Por ROBERTO SÁENZ
“O peronismo unido costumava ser invencível e a essa máxima ou regra empírica se agarraram este ano, talvez com fé excessiva, Sergio Massa e Juan Grabois, Axel Kicillof e Cristina Kirchner. Fizeram-no a ponto de menosprezar a necessidade de oferecer ao eleitorado um projeto, uma ideia que superasse o próprio fracasso, algo mais do que a meta alçada na campanha de acabar com Milei [na verdade, essa não foi a mensagem: apenas detê-lo]. Uma falha dupla: pela unidade fictícia que qualquer um podia perceber e pela fraqueza argumentativa. E depois de barrar Milei, o quê?” Pablo Mendelevich, “Se repitió el fenómeno de 2023”, La Nación, 27/10/25
Que a eleição foi vencida de maneira contundente pelo “mileísmo” é uma obviedade. O que não é tão fácil de entender é a vertigem eleitoral de setembro a outubro, o dramático vai-e-vem de um “extremo” a outro e, sobretudo, o que pode sair disso, ou seja, avaliar as perspectivas políticas do país para além do impressionismo destas horas.
1 – O peso do elemento conservador
A vertigem político-eleitoral na Argentina contemporânea é tão imenso que, de eleição em eleição, muitas vezes é difícil manter a linha argumentativa. De todo modo, apresentamos a seguir uma primeira análise a ser processada e corroborada nos próximos dias e semanas, a depender das opiniões na base da sociedade e dos próximos passos que ocorram na “sociedade política”.
Por si mesmas, as eleições são sempre um reflexo distorcido da realidade, uma estática, uma fotografia, como afirmava Lênin. Uma espécie de espelho invertido da sociedade onde, em geral, se faz valer o elemento mais atrasado sobre o mais avançado em virtude da estatística eleitoral,[1] razão pela qual sempre devem ser analisadas não como um fator independente, mas num contexto mais amplo, como variável dependente.
É claro que isso não pode negar, em primeiro lugar, o peso relativo dos resultados. É deles que se deve partir. E os resultados totais indicam que houve, finalmente, uma eleição polarizada em que o mileísmo obteve 40,74% dos votos no âmbito nacional, e o peronismo alcançou 31,66%.[2]
Mais contundente e inesperada ainda foi a recuperação da LLA na província de Buenos Aires, recuperando os 14 pontos que havia perdido em setembro para impor-se por 41,45% a 40,91% sobre o peronismo (nos municípios da Grande Buenos Aires o peronismo perdeu 316.482 votos e o mileísmo somou 474.578).[3]
O primeiro dado a assinalar, então, é o que está em todos os meios: a contundência do resultado surpreendeu inclusive os próprios integrantes do elenco governista. O governo vinha péssimo de todo ponto de vista: o dólar descontrolado; a alta do risco-país pelos temores de default; a queda da produção desde abril; um índice inflacionário artificial, represado; os escândalos de corrupção sucedendo-se um após o outro; o tapa eleitoral de 7 de setembro, etc. (ainda que não se deva esquecer que a LLA se impôs na Cidade de Buenos Aires em maio passado, embora por apenas 30%).
A crise que o afligia –e que talvez volte a afligi-lo proximamente, para além do triunfalismo do presente– era em todas as frentes: econômica, política, social, moral e inclusive de governabilidade. O governo estava mergulhado numa crise tal que Trump teve de sair para resgatá-lo (um resgate que não teria existido se não estivéssemos na era da “internacional reacionária”). Mesmo esse resgate tinha elementos de instabilidade, porque estava condicionado ao triunfo eleitoral, triunfo que evidentemente o governo alcançou.
Os elementos de crise que vinham se arrastando foram analisados até a exaustão pelos meios escritos mais ou menos sérios nos últimos meses. A tarefa agora, com o resultado posto, é um exercício de análise ponderada, isto é, não impressionista ainda que realista, para aportar ao debate –entre a vanguarda e o jornalismo– sobre o balanço eleitoral e as perspectivas do país.
Abrem-se duas vias de análise que encerram os maiores interrogantes: a) as razões da “zebra eleitoral” mileísta; b) as perspectivas.
O primeiro é entender as razões de tamanho baque eleitoral; a mudança de frente eleitoral que acaba de se produzir novamente entre setembro e outubro e que rememora, de certo modo, o ocorrido com o primeiro triunfo eleitoral mileísta em agosto de 2023, ainda que com um governo mais desbotado e com menor conteúdo reacionário (ainda que tenha componentes reacionários, veremos adiante). A vertigem político, eleitoral e social na Argentina contemporânea poucos países podem emular, mas nem por isso é menos significativo. (A França, talvez, é o segundo país do Ocidente que vem na lista, embora com o problema de seus start and stop nos processos por seus reiterados feriados.)[4]
De todo modo, a polarização que impera em nível internacional, a crise e o adelgaçamento dos centros, o crescimento da extrema direita, assim como o “martelar” reiterado de novas ondas de rebeliões populares, é o que confere às circunstâncias internacionais tal volatilidade, ainda que não se consiga ainda ir mais longe ao nível de uma consciência anticapitalista consequente (falta ainda uma guinada na radicalização política, daí o possibilismo e o rotineiríssimo ambiente inclusive no seio da esquerda).
De todo modo, parece-nos que, para entender o resultado eleitoral do passado domingo 26/10, é preciso apreciar o choque de duas tendências de dimensões temporais diversas e que podiam ter-se cruzado nas eleições recentes, embora isso, evidentemente, não tenha acabado ocorrendo: uma tendência sincrônica e outra diacrônica, por assim chamá-las.[5]
A tendência sincrônica é, de certa forma, a que provém do clima reacionário dominante em nível internacional. O mundo está fortemente polarizado. Mesmo na ultimíssima conjuntura internacional apareceram mais elementos de resposta e explosão desde baixo. Contudo, a conjuntura internacional longa segue sendo reacionária, e esse contexto não pode ser escamoteado na hora da análise eleitoral (“A era da combustão”, esquerda web). O contexto internacional favorece inercialmente o mileísmo: a ajuda de Trump não vem do nada! E embora não exista qualquer aplicação mecânica disso em cada país, os planetas estão internacionalmente mais alinhados para que Milei vença do que para que saia voando pelos ares, ao menos no imediato.
Como se expressa essa tendência reacionária no resultado eleitoral? Ou seja: qual é, grosso modo, a expressão de classe do resultado eleitoral?
Essa pergunta é sumamente importante. Aqui vemos dois elementos, um mais difuso e outro mais marcadamente de classe.
Por um lado, quanto ao elemento difuso, é um erro afirmar, tão redondamente como Pablo Mendelevich, que se repetiu o fenômeno eleitoral do voto ultrarreacionário de 2023. Todas as circunstâncias aparecem hoje como mais “light”. Mas a migalha de verdade que tal asserção contém, e que está sendo apontada nas análises nestas horas, é que em determinados setores populares pesou um elemento conservador (somado ao qualitativo papel derrotista do peronismo, que veremos em seguida): “Prevaleceu mais o medo do desabamento econômico do que as razões ideológicas. Influiu também um peronismo envolto numa feroz disputa interna. Uma oposição sem uma ‘narrativa de futuro’ atraente, sem outra proposta que a de frear Milei” (Mariano de Vedia, La Nación, 28/10/25).[6]
O outro elemento é o especificamente de classe (além do atraso político que prevalece no interior do país, voltaremos a isso). Porque o fato é que o mileísmo engoliu todo o espaço do ex-JxC, que só alguns anos atrás chegou a ter milhões de votos.[7] As análises comparativas das eleições anteriores deste ano coincidem em que houve um deslocamento social do voto mileísta desde a faixa popular que obteve em 2023 para tornar-se monopólico entre as classes médias e altas (não é casual que Bullrich e Santilli, ex-PRO, tenham encabeçado as chapas na província e na Cidade de Buenos Aires).
Que as classes altas e médias-altas votem no mileísmo é uma obviedade (poder-se-ia dizer que vivem em Miami ou no Uruguai, como Galperín). Mas não é tão óbvio que entre as classes médias em geral o voto “progressista” tenha ficado em minoria e domine o elemento reacionário (deslumbrado, atrasado, recalcitrante, egoísta, etc., todos reflexos atávicos de proprietários e satisfeitos).
Parte da guinada reacionária internacional, de seu barômetro, é, por exemplo, como as classes médias sionistas giraram à extrema direita. Logicamente, este é um dado ultraminoritário na amostra eleitoral. Mas o fim da chamada “modernidade judaica” (Traverso) em benefício de uma guinada à extrema direita desse setor é, se quisermos, uma expressão do que vimos assinalando (entre as classes médias progressistas em geral incidem fenômenos de peso da época, como o possibilismo).
Não é casual, a esse respeito, que o mileísmo tenha se vestido, em sua emergência, de sionista raivoso, que encene o seguimento a um culto hassídico, e coisas assim de esotéricas (a seita hassídica é do pior que há no judaísmo por seu conservadorismo!).[8]
Os triunfos eleitorais da LLA em CABA, Córdoba, Santa Fé, Mendoza e Entre Ríos, as principais províncias do país, mostram o quanto giradas à direita estão as classes médias e o interior do país em geral, seu atraso conservador (atenção: à direita não quer dizer à extrema direita; trata-se de uma guinada que se moderou rumo ao centro-direita e que preferimos especificar como conservadora).[9]
2 – O peronismo como marechal da derrota
Essa tendência sincrônica, ainda dominante em nível internacional, com sua refração específica no nosso país, vinha nos últimos meses chocando-se com a outra, a que poderíamos denominar diacrônica, de bipolaridade, que cresceu dramaticamente ao calor das mobilizações de deficiência, saúde, educação, das trapalhadas da corrupção governista e seu lumpenagem, e que vai em sentido contrário: o ódio popular a Milei. Ódio popular em amplíssimos setores das e dos trabalhadores, da juventude, do movimento de mulheres e diversidade etc., que veio se expressando nas ruas, que foi recolhido de cima por Kicillof nas eleições de 7 de setembro, e que agora não entendem o que aconteceu no domingo passado…
Sendo as tendências sincrônicas e diacrônicas as que configuram a realidade total, e sendo que a etapa política mais geral reacionária vinha sendo questionada desde baixo, é evidente que isso deve conduzir a outro fator que foi o decisivo para entender o que aconteceu no domingo 26/10: que, no cruzamento de caminhos entre sincronia e diacronia, o mileísmo tenha se imposto.
É precisamente aqui que entrou o fator direção, fator que muitas análises interessadas ou oportunistas –objetivistas– costumam deixar de lado, algo que não pode nem deve ser feito, menos neste caso, em que houve uma mudança de frente tão rotunda que surpreendeu todos os atores! Recordemos que o fator direção é um elemento subjetivo, mas não menos importante em qualquer análise que não seja objetivista, ainda que deva ser colocado, efetivamente, em correspondência com fatores objetivos mais amplos como a economia, a geopolítica etc.
O concreto é o seguinte: Milei ganhou ou o peronismo perdeu? Não dá no mesmo a resposta que se dê a essa pergunta que, repetimos, causou surpresa em todos os atores, desde o mundo das finanças até as pessoas comuns.
Por nossa parte, opinamos categoricamente que a derrota eleitoral do domingo 26 tem nome e sobrenome: o peronismo. Ocorre que as tendências sincrônicas e diacrônicas assinaladas, nesta instância em que ainda não há transbordamento, só podiam ser unidas pelo peronismo.
E, no entanto, o peronismo jogou para perder a eleição, o que é evidente para qualquer analista com mediana inteligência: “O sonambulismo político dos kirchneristas é um obstáculo sério para o projeto do peronismo de regressar ao poder” (La Nación, 27/10/25). Até um editorialista reacionário como Morales Solá viu isso! E sonambulismo é um bom adjetivo porque, realmente, não queriam ganhar a eleição. E, logicamente, se não se quer ganhar a eleição, vai-se perder!
A ação do peronismo foi uma entrega de todo ponto de vista: a) seu objetivo expresso foi pela negativa, “frear Milei”, mas juramentando-se que era preciso aguentá-lo mais dois anos, uma espécie de convocatória ao abismo, porque todo mundo sabia a crise que se avizinhava e o PJ não estava disposto a oferecer uma alternativa; b) para piorar, quando se perguntava a seus não-candidatos por “propostas” ou “programa”, só conseguiam dizer que “ainda tinham que discuti-lo”; c) o pior de tudo: achataram as ruas desde setembro! Em seu discurso triunfalista ao final da jornada de 7/09, Kicillof estava tilintando com as palavras “as urnas, as urnas, as urnas” … Mais claro, impossível: esperar até 2027 com o país à beira do abismo.
Kicillof venceu as eleições provinciais com o programa que a rua levou ao Congresso (deficiência, educação e saúde). Mas depois jogaram-se numa longa soneca que se expressou inclusive na nula campanha eleitoral realizada pelo peronismo (tanto o peronismo quanto o FITU estão se acostumando a fazer campanhas eleitorais pós-modernas!).[10] O que ocorreu é que, somada à longuíssima soneca da CGT, as mobilizações diante do Congresso arrefeceram enormemente nas semanas prévias à votação de ontem; inclusive dentro do Congresso o peronismo baixou o ritmo de suas atividades e votações: em meio a um governo que desabava sem fim, não ofereceram qualquer alternativa salvo esperar mais dois anos![11]
Na interseção das tendências sincrônicas e diacrônicas, ou melhor, de polo reacionário e polo progressivo (porque, na realidade, ambas as tendências são estruturantes de toda a situação mundial e, sob formas específicas, no nosso país), os problemas de direção são decisivos, sobretudo quando a etapa reacionária ainda incide para que não haja uma irrupção independente desde baixo como as que costumam haver periodicamente na Argentina.
É lógico que o problema do peronismo é mais grave do que sua mera disputa interna por cargos e figurões, onde não se esboça diferença política de fundo alguma. Seu problema, esboçamos em notas anteriores, é de programa. Originalmente o peronismo foi um movimento nacionalista burguês: não uma burguesia para criar um país, mas um país (um Estado) para criar uma burguesia. Esse programa, com alguma vigência na segunda pós-guerra “mercado-internista”, esgotou-se histórica e factualmente há décadas. O desastre do terceiro governo de Perón há cinco décadas expressou isso de forma aguda.
Nos anos 90, Menem não teve problemas em subir na onda neoliberal, isto é, abandonou de maneira explícita o velho programa nacionalista burguês. E o que fez o kirchnerismo? Em seu apogeu, basicamente, geriu com uma pátina progressista a governabilidade questionada pela rebelião popular de 2001.
Mas à burguesia isso não basta: está ensaiando outras formas de governabilidade e, além do mais, a burocracia sindical é “peronista”, porém antes de tudo é uma instituição do Estado argentino; seu programa são seus próprios interesses de casta.
Assim são as coisas, se outras forças políticas podem assegurar a governabilidade ainda que aos trancos e barrancos, para que se quer o peronismo, que ainda por cima tem uma estrutura demasiadamente atada ao Estado, quando a burguesia internacional do Ocidente segue atada ao credo neoliberal privatista –outra coisa são os capitalismos de Estado do Oriente.
Como dizemos, o capitalismo de Estado funciona na China e até certo ponto na Rússia, mas a inanição econômica da Argentina não parece dar-lhe qualquer sustentação. Nem sequer o lulismo é isso, e sim outra variante mais light do neoliberalismo imperante no Ocidente.
Um partido à procura de um programa, sem propostas, pró-capitalista até a medula, com uma narrativa desbotada, que antes de tudo faz profissão de fé da governabilidade para recuperar a confiança do patronato, é evidente que não pode vencer uma eleição onde se joga uma aposta plena do trumpismo e do patronato: o mileísmo como sucessor bastardo do macrismo.
3 – O país do vertigem infinito
“Vodca, rum e cerveja no ar
Brindando do México até Buenos Aires
Com toda a máfia, o grupinho, a banda
Com dez brasileiras dançando samba
Estou gozando um montão
Um monte de garrafão de rum após garrafão
Em definição, um paraíso
(Gente vomitando no piso)
Isto é uma festa de loucos! (hey, hey, hey, hey)
Mas eu sou o único que não estou louco, eu sou o único que não estou louco”
(Calle 13, “Fiesta de locos”)
É nesse marco que se devem situar as perspectivas dos próximos meses. Os analistas burgueses já estão alertando Milei para que não se empolgue. Em definitiva, isto é a Argentina, um país em crise orgânica. É isso que explica, por exemplo, que no fechamento desta nota, passadas 48 horas de um triunfo eleitoral histórico do mileísmo e de um rally não menos histórico ,na segunda-feira 27/10, nos mercados (a recuperação da Bolsa de Comércio foi a maior em um dia em 30 anos), o dólar esteja, novamente, tocando o teto.
Cair-se-ia em erro se se relativizasse ao extremo o triunfo eleitoral mileísta. Mas tampouco se pode deixar de apreciar a fragilidade com que vinha até o dia anterior à eleição: como dissemos, a crise orgânica, estrutural do país, é o que faz com que pareça “um país de loucos”, esquizofrênico: um país que a cada 24 horas muda seu estado de ânimo.
Afirma Morales Solá: “(…) Milei cairia na irrealidade se não levasse em conta a fragilidade política, econômica e financeira com que chegou à primeira prova eleitoral desde que é presidente. Ganhou muito bem –quem poderia negá-lo–, mas a lassidão política era perceptível antes das eleições, quando nem mesmo no auge do oficialismo estavam seguros do resultado de ontem” (La Nación, 27/10/25). “Lassidão política” quer dizer que o governo tinha lançado a moeda ao ar e que ninguém podia predizer, não meses ou um ano atrás, mas no sábado passado, o futuro do governo.
Importa então entender o resultado eleitoral em função das perspectivas. Aqui podemos abordar vários elementos. O primeiro poderia ser o último, mas o colocamos em primeiro lugar de toda maneira:
- a) Trump é todo um exemplo de instabilidade e, ainda que seja o presidente da que ainda é a primeira potência mundial e Milei acaba de cumprir suas condições (“eu te ajudo se você ganhar”),[12] não é menos certo que o presidente ianque é um fator de instabilidade permanente em si mesmo: seu papel como presidente e suas tendências pessoais narcisistas e de showman se confundem permanentemente, o que confere um caráter altamente instável à sua gestão. Na realidade, sua personalidade reflete o lugar incômodo em que estão os EUA: uma hegemonia que se sustenta, porém “no limite”, para dizê-lo algo exageradamente; e estar no limite é, por si, instável.
- b) O segundo é que a crise global que arrastava o “plano” do governo não desaparecerá como por encanto por causa da eleição: o problema do atraso do câmbio persiste e está se expressando neste exato momento; os vencimentos do ano que vem por 18 bilhões de dólares estão aí e não desaparecerão magicamente; o ajuste fiscal pisa o investimento em infraestrutura e, de quebra, afeta a competitividade; inclusive, em si mesmo, o ajuste fiscal não é uma variável independente que resolva nada, nem sequer a inflação, que está atada a outros fatores, e assim sucessivamente: a crise do país é estrutural, arrasta-se há décadas, expressa-se na incapacidade de gerar divisas, na subinvestimento, na falta de competitividade, em que a Argentina parece, em muitos aspectos, um país fora da modernidade do século XXI, e isso é dificílimo de resolver com uma burguesia que –dito exageradamente para que se entenda o argumento– só pensa o país como lugar de saque e não como projeto (nossa campanha eleitoral foi praticamente a única que apresentou um diagnóstico sério da Argentina em nosso Manifesto Anticapitalista).
- c) O terceiro elemento, o mais importante, é o seguinte: uma eleição é uma fotografia do estado de ânimo social num momento determinado. Mas o problema é que os fenômenos eleitorais e os econômico-sociais, políticos e estruturais nem sempre se compaginam bem. O mais concreto é que, até agora, os dois anos de mileísmo não conseguiram resolver as relações de forças herdadas, não apenas de 1983, mas nem sequer as de 2001. O elemento bonapartista reacionário é o que mais tem fracassado até agora, sem que por isso, atenção, tenha-se fechado a etapa reacionária aberta em 2023. E o problema é que as exigências da acumulação capitalista no mundo de hoje em geral, e na Argentina em particular como parte deste mesmo mundo, isto é, que os capitais venham e fiquem, exigem precisamente acabar com essas relações de forças, que são no fundo, junto com os déficits estruturais irresolutos, o que faz da Argentina um país vertiginoso. É claro que quando Milei fala de que “agora vêm as reformas de segunda geração” em alusão às contrarreformas trabalhista, previdenciária e fiscal, ou em alusão a umas sessões extraordinárias com uma “lei de bases” bis, ao que ele está se referindo é a isso. Mas, apesar da imensa traição da CGT e do peronismo, não parece que vá ser tão simples, por exemplo, impor a enormidade de uma jornada laboral legal de 12 horas universalmente, ou aumentar a idade de aposentadoria para 65 ou 70 anos, sem que o país exploda! Milei pode vencer eleições surpreendendo meio mundo. Mas a ginástica mobilizadora que se expressou no primeiro semestre de 2024 e que voltou a se expressar mais ou menos no mesmo período de 2025 está aí, assim como a lembrança de Macri vencendo as eleições em outubro de 2017 e despertando a besta apenas dois meses depois…
A fragilidade estrutural da Argentina capitalista sempre a fundamentamos no seguinte (algo muito próprio do nosso país): o choque estrutural de uma sociedade moderna, urbana, relativamente industrializada, assalariada apesar da precariedade laboral e da miséria salarial, com enormes movimentos de juventude, de mulheres, lgbt, de desempregados, com uma classe operária ainda altamente sindicalizada, com relativamente alto nível cultural, com uma ampla sociedade civil, com centralização em CABA e GBA, com um peso relativamente importante da esquerda na ampla vanguarda etc., versus uma infraestrutura econômica e social que desaba por falta de compromisso burguês com o desenvolvimento do país.
No fundo, essa é a principal aporia que atravessa a Argentina: sua crise orgânica. No imediato, claro, caberá ver que acordos se tecem e como se ordenam para a batalha que eles mesmos anunciam: as contrarreformas, que colocarão sobre a mesa outros atores sociais que não estiveram nas eleições (por exemplo, os sindicatos). Além de que não se resolve por encanto que o câmbio siga atrasado, que a inflação esteja reprimida, que a infraestrutura nacional esteja em ruínas, que o salário seja uma miséria, que não se consiga chegar ao fim do mês, que amplas zonas do país se inundem periodicamente e que, para cúmulo, comece a pesar uma possível recessão… [13]
Fala-se de certa “maldição” das eleições de meio termo para o peronismo. Mas também se poderia falar dos triunfos eleitorais do menemismo, do macrismo ou –também do mileísmo?–, que poderiam chocar-se contra a parede de uma crise social insuspeitada nas horas posteriores ao triunfalismo.
Será assim? Impossível antecipar. O certo é que se vinha de uma crise tamanha que incluía, de maneira certa, a possibilidade de que o governo não pudesse se sustentar, de tamanha fragilidade, que uma eleição, por mais exitosa que seja, não pode apagar do mapa todos esses elementos estruturais, e algo mais de fundo: que as relações de forças não terminam de provar-se e, nas condições do capitalismo neoliberal subsistente, impedem a acumulação capitalista tal como ela é hoje, em pleno século XXI.
Em 2023 abriu-se uma janela de oportunidade para que a burguesia tentasse derrotar o movimento de massas, fazendo da Argentina um lugar onde a acumulação capitalista possa voltar. O derrotismo do peronismo fez com que essa janela de oportunidade siga aberta sob Milei, mas daí a concretizá-la há um longo trecho que eventualmente se verificará nos choques de classe que estão por vir.
4 – Pós-escrito: o balanço da esquerda
Fecharemos esta nota com o balanço da campanha da esquerda. Esse balanço deve ser dividido em dois: a) a campanha propriamente dita e b) os resultados. Faremos isso sumariamente porque o texto nos saiu demasiado longo e, além do mais, apresentaremos em nosso portal notas específicas a respeito.
A questão tem pano para manga demais, porque a esquerda revolucionária na Argentina tem um papel que praticamente não tem hoje em outras latitudes. Tanto as forças do FITU quanto nosso partido, o NMAS, conservamos a independência de classe, algo que não se pode afirmar nem do PSOL no Brasil nem do NPA na França: as pressões à adaptação nas condições de uma situação mundial muito rica, mas também muito complexa, são enormes.
Agora bem, há formas de adaptação mais sutis, que são as que se expressam na esquerda argentina. Remetendo-nos às correntes mais importantes, o PO, o PTS e nosso partido, podemos afirmar o seguinte. O PO derivou num projeto de curto prazo que teve hipóteses erradas: a aposta estratégica no movimento piqueteiro mostrou-se equivocada. Ao mesmo tempo, carece de toda elaboração teórico-política, de todo balanço da ruptura pela metade de seu partido, de falta de corrente internacional e, para cúmulo, vive na prisão de um FITU dominado até os ossos pelo PTS, uma corrente rival salvo si se fundissem (o que não parece ser o caso).
O PTS teve mais vitalidade, mas acumula heranças cada vez mais dramáticas: em vez de ser uma organização de vanguarda com expressão eleitoral, está se transformando numa organização eleitoralista com expressão em setores de vanguarda; não é a mesma coisa. Tem elaboração internacional e constrói uma corrente internacional, mas a rigidez de sua elaboração estratégica, a falta de balanço do século passado, em particular o estalinismo, tudo isso está lhe cobrando a conta. Sua base não milita e não gosta de militar! E sua adaptação eleitoralista é tão insensível que se expressa no rotineiríssimo de ações que realizam sem pensar: até Grabois, copiando-nos, tomou o eixo de que os deputados do PTS não voltam a trabalhar! Cada ângulo que podemos tomar de sua atuação é assim, igualmente rotineiro: se o peronismo careceu de propostas, o FITU comandado pelo PTS foi um decalque: não propôs nada salvo a autorreferência!
Diante da falta de propostas, saíram com a conversa de que eles “não fazem promessas”. Mentira em dobro: a) no apogeu do FITU, até para dor de cabeça afirmavam que a solução era “nós, a esquerda”; b) a proposta anticapitalista do nosso partido de salário mínimo de 2 milhões é evidentemente isso: uma proposta, jamais dissemos que seria uma promessa, e sim uma medida para ir fazer um escândalo nacional no Congresso (Congresso onde, além do mais, a gestão do FITU em 14 anos é rotineira; se alguém perguntar o que fazem lá, ninguém poderá responder com uma única ação que seja lembrada).
Tudo isso se expressou no rotineiríssimo de sua campanha: que ideias novas introduziram, o que expressaram das reivindicações de baixo, que programa hastearam? Nenhum. Ocorre que as circunstâncias são ainda tão conservadoras, tão carentes de radicalização, tão cheias de possibilismo que, é verdade, ninguém lhes exige nada (mantiveram os votos em CABA e província, embora tenham perdido muitos no interior do país).
Além disso, o FITU não é uma verdadeira frente, porque todas as posições e as candidaturas são monopolizadas pelo PTS.
Por nossa parte, a dinâmica cotidiana do NMAS é a oposta: enorme militância de base, enorme espírito militante, fizemos uma campanha eleitoral enorme que pode ser referenciada em torno de uma proposta e de um perfil: nosso partido colocou sobre a mesa o anticapitalismo, o questionamento ao sistema, quando domina o ultracapitalismo; colocamos sobre a mesa a discussão do salário mínimo de dois milhões afetando os lucros capitalistas, apresentamos um Manifesto Anticapitalista, isto é, um programa integral para o país partindo da hegemonia da classe operária e da perspectiva do governo operário e do socialismo.
Além disso, contra vento e maré e realmente com pouquíssimos recursos (não como a mentira demagógica do PTS que está inundado de recursos!), liderados pelos esforços imensos de Manuela Castañeira, do resto de nossas figuras e de toda a militância e direção, fizemos uma campanha eleitoral imensa, esforçadíssima, criativa, cheia de ideias e riqueza, de frescor da militância juvenil e trabalhadora que vem de baixo, indo a centenas de programas e apresentando-nos numa eleição difícil, com os principais distritos com 15 listas ou mais, competindo com uma frente de quatro partidos que está instalada e com representação parlamentar há mais de década e meia, e obtendo ainda assim valiosíssimos 100.000 votos, um piso que, a despeito de todos os pesares, logramos manter!
Myriam Bregman mentiu descaradamente quando, no programa de Diego Schurman, afirmou que o NMAS não está no FITU “porque não quer” … O que não queremos e nos parece inaceitável não é a unidade tática eleitoral da esquerda, que nos parece valiosa: não aceitaremos jamais não poder ter protagonismo na campanha eleitoral, entregar nossa independência política a um aparelhinho que se crê Gardel e Lepera e que, cada vez, exige mais e milita menos.
Orgulhosos de nossa enorme campanha eleitoral, é hora de sair a colher construtivamente o realizado e manter claras nossas perspectivas: construímos nosso partido como uma organização revolucionária, não uma seita, que mantém o rumo diante das grandes perspectivas estratégicas: as perspectivas de um giro anticapitalista revolucionário em nosso país e no mundo.
[1] O elemento estatístico remete a que, nas eleições, os elementos mais dinâmicos, sempre uma vanguarda da sociedade, ficam dissolvidos no elemento conservador. Daí que, em geral, a democracia burguesa seja tão útil aos aparelhos, para não esquecermos que as próprias eleições, por sua amplitude, pelas camadas sociais de massas que envolvem, são quase invariavelmente o império dos aparelhos grandes ou “pequenos”. Daí que a forma de representação por antonomásia da ditadura do proletariado não seja o voto universal, mas a democracia direta soviética que produz o efeito inverso: o mais avançado domina sobre o atrasado. [2] É interessante que, longe do impressionismo, Mendelevich assinale que “Milei (…) está muitíssimo melhor do que antes, mas igualmente deverá lidar com um peronismo também robusto” (La Nación, 27/10/25). [3] No total provincial, os 14 pontos que os libertários mais os “amarelos” recuperaram totalizam 800.000 votos (dados de Nicolás Cassese, La Nación, 28/10/25). [4] Sendo um país que, acredite-se ou não, ainda tem 30% de sua população em zonas rurais e com tamanha tradição camponesa, parece que o ritmo descontínuo da atividade agrária segue marcando-o, configurando uma espécie de “antropologia política” específica de suas tradições. [5] O sincrônico remete à análise estrutural (simultânea) em tempo real, e o diacrônico à análise histórica, evolutiva. [6] A grande diferença com 2023 é que lá fez-se valer o elemento reacionário, e aqui o que vemos, antes, é um elemento conservador, que não é o mesmo, para além do reacionarismo e do “emburrecimento” das classes médias-altas, que veremos (a perda de nível cultural e o deslumbramento de todo um setor das classes médias-altas é impactante, um sintoma dos tempos que correm; toda uma “antropologia” de seu imaginário mercantilizado –viver para ter– e de seu rebaixamento cultural aos subsolos de “ricos e famosos”). [7] A todas as expressões de “centro-esquerda” do ex-JxC, como os radicais republicanos, Elisa Carrió etc., foi-lhes muito mal nestas eleições. [8] A guinada à extrema direita do Estado sionista é parte disso. [9] Seguramente teremos todas as análises dos “marxistas cabeçudos”, teóricos do “crescimento da extrema direita internacional”, chorando pelo triunfo eleitoral do mileísmo; à sua maneira impressionista e superficial habitual, perdem de vista a fragilidade que o mileísmo exibe apesar de tudo, e, além disso, que se passou do elemento de extrema direita de dois anos atrás ao conservador de hoje. [10] A falta de militância de ambas as forças é patética! [11] O próprio intendente de San Martín, que veio saudar Manuela Castañeira durante uma caminhada de campanha, apresentou-lhe um panorama sombrio afirmando: “pena que está tudo negro porque é preciso esperar até 2027”; assim é impossível vencer uma eleição, e mais quando Milei tem, sim, programa! [12] Na realidade, o Tesouro ianque ajudou na semana passada para que o tipo de câmbio não se desbordasse totalmente, vendendo 2 bilhões de dólares. Talvez a nova corrida que se vive agora seja porque decidiram aceitar a desvalorização agora que o resultado eleitoral está posto (o governo disse que manterá as bandas cambiais, mas isso é impossível saber com certeza em meio ao secretismo que caracteriza as negociações diplomáticas com Trump). [13] O das inundações nos escapou mais acima nas análises, mas tem duas consequências: a) ocorreram recentemente duas inundações importantes na província de Buenos Aires, Bahía Blanca há alguns meses e no sábado passado na zona oeste e noroeste da Grande Buenos Aires; b) sendo domínios de Kicillof, talvez tenha havido um voto castigo cruzado contra o governo provincial, porque os desastres da Grande Buenos Aires e do interior provincial são de sua jurisdição. Qual seria o “freio a Milei” que o PJ encarna na província quando aplica o mesmo ajuste que em nível nacional?










