A reforma da Lei de Glaciares visa reduzir a área de proteção, legalizando certas práticas mineradoras predatórias. O governo pretende aprová-la e inaugura esse avanço com repressão a uma ação do Greenpeace e a detenção arbitrária de um jornalista pela polícia.
Por Izquierda Web
Facundo Tedeschini, cinegrafista da A24, foi detido enquanto cobria o momento da repressão a um protesto do Greenpeace contra a nova Lei de Glaciares[NT1], caracterizada como de destruição ambiental e saque econômico.
Assim denunciou Manuela Castañeira, dirigente nacional do Nuevo MAS:
Manuela Castañeira
@ManuelaC22
“Inadmissível! A polícia agride e detém Facundo Tedeschini, cinegrafista da A24, depois de ter levado presos ativistas do Greenpeace por realizarem um protesto pacífico contra a infame modificação da Lei de Glaciares. Liberdade imediata para Facundo e para os ativistas do Greenpeace!”
9:50 AM · Feb 26, 2026·1,922 Views
A detenção arbitrária e violenta ocorreu no contexto da repressão a uma atividade de protesto do Greenpeace.
Lá em 2024, uma das polêmicas da Lei Bases foi a tentativa de liberar o saque dos recursos nacionais e sua exploração, particularmente com as modificações na Lei de Glaciares. Pretendiam reduzir a área de proteção dos glaciares, legalizando práticas mineradoras predatórias até então proibidas. Quase dois anos depois, o governo nacional volta a tentar avançar com um projeto de lei nefasto para os ecossistemas do país e que afeta duramente a qualidade de vida dos habitantes das áreas próximas a essas terras protegidas.
A Argentina conta com um total de 16.968 glaciares, que cobrem uma área aproximada de 8.484,21 km². Se esses números parecem bastante expressivos, é porque realmente são. É um privilégio contar com estruturas dessa magnitude. São reservas estratégicas de água, fonte de energia para a biodiversidade, fonte de informação científica e também atração turística. Desempenham ainda um papel crucial na regulação do clima e, dado nada menor, resguardam 70% da água doce sob a forma de neve ou gelo.
Com o aquecimento global e o avanço neoliberal no mundo, que atropelam tudo por onde passam, os glaciares estão em perigo. Especialistas vêm alertando há muito tempo que, devido às mudanças climáticas, estão derretendo em ritmo alarmante, o que, por sua vez, acelera ainda mais o próprio aquecimento global. A exploração desenfreada dos glaciares e da área periglacial pode ter impactos ambientais e sociais devastadores. Também econômicos, se considerarmos seu papel relevante na alimentação do volume dos rios, recurso do qual dependem múltiplas atividades produtivas.
Parte dos governadores das províncias andinas, que já não sabem mais a quem recorrer para obter recursos e administrar suas províncias, negociam com Milei a modificação da Lei de Glaciares. Recebem menos que migalhas: a exploração mineradora deixa poucos dólares às províncias e muita destruição ambiental a longo prazo. É inacreditável. Milei se recusa a repassar a coparticipação que lhes corresponde por lei, e eles marcham atrás dele em busca de uma saída para um problema que ele mesmo criou.
Com a lei, o governo busca redefinir a “área periglacial” para permitir explorações atualmente bloqueadas por restrições ambientais. Os governadores das províncias andinas que defendem a proposta controlam 13 deputados e quatro senadores — o suficiente para alcançar a maioria sem abrir os cofres nem colocar em risco sua base eleitoral.
A agenda ambiental de Milei é a negação da ciência[NT2]. Ele chama a mudança climática de “mentira do socialismo”. Com uma reforma técnica, sem custo fiscal nem político, poderia se alinhar aos governadores de San Juan, Mendoza, Salta, Jujuy e Catamarca. Benefício para poucos; que o resto se vire.
Os principais aliados do mileísmo nessa contrarreforma são um punhado de governadores: Raúl Jalil (Catamarca), ainda parte da Unión por la Patria; Alfredo Cornejo (Mendoza), que mantém sua filiação radical; Carlos Sadir (Jujuy), da UCR, mas atuando dentro das Provincias Unidas; Gustavo Sáenz (Salta), peronista independente; e Marcelo Orrego (San Juan), que mantém um bloco próprio com identidade provincial.
No ano passado, o governador de San Juan, Marcelo Orrego, comemorou o fato de o tema estar em pauta:
“Pudemos tratar de questões da nossa jurisdição: temas que têm a ver com diferentes definições, sobretudo com uma nova Lei de Glaciares, a fim de levar adiante uma política concreta, séria e sólida para enviar uma mensagem à indústria mineradora.”
No governo haviam declarado:
“Há consenso para abrir a discussão. Muitos governadores vêm pedindo isso e existem condições para fazê-lo.”
Os governadores reivindicavam que a autoridade de aplicação fosse local. Argumentam que a Constituição Nacional lhes concede competência sobre os recursos naturais, enquanto a lei nacional estabelece os orçamentos mínimos ambientais. Será que os capitalistas estrangeiros vão pensar duas vezes antes de investir no país? Sim. E os empresários nacionais? Não existem — pelo menos não nesse setor. A mineração e a megamineração desse tipo costumam envolver volumes de capital que os empresários locais raramente manejam.
Em resumo, as modificações legais fazem parte de uma chantagem capitalista que Milei aceita de bom grado: se querem dólares para conter sua crise, entreguem-se ao nosso saque. O investimento não implica desenvolvimento de infraestrutura: destroem o solo e vão embora. Para os poucos trabalhadores envolvidos, não passa de um trabalho temporário. As mineradoras tampouco geram empregos significativos.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou, em agosto de 2024, um alerta global advertindo que o nível do mar atingiu um novo recorde histórico como consequência do aquecimento dos oceanos e do derretimento de glaciares e mantos de gelo — fenômenos que são resultado direto das mudanças climáticas. Não podemos permitir que alguns multimilionários se tornem ainda mais ricos à custa da fonte de vida de milhões de pessoas no presente e das futuras gerações.
NT1: Os glaciares argentinos, principalmente localizados no Parque Nacional Los Glaciares na Patagônia (província de Santa Cruz), formam a terceira maior extensão de gelo continental do mundo. O Perito Moreno é o mais famoso e acessível, enquanto o Upsala é o maior. Outros que se destacam são o Spegazzini e o Viedma
NT2: O que de certa forma, na prática, embora por outros motivos próprios de sua conciliação com a burguesia, é o que acaba fazendo Lula, ao aprovar a extração de petróleo na foz do Amazonas ou ao querer (e ser obrigado a recuar, pela mobilização indígena) privatizar boa parte da bacia amazônica.







