A vitória eleitoral do último 26 de outubro deixou Milei em condições renovadas para reconfigurar seu governo e aplicar seu plano de reformas.
Por Maxi Tasán
Nas últimas semanas, a conjuntura esteve “absorvida” pelo alistamento do governo para esses combates: mudanças no gabinete, reuniões com governadores, alinhamento com Trump etc. Enquanto isso, o peronismo afunda em sua crise de perspectivas e se prepara para negociar a reforma trabalhista.
O que deixaram as eleições
As eleições foram uma encruzilhada de contradições políticas e estruturais, das quais resolveram apenas um grande interrogante: Milei continua no governo. Esse elemento não estava tão claro antes do pleito — daí inclusive o salvamento da dupla Trump-Bessent para evitar o colapso. Neste caso, as eleições funcionaram como elemento conservador, estabilizador. Mas, após alguns dias, começaram a aparecer outras incógnitas: qual é o sentido da segunda parte do governo Milei, qual é seu plano econômico, seu modelo de país e se ele vai se dotar das ferramentas políticas e institucionais para consegui-lo.
O mais objetivo é que o governo venceu, e esse dado eleitoral e político configura o cenário em que nos encontramos. Os motivos são dois elementos fundamentais:
Primeiro, dominou um voto conservador — embora com matizes no corte de classe[1] — porque não se viu alternativa. O governo se impôs nas principais províncias do país porque a alternativa era o abismo. O peronismo, que vinha de um grande triunfo eleitoral em setembro na Província de Buenos Aires, acreditou que somente apostar em “parar Milei” bastaria para atrair a raiva genuína que grande parte da população sente pelo governo. Diante do descontrole que se aproximava, um setor se mobilizou eleitoralmente para optar pelo conhecido.
Segundo o peronismo não queria ganhar, por carecer de um programa alternativo diante dos principais problemas do país: como superar a crise orgânica que se arrasta há anos, como se relacionar com os Estados Unidos, o que fazer com a dívida externa etc. O peronismo não tem programa nem vontade de governar; assim, sob a desculpa de “respeitar a institucionalidade”, espera que Milei faça o trabalho sujo, para ver se em 2027 pode retornar sobre os escombros de um país destruído.
A votação de outubro, com medo do caos e com a atitude do peronismo, funcionou como contrapeso conservador à dinâmica de deterioração do governo e à presença da vanguarda nas ruas ao longo do ano. Assim como em setembro Kicillof venceu com a agenda que a rua impôs ao Congresso, desta vez as urnas responderam à rua: no regime democrático burguês, as urnas vêm primeiro, e as ruas ficam subordinadas.
Nesse sentido, ressaltamos a responsabilidade da direção — não só, de forma escandalosa, da CGT, mas também do peronismo político: se a oposição de massas se recusa a vencer, entrega a vitória ao oficialismo.
Além desses fatores, há também o contexto mundial — ainda com polarização assimétrica, mas claramente reacionário. As condições internacionais não favoreciam a queda, em apenas dois anos, de um governo que chegou tão reacionário. A burguesia exige de Milei transformações que ainda não conseguiu implementar, e a vitória renovou suas expectativas. A intervenção de Trump antes das eleições e agora com o acordo comercial é um respaldo nessa direção. O peronismo também não queria que o governo caísse, pois isso abriria espaço para um giro à esquerda e para possibilidades de desborde.
Nesse marco, o governo se sustenta em um cruzamento de contradições enormes. Há uma crise orgânica e uma crise de relações de forças que não se resolvem. Embora tenha se mantido, por ora o governo foi derrotado na intenção de romper essas relações. E, não conseguindo rompê-las, o país segue se deteriorando do ponto de vista capitalista. Para começar a resolver esse problema, é preciso impor contrarreformas e uma derrota ao movimento de massas. Daí os esboços de construir um gabinete com mais consenso, mais representação e mais base de sustentação.
É evidente que o governo sai fortalecido de outubro, mas sua força é relativa. Do ponto de vista institucional, obteve um número de cadeiras no Congresso que pode aproximá-lo de ser a primeira minoria, e os governadores que garantem governabilidade estão à disposição. Politicamente também sai renovado, mas sem voltar ao patamar de 2023: a experiência desses dois anos deixou marcas e o momento é menos reacionário.
O governo prepara sua ofensiva para depois de 10 de dezembro: está construindo uma agenda de trabalho e tem o voto conservador para levá-la adiante. No entanto, o caminho não está livre: deve testar as relações de forças. Por exemplo: a reforma trabalhista, desejada por toda a burguesia, cria uma contradição com a burocracia sindical, já que muitos dos pontos pretendidos eliminariam mecanismos de mediação e fragmentariam o unicato[2] sindical.
O governo precisa escalar uma montanha íngreme, mas ainda está no acampamento-base. Percorrer esse caminho significa superar inúmeros obstáculos: misturam-se interesses de classe com interesses corporativos — da burocracia, dos governadores, do Parlamento etc. A Argentina é um país muito estatizado, e a pretensão mileísta de transformá-la em um país liberal é algo que nem a ditadura militar conseguiu.
Como diz Carlos Pagni:
“Por diversas frentes, iniciou-se nesta fase da política econômica argentina uma etapa em que as decisões técnicas tocam interesses concretos (…). Começa assim uma etapa darwiniana que coloca grande quantidade de problemas à ordem social e econômica.” (La Nación, 18/11/25)
Um acordo comercial em sintonia com o ‘novo mundo’
Nesse contexto, entra o acordo comercial com os EUA. É claramente um respaldo político para o governo Milei, mas não está isento de contradições. Pelos poucos detalhes conhecidos até agora, trata-se de um pacto de submissão colonial no qual a Argentina se compromete a garantir inúmeros benefícios aos EUA: redução de tarifas sobre diversos produtos, eliminação de barreiras não tarifárias e abertura ao mercado agrícola norte-americano — setor no qual somos concorrentes — entre muitos outros. Também oficializa a submissão em matéria de “segurança econômica”. Em troca de uma longa lista de benefícios para os EUA — que implicam destruir a indústria argentina — o país do Norte compromete-se apenas a eliminar tarifas recíprocas sobre alguns recursos naturais e artigos não patenteados de uso farmacêutico.
Claudio Jacquelin observa que:
“A Argentina assume o dobro de compromissos que os Estados Unidos, embora algumas fontes diplomáticas apontem que a relação é de 5 para 1 em termos de obrigações.”
(La Nación, 14/11/25)
A lógica desse alinhamento político-ideológico responde à transição para uma nova configuração mundial, o que chamamos de “era da combustão”[3]. A posse de Trump em seu segundo mandato expressa a passagem de uma ordem mundial consensual e globalizadora para uma ordem de repartição e pilhagem do mundo. O velho ordenamento globalizador fica para trás, e está em jogo a reformulação de um novo sistema no qual os Estados Unidos tentam reafirmar sua preeminência dentro da hierarquia dos Estados, ainda que arrastando determinadas debilidades decorrentes do ascenso de novos imperialismos, como China e Rússia (em construção o primeiro, com características territoriais-militares o segundo). Trata-se de um momento de menor hegemonia no sentido de “conter a todos” e oferecer uma perspectiva, e de maior polarização e relações de força desnudas, o que abre o cenário para choques:
“Há uma racionalidade na modificação do tipo de imperialismo: ao imperialismo da globalização impôs-se outro tipo de imperialismo, que é o da territorialização. Ao capitalismo do mais-valor relativo impôs-se outra lógica, para dizê-lo claramente, a do mais-valor absoluto. Ao capitalismo da acumulação especificamente capitalista (isto é, sem elementos extraeconômicos) impõe-se, ou acrescenta-se, a ‘acumulação primitiva’ (a acumulação por meios violentos, por exemplo, pela apropriação de territórios, como diria Marx em sua teoria da renda agrária e mineradora, de porções da atmosfera e até mesmo do cosmos). Ao capitalismo da exploração acrescenta-se o da espoliação, dos recursos naturais e dos seres humanos.” Roberto Sáenz
A base dessa situação é que o capitalismo mundial não cresce, e instala-se a lógica do ganho de uns às custas de outros; um capitalismo muito mais brutal e agressivo do que conhecemos, pelo menos desde o pós-guerra.
Nesse novo mundo de “esferas de influência”, Milei quer incorporar plenamente o país sob os parâmetros de transformá-lo em uma plataforma para a exploração de capitais internacionais, aproveitando as “vantagens competitivas”. É a passagem de um país semi-industrializado a um país primarizado e dependente: voltado ao agronegócio, à mineração, à energia e ao turismo. Mas reprimarizar o país implicaria derrotar a classe trabalhadora argentina. Arriazu, economista próximo ao governo, já afirmou que nesse esquema “a Grande Buenos Aires é a grande perdedora”, pois “é criação do protecionismo”.
Este é o programa de Milei, e aqui ganha importância o peso crescente da luta ideológica, reaberta pela própria extrema direita. É essa a situação em que o peronismo se encontra em uma armadilha, porque não há condições econômico-sociais para um projeto mais ou menos distributivo de conciliação de classes: os centros tendem a se estreitar, e a luta se move para os extremos. Daí a pertinência do nosso Manifesto Anticapitalista e do debate nas redes que travamos com os porta-vozes do mileísmo. Se eles são defensores do ultracapitalismo, nós somos os anticapitalistas que queremos questionar tudo, e temos um programa pela esquerda (algo de que o FITU carece)[4] para a transformação revolucionária.
Preparar-se para enfrentar os ataques que virão
O governo está finalizando seu calendário: nas extraordinárias de dezembro, discutir o orçamento 2026 e a lei de inocência fiscal; em fevereiro, a reforma trabalhista e tributária. Soma iniciativas reacionárias, como modificar a Lei de Glaciares e o projeto de educação medieval.
Enquanto tudo isso se processa nas alturas da “sociedade política”, a população trabalhadora vai metabolizando os ataques que estão por vir. A situação na base oscila entre a catástrofe cotidiana de viver em um país em crise (nos últimos dias ocorreram fatos dramáticos como o descarrilamento do trem Sarmiento e a explosão e incêndio no parque industrial de Spegazzini) e o cansaço diante de um governo agressivo que, embora não tenha sido derrotado nas eleições, não significa que a indignação tenha desaparecido — podendo se expressar diante de alguma mudança de circunstâncias.
A etapa reacionária de 2023 segue aberta, mas de forma mais leve, porque nem na campanha nem no pós-campanha se viveu a asfixia de 2023. Aqui surge o interrogante sobre que cenário enfrentamos. Há três variantes:
- rebelião popular ao estilo de 2001,
- enfrentamentos com a vanguarda de massas ao estilo de dezembro de 2017,
- ou escaramuças como as de 2023–2024.
O primeiro cenário está descartado por agora — só seria possível se o governo tivesse perdido as eleições e a governabilidade ficasse questionada. Para o segundo cenário, seria necessária uma mobilização maior dos aparatos sindicais, que permitisse uma confluência com a esquerda e a vanguarda de massas. O terceiro cenário é o mais provável, com uma ofensiva parlamentar muito reacionária, a possibilidade de tentar reinstalar o protocolo antiprotesto e maior atrito e enfrentamento com a vanguarda.
Para isso, é preciso preparar-se alertando os trabalhadores e trabalhadoras de que a reforma trabalhista é escravista, e construir um programa alternativo de unidade entre efetivos e precarizados que parta de um salário de 2 milhões de pesos e uma jornada de 6 horas, com direitos plenos para todos. Ao mesmo tempo, é necessário erguer frentes únicas e coordenações que impulsionem a luta e a mobilização, servindo de ponto de partida para impor à burocracia sindical entreguista um plano de luta e uma greve geral ativa até derrotá-la.
Enquanto isso, neste fim de semana, será realizado em Corrientes o Encontro Plurinacional de Mulheres e Diversidades, onde nossas companheiras de Las Rojas participarão com a consigna de que Milei e a extrema direita são os responsáveis ideológicos pelos ataques a esses setores — e de que é preciso organizar-se para ocupar as ruas e enfrentá-los.
E, com a força da juventude do ¡Ya Basta! preparamos o 6º Acampamento Anticapitalista Internacional para os dias 14, 15 e 16 de fevereiro, um evento que é referência para a juventude do país e um ponto de organização para as lutas que virão.
Nosso partido se encaminha para realizar um Plenário Nacional de Quadros nos dias 19, 20 e 21 de dezembro, para avaliar coletivamente a conjuntura aberta com o triunfo eleitoral de Milei, a crise à qual o peronismo está submetido e as oportunidades da esquerda revolucionária — e do nosso partido — neste novo momento. A campanha eleitoral anticapitalista que desenvolvemos conquistou um novo piso político, organizativo e de presença, que devemos saber aproveitar para seguir construindo o Novo MAS como uma das forças mais dinâmicas da esquerda na Argentina.
Notas:
[1] Do ponto de vista do corte de classe, houve modificações políticas e sociais. No plano político, a passagem de 2023 a 2025 cumpriu seu papel de desgastar o governo. O governo se reafirma e tem mais bancadas, mas, ao mesmo tempo, os ângulos mais reacionários ficaram muito abalados — justamente aqueles em que não possui maioria social. Por exemplo, as bravatas contra as diversidades: a Marcha do Orgulho, realizada uma semana após a eleição, foi muito colorida, imensa e bastante política. O mesmo ocorreu com o Protocolo antipiquete, do qual ficou o famoso tweet de Adorni dizendo a Manuela Castañeira: “na calçada, por favor”.
Por isso, o voto foi conservador, mas não reacionário. Todo o espaço que vai do centro-direita à extrema direita foi absorvido pela LLA, e o resultado total não ficou na extrema direita, mas sim mais na direita em sentido estrito. O governo não passou no teste de modificar o regime político.
[2] O unicato sindical argentino é um modelo sindical no qual apenas um sindicato por ramo de atividade pode ser o representante principal, com a personalidade sindical concedida pelo Ministério do Trabalho. Esse sistema, que se originou durante o peronismo e foi questionado internacionalmente pela OIT, centraliza o poder em uma única organização e gera debates sobre a democracia sindical e a liberdade dos trabalhadores para formar outras associações.
[3] Ver “A era da combustão”, de Roberto Sáenz, em www.esquierdaweb.com.
[4] Desenvolvemos em outras notas o “buraco negro” do FITU e do PTS do ponto de vista de uma agitação que transcenda a autorreferência parlamentar e o “lutismo” vazio de ideias.











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