Por VICTOR ARTAVIA

Situação internacional

Basta olhar a capa de qualquer jornal para perceber que entramos em um novo momento da luta de classes que, além de ser mais duro e sangrento, também contém o potencial retorno das revoluções sociais no século XXI.

A brutalidade da nova etapa e suas tendências aos extremos já está provocando fenômenos disruptivos e radicalizados por baixo. Como costumamos dizer em nossa corrente, a sociedade é um corpo vivo que reage diante aos ataques.

Por isso, nos jornais já não aparecem somente as bravatas de Trump ou a brutalidade genocida de Netanyahu; agora, também surgem as notícias da “Geração Z” (com a bandeira do “Chapéu de Palha”) derrubando governos autoritários e corruptos, ou da histórica greve na Itália em solidariedade a um povo colonizado e submetido a um genocídio.

Neste texto, revisaremos as principais coordenadas políticas da situação internacional, traçando uma diagonal entre os elementos de tipo estrutural e outros de natureza mais conjuntural. Por fim, indicaremos alguns eixos ou critérios que consideramos fundamentais para orientar a intervenção militante no momento atual.

1 – A era da combustão

Antes de entrar nos detalhes da conjuntura, é pertinente lançar um olhar sobre o panorama geral, a fim de captar as coordenadas globais que permitem compreender o mundo em que estamos.

Como assinalamos em outros artigos, ao longo dos últimos anos acentuaram-se todas as contradições latentes no capitalismo do século XXI (ver Una lucha de clases más radicalizada). Por onde quer que se olhe, a “ordem mundial” apresenta numerosas “linhas de falha” que minam sua legitimidade.

De fato, “crise” é a primeira palavra que nos vem à mente quando pensamos no estado da economia, da ecologia, do trabalho ou da política internacional, para citar alguns exemplos. Isso, inevitavelmente, gera uma situação de constante instabilidade, potencializada pela interação entre essas crises, já que cada uma se retroalimenta das outras. É o que muitos analistas classificam como uma crise multidimensional ou “policrise” do capitalismo (ver La policrisis, de nuevo).

Nesse marco geral, em um texto recente de nossa corrente, indica-se que ingressamos em uma “era da combustão”, isto é, um mundo no qual se rompeu o equilíbrio internacional e impera um “caos sem ordem à vista”. Ficou para trás a etapa da “ordem consensual hegemônica” e, em contrapartida, atualmente as potências imperialistas se enfrentam como “valentões” pela partilha dos territórios a serem espoliados:

“(…) ao imperialismo da globalização impôs-se outro tipo de imperialismo: o da territorialização. Ao capitalismo do mais-valor relativo impôs-se outra lógica, para dizê-lo redondamente, a do mais-valor absoluto. Ao capitalismo da acumulação especificamente capitalista (isto é, sem elementos extra econômicos) impõe-se, ou se agrega, a ‘acumulação primitiva’ (a acumulação por meios violentos, por exemplo, pela apropriação de territórios, como diria Marx em sua teoria da renda agrária e minerária, de porções da atmosfera e até do cosmos). Ao capitalismo da exploração soma-se o da espoliação, dos recursos naturais e dos seres humanos.” (SÁENZ, 2025).

Em decorrência disso, a etapa atual caracteriza-se pela agudização dos conflitos geopolíticos e pelo retorno do imperialismo da territorialização. A corrida armamentista, a disputa pela configuração de esferas de influência — ou “espaços vitais” — e o recurso à força militar para resolver as controvérsias são algumas de suas manifestações.

Trata-se de um “capitalismo da finitude”, dentro do qual as burguesias imperialistas e suas sócias menores (sub-imperialistas ou potências regionais) avaliam que não há espaço para o crescimento e, portanto, a depredação dos recursos existentes é a melhor forma de manter ou melhorar sua posição. Em outras palavras, reabriu-se uma nova partilha do planeta manu militari.

Na transição rumo a esse “novo mundo”, passa-se com cada vez mais facilidade da brutalidade das palavras à brutalidade dos fatos. A barbárie e a reação são fenômenos cada vez mais visíveis, dos quais o genocídio em Gaza é o acontecimento mais ilustrativo. Junto a isso, as instituições que regimentaram o sistema capitalista desde a segunda pós-guerra estão enfraquecidas ou em franca decadência. Por exemplo, a Organização Mundial do Comércio, na prática, perdeu sua capacidade de arbitrar o comércio internacional desde 2 de abril, quando Trump anunciou sua guerra tarifária no marco do “Dia da Libertação”.

O exposto não deve ser interpretado em chave determinista ou catastrofista, pois o capitalismo não vai ruir de forma inercial [1]. Tampouco deve ser utilizado para justificar enfoques derrotistas e unilaterais, nos quais se superdimensionam os fatores adversos a fim de justificar a capitulação e o possibilismo [2]. Pelo contrário, deve servir-nos para compreender algo muito importante: quando a velha ordem entra em crise, intensifica-se a batalha política para delinear os contornos do novo que está por emergir.

Em outras palavras, o signo político do que virá se definirá na luta de classes. É necessário ampliar o olhar e, tal como fez Lenin em meio à Primeira Guerra Mundial, aprender a identificar, em um cenário adverso, os pontos de apoio para a ação revolucionária. O mundo é mais rico do que parece ao assistir aos noticiários ou ler os jornais saturados de disputas geopolíticas por cima. Embora a polarização seja assimétrica e o polo reacionário predomine em escala internacional, também há vida por baixo — e a luta de classes continua.

A reversibilidade dialética está inscrita como uma potencialidade na etapa atual da luta de classes. Os golpes reacionários e autoritários podem desencadear respostas por baixo em sentido oposto. As situações de ruptura e crise, como a atual, são também o momento em que ocorrem as mudanças de qualidade, isto é, quando podem surgir as novas revoluções sociais do século XXI.

A brutalidade e a barbárie não permanecem indefinidamente sem resposta. As sociedades são “corpos vivos”, compostas majoritariamente por pessoas exploradas e oprimidas que, em determinado ponto do caminho, resistem aos ataques e exigem melhores condições de vida. De fato, o genocídio em Gaza é um exemplo disso, dado que a barbárie planificada do sionismo desatou uma onda mundial de repúdio que se materializou em uma nova etapa de mobilizações em solidariedade ao povo palestino e contra a ocupação colonial de Israel (algo que já está acontecendo, como veremos mais adiante).

2 – Trump-Netanyahu: o eixo da extrema direita com muitos claros-escuros

Sem lugar a dúvidas, a emergência da extrema direita é um dos traços mais disruptivos da situação internacional. O governo de Jair Bolsonaro no Brasil (2018–2022) foi um prenúncio disso. Mas o processo de “extrema-direitização” deu um salto qualitativo com a segunda administração de Donald Trump nos Estados Unidos, que convergiu com a versão mais radicalizada do sionismo sob o gabinete fascista liderado por Netanyahu.

Ambos passaram a conformar o “eixo” da extrema direita internacional (não isento de tensões em sua relação) e, em consequência, são a “mão visível” da nova geopolítica mundial, sustentada em uma lógica cada vez mais territorial e militarizada. Em outras palavras, Trump e Netanyahu comportam-se como verdadeiros “valentões de bairro” ou, melhor dizendo, como terroristas de Estado, que fazem valer seus interesses no mundo mediante o uso da força militar.

Em torno desse dueto gravitam outros aliados menores. É o caso de Milei, na Argentina, embora seja claramente o elo mais fraco da corrente, a ponto de não conseguir aplicar integralmente seu plano de ajuste e, nos últimos meses, seu governo ter entrado em uma espiral de crise e escândalos por casos notórios de corrupção, além de ter sofrido derrotas nas ruas e duros reveses no Congresso. Inclusive, recentemente o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, teve de socorrer Milei para evitar que ele afundasse.

Por outro lado, a situação também não é fácil para os líderes da extrema direita. Trump, por exemplo, sofreu uma derrota parcial em Los Angeles há alguns meses, quando uma semi insurreição popular da população latina o obrigou a retroceder — temporariamente — nas batidas racistas e xenófobas da ICE naquele estado (ver A batalha de Los Angeles: “a raça” se levanta contra a Casa Branca).

Do mesmo modo, as pesquisas começam a mostrar um desgaste de sua gestão, algo que pode ser um mau presságio para as eleições de meio de mandato do próximo ano. De acordo com o levantamento realizado pela Reuters/Ipsos entre 19 e 21 de setembro, o magnata obteve uma aprovação de 41% dos entrevistados (1% a menos que no início do mês), enquanto a desaprovação alcançou 58%.

Ao detalhar os números, percebe-se que a principal preocupação é a situação econômica, pois 54% opinaram que o país está no caminho errado. É um tema sensível, dado que Trump se apresentou como o candidato que iria dinamizar a economia, que durante a administração Biden teve um desempenho medíocre. Por exemplo, o crescimento do emprego foi raquítico em agosto e, por isso, a taxa de desemprego subiu para 4,3% (o nível mais alto dos últimos quatro anos), em grande medida como consequência da guerra comercial impulsionada pela Casa Branca.

Com relação à política migratória, o estudo de opinião revelou que obteve 42% de aprovação (era 50% em fevereiro), sendo o aspecto mais bem avaliado de sua gestão. Em todo caso, é um tema que gera muita polarização, já que 53% a desaprovam e, nas últimas semanas, aumentaram os ataques contra instalações da ICE em vários estados.

De todo modo, é inegável que a atual administração norte-americana tenta avançar no cerceamento das liberdades democráticas e no endurecimento do regime político. Denota uma tendência autoritária, com ataques sistemáticos à liberdade de pensamento e à pesquisa científica nas universidades, assim como a instrumentalização da justiça para perseguir seus rivais políticos e opositores.

Da mesma maneira, Trump fez da militarização um dos pilares de sua segunda administração. Em um artigo recente, The Economist destacou que as tropas destacadas em Washington D.C. para “combater” o crime, na realidade, estão localizadas em algumas das zonas mais seguras da capital norte-americana e, portanto, se dedicam a recolher lixo ou tirar selfies com os turistas que o solicitam.

No entanto, sua mera presença representa um fato disruptivo, pois contradiz a tradição do país de restringir o uso das forças armadas internamente. Trump “está pondo à prova os limites da lei, a moral das forças armadas e uma tradição de apoio bipartidário a essa instituição, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos”.

Segundo os analistas, isso confirma que a Casa Branca está implementando uma mudança na estratégia de defesa, cujo foco passou da Europa e Ásia para concentrar-se no hemisfério norte e na segurança interna.

Apesar disso, Trump realizou um “gesto hegemônico” com sua mediação para que Israel e Hamas assinassem um cessar-fogo. Em outra nota da Esquerda Web analisam-se os pormenores desse plano; em nosso caso, queremos apenas destacar que o presidente norte-americano se distanciou parcialmente da lógica internista do movimento MAGA e empregou esforços para mediar um conflito internacional, tentando posicionar os Estados Unidos como uma potência capaz de “colocar ordem na casa” — e obteve o respaldo de praticamente todo o (fragmentado) establishment imperialista com seu “acordo de paz”.

No caso de Israel, trata-se de um projeto de Estado colonial que carrega uma enorme crise de legitimidade em nível internacional. O genocídio lhe saiu caro e, como apontam vários especialistas, o sionismo já gastou todo o “crédito do Holocausto” com o qual se apresentava como eterna vítima para justificar a colonização e segregação do povo palestino.

Agora, pelo contrário, é visto como o algoz e perdeu o apoio de amplos setores da população judaica internacional, inclusive nos Estados Unidos. Israel converteu-se em um Estado pária, uma posição da qual levará uma ou duas gerações para se recuperar — se é que conseguirá —, dado que a ocupação sionista continua e novos episódios de violência colonial (e resistência anticolonial palestina e internacional) virão.

A geopolítica do trumpismo (secundada por Israel como potência regional) reflete um retorno à lógica da territorialização imperialista com áreas de influência. A atuação de Trump assemelha-se à de um aprendiz de feiticeiro que, de forma caótica e atropelada, tenta mudar abruptamente a ordem das coisas; quer configurar um mundo novo à imagem e semelhança de seus anseios políticos.

3 – A praça contra o palácio

Em março passado, em um artigo no qual analisamos a explosão social contra o governo de Erdogan na Turquia, questionamo-nos se estava em curso uma nova onda de rebeliões populares a nível internacional, desta vez com epicentro na Europa Oriental e na Ásia. Não nos interessa oferecer uma resposta taxativa, mas sim mostrar que, no último ano, acumularam-se elementos que apontam nessa direção.

Em agosto de 2024, por exemplo, a juventude protagonizou uma rebelião popular em Bangladesh que derrubou o governo autoritário liderado pela então primeira-ministra Sheik Hasina. Igualmente, em dezembro do mesmo ano, fracassou a tentativa de autogolpe de Estado na Coreia do Sul, devido às multitudinárias mobilizações espontâneas que provocaram a saída do presidente ultradireitista Yoon Suk-yeol.

Do mesmo modo, na Sérvia, o movimento estudantil protagonizou uma série de mobilizações históricas contra o governo autoritário de Aleksandar Vučić, às quais se somam os protestos multitudinários na Hungria contra os ataques reacionários de Orbán à população LGBTQ+.

No Cone Sul latino-americano, o governo de Milei, na Argentina, perdeu o controle das ruas em várias ocasiões ao longo do ano. Em Buenos Aires, capital do país, realizaram-se diversas marchas multitudinárias contra seus ataques reacionários (1F e 24M – 1º de fevereiro e 24 de março, data das mobilizações), assim como uma jornada em solidariedade aos aposentados que teve elementos de transbordamento e enfrentamentos com a polícia (12F – 12 de fevereiro).

No caso do Brasil, em 21 de setembro realizaram-se várias mobilizações multitudinárias contra o projeto de anistiar Bolsonaro e os acusados de participar da trama golpista de 8 de janeiro de 2022. É um dado de enorme relevância, já que, durante os últimos anos, os bolsonaristas monopolizaram as ruas do gigante sul-americano, o que foi facilitado pela política de contenção e conciliação de classes do lulismo [3]. Além disso, no país desenvolve-se um rico processo de organização dos entregadores por aplicativos, do qual nossa corrente faz parte orgânica e desempenha um papel de codireção no processo.

Por último, mas não menos importante, nas últimas semanas ganhou destaque o fenômeno da “Geração Z”, devido à simultaneidade de vários levantes sociais e mobilizações protagonizados por jovens nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010. De acordo com pesquisas sociodemográficas, compartilham vários traços em comum, como o fato de serem os primeiros nativos digitais em cem por cento (ou seja, cresceram com o celular na mão), e as redes sociais constituírem sua principal fonte de informação.

Além disso, compartilham o chamado “descontentamento Z”, expressão cunhada para designar seus problemas sociais, como a precarização do trabalho, os baixos salários e o alto custo das moradias e dos aluguéis — uma combinação cuja consequência é o aumento da idade de emancipação.

A Geração Z foi protagonista das rebeliões e levantes populares no Nepal, Indonésia, Marrocos e Madagascar, onde saíram massivamente às ruas para enfrentar seus governos e a corrupção. Um dado curioso é que, em todos esses casos (assim como em mobilizações em outras partes do mundo), os jovens empunharam a bandeira do anime One Piece, que se transformou em símbolo de resistência.

Esse detalhe não deve passar despercebido, pois reflete as tendências à internacionalização das lutas, que costumam se expressar por meio de símbolos e signos de resistência. O lenço verde da luta pelo aborto legal na Argentina ou a bandeira palestina são outros dois exemplos disso.

Como assinalamos anteriormente, a reversibilidade dialética está inscrita como uma potencialidade na etapa atual da luta de classes. Os golpes reacionários podem desencadear respostas radicais por baixo. Uma lição que a esquerda revolucionária deve ter presente para situar-se no mundo atual e não incorrer em análises unilaterais que, inevitavelmente, conduzem ao pessimismo e ao ceticismo diante da luta de classes (ver Sobre Lenin, Hegel y la dialéctica del siglo XXI, de Roberto Sáenz, para aprofundar o tema).

4 – A greve italiana pela Palestina e o retorno da utopia

Por outro lado, a greve geral por Gaza, realizada no último 3 de outubro na Itália, pode ser considerada um acontecimento de dimensões históricas e, por esse motivo, optamos por abordá-la com especificidade.

Foi uma jornada de massas protagonizada pela classe trabalhadora e pela juventude estudantil de um dos principais países da Europa Ocidental (epicentro histórico do imperialismo), em repúdio ao genocídio perpetrado por Israel contra um povo colonizado no Oriente Médio. Segundo estimativas dos organizadores, o movimento contou com o apoio de 60% das bases sindicais e mobilizou mais de dois milhões de pessoas que participaram de marchas, bloqueios de estradas e ocupações de estações de trem. O movimento foi particularmente forte entre trabalhadores e trabalhadoras de centros educacionais, fábricas metalúrgicas, logística industrial, portos e transporte público.

Esses números demonstram a envergadura quantitativa do movimento, mas não bastam para qualificá-lo como histórico. Para isso, é necessário somar um aspecto qualitativo que revela sua novidade: tratou-se de uma greve política (não economicista), massiva, disruptiva e internacionalista.

Foi uma ação de massas a partir da unidade operário-estudantil, impulsionada pela solidariedade com um povo oprimido. Baseou-se em uma postura universalista e internacionalista diante dos problemas mundiais, o que representa uma contratendência (e um desafio radical pela esquerda) ao particularismo provinciano e ao nativismo xenófobo da extrema direita.

Por esse motivo, afirmamos que representou um retorno da utopia à luta de classes. A esse respeito, foi muito aguda a reflexão sobre a greve feita por Andrea Rizzi, correspondente de assuntos globais do jornal El País, da Espanha — que não pode ser acusado de “marxista”:

“Uma greve por Gaza é algo diferente. É algo que vem elevar a tocha das utopias. Foram soterradas décadas de suposto fim da história, de reformismos miseráveis, de realismos cínicos, de individualismos patéticos, de redes supostamente sociais e efetivamente fragmentadoras, de partidarismos de voo galináceo. Não é trivial que o grande protesto italiano tenha sido mobilizado pelos velhos sindicatos, símbolos de mecanismos de intermediação, de conexões humanas e tangíveis, de redes solidárias de resistência. Eles também cometeram erros, mas, embora enfraquecidos, ainda estão aí — e podem ativar coisas assim.” (RIZZI, 2025).

Além disso, é fundamental analisar a forma como esse movimento foi construído, pois revela um processo gradual de politização e conscientização na vanguarda operária italiana, que convergiu com o repúdio mundial à barbárie sionista em Gaza.

Isso ficou evidente em 22 de setembro, quando foi realizada outra grande greve sob o lema “Bloqueemos tudo com a Palestina no coração”, que, segundo informou a imprensa internacional, se estendeu por mais de oitenta cidades em solidariedade à flotilha humanitária Global Sumud e exigindo que o governo de Meloni reconhecesse o Estado palestino. Em Roma, capital do país mediterrâneo, registrou-se uma marcha de cem mil pessoas naquele dia.

A greve de setembro foi organizada pela Unione Sindacale di Base (USB), um sindicato de base abertamente crítico das federações sindicais tradicionais e burocráticas. A USB uniu forças com um crescente movimento de solidariedade à Palestina, composto por muitos trabalhadores e jovens migrantes de países árabes, bem como por estudantes universitários e secundaristas italianos.

Dado o enorme apoio à causa palestina entre as bases sindicais, a burocracia da Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL, a maior do país) tentou manobrar, convocando de última hora uma greve para o dia 19 de setembro, com o objetivo de esvaziar a convocatória da USB, programada para três dias depois. Felizmente, o tiro saiu pela culatra, pois as bases sindicais não caíram na armadilha e optaram por responder à convocação da USB.

Além do sucesso da greve de setembro, o movimento de solidariedade à Palestina se fortaleceu após o ataque de drones sionistas à flotilha humanitária em 1º de outubro. Ao tomar conhecimento da notícia, ocorreram mobilizações espontâneas em várias cidades do país, anunciando que a jornada de 3 de outubro seria ainda maior. A pressão foi tamanha que a CGIL teve de somar-se à convocatória da USB — um sintoma de que a burocracia sindical foi desbordada pela esquerda.

A greve também desafiou a primeira-ministra Giorgia Meloni, que lidera um governo de direita nostálgico do “mussolinismo” e figura entre os principais aliados internacionais do sionismo. De fato, a Itália é o terceiro maior vendedor de armas a Israel, superada apenas pelos Estados Unidos e pela Alemanha. Diante do aumento dos protestos em solidariedade à Palestina, Meloni endureceu as leis, impondo sanções penais às manifestações sociais, incluindo protestos contra a guerra e o rearmamento.

Por tudo isso, insistimos em qualificar como histórica a greve de 3 de outubro, cujo eixo central foi a luta contra o genocídio na Palestina com métodos disruptivos, desbordando pela esquerda a burocracia sindical e as ameaças repressivas do Estado burguês.

Uma visão semelhante é expressa por Josh Lees, militante de esquerda australiano que participou da greve e escreveu uma crônica bastante sugestiva sobre o movimento, que qualificou como um “mar infinito de humanidade”:

“A greve geral de 3 de outubro é uma conquista incrível e talvez sem precedentes. Uma greve puramente política e geral, realizada com uma participação massiva e ativa, como resultado de um movimento crescente desde baixo, que foi declarada ilegal pelo governo italiano, sem qualquer apoio real por parte da oposição oficial do establishment político; e tudo isso por uma causa internacional que aparentemente não afeta diretamente os trabalhadores italianos. E não se trata de qualquer causa internacional, mas da dos palestinos, um povo sistematicamente demonizado e desumanizado como terroristas islâmicos.” (LEES, 2025).

Em um artigo anterior, referimo-nos a Gaza como um acontecimento histórico que, além de conter a brutalidade própria de todo genocídio, também parecia sinalizar a abertura de uma “nova era dos extremos” no século XXI, ou seja, do enfrentamento direto entre revolução e contrarrevolução. Pois bem, a greve geral pela Palestina na Itália é o reverso utópico e revolucionário do genocídio; é uma resposta pela esquerda, disruptiva, internacionalista e com centralidade da classe trabalhadora à barbárie planificada que o colonialismo sionista comete com a cumplicidade do imperialismo.

Daniel Bensaïd, em referência ao conceito de utopia formulado por Ernst Bloch, lembrava que todos os movimentos de libertação são guiados por uma “vontade utópica” que atua sobre o “campo da esperança”, com a perspectiva de conquistar um “ainda-não”, ou seja, construir um novo mundo livre da exploração e da opressão do presente:

“Assim, a categoria do Utópico possui, portanto, junto a seu sentido habitual e precisamente depreciativo, este outro sentido que, longe de ser necessariamente abstrato ou de desviar-se do mundo, está centralmente preocupado com o mundo: com o de superar o curso natural dos acontecimentos.” (BENSAÏD, 2008).

Em resumo, a greve por Gaza na Itália nos recordou aquela frase icônica de maio de 1968:
“La beauté est dans la rue” — “A beleza está nas ruas.”

5 — Um mundo em combustão, mas também em disputa

A brutalidade da nova etapa e suas tendências aos extremos podem gerar o retorno das revoluções no século XXI — um cenário para o qual nos cabe fortalecer nossa militância e, quando chegar o momento, estar à altura do desafio histórico.

A seguir, enumeramos algumas tarefas e critérios político-metodológicos fundamentais para enfrentar os desafios colocados pela nova etapa:

1. Não superestimar nem subestimar a extrema direita. A nova etapa é mais agressiva e sangrenta, mas é preciso encarar os desafios da luta política com serenidade e apoiando-se nas ferramentas do marxismo revolucionário. Não há monstros invencíveis diante dos quais se justifique baixar as bandeiras da independência de classe (Valerio Arcary dixit), nem se devem banalizar os perigos, caracterizando-os como “gatinhos manhosos” inofensivos, o que desarma a militância e a vanguarda (Bregman dixit).

Parece-nos apropriado o método proposto por Gramsci para momentos de tamanha intensidade histórica e de intensificação da luta de classes como os atuais: “O pessimismo da inteligência, o otimismo da vontade”,
ou seja, reconhecer e analisar com total honestidade as situações adversas, sem perder, porém, a esperança e a perspectiva de que é possível lutar para transformar a realidade em favor dos explorados e oprimidos.

2. Assumir a fundo as consignas e lutas democráticas, articulando-as como parte de um programa anticapitalista da classe trabalhadora e dos demais setores explorados e oprimidos. As correntes de esquerda economicistas não compreendem a nova etapa em profundidade e, por isso, seus programas tornam-se estreitos e sectários.

Entre as principais consignas democráticas internacionais do momento, podemos listar as seguintes:

a) Basta de genocídio em Gaza. Por uma Palestina única, laica, democrática, não racista e socialista.
b) Defesa dos imigrantes nos Estados Unidos. Basta de batidas racistas e xenófobas do governo de Trump.
c) Prisão para Bolsonaro e todos os implicados na trama golpista.
d) Defesa do aborto legal, do matrimônio igualitário e dos direitos das pessoas trans — conquistas democráticas que a extrema direita ataca como parte de seu projeto de sociedade retrógrada e antidemocrática.
e) Apoio à organização sindical de base dos trabalhadores das empresas de aplicativo, um setor central da nova classe trabalhadora submetida a terríveis condições de exploração e precarização laboral. Sua organização é chave para o desenvolvimento da luta de classes no século XXI (como já se expressou nas rebeliões na Ásia), e nossa corrente internacional aposta nisso, realizando um grande esforço militante. O SiTraRepA na Argentina, o Entregadores Unidos pela Base no Brasil (com papel de codireção em vários breques ou paralisações massivas no país) e a organização do Congresso Internacional de Trabalhadores por Plataformas são reflexo desse esforço militante.

3. Ter astúcia para desenvolver a unidade de ação ou frentes únicas a fim de impulsionar as lutas, especialmente entre os escalões intermediários das organizações tradicionais. Os ataques reacionários da nova etapa gerarão (ou melhor dizendo, já estão gerando) indignação entre amplos setores dos explorados e oprimidos, o que abre espaços para promover a mobilização e dirigir ou codirigir essas experiências.

Ao mesmo tempo, não se deve perder de vista que essas frentes são campos de disputa entre tendências, onde é necessário fazer valer os interesses da construção partidária diante de outras correntes políticas. Unidade para lutar, mas mantendo a identidade política de nossos partidos e agrupamentos.

4. Lutar pela independência de classe, não cair no campismo. Para orientar-se neste mundo tão convulso do ponto de vista geopolítico e não sucumbir às pressões campistas (pró-China, pró-Rússia ou pró-Irã, por exemplo), é preciso manter a bússola de classe, ou seja, fundamentar nossas análises e políticas nos interesses próprios da luta de classes e não na lógica dos Estados em disputa. Somente assim é possível reafirmar a independência de classe.

5. Assumir com seriedade o estudo e a elaboração marxista, assim como a difusão das ideias anticapitalistas. Em um mundo em combustão, reabre-se a disputa pelo futuro e, da nossa parte, queremos que ele seja anticapitalista e socialista.

Mas é impossível relançar o marxismo revolucionário sem realizar a fundo um balanço sério sobre o estalinismo e a derrota da revolução no século XX. Também é fundamental estudar profundamente os novos problemas internacionais e os desenvolvimentos da luta de classes.

Por outro lado, as correntes que carecem de solidez estratégica ou elaboração própria cristalizam-se em um doutrinarismo sem perspectiva histórica nem construtiva. A luta de classes não tem piedade dos preguiçosos mentais![4]

Por esse motivo, nossa corrente dedica grande parte de suas energias à elaboração, como demonstra a obra O marxismo e a transição socialista, de Roberto Sáenz, já publicada em espanhol pela Editora Prometeo e que, nos próximos meses, será lançada em inglês pela Brill e em português pela Boitempo.

Referências

ARTAVIA, Víctor. 2024. Uma luta de classes mais radicalizada, um desafio redobrado para a esquerda revolucionária.
Disponível em: https://izquierdaweb.com/una-lucha-de-clases-mas-radicalizada-un-desafio-redoblado-para-la-izquierda-revolucionaria/
(Consultado em 10 de outubro de 2025).

BAMBERY, Chris. 2009. The “Hot Autumn” of 1969: when Italy erupted.
Disponível em: https://socialistworker.co.uk/in-depth/the-hot-autumn-of-1969-when-italy-erupted/
(Consultado em 9 de outubro de 2025).

BENSAÏD, Daniel. 2008. Utopia e messianismo. Bloch, Benjamin e o sentido do virtual.
Disponível em: https://vientosur.info/utopia-y-mesianismo-bloch-benjamin-y-el-sentido-de-lo-virtual/
(Consultado em 11 de outubro de 2025).

FANCELLI, Uriã. 2025. A democracia americana em queda no abismo.
Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/a-democracia-americana-em-queda-no-abismo/
(Consultado em 8 de outubro de 2025).

LEES, Josh. 2025. Italy’s general strike shows the WAY forward.
Disponível em: https://redflag.org.au/article/italys-general-strike-shows-the-way-forward
(Consultado em 8 de outubro de 2025).

MAZZA, Luigi. 2025. Trump enfim cruzou a linha?
Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/trump-enfim-cruzou-a-linha/
(Consultado em 8 de outubro de 2025).

MUÑOZ, Rosa. 2025. Quem é e por que protesta a Geração Z na América Latina.
Disponível em: https://www.dw.com/es/generaci%C3%B3n-z-en-am%C3%A9rica-latina-qui%C3%A9nes-son-d%C3%B3nde-c%C3%B3mo-y-por-qu%C3%A9-protestan/a-74107231
(Consultado em 10 de outubro de 2025).

NEGRI, Antonio. 2021. História de um comunista. Buenos Aires: Tinta Limón.

PRADELLA, Lucia. Eyewitness from Italy’s general strike for Palestine.
Disponível em: https://socialistworker.co.uk/palestine-2023/eyewitness-from-italys-general-strike-for-palestine/
(Consultado em 9 de outubro de 2025).

RIZZI, Andrea. 2025. Itália e Gaza: um despertar utópico contra os senhores da noite.
Disponível em: https://elpais.com/opinion/2025-10-04/italia-y-gaza-un-despertar-utopico-contra-los-senores-de-la-noche.html
(Consultado em 8 de outubro de 2025).

ROBERTS, Michael. 2023. A policrise, de novo.
Disponível em: https://www.sinpermiso.info/textos/la-policrisis-de-nuevo
(Consultado em 11 de outubro de 2025).

SÁENZ, Roberto. 2025. A era da “combustão”.
Disponível em: https://izquierdaweb.com/la-era-de-la-combustion/
(Consultado em 18 de setembro de 2025).

THOMAS, Mark L. Fascism’s return to Italy? The meaning of the Fratelli d’Italia.
Disponível em: https://isj.org.uk/the-fratelli-ditalia/
(Consultado em 8 de outubro de 2025).

Notas
[1] O catastrofismo é uma péssima escola política, da qual o Partido Obrero argentino fazia abertamente gala (ver En defensa del catastrofismo) e, em parte, explica sua crise como corrente política sem perspectiva histórica. Trata-se de uma “herança acrítica” de certas tendências do trotskismo do pós-guerra, que sustentavam uma visão teleológica da história e da luta de classes, segundo a qual o processo histórico se moveria inexoravelmente em direção ao socialismo, de modo que a bancarrota do sistema estaria sempre ao virar da esquina (ver Crítica a las concepciones teóricas del Partido Obrero de José Luis Rojo).

[2] Isso é patente nos artigos de Valerio Arcary, dirigente da corrente Resistência do PSOL no Brasil. A constante nesse autor é tomar unilateralmente um dado ou problema real — a emergência da extrema direita — para justificar sua capitulação à frente ampla com a burguesia liderada por Lula. Arcary é um ideólogo do etapismo tardio, que, para o caso brasileiro, sustenta que primeiro é preciso derrotar o bolsonarismo e, só depois disso, ajustar contas com a conciliação de classes do lulismo, se as condições objetivas o permitirem: “Não há como superar o lulismo sem primeiro derrotar o bolsonarismo e sem que se produza uma ascensão da luta de massas.” (ver A longa marcha da esquerda brasileira).

[3] Dito isso, não deixa de ser escandaloso o sectarismo estéril do MRT, grupo do PTS no Brasil, que durante anos recusou-se a exigir a prisão de Bolsonaro e dos golpistas de 8 de janeiro de 2022, alegando que era uma consigna que gerava confiança no poder judiciário. Além disso, não convocaram para as marchas de 21 de setembro e, para disfarçar, enviaram grupinhos de três ou quatro pessoas para distribuir panfletos nos atos massivos contra a extrema direita bolsonarista. Um completo descalabro da Fração Trotskista, cuja principal figura no PTS argentino, Myriam Bregman, foi advogada no caso Julio López e exigia prisão perpétua para Miguel Etchecolatz.

[4] O caso mais recente que comprova isso é o colapso do PSTU do Brasil e, por consequência, do que restava da LIT. A LIT chegou a ser uma das principais correntes trotskistas e, ainda no início do século, teve “cinco minutos” de sucesso. Mas logo pagou sua falta de visão histórica, pois ficou presa na década de 1980 e não fez o menor esforço para pensar o mundo atual. A ausência de balanço estratégico do estalinismo, combinada com um doutrinarismo de baixíssimo nível teórico, levou-a a incorrer em erro após erro.