“Às coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo”
Movimento dos Barcos, do seu álbum de estreia em 1973

 

Por Redação Esquerda Web

Partiu nesta segunda-feira, Jards Anet da Silva aos 82 anos, vítima de uma parada cardíaca enquanto se recuperava de uma cirurgia para tratar um quadro de enfisema pulmonar. Coincidentemente, Jards como um enorme expoente negro da música popular, nos deixa em mais um novembro sob uma platéia atônita e grata de sua enorme contribuição à cultura. 

Sob a alcunha de Macalé, o carioca iniciou sua carreira nos anos 60 tocando na noite boêmia do Rio e fez seu nome na cena questionando a dura ordem do Ato Institucional-5 do governo Costa e Silva. Organizando a contracultura ao regime, Jards foi produtor musical do álbum Transa de Caetano Veloso, gravado enquanto o baiano se exilava em Londres. 

Letrista, violonista e cantor, Macalé escreveu Vapor Barato ao lado do poeta e grande parceiro Wally Salomão. A fatalidade nasceu com a voz de Gal Gosta no albúm “Fatal  – Gal à Todo Vapor” de 1971. 

De melancolia e swing rebelde, produziu músico para muito além do conservadorismo da indústria fonográfica nacional, sendo colocado ao lado de outros nomes negros da música como Luiz Melodia e Itamar Assumpção na estante dos “Malditos” da cena. Mal quisto pelo mercado, ficou longos anos sem lançar novos álbuns ou canções. 

Inquieto e pelas beiradas, Macalé deixa como legado uma obra que nunca se acomodou às expectativas do mercado, marcada por experimentações sonoras e uma enorme delicadeza brutal. Sua presença atravessou gerações, influenciando artistas que viram nele um farol de arte. 

Ao transitar entre a doçura melódica e o ruído intencional, consolidou uma assinatura única no panorama mundial. Sua partida reforça a dimensão de um criador que fez da música um espaço permanente de insubordinação poética.