Neste segundo artigo sobre “Marx e as máquinas”, Sáenz vai se debruçar sobre os aspecto específicos da relação entre as máquinas e trabalho humano nos Grundrisse, O Capital e outros escritos (Naville, Dussel e Hegel), destacando suas implicações para a emancipação do trabalho na transição socialista. 

Partindo do princípio de que a relação entre o sistema de máquinas e o trabalho humano é, antes de tudo, uma relação material enquanto produção de valores de uso, chega a ideia central de que, no capitalismo, o processo de produção (material, ligado à criação de valores de uso) é subordinado ao processo de valorização (formal, ligado à geração de lucro e mais-valia). Embora toda produção dependa de transformar a natureza, o objetivo do capital não é satisfazer necessidades humanas, mas se autovalorizar. 

Porém, com o advento da grande indústria (sistema de máquinas), ocorre uma transformação radical: o trabalhador deixa de ser o agente direto da produção e passa a supervisionar o funcionamento da máquina. Diferente das ferramentas tradicionais, em que o trabalhador aplicava sua habilidade, agora a máquina executa o trabalho, invertendo a relação — o “sujeito” da produção passa a ser o sistema de máquinas, enquanto o trabalhador assume o papel de vigilante para que a máquina não apresente falhas. 

Assim a distinção entre “material” e “formal” no capitalismo pode ser resumida a que o formal (valorização) domina o material (produção real). Já na transição socialista, essa relação tenderia a se inverter, com a produção voltada diretamente às necessidades humanas (valores de uso), reduzindo e eventualmente eliminando a lógica da mercadoria. 

Porém, essa mudança expressa uma contradição: o maquinismo (visto como uma “simbiose” entre natureza e cultura — uma combinação de leis naturais e trabalho humano) pode tanto intensificar a exploração (ao aumentar a produtividade e a mais-valia) quanto criar as bases materiais para a emancipação do trabalho, apontando para uma nova forma de relação entre humanos, técnica e natureza, potencialmente mais livre.

Em resumo, como lembra Sáenz,  nesse aspecto, utopia e distopia andam de mãos dadas, dependendo das relações de produção sob as quais esses desenvolvimentos ocorrem: exploradoras (como sob o capital ou sob os Estados burocráticos) ou emancipatórias (na real transição do socialismo ao comunismo). 

Por José Roberto Silva pela Redação

Tecnologia, Máquinas e Emancipação Humana

Marx e as Máquinas: continuação 

“Fragmentos sobre Máquinas”, Grundrisse (1857/8), “Manuscritos sobre Máquinas”, V, XIX e XX (1861/3) e Capital, Volume 1 (1867).  Notas sobre Máquinas e Trabalho Humano para “Marxismo e a Transição Socialista”, tomo 2. 

Por Roberto Sáenz 

Os indivíduos não podem dominar suas próprias relações sociais antes de tê-las criado. Mas também é absurdo conceber esse nexo puramente físico como criado naturalmente, inseparável da natureza da individualidade e imanente a ela. O nexo é um produto dos indivíduos. É um produto histórico. Pertence a uma certa fase do desenvolvimento da individualidade. A alienação e autonomia com que esse nexo existe em relação aos indivíduos apenas mostram que eles ainda estão em vias de criar as condições para sua vida social. Indivíduos universalmente desenvolvidos, cujas relações sociais como suas próprias e comunitárias já estão sujeitas ao seu próprio controle comunitário, não são produto da natureza, mas da história. 

Marx citado por Dussel, 2010 : 406[1] 

Neste artigo, continuamos com a segunda parte de nossa pesquisa sobre os textos de Marx sobre máquinas e sua ligação com as perspectivas da emancipação do trabalho humano no comunismo e a transição socialista

1- “Os trabalhos e os dias” 

Em seguida, trabalharemos com uma série de citações escolhidas e comentadas do texto de Marx dos Grundrisse, 1857/8, para tentar extrair todo o “suco” teórico possível delas; para que nada nos escape de sua profundidade. 

Sob o subtítulo “O Processo de Trabalho – Capital Fixo. Meio de trabalho. Máquina – Capital fixo. Transposição das forças de trabalho em forças do capital, tanto no capital fixo quanto no circulante. – Até que ponto o capital fixo (máquina) cria valor. – Lauderdale – A máquina pressupõe uma massa de operários” (2022: 216), Marx inicia a substância de sua reflexão sobre o que nos interessa: a relação (material e formal) entre a máquina e o sistema de máquinas e o trabalho humano; as modificações que este último sofre desde o surgimento das máquinas.[2] 

Vamos esclarecer, de passagem, uma questão importante: a relação entre o sistema de máquinas e o trabalho humano é, antes de tudo, uma relação material enquanto produção de valores de uso. Isso é importante porque, como é bem conhecido, Marx demarcou muito claramente o processo de produção do processo de valorização, que não são exatamente o mesmo 

O processo de produção compõe o aspecto material da própria produção e possui elementos trans-históricos; O que acontece sob o capitalismo, no modo de produção especificamente capitalista, é que o processo de produção fica subsumido no processo de valorização: nada é produzido que não possa ser valorizado, ou seja, que não constitua valor autovalorizado (o que realmente importa é o processo formal de valorização, não o material de produção; veremos isso em seguida). 

No entanto, para nossa investigação nesta primeira parte do nosso tomo II de “Marxismo e a Transição Socialista”, o que nos interessa como referencial teórico sobre o problema da dialética histórica do trabalho humano (a dialética histórica trabalho-atividade), não são tanto as relações de valor como tais na transição (uma questão que abordaremos em detalhes na segunda parte deste segundo volume de nosso trabalho,  volume um), mas as relações materiais propriamente ditas criadas pelo maquinismo capitalista e que geram as condições para a emancipação do trabalho ou para sua submissão e “escravidão” (nenhuma das relações materiais das forças produtivas podem ser separadas, em cada momento histórico, das relações de produção que lhes são conaturais).[3] 

Ou seja, o que nos interessa centralmente nesta abertura do nosso tomo 2 é uma investigação sobre o trabalho humano e as condições materiais e sociais de sua emancipação, porque, em rsumo, disso se trata na transição socialista: que siva para emancipar o trabalho de sua exploração secular e para entender se essa emancipação faz que as relações metabólicas entre a humanidade e a natureza adquiram uma conotação diferente do trabalho como conhecemos até nossos dias

Encerramos esta introdução com o texto de Hesíodo “os trabalhos e os dias”, dos séculos VIII a VII a.C., que é o primeiro texto grego preservado que tematiza explicitamente o trabalho, que não a degrada como Aristóteles faria mais tarde (um antecedente disso, aparentemente, são “A Ilíada e a Odisseia” de Homero, mas de forma muito subordinada). 

[Não existe] realmente uma única espécie das Érides [formas de manifestação de discórdia, da rivalidade e do conflito], senão que, existem duas na Terra (…) “À outra a pariu primeiro a Noite tenebrosa e colocada por Crônida [Zeus], do alto trono, que habita no éter, dentro das raízes da terra e é muito mais útil aos homens: ela estimula o trabalho, mesmo entre os preguiçosos; pois todo aquele que vê o outro enriquecer, dedicando-se de corpo e alma a arar ou plantar e a construir uma boa casa, está ansioso pelo trabalho (…) Ó! Perses, grava isso em seu coração, e que a Eris que se deleita no mal, não desvie tua vontade do trabalho, preocupada em espreitar as disputas da ágora; pois dura pouco o interesse pelos litígios e reuniões públicas à aquele em cuja casa não se encontra em abundância o sustento temperado, o grão de Deméter, que a terra produz. Quando você tiver se abastecido bem dele, só então poderá provocar disputas e litígios sobre as propriedades alheias “ (Fundação Carlos Slim, México).[4] 

Bem, como pode ser visto em Hesíodo, um autor anterior a Aristóteles, o trabalho humano é considerado um requisito para a ágora, enquanto Aristóteles o vê como uma atividade de menor importância, pois para isso existiam os escravos (pessoas-instrumentos de segunda categoria que não são plenamente humanas). Mas, conforme o desenvolvimento contraditório das forças produtivas, potencialmente se abre no comunismo a possibilidade da emancipação do trabalho como tal, e aqui encontramos todo o radicalismo dos extraordinários “Fragmentos sobre Máquinas” de Marx nos Grundrisse. 

Sem mais delongas, vamos para a análise das citações de Marx. 

2- Material-formal-material 

Vamos então passar às citações comentadas de alguns parágrafos dos Grundrisse.  

(…) O capital se apresentou como a totalidade das condições desse processo desse processo e se dividiu, de acordo com este, em certas proporções qualitativamente diferentes: material de trabalho [é essa, e não ‘matéria-prima’, a expressão correta e conceitual, Marx dixit], meios de trabalho e trabalho vivo [pode-se ver como tudo está relacionado ao trabalho humano]. Por um lado, o capital, segundo sua existência material, se fracionava nestes três elementos; por outro, a unidade dinâmica dos mesmos constituía o processo de trabalho (ou a incorporação conjunta desses elementos ao processo), a unidade estática constituía o produto (1980: 217). 

Aqui está o que apontamos no início desta nota. Por enquanto, Marx permanece no terreno material da produção no sentido estrito do termo (não no processo de valorização, que ele abordará imediatamente). Por isso fala de “capital, segundo sua existência material“, ou seja, como não-capital, assim como fala do processo de trabalho e ainda não do processo de valorização: “O ‘material’ (em alemão Stoff, e não em latim material) é o que estabelece uma relação imediata entre ser humano-natureza ” (Dussel, 2010: 397). 

Marx remete o processo de produção ao trabalho humano, sendo o trabalho humano o “núcleo vivo” dele (em alguns momentos, como veremos, Marx fala do trabalho humano como o “componente consciente” do processo mecanizado). É por isso que remete tudo à conotação de trabalho (humano): material de trabalho, meios de trabalho e trabalho vivo. E acrescenta algo agudo: que a unidade dinâmica do material do trabalho, dos meios de trabalho e do trabalho vivo é constituída pelo processo de trabalho (do qual o produto é seu resultado estático-passivo). Aqui há um jogo entre o ativo e o passivo, onde o ativo, evidentemente, é o encontro dos três componentes por parte do trabalho humano, que é a parte viva, dinâmica desse processo

“Dessa forma, os elementos materiais – material de trabalho, meios de trabalho e trabalho vivo – se apresentam apenas como os momentos essenciais do próprio processo de trabalho, dos quais se apropria o capital. Mas esse aspecto material — ou sua determinação como valor de uso e processo real — se separa totalmente de sua determinação formal [ou seja, enquanto capital gerador de valor] (1980: 217). 

Está claro: devemos delimitar o processo material da transformação da natureza do processo social de valorização do capital. É óbvio que o que interessa ao capital é o processo de valorização em si. E essa criação de valor e mais valia (que é, especificamente, o processo de valorização) ocorre sob qualquer suporte material que seja (valor de uso), um suporte que não interessa ao capital em sua especificidade. Daí que o processo formal se “separe totalmente” do processo material, ainda que, atenção: sem o processo material – sem a produção material de valores de uso, ainda que não seja o objetivo do capital – não pode haver produção de valor simplesmente porque o valor de uso é o suporte material do valor (a própria mercadoria é valor de uso e valor que se expressa no intercâmbio como valor de troca-preço). 

Portanto, essa separação dos momentos materiais e formais da produção capitalista não significa que eles possam se tornar completamente independentes, mas que o elemento formal domina paradoxalmente o elemento material na produção capitalista. Se dá uma inversão de termos onde o formal domina o material e não como deveria ser: que o material domine o formal. E Dussel acrescenta, no mesmo sentido, que neste parágrafo Marx distingue entre o material e o formal. E que, como considera apenas o aspecto material da coisa, esse processo fica “totalmente fora da determinação formal do capital” (Dussel, 2010: 399). 

Na transição socialista e no comunismo, essas determinações devem inverter-se até que o “formal” desapareça: a produção de mercadorias deve ser “encurralada”, o “processo formal” deve ser encurralado e, finalmente, o domínio exclusivo terá o aspecto material do processo: a produção de valores de uso para satisfazer as necessidades humanas (deixando para trás na história a produção baseada na exploração do trabalho humano em sua forma última histórica, que é a produção mercantil capitalista). 

“A diversidade, como valores de uso, ou seja, o aspecto material, na medida em que entra em cena, o faz, no entanto, totalmente fora da determinação formal do capital” (1980: 217). 

É isso que temos apontado, mas não deixa de ter interesse: o fato é que valor (de troca) e valor de uso estão de costas “assintoticamente” unidos, mas sem chegarnunca a unir-se; respondem a universos completamente diferentes: o universo da produção material e o universo do processo de valorização do capital. 

No entanto, toda economia deve ser produtora de valores de uso porque deve responder, de uma forma histórica ou de outra, às necessidades materiais da reprodução humana. Mas acontece que a forma mercadoria na produção especificamente capitalista (D – M – D’) não busca realmente satisfazer essas necessidades, mas apenas se valorizar (se indiretamente satisfaz essas necessidades, é porque não pode se sustentar sem produzir valores de uso). 

Isso é importante de se ter em mente, porque na transição socialista e no comunismo a dinâmica é invertida: é a determinação real que domina a determinação formal até o ponto em que, finalmente, a determinação formal desaparece completamente da cena. A forma de mercadoria é mantida por um certo tempo, mas em uma transição socialista genuína há um retorno a uma espécie de “modo de produção mercantil simples” como um passo intermediário rumo a uma produção que, posteriormente, deixa de ser inteiramente para troca na socialização da produção; o “momento formal” da produção desapareceu completamente. 

 “Marx, no entanto, nunca introduziu uma equivalência entre a produção de valor [no sentido capitalista do termo, de valor que é autovalorização] e a troca de valores no mercado [simples troca de mercadorias]. Em sociedades pré-capitalistas… bens e serviços eram inicialmente trocados com base em sua utilidade material, não em seu valor de troca (abstrato). Somente no capitalismo (…) o valor se torna o princípio definidor da reprodução social. Marx não sustenta que o trabalho seja a fonte de valor em todas as formas da sociedade; O trabalho (junto com a natureza) em sociedades pré-capitalistas é a fonte de riqueza material, não de valor. Como Marx estabeleceu nos Grundrisse, o conceito econômico de valor não existia entre os antigos” (Hundis, 2012: 7). 
“O material de trabalho e o produto do trabalho, o precipitado neutro do processo de trabalho, enquanto matéria-prima e produto, tampouco estão já materialmente determinados como material e produto do trabalho, senão como o valor de uso do próprio capital em fases diversas(1980: 218). 

Marx é agudo ao falar do “precipitado neutro” da produção capitalista. Porque alude à mesma insistência de que o objetivo específico dessa produção é a valorização do capital, ou seja, o material do trabalho e o produto do trabalho como valor de uso do capital para sua valorização. Mas é evidente que essa dialética se inverte na transição e no comunismo (tende a se inverter na transição e completa sua inversão no comunismo): a transição deve significar a passagem (uma passagem muito mais complexa do que Marx e Engels pensavam, como veremos na segunda parte do volume 2 de nosso trabalho) da produção de mercadorias para a produção de diretos valores de uso:  a produção de “precipitados neutros em matéria” a partir do processo de trabalho. (Neutros significa não caracterizado pelas relações sociais do processo de valorização capital-trabalho, mas pelas relações sociais dos valores do trabalho associa produtor de valores de uso.) 

E aqui o conceito específico de capital fixo finalmente aparece, após um longo desvio: 

 “(…) o meio de trabalho (…) [historicamente] sofre uma modificação formal apenas na medida em que passam a aparecer não apenas como um meio de trabalho segundo seu aspecto material, mas ao mesmo tempo como um modo especial de existência determinado pelo processo global do capital: como capital fixe (1980: 218).  

(Capital fixe em seu significado específico significa então que a “massa bruta” dos meios de produção é transformada em capital.) 

No capital fixo, os meios de produção – especificamente as máquinas ou o sistema de máquinas – historicamente passam a aparecer, não apenas como valores de uso para a produção material, mas como valores: não apenas como meios de trabalho, mas como meios de valorização do capital (após passar pela exploração do trabalho no mundo oculto da produção,  obviamente).[5] 

Marx aqui parte dos elementos comuns e distintos do processo de trabalho e do processo de valorização. Se o primeiro se refere à transformação material das matérias-primas, o segundo se refere ao aspecto formal da criação de valor e mais valia: a exploração do trabalho alheio, do trabalho não remunerado em detrimento da reprodução da força de trabalho. (O processo de trabalho e o processo de valorização não coincidem totalmente, pois o processo de trabalho refere-se à criação de valores de uso, enquanto o processo de valorização envolve a extensão do trabalho humano para além da força de trabalho. Visto a partir da pura criação de valores de uso, ambos os processos seriam semelhantes, mas do ponto de vista do processo de valorização, o que conta não é apenas a reprodução da força de trabalho, mas o trabalho humano gerado para além dela: a exploração, o trabalho não remunerado.) 

Consequência disso: o capital  fixe é justamente esse constructo físico-material-científica que permite ao capitalista espremer o trabalho vivo do trabalhador (para transbordar in crescendo o processo de produção pelo processo de valorização; por outro lado, logicamente, mas não historicamente, isso leva ao “colapso” do capital: toda a sua lógica é alcançar esse esmagamento do trabalho humano o mais profundamente possível,  embora com base não mais – ou não exclusivamente – da mais valia absoluta (que é a exploração pura e simples do trabalho em termos de alongamento e intensificação da jornada de trabalho), mas sim da mais valia relativa, os ganhos em produtividade (a produção de uma maior quantidade de mercadorias em menos tempo) pelos quais o trabalho necessário se reduz:  O valor da força de trabalho diminui e a parcela do excedente não remunerado do dia de trabalho aumenta

Em resumo: se a produção pré-capitalista era de valores de uso ou mercadorias, mas não de capital, e se no capitalismo o processo formal de valorização do capital domina, na transição socialista e no comunismo a tendência é passar da produção de capital para a produção simples de mercadorias e, subsequentemente, para a produção simples de valor de uso por trabalho associado.[6] 

3- O maquinismo como uma simbiose rara [7] 

Somente agora Marx passa especificamente a analisar o princípio das máquinas (já apontamos que a análise concreta das máquinas é abordada em seus Manuscritos 1861/3, que veremos em outros textos).  

A máquina em nenhum aspecto aparece como meio de trabalho do trabalhador individual. Sua diferenciação específica não é, como no caso dos meios de trabalho, a de transmitir a atividade do trabalhador ao objeto; ao contrário, essa atividade está disposta de tal maneira que nada mais faz do que transmitir à matéria-prima o trabalho ou a ação da máquina, [a qual] ela vigia e preserva de avarias (1980:  218). 

Essa definição é essencial para o assunto que temos discutido. Ao contrário da antiga ferramenta, com a qual o trabalhador transmitia sua atividade ao objeto do trabalho, superando sua resistência, agora é a máquina que transmite essa atividade, e o trabalhador se preocupa apenas em monitorar seu funcionamento e proteger a máquina contra falhas

Mas cuidado: nessas seis linhas se expressa uma revolução completa do trabalho humano como era conhecido antes do maquinismo! Marx está claramente apontando que a modificação revolucionária que ocorre nos meios de trabalho com máquinas é o  fato  histórico de que é a máquina, e não o trabalhador, quem realiza as transformações no objeto do trabalho. Porque a máquina-ferramenta é exatamente isso: o operador das transformações no objeto natural, na matéria-prima, que supera sua resistência, uma operação na qual o trabalhador “simplesmente” passa a monitorar e preservar a máquina contra falhas

Neste parágrafo, podemos ver um agudo – e talvez não totalmente consciente! jogo de palavras entre os conceitos de trabalho e atividade. Porque se fala da “atividade do operário” em vez do trabalho deste, ao mesmo tempo em que mencionamos o “trabalho ou ação da máquina”, quando é evidente que a ação da máquina não é trabalho propriamente dito: trabalho é uma atividade que transformadora da matéria natural propriamente humana. Essa oscilação conceitual de Marx mostra, de certa forma, as dificuldades que o próprio conceito de trabalho enfrenta quando não é mais subsumido no processo de produção, mas como um “vigilante e regulador”. 

Para nos ajudar, convocamos Pierre Naville:  

O que a mão do ser humano criou não é mais um sujeito técnico que o oprime diretamente, é um objeto técnico vivo, mas onde a transdução dos operadores para a máquina e da máquina para os operadores não está assegurada ainda mais que sob condições precárias e rudimentares.[8] Deste ponto de vista, destacado por Simondon, a relação entre o operador e a máquina deixa de ser uma relação de trabalho no sentido tradicional: torna-se [evidentemente, ao pôr fim às relações capitalistas de produção e autoexploração na transição socialista] uma relação técnica em um novo sentido que significa uma associação enriquecida por simbiose (cultivée symbiose), e, portanto, liberdade. Tudo o que se magnifica sob o nome de trabalho é, até o momento, nada além de uma confusa amálgama de restrições exigidas pelas relações sociais e pelas relações práticas quase inconscientes. Mas por trás desse significado obscuro e incompreendido, há outra coisa, da qual a indústria automatizada hoje só pode nos dar uma premonição: uma relação técnica que é um uso recíproco segundo a profunda ordem da natureza. Parece-me que essa perspectiva surge naturalmente da análise de Marx e a estende (Naville, 1963: 246). 

É claro que Naville parece exagerar um pouco ao não enxergar a reversibilidade distópica desses desenvolvimentos, por exemplo, agora no século XXI, embora essa unilateralidade seja compensada quando ele aponta expressamente que esses desenvolvimentos “ainda são garantidos apenas sob formas precárias e rudimentares“. E como se isso não bastasse, ele imediatamente afirma:  

“Em segundo lugar, Marx associa o princípio do automatismo à encarnação do capital, como poder dominante [sob o capitalismo, obviamente, e também nos estados burocráticos na forma da dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo], um ‘sujeito’ hostil aos operadores [as e os trabalhadores]. O capital fixo, ou seja, a maquinaria, absorve as forças vivas do trabalhador/a que ele subjuga; do trabalho vivo, ele faz trabalho morto, que aprisiona os vivos [“os mortos capturam os vivos” é uma frase clássica de Marx]. Mas, como Simondon observa, mesmo uma transformação do signo do capital, que de propriedade estranha ao trabalhador se torna propriedade comum (ou do Estado), não é suficiente para transformar a função do trabalho. É nessa incapacidade que os trabalhadores da URSS fizeram a experiência” (Naville, 1963: 246). 

De qualquer forma, nos Grundrisse Marx está explicando a nova situação – potencialmente revolucionária – produzida pela maquinaria, onde, ao modificar-se o meio de trabalho, há também uma tendência a modificar o próprio trabalho: o trabalho pode ser escravizado pela máquina, como ocorre no processo de valorização capitalista, ou materialmente emancipado do jugo por ela, dependendo das relações sociais que se coloquem em jogo. 

“Não é como o caso do instrumento, que o operário anima como um órgão, com sua própria habilidade e atividade, e cujo manuseio depende da virtuosidade do primeiro. A máquina, dona, em vez do operário, da habilidade e da força, é ela mesma a virtuosa, possui uma alma própria presente nas leis mecânicas que nela operam, e assim como o operáro consome alimentos, consome carvão, óleo, etc. (…) com vista ao seu contínuo automovimento” (1980: 218/9).[9] 

A reversão das determinações é clara. No caso do instrumento, o ou a trabalhadora eram o sujeito; como acabamos de apontar na nota de rodapé, a revolução da produção que ocorre com a manufatura ocorre no nível da divisão do trabalho. No entanto, no caso da máquina – do sistema de máquinas – as determinações se invertem: é este novo “instrumento” que é o sujeito e não o trabalhador/a; um “sujeito mecânico” (ou cibernético, ou algorítmico, não importa), cuja “alma” são as leis naturais que operam nele e que possui auto-movimento, ou seja, é um autômato no duplo sentido da palavra: operador e motor ao mesmo tempo. (E isso, como acabamos de apontar, marca que na indústria em grande escala a revolução ocorre no instrumento do trabalho, na máquina, e não na divisão do trabalho.)[10] 

A perspicácia das constatações contidas nesses trechos dos Grundrisse tem a ver com o fato de que as leis da natureza descobertas pela humanidade podem ser colocadas em ação de forma “autônoma” e “automática” como sujeito da produção em “substituição” do sujeito tradicional da produção, que são as e os trabalhadores. Como nós mesmos apontamos em nosso artigo anterior, a maquinaria, em qualquer um de seus estágios, é uma fusão entre natureza e cultura: leis da natureza “presas” para a produção humana no “sistema de máquinas”. É uma síntese rara entre a natureza humana e a cultura humana, um subproduto da fusão “orgânica” – uma simbiose, com Naville – entre ambas. Uma criação onde antes não havia nada – exceto a matéria-prima natural – tal qual a indústria lítica na pré-história (e note que estamos lidando com centenas de milhares de utensílios já descobertos!) ou a indústria cerâmica mais avançada, já dentro da história (no sentido clássico do termo, porque para Marx, enquanto permanecermos em sociedades de classes, ainda não entramos na verdadeira história humana). 

 Bibliografia 

Hesíodo, Los trabajos y los días, Fundación Carlos Slim, México. 

Enrique Dussel, La producción teórica de Marx, Fundación Editorial El Perro y la Rana, Caracas, 2010. 

G.W.F. Hegel, Lecciones de historia de la filosofía, Siglo Veintiuno Editores, México, 2008. 

Peter Hudis, Marx’s concept of the alternative to capitalism, Brill, Leiden-Boston, 2012. 

Karl Marx, Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse), 1857/8, Volumen 2, edición a cargo de José Aricó, Miguel Murmis y Pedro Scaron, traducción de Pedro Scaron, Siglo Veintiuno Editores, México, 1980. 

Pierre Naville, Vers l’automatisme social? Problemes du travail et de l’automation, Gallimard, París, 1963. 

 

NOTAS 

[1] Assinalemos de passagem duas características gerais do trabalho de Dussel sobre Marx. A) demonstra sistematicidade, o que é louvável; b) no entanto, na busca da pedagogia, ela é superficial. Marx é citado profundamente, mas a citação de Marx não revela toda a profundidade do que ele diz. 

Fora isso, seu principal problema é que é uma abordagem “religiosa” de Marx. Criticando corretamente o mecanismo e o objetivismo de muitos materialismos, seu marxismo é um humanismo religioso e idealista, que perde de vista a prioridade ontológica da matéria: “O ‘materialismo’ de Marx [como se Marx não fosse um materialista; caso contrário, as aspas não são compreendidas] (…) ele não afirma que tudo (o cosmos) é matéria [de fato, todo o cosmos não é apenas matéria, mas também representação], mas que o sujeito que trabalha (a priori) [o sujeito que funciona não é a priori da matéria, mas reage sobre a matéria] constitui a natureza (Natur) como “matéria” (o a posteriori do trabalho [aqui Dussel confunde “natureza natural” ou “natureza artificial” – Labriola – como o produzido pela humanidade a partir da troca com a natureza com a prioridade da matéria anterior ao trabalho; evidentemente o cosmos não é produto do trabalho humano].” (Dussel, 2010: 407). E então ele acrescenta: “A vontade humana (menschlichen Willens) (…) é o sujeito anterior: a matéria é posterior e se subordina ao sujeito como seu “órgão” inorgânico (…) O problema é: o que vem primeiro: o sujeito que trabalha ou o material que é trabalhado?” (idem). 

Em resumo, idealismo religioso puro, porque é evidente que a natureza e a matéria trabalhada vêm em primeiro lugar; caso contrário, não haveria nada para trabalhar (outra coisa é que a humanidade reage sobre a natureza e cria uma natureza humana, que é o que o materialismo mecânico perde. Mas o materialismo corretamente interpretado não pode ser uma recaída no idealismo. 

[2] Na verdade, Marx começa seu discurso sobre capital fixo e capital circulante algumas páginas antes, no ponto intitulado “Triple determinación o modo de circulación” (2022: 200), mas como não se refere especificamente ao sistema de máquinas, deixamos de lado o tema. A única coisa que se refere especificamente a este objeto é uma última e muito perspicaz menção a Babbage que já levamos em conta em nosso artigo anterior (“Marx e as Máquinas: Introdução“, Esquerda Web). 

Há uma citação, sim, que não queremos deixar passar porque ela faz a delimitação entre as   relações materiais de produção, por assim dizer, e as relações de valor (à dialética entre o material e o formal que veremos em seguida): “O tosco materialismo dos economistas, que os faz considerar tanto as relações sociais da produção humana quanto as determinações que as coisas recebem como subsumidas nessas relações,  como se fossem  propriedades  naturais das coisas, é um idealismo igualmente grosseiro, um fetichismo, sim, que atribui às coisas relações sociais como imanentes a elas, e assim as mistifica” (Marx, 1980: 211). 

A delimitação do formal do processo de valorização capitalista, da produção de valor e do material de produção em geral como reprodução humana/natural, é fundamental para todo o discurso que segue sobre a maquinaria. 

[3] Como digressão, não queremos deixar de dizer algo da dialética quando há “marxistas” que a negam no estilo de Bernstein, afirmando que “a dialética, especialmente como entendeu e utilizpou por Marx, é o oposto de um procedimento definido e reproduzível” (sic). Bem, a definição acima nos lembrou das Lições sobre a História da Filosofia de Hegel, professor reconhecido de Marx, onde Georg Wilhelm afirma de forma simples sobre Heráclito, o primeiro dialético: “O progresso necessário feito por Heráclito consiste em ter passado do ser como o primeiro pensamento imediato [o princípio necessário da identidade da lógica formal] para a determinação de se tornar como o segundo [o movimento necessário de não-identidade] (…) a unidade do oposto que nele se plasma (…) Vemos, finalmente, terra; não há, em Heráclito, uma única proposição que não tenhamos procuraso incorporar em nossa lógica” (Hegel, 2008: 258). 

[4] Uma citação mais para aproveitar o texto histórico de Hesíodo que expressa, em sua totalidade, uma espécie de ética – dramaticamente misógina, por certo: “Em primeiro lugar, providencie para sí uma casa, uma esposa e um boi de bom trabalho“: a mulher comprada, não desposada, para que também vá detras dos bois; no mundo grego histórico, mulheres e escravas estavam quase no mesmo lugar! – das condições do bom viver:  “(…) ocultado tem os deuses o sustento aos homens; caso contrário, você facilmente trabalharia um único dia e ficaria por um ano sem se ocupar com nada (…) Pelos trabalhos se tornam  os homens ricos em gado e opulentos; e se trabalhas, te apreciarão muito os imortais (e os mortais; pois detestam profundamente os preguiçosos).” 

“O trabalho não é nenhuma desonra; a inatividade é uma desonra. Se trabalhas logo os indolentes vão te invejar quando você ficar rico. O valor e estima vão unidas ao dinheiro [sic] (Hesíodo, idem). 

Por outro lado, Prometeu Acorrentado, tão caro ao jovem Marx, é importante para a reflexão sobre a técnica, questão que abordaremos em outro artigo desta série sobre Marx e as máquinas

[5] O “mundo oculto” da produção – ou um conceito semelhante que não lembramos totalmente – é a formulação de Marx no volume 1 de O Capital , quando passa dos capítulos sobre mercadorias e dinheiro para os capítulos sobre a produção do capital. O capital, como dinheiro que se autovaloriza, deve passar pela mediação da exploração do trabalho, e a exploração do trabalho ocorre em outro terreno que não é o do mercado e sua troca equivalente: ocorre no mundo oculto da produção econômica, onde o que interage é o trabalho humano no total (e não apenas a força ou a capacidade de trabalho) com os meios e materias da produção. 

[6] A acumulação burocrática não é propriamente capital, mas também não é simples produção de mercadorias, pois é realizada com base nas formas originais de exploração do trabalho. Vamos nos referir a isso no segundo volume do nosso tomo 2. 

[7] Uma simbiose construída, trabalhada e ativamente promovida pelos seres humanos em sua relação com a natureza. Os organismos cyborg, protagonistas da ficção científica, não podem ser descartados como uma das formas do desenvolvimento da tecnologia, da técnica humana, na medida em que essa técnica pode compatibilizar o inorgânico com o orgânico. A própria maquinaria (por esse nome genérico associamos a maquinaria mecânica propriamente dita da época de Marx à automação dos séculos XX e XXI e à IA e algoritmos de hoje) é uma combinação especial de natureza e cultura, de leis da natureza e do trabalho humano “capturados” ou “presos” no sistema de máquinas. 

Aqui, novamente, utopia e distopia andam de mãos dadas, dependendo das relações de produção sob as quais esses desenvolvimentos ocorrem: exploradoras ou emancipatórias. 

[8] O conceito de transdução em Simondon é muito complexo e remete a uma espécie de simbiose entre trabalho e máquina. Como já apontamos várias vezes, nesse tipo de conceitos, utopia e distopia podem andar de mãos dadas, e o “utópico” para nós é o elemento emancipador, sempre dominado pelos seres humanos, e o distópico aquele do aparato técnico (IA) que pode escapar de seu controle. 

[9] Aproveitamos esta oportunidade para esclarecer uma questão que havia sido deixada em aberto em nossa nota anterior: parece claro que na manufatura a revolução ocorre na divisão do trabalho, e na indústria em larga escala nos meios de trabalho (o aparecimento massivo das máquinas). Em todo caso, voltaremos a isso quando tratarmos dos Manuscritos de 1861/3

[10] De todo modo, vale a pena esclarecer: é muito difícil para nós opor mecanicamente  forças produtivas e relações de produção devido aos duplos reducionismos que se verificaram no marxismo a esse respeito e que apontamos em nossa nota anterior: “Marx e as máquinas: introdução“. 

 Arte: Alexander Vesnin