Por Sthefany Zúñiga
Dezenas de milhares de camponeses, indígenas e trabalhadores do Altiplano boliviano chegaram em massa a La Paz para exigir a renúncia de Rodrigo Paz, presidente da Bolívia, na “Marcha pela Vida para Salvar a Bolívia”.
A mobilização de massas, que enfrentou a resposta repressiva do governo, ocorre no âmbito de uma greve geral convocada pela COB (Central Obrera Boliviana), que já dura três semanas. As manifestações contra o governo de direita de Paz concentram-se em La Paz, onde se encontram os principais edifícios governamentais, e na cidade do Alto.
Os protestos liderados tanto por setores indígenas e camponeses quanto por setores trabalhistas convergiram em bloqueios e marchas em La Paz. Há pelo menos 15 pontos de bloqueio ativos, enquanto em diferentes momentos ao longo das últimas semanas o número em todo o território chegou a 32.

A COB publicou em março uma lista de 211 reivindicações, que iam desde um aumento salarial de 20% até a rejeição a 10 projetos de “reativação econômica” de Rodrigo Paz. Trata-se, na verdade, da privatização dos serviços públicos de água, luz e gás, e de favorecer empresas transnacionais em setores estratégicos como a mineração e o lítio. Paz acaba de eliminar os subsídios aos combustíveis, jogando o peso da crise sobre os ombros das massas populares. A isso se soma a rejeição a um projeto que penalizaria os bloqueios de estradas e a uma lei de reconversão de terras que beneficia os latifundiários.
Nas mobilizações de massa convergem:
Os setores indígenas (como os aimaras e os da Amazônia, que se deslocaram até La Paz), juntamente com as principais centrais camponesas (como a Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari), rejeitam o projeto de lei 1720, que regulamenta a conversão de pequenas propriedades agrícolas em médias propriedades, o que, na verdade, permite a hipoteca de suas terras.
Cerca de 174 mil filiados das confederações de professores urbanos e rurais aderiram ao pedido de aumento salarial e protagonizaram protestos nas ruas de La Paz.
Os motoristas de transporte público se juntaram ao movimento devido à má qualidade da gasolina, em um contexto de grave escassez de combustível e tentativas de retirar os subsídios.
Os mineiros aderiram aos protestos devido à falta de combustível e de material explosivo.
As manifestações já tiveram uma primeira vitória: obrigaram Paz a assinar a revogação de um polêmico projeto de lei fundiária rejeitado por camponeses e indígenas por favorecer os grandes latifundiários e empresários agrícolas. No entanto, Paz disse que iria buscar uma maneira de impulsionar outro projeto de lei para a conversão de pequenas propriedades em médias, que seja “uma lei forte, justa, equilibrada” e “para toda a pátria”. Ou seja, ele quer retomar o mesmo projeto assim que os protestos se acalmarem
Mas as reivindicações parciais já são insuficientes; o recrudescimento das lutas na Bolívia já colocou como principal consigna a exigência da renúncia de Rodrigo Paz.
O descontentamento com o governo tem como pano de fundo a terrível situação econômica do país. A inflação em abril estava em 14% (no ano passado, a inflação fechou em 20,40%) e o próprio governo de Paz eliminou os subsídios aos combustíveis no ano passado, o que contribui para o aumento do custo de vida.
“Que se vá esse governo incompetente, que não pensa nos pobres e nas pessoas comuns”
ou
“está governando apenas para poucas pessoas”
são algumas das denúncias que se ouvem nas manifestações.
Os bloqueios se estendem por uma dúzia de pontos no Departamento de La Paz, com bloqueios nas estradas que levam a Oruro, Copacabana, Yungas e à fronteira com o Chile em Desaguadero. Além disso, com a adesão dos mineiros e à medida que os dias passam, os protestos se radicalizam, inclusive com as tradicionais explosões dos mineiros..
A operação repressiva do governo conta com o mobilização de 3.500 policiais e militares para tentar desobstruir os bloqueios nas estradas. Como resultado dessa mobilização, foram registradas 100 pessoas detidas, 50 feridas e, segundo denúncias das organizações camponesas, duas mortes nos municípios de Ingavi e El Alto, fato que as autoridades oficiais negam. Além disso, o próprio Paz tentou criminalizar os manifestantes com a acusação de “terroristas”, uma retórica destinada a legitimar uma repressão brutal.
Enquanto os protestos se radicalizam no interior da Bolívia, de fora chega a “preocupação” do imperialismo com a governabilidade de Paz. Washington já se mostrou extremamente preocupado com a rápida instabilidade de um governo amigo. Alguns dos governos vassalos do imperialismo (Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, Guatemala, Panamá, Paraguai e Peru) assinaram uma declaração conjunta na qual manifestaram “preocupação com a crise humanitária na Bolívia” e rejeitaram “toda ação voltada para desestabilizar a ordem democrática”.
Quando venceu, Paz quis se apresentar como uma alternativa “moderada” em relação ao MAS e à extrema direita, mas rapidamente se alinhou ao trumpismo internacional e procurou implementar medidas do tipo Milei, com cortes, austeridade e transferência do peso da crise para os camponeses, indígenas, trabalhadores e pobres da Bolívia. A aparente consolidação internacional da extrema direita fica completamente exposta pelo que pode ser a principal onda de lutas desde o confronto contra o golpe de Estado de 2019










