubo

A corrupção do governo libertário é tão escancarada que se torna vulgar, assim como é vulgar a “trama” que estão inventando para encobrir Adorni. Por trás dos discursos contra a casta e os impostos aparece uma realidade que não é exceção, mas regra do Estado burguês: os funcionários do governo enriquecem enquanto as grandes maiorias enfrentam salários corroídos, aumentos tarifários e uma deterioração constante de suas condições de vida.

A indignação vem se expressando nos panelaços em frente à casa de Adorni, no bairro de Caballito, ou nas marchas pela educação em que se exigia sua renúncia, já que seu caso é um exemplo de como os de cima “fazem a América”, enquanto os de baixo não conseguem chegar ao fim do mês. O governo pode até querer tapar o sol com a peneira, mas todo mundo sabe que não foi seu “trabalho no setor privado” que inflou as contas de Adorni.