Por José Roberto Silva

No momento em que escrevemos esta nota, uma poderosa Greve Geral por tempo indeterminado na Bolívia alcança o seu 14º dia de paralisação total naquele país, mobilização que exige agora a renúncia do presidente.

A ofensiva das massas inicia-se como resultado dos agressivos ataques do governo de direita, capitaneado por Rodrigo Paz. perpetrados pelo Decreto Supremo 5.503, de dezembro de 2025. 

Essa medida retirou o subsídio à gasolina e adotou medidas como o silêncio administrativo positivo [a aprovação automática de um projeto técnico de investimento da iniciativa privada que não tenha sido respondido pelo poder público no prazo de 30 dias] e a chamada via rápida (“fast track” – aprovação acelerada de processos contornando a burocracia) para aprovação de projetos de mineração, agroindústria, energia e infraestrutura, atacando o direito ambiental e os controles democráticos do poder. Medidas essas que resultaram em uma reação popular/operária desde janeiro deste ano que fez com que o governo retornasse o subsídio à gasolina. 

Porém, o conteúdo das demandas dos movimentos originário e sindical vai para além disso, assim, a partir de janeiro foi aberta uma nova fase de radicalização com mais de 50 pontos de bloqueio em estradas e ruas do país contra o projeto neoliberal de Paz,.

Não bastasse isso, em março, foi baixada a lei 1.720 que autoriza a conversão de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias, a qual coloca em risco terras coletivas do campesinato que tem potencial de desalojar pequenos proprietários que ficariam expostos à especulação imobiliária e hipotecas. Além disso, o governo anunciou um pacote de projetos de leis sobre o petróleo e gás natural, investimentos, mineração, mudanças nas regras eleitorais, de segurança nacional, uma reforma do Judiciário e outra para “redução do Estado”.

Nesse processo, a mobilização e pressão social se intensificou após o fracasso das negociações sobre uma lista de mais de 100 reivindicações de 70 sindicatos filiados à COB; dentre elas, a reposição salarial contra o aumento do custo de vida e a luta contra a precarização dos serviços básicos. Lutas que culminaram na greve geral iniciada em 4 de maio que realiza marchas diárias que ocupam o centro de La Paz, mobilização massiva que é secundada por bloqueios de estradas em pelo menos 60 cidades do país, exigindo a renúncia de Paz.

A resposta do presidente foi colocar as forças armadas a serviço da repressão ao movimento paredista e operações para desbloquear as vias, além de abrir processos judiciais contra os dirigentes sindicais que impulsionam os bloqueios e a greve geral. 

A greve geral na Bolívia se insere no capítulo de rebeliões/mobilizações das vanguardas de massa e das massas que vem ocorrendo no mundo (de Teerâ, Minneapolis, Argentina até o movimento indígena contra a privatização do Tapajós e entregadores contra o PLP 152 no Brasil). 

Ou seja, uma conjuntura de ofensiva da extrema direita, de múltiplas crises, de divisão na classe dominante e respostas dos de baixo, instaurando uma polarização política da luta de classes que se faz cada vez menos assimétrica, que coloca melhores condições para  resistência, para a radicalização e massificação das lutas e a possibilidade de mudança da correlação de forças mais favorável na Bolívia e em  e outros países da América Latina.