Há dois anos Gaza é o centro da situação política, com manifestações de apoio aos palestinos de todo o calibre, desde as manifestações dos estudantes universitários estadunidenses, com punições e expulsões dos mesmos até as de jovens mulheres israelenses se recusando a cumprir o serviço militar obrigatório, sob o risco de prisão, para não ser cúmplice do genocídio sionista.
Foram manifestações multitudinárias, de milhares a dezenas de milhares, por todo o mundo exigindo uma palestina livre. Todo o ativismo internacional, com todas as suas lutas econômicas, políticas ou por liberdades democráticas básicas, teve por bandeira a Palestina.
A Palestina é emblema da luta contra a opressão étnica e racial, da luta anti-imperialista e da luta pelos direitos democráticos das maiorias populares, entre outras. Não há uma reivindicação dos explorados e oprimidos que não inclua Gaza, por ser o suprassumo da barbárie humana sob o capitalismo imperialista, pelas mãos de um regime sionista supremacista, colonial e genocida, que desde 1939 decretou que Israel somente existiria “com o extermínio dos Palestinos”.
Dois anos de genocídio, dois anos de resistência heroica de um povo martirizado, dois anos no centro da situação política mundial, obrigaram há um cessar-fogo, imposto pela resistência Palestina e pelos movimentos de massa em países importantes, como a greve geral na Itália contra o genocídio, fazendo cair a popularidade de Trump e encostando Israel, depois da Assembleia Geral da ONU, na parede.
No entanto, por todos os processos anteriores que só serviram para o sionismo impor o seu colonialismo invadindo as terras palestinas e evoluindo para o genocídio, nenhum crédito pode ser dado a esse cessar-fogo, que, após seu início já foi quebrado por Israel, num movimento de ataques e recuos, para manter o apoio da burguesia mundial.
Por uma Palestina, laica, democrática e socialista, como Estado único. O fim da Israel é a única solução para uma “PALESTINA LIVRE DO RIO AO MAR”.
REDAÇÃO
Gaza, dois anos
Há dois anos, a incursão do Hamas em Israel desde Gaza chocou o mundo. A questão palestina, da noite para o dia, voltava ao debate internacional com uma força quase sem precedentes desde a Segunda Intifada.
A propaganda sionista encarregou-se de espalhar as atrocidades daquele dia por todo o planeta, e acrescentou uma montanha de apêndices, de invenções, de mentiras. O mundo inteiro sabia que haveria uma resposta. A opinião pública internacional, majoritariamente, havia se voltado a favor de Israel. A narrativa de que a entidade sionista estava se defendendo, de que sua violência e sua brutalidade eram autodefesa, ganhou força.
Mas a dramática realidade acabou por se impor. Hoje, as imagens da destruição completa de Gaza — das pessoas, dos lares, dos monumentos, das escolas, dos hospitais — impuseram-se à narrativa sionista. As grandes massas do mundo olham com horror o que reconhecem como um genocídio, e sua simpatia está do lado do povo palestino martirizado.
O ativismo e a mobilização contra o genocídio são o movimento de solidariedade e luta internacional mais importante desde o repúdio à Guerra do Iraque, sem dúvidas. E talvez o maior e mais sistematicamente mobilizado desde o movimento contra a Guerra do Vietnã.
É altamente significativo que o sionismo, que começou tendo de seu lado a opinião pública mundial e todas as forças políticas do imperialismo tradicional, se encontre hoje tão absolutamente em minoria. As campanhas de vitimização e difamação, de acusação de “antissemitismo” contra todos os que rejeitamos seu “direito” ao genocídio, já não produzem efeito. Não mudam a opinião de absolutamente ninguém. O sionismo se pôs em evidência aos olhos do mundo inteiro. E sua legitimidade talvez tenha sido definitivamente posta em xeque.
Neste momento se desenvolvem as negociações “de paz” a partir do ultimato de Trump ao Hamas. Já não se discute nas mesmas condições de rendição absoluta de uma semana atrás. Das negociações pode sair um verdadeiro acordo de paz, e não uma rendição absoluta e a escravização incondicional do povo palestino (que eram as condições exigidas por Trump originalmente).
O povo palestino sofreu um golpe duríssimo em Gaza. É óbvio que, a esta altura, todo acordo futuro é de desespero, de esgotamento e de sobrevivência. Mas a causa palestina tem uma legitimidade internacional que não tinha antes. Em contrapartida, Israel vem de um “triunfo” militar com a destruição quase completa de Gaza, mas sua “causa”, sua legitimidade internacional, está duramente atingida. Talvez tenha perdido sua legitimidade definitivamente, e já não possa nunca mais usar os horrores do Holocausto como legitimação para seus crimes.
7 de outubro e o Hamas
As atrocidades de 7 de outubro obrigaram a explicar o que estava realmente acontecendo. Rapidamente dissemos o que precisava ser dito: nosso apoio à causa palestina é incondicional. A responsabilidade por essa barbárie, inclusive pelas mortes de civis israelenses, é de Israel e de mais ninguém além de Israel.
As comparações históricas às vezes ajudam a entender muitas coisas. Imaginemos que, em um gueto judeu — marginalizado, segregado, faminto e sistematicamente violentado pelos nazistas — surge um grupo armado com uma ideologia extremamente reacionária. Por mais nefastas que sejam suas ideias, nasce com o objetivo de resistir aos ocupantes com as poucas armas que tem à sua disposição. Imaginemos que esse grupo realiza uma incursão violenta sobre população civil com muitas vítimas inocentes.
E termina a imaginação e vamos aos fatos. É exatamente isso o que aconteceu em 7 de outubro de 2023. Gaza é um gueto cercado por muros, arames e tropas. Sua população está constantemente sob controle militar. As detenções, os assassinatos e as violações pelas tropas sionistas são algo cotidiano não de dois anos, mas de 78 anos. Quando existe um Estado racista, de segregação racial e de genocídio, de um lado; e um povo vítima da segregação racial e do genocídio, do outro, a responsabilidade pela violência é sempre do opressor, e nossa posição será sempre a de defender o oprimido.
A população de Gaza é composta majoritariamente por descendentes de pessoas expulsas de suas terras. Hoje têm proibido pisar onde antes eram seus lares, seus bairros, suas cidades e suas vilas. São zonas exclusivas de cidadãos israelenses. Os palestinos estão, de fato, sujeitos a um regime de segregação racial.
Não deveria ser tão difícil de entender. Por exemplo, o diário La Nación, da Argentina, publicou um artigo-documental de lamento pelos dois anos de 7 de outubro. Destacou que alguns dos reféns e dos mortos pela incursão do Hamas eram argentinos. Escrevem que alguns deles eram ativistas “pela paz”. Claro que a morte de inocentes é algo completamente horrível, lamentável. Mas paremos dois minutos para examinar a informação. Pessoas que nasceram em outra ponta do globo viviam ali e tinham plenos direitos de viver e possuir terras e lares. E os gazatiez, que nasceram e viveram toda a vida ali, que carregam gerações vivendo ali, não têm nenhum direito sobre essas terras e lares. E para assegurar isso são cercados por cercas e arames, e diariamente estão na mira de um fuzil.
É nesse contexto, e em nenhum outro, que nasce o Hamas. Sua ideologia é repugnante, “trata-se de um grupo fundamentalista religioso ultra reacionário, neoliberal, com fortíssimos componentes de antissemitismo e uma visão extremamente conservadora do Islã”. Mas é um grupo nascido da vontade de emancipação de um povo brutalmente oprimido, e é o seu principal braço armado. Seu sentido de existência é a libertação nacional da Palestina.
Colocar o foco no Hamas, exigir seu desarmamento como condição necessária para toda paz, é dizer que as vítimas da segregação racial e da opressão têm que se desarmar diante de uma potência opressora armada até os dentes. Exigir como condição de paz que as vítimas se desarmem e os vitimarias permaneçam armados até os dentes não é desejo de paz, é desejo de triunfo sem consequências da opressão colonial, racista e genocida.
Gaza, dois anos de genocídio em cifras
E ainda se atrevem a negar que há um genocídio em curso. Enquanto a propaganda sionista mente por todo o mundo, ministros do governo israelense dizem descaradamente a verdade. Tanto Ben Gvir quanto Smotrich proclamaram o objetivo de colonizar Gaza.
E não são apenas os membros mais radicalizados do fascismo sionista no governo. No começo de 2025, Donald Trump apresentou como “proposta” para Gaza o deslocamento de seus mais de 2 milhões de habitantes. Fez isso com Netanyahu presente, com sua aprovação. O deslocamento de um povo inteiro como “saída” para um conflito, a erradicação de seu povo e de sua cultura de um território, a proposta aberta de destruição, tem nome: chama-se genocídio.
Massacres e prisões arbitrárias
67.173 palestinos assassinados. 20.000 crianças, 1.670 profissionais de saúde, 140 membros da defesa civil e 254 jornalistas. Este é o número oficial de mortes confirmadas. Podem ser muitas mais: milhares continuam enterrados sob os escombros.
9.500 palestinos de Gaza estão desaparecidos.
640 palestinos morreram de fome e desnutrição, incluindo 154 crianças.
39.022 famílias foram massacradas pelo ocupante israelense, incluindo 2.700 famílias exterminadas e apagadas do registro civil, e 6.020 famílias exterminadas, deixando apenas um sobrevivente.
169.780 feridos e lesionados.
Mais de 6.700 foram presos desde o início da agressão, incluindo 362 profissionais de saúde, 48 jornalistas e 26 membros da defesa civil.
Destruição e ocupação: habitação e infraestrutura
2,1 milhões de palestinos foram deslocados. A totalidade dos gazatiez foi obrigada a abandonar seus lares.
90% dos edifícios, em particular os residenciais, foi completamente destruído. Alguns chamam isso de “domicílio”: o sionismo não quer que os palestinos tenham lugares para viver.
A ocupação lançou 200 mil toneladas de explosivos sobre as moradias de Gaza.
Mais de 80% do território está sob controle sionista.
Israel bombardeou 136 vezes a zona de Al-Mawasi, que afirma ser uma “zona humanitária segura”.
268.000 unidades habitacionais foram completamente destruídas, e 148.000 unidades ficaram gravemente danificadas, tornando-as inabitáveis.
Saúde
2,142 milhões de casos de diversas doenças infecciosas (no mínimo) em consequência do deslocamento forçado.
38 hospitais e 96 centros de saúde destruídos.
197 ambulâncias atacadas.
788 ataques contra instalações, veículos, pessoal e cadeias de suprimento do setor de saúde.
Habitação, deslocamento forçado e abrigo:
268.000 unidades habitacionais foram completamente destruídas, e 148.000 unidades ficaram gravemente danificadas, tornando-as inabitáveis.
153.000 habitações foram parcialmente destruídas.
288.000 famílias palestinas estão sem teto.
125.000 tendas foram completamente desgastadas de um total de 135.000.
2 milhões de civis foram deslocados repetidas vezes devido à política de deslocamento forçado.
293 centros de abrigo foram atacados pelo ocupante.
Fome e negação de ajuda e tratamento:
Se passaram 222 dias desde que Israel fechou completamente todas as travessias fronteiriças para a Faixa de Gaza.
650.000 crianças correm perigo de morte devido à desnutrição, à fome e à escassez de alimentos.
40.000 recém-nascidos e menores de um ano correm risco de morrer de fome pela falta de leite infantil.
O ocupante impediu a entrada de 120.000 caminhões com ajuda humanitária e combustível à Faixa.
47 bancos de alimentos e 61 centros de distribuição de ajuda foram alvo de ataques israelenses como parte de sua política de fome.
Israel atacou comboios de ajuda e envios humanitários em 128 ocasiões.
Israel impede a saída de mais de 22.000 pacientes que necessitam de tratamento fora do enclave.
5.200 crianças requerem evacuação médica urgente para salvar suas vidas.
Israel impede a entrada de tratamentos vitais, pondo em risco a vida de 350.000 pessoas com doenças crônicas.
Locais de culto e cemitérios:
835 mesquitas foram completamente destruídas e outras 80 parcialmente destruídas.
Três igrejas foram atacadas pelo ocupante em mais de uma ocasião.
40 de um total de 60 cemitérios foram destruídos.
2.450 corpos foram roubados dos cemitérios.
As forças israelenses escavaram sete valas comuns dentro de hospitais, das quais foram recuperados os corpos de 592 palestinos.
Infraestrutura e instalações públicas:
725 poços centrais de água foram destruídos e colocados fora de serviço pela ocupação.
Mais de 5.000 quilômetros de redes elétricas e 2.285 transformadores foram destruídos pelos ataques israelenses.
Mais de 700.000 metros de redes de água, número similar de redes de esgoto e mais de 3 milhões de metros de estradas e ruas foram destruídos pela aviação israelense.
208 sítios arqueológicos e patrimoniais foram atacados.
Perdas econômicas de todos os setores
70 bilhões de dólares é o total das perdas primárias diretas da guerra genocida.
5 bilhões de dólares de perdas no setor de saúde.
4 bilhões de dólares de perdas no setor educacional.
28 bilhões de dólares de perdas no setor de habitação.
4 bilhões de dólares de perdas no setor industrial.
4,5 bilhões de dólares de perdas no setor comercial.
2,8 bilhões de dólares de perdas no setor agrícola.
3 bilhões de dólares de perdas no setor de telecomunicações e internet.
2,8 bilhões de dólares de perdas no setor de transporte.
1,4 bilhão de dólares de perdas no setor de energia elétrica.
6 bilhões de dólares de perdas no setor de serviços e municípios.
Um questionamento histórico ao projeto colonial sionista
A propaganda sionista quer apresentar seu projeto como o da “autodeterminação do povo judeu”. Esse é o principal argumento para a acusação de “antissemitismo”: os que rejeitam o sionismo teriam a posição de que todos os povos deveriam poder ter seu próprio Estado, menos os judeus.
Os judeus vinham sofrendo muitos séculos de opressão e segregação… na Europa. Todos os casos de conquista da independência e da autodeterminação dos povos enfrentaram um ocupante, uma metrópole, um opressor. Qualquer tentativa de apresentar os palestinos como “opressores” dos judeus é uma mentira mal intencionada para justificar algo que não tem absolutamente nada de emancipatório: o sionismo é um projeto colonial.
Os movimentos de libertação nacional na Europa, na mesma época em que nasceu o sionismo, eram de comunidades com tradições culturais, idiomas e identidades próprias que exigiam seu autogoverno. Para que os poloneses pudessem ter seu próprio Estado não foi necessário o deslocamento massivo de população polonesa passando por cima de outra já residente. E a maioria desses movimentos de libertação não era excludente: as leis e constituições laicas e emancipatórias do século XIX em sua enorme maioria reconheciam o direito de naturalização de um estrangeiro, ou não faziam distinção entre grupos religiosos.
O sionismo é algo muito distinto. Um projeto de Estado puramente judeu, que precisa deslocar em massa a população originária, que tem de forçar uma maioria étnica pura de maneira artificial, que precisa para existir que não exista outro povo. Isso não é autodeterminação, é etnonacionalismo, é racismo, é supremacismo, é colonialismo. São coisas que depois deram forma ao fascismo.
A Primavera dos Povos de 1848 foi um dos momentos mais emblemáticos do avanço dos movimentos nacionais de emancipação na Europa. Nessa revolução expressou-se massiva e armada a vontade de autodeterminação e os direitos democráticos básicos dos povos oprimidos pelo Antigo Regime, incluindo os judeus. Do outro lado, os inimigos desses movimentos tinham identidades muito claras: as monarquias e as potências nacionais opressoras dos povos polonês, húngaro, tcheco, judeu, etc.
O sionismo veio propor aliar-se aos referentes do Antigo Regime. Acreditava que os movimentos por igualdade de direitos não iriam a lugar nenhum, não tinham futuro, e decidiu aliar-se explicitamente com as potências, com os monarcas, com os antissemitas. Sim, com os antissemitas, com os que tinham um objetivo em comum: expulsar massivamente todos os judeus da Europa.
O sionismo disse desde o princípio que era um projeto colonial. Tudo o mais é mentira. O fundador do sionismo, Theodor Herzl, colocou as coisas explicitamente. O plano que esboçou para o movimento sionista em seu livro O Estado Judeu era o de criar uma Company ou Society segundo o modelo da Companhia Britânica das Índias Orientais para alcançar a “colonização” de um território, com a “expropriação” de terras palestinas. Nunca será repetido com ênfase suficiente: era completamente explícito. E Herzl não é um marginal: sua equipe presidiu a sessão de declaração da “independência” de Israel.
Mas o mais brutalmente honesto dos sionistas foi Zeev Jabotinsky, o fundador do “sionismo revisionista”. As organizações por ele lideradas estiveram entre as principais milícias, inspiradas no fascismo italiano, que depois implementaram o deslocamento massivo de palestinos em 1948, a Nakba. Foi seu movimento que depois se tornou o Likud, o partido de Netanyahu.
Seu ensaio “O muro de ferro”, altamente célebre na história do sionismo, é perfeitamente claro. Primeiro afirma que seus objetivos são “pacíficos” para depois dizer abertamente que não crê que possam ser alcançados por meios pacíficos. Polemiza com os sionistas que pretendem ficar com a Palestina por meio de acordos com forças políticas em La Meca ou Bagdá, dizendo que:
“Palestina continuaria sendo para os palestinos não uma zona de fronteira, mas seu lugar de nascimento, o centro e a base de sua própria existência nacional. Portanto, seria necessário levar adiante a colonização contra a vontade dos árabes palestinos…”
No ensaio, chama também os palestinos de “população nativa” do lugar. Sua proposta é criar um “muro de ferro” que não possam atravessar, e assim despojá-los pela força do “centro e base de sua existência nacional”. Pode-se reprovar muita coisa ao fascista Jabotinsky, mas não falta sinceridade. Seu movimento, Betar, adotou camisas e a saudação fascista. Implantou campos de treinamento na Itália fascista de Mussolini. Um dos principais exemplos a seguir para ele, segundo o próprio ensaio que citamos, é a colonização dos Estados Unidos, com a consequente aniquilação dos indígenas. É o mesmo exemplo a seguir que Hitler coloca em Mein Kampf para seu projeto de colonização da Europa oriental, o Lebensraum.
Em julho de 2023, em uma homenagem a Jabotinsky, Benjamin Netanyahu disse publicamente: “Cem anos depois de que o ‘muro de ferro’ foi estampado nos escritos de Jabotinsky, continuamos implementando com sucesso esses princípios”. Ainda não havia passado 7 de outubro. Nada começou em 7 de outubro.
O genocídio em curso é a evolução natural do projeto sionista como tal.
Chamar de “emancipação” a segregação racial e as masacres não muda os fatos. É, de fato, uma tática clássica da propaganda genocida: os nazistas também diziam que defendiam os direitos dos alemães. A mentalidade genocida funciona assim, é a crença de que a própria sobrevivência é impossível se não se extermina outro.
O projeto colonial sionista chegou tarde demais, mas segue em curso. Se as fronteiras nacionais em sua forma moderna foram consagradas entre os séculos XIX e XX, os movimentos de colonização ocorreram majoritariamente entre os séculos XVI e XVIII. Falamos de colonização em seu formato de extermínio e substituição da população nativa como na América do Norte, não de conquista e redução a servidão, como no Império Espanhol (embora obviamente também haja extermínio nesse caso, e muito). Hoje, os objetivos e os métodos do sionismo são repulsivos para amplas massas populares do mundo: existe uma experiência mundial coletiva feita com o colonialismo e os genocídios. As coisas não podem ocorrer com a impunidade e a desfaçatez de um século e meio atrás.
O sionismo é uma aberração histórica, quase um anacronismo. Mas conseguiu sustentar-se, entre outras coisas, pelo apoio das principais potências imperialistas (sobretudo os Estados Unidos por décadas) e pela legitimidade da causa da libertação do povo judeu após os inenarráveis horrores do Holocausto. O sionismo fez uso dessa carta, e por tempo demais conseguiu convencer muita gente de que o repúdio ao sionismo é antissemitismo.
Mas sua legitimidade acabou. A mobilização internacional a partir de 7 de outubro foi a de amplas massas em defesa do povo palestino em todos os cantos do planeta.
Inclusive presenciamos acontecimentos históricos, como a bela greve geral na Itália contra o genocídio. O ativismo de base operária e juvenil impôs uma virada à situação política italiana com uma paralisação política de solidariedade internacionalista.
A pressão popular é tão potente que alguns aliados históricos e fundamentais do sionismo tiveram de curvar suas posições diplomáticas. O governo francês passou de querer proibir manifestações em defesa do povo palestino por “antissemitas” a reconhecer um Estado Palestino.
Trata-se de algo muito básico: desde as revoluções burguesas do século XIX, até hoje, todo direito individual e democrático está ligado à condição de “cidadão”. Sem cidadania de nenhum tipo, ninguém reconhece legalmente sua existência. E os palestinos, sob o regime de apartheid israelense, são não cidadãos: não têm nenhum direito.
O reconhecimento de um “Estado Palestino” é reconhecer… que os palestinos são pessoas. A propaganda sionista que diz que fazer isso é uma “recompensa para o terrorismo” é propaganda de um governo fascista. Não querem aceitar outra coisa que a desumanização dos palestinos, e por isso sua redução ao sometimento ou ao extermínio.
Ficam assim muito claros os limites da “solução de dois Estados”. A igualdade legal de todas as pessoas é, ao menos no papel, algo básico para a maioria dos Estados contemporâneos. Reconhecer “dois Estados” é reconhecer o Estado de Israel, cujo projeto é o de um “Estado judeu”. Em última instância, nele só têm pleno direito de cidadania aqueles que esse Estado reconhece como etnicamente judeus. Todos os outros são cidadãos de segunda categoria… ou forçados a ser “minoria”, com a maioria de seus membros sujeita à condição de não cidadãos. Assim se sustenta a “maioria judaica” do etnonacionalismo sionista: forçando artificialmente a maioria a condição de minoria dispersa e despojada.
O “acordo de paz” em Gaza
Pela primeira vez em muito tempo, em Gaza houve celebrações. O povo gazatino recebeu com entusiasmo o “acordo de paz”. O esgotamento é completo, por isso as condições acabam importando pouco para as pessoas. Dadas as circunstâncias, é perfeitamente compreensível: qualquer um daria prioridade a que parem de chover bombas.
O “acordo de paz” alcançado no Egito entre Estados Unidos, Israel e Hamas tem apenas alguns pontos claros. Primeiro, os 48 reféns israelenses restantes (dos quais 20 seguiriam vivos) seriam entregues entre 11 e 13 de outubro. Segundo os quase 2 mil reféns e detidos palestinos por Israel seriam libertados em data a confirmar. Terceiro, as tropas sionistas deveriam se retirar para uma zona demarcada no acordo. Quarto, deveria ser permitido de maneira iminente o ingresso de ajuda humanitária na Faixa (não era que Israel já estava permitindo a entrada de ajuda?).
O plano original de 20 pontos apresentado por Trump não é o que está sendo negociado. O Hamas “aceitou” a proposta para imediatamente passar a negociar praticamente tudo. Ao mesmo tempo, Netanyahu disse que não havia aceitado nem a possível criação futura de um Estado palestino nem a retirada das tropas. Mas ambas eram pontos do acordo de Trump. Evidentemente, o governo sionista não está totalmente confortável com o acordo, mas a pressão dos Estados Unidos acabou inclinando a balança.
Quando foi lançado, dissemos que: “O ‘plano’ para Gaza apresentado por Trump e Netanyahu em conferência de imprensa não é um cessar-fogo, não é um acordo de paz, não é um ‘plano’. É um ultimato que diz, com outras palavras: ‘ou se deixam colonizar e escravizar ou nós consideramos liberados e com motivo para massacrá-los’. Como se precisassem de desculpas.”
E afirmamos também que: “Diz-se que o Hamas está ‘avaliando’ o ultimato. Se aceitassem, não seria um ‘acordo’, mas uma confissão de esgotamento completo, de que o genocídio sistemático, a fome e o desespero levaram os gazatiez ao ponto de aceitar a colonização e a escravidão como única alternativa.”
A resposta do Hamas foi inteligente: aceitou as exigências fundamentais com as quais podia ceder e abriu negociações sobre todo o resto. Aproveitaram que não havia consenso absoluto entre Washington e Tel Aviv.
É que o imperialismo ianque precisa de Israel para defender seus interesses no Oriente Médio, e Israel precisa do padrinho imperial; mas Israel e o imperialismo ianque não são a mesma coisa.
Para os Estados Unidos, poderia ter-se chegado a um estado de equilíbrio aceitável no Oriente Médio. Desferiram duros golpes a seus principais inimigos regionais, e a correlação de forças lhes é agora favorável. Para eles, por ora, pode ser suficiente. Mas não é para Israel: Netanyahu tinha o objetivo explícito de exterminar definitivamente o povo gazeti enquanto tal. Contra todas as recomendações militares, havia ordenado uma ofensiva “definitiva” dias antes do anúncio do acordo.
Netanyahu tem pressão interna porque seu gabinete e seu aparelho de segurança estão dominados pela pressão extremista da vanguarda colonial. Ben-Gvir e Smotrich têm por base social os grupos de colonos, que vivem oprimir e expulsar palestinos na Cisjordânia no dia a dia. E que querem fazer o mesmo em Gaza.
A chacina tornou o projeto sionista repulsivo, mas ele ao mesmo tempo deu um enorme passo em sua vontade de extermínio. A destruição de Gaza é total. Israel queria fazer da Faixa um lugar onde fosse impossível viver. Mas, contraditoriamente, o povo gazeti permanece de pé: as condições iniciais do ultimato de Trump e Netanyahu estão de fato descartadas. Tudo segue em disputa. A causa palestina segue de pé apesar da fome, das chacinas e da destruição.
Há uma brecha aberta entre Estados Unidos e Israel, e nessa brecha filtrou-se a possibilidade de um acordo de paz. Tentar avançar ainda mais sobre território gazetino pode ser para os Estados Unidos uma jogada arriscada que lhes faça perder o que ganharam com os golpes desferidos contra Irã e Líbano. As razões são simples: a mobilização popular internacional é um fator de pressão sempre presente sobre o governo de Washington. Têm interesse em evitar um giro anticolonial e anti-imperialista na situação internacional. O governo de Tel Aviv, em contrapartida, sente a pressão dos colonos radicalizados.
Há coisas chave que ainda não foram fechadas. Não há acordo fechado sobre a composição do futuro governo da Faixa, embora circulem muitos rumores a respeito, e sobre a participação do Hamas nele.
As coisas são concretas. Ministros dos quais depende o futuro da coalizão de governo de Netanyahu dizem abertamente que não querem aceitar nada que não seja a aniquilação completa dos palestinos de Gaza. E o acordo tenta estipular que a única milícia armada palestina com algum peso ficaria de mãos vazias diante desses monstros genocidas.
Os termos reais do acordo são pouco conhecidos. Não foi publicado um texto oficial, apenas declarações ambíguas de Trump ou Netanyahu. Evidentemente, tudo é muito frágil. O acordo de trégua anterior, do fim do ano passado, foi unilateralmente quebrado por Israel. Porque o sionismo queria apenas a “fase 1” do “acordo de paz”: a libertação dos reféns israelenses e em seguida continuar com a chacina dos palestinos. Nada disso é um “acordo de paz”, é rendição e aceitar ser massacrado.
De novo, não se pode responder com sectarismo à existência de um acordo. Que deixem de matar palestinos é urgente e premente. Não se pode dizer uma palavra que não parta disso. Já é em si um enorme triunfo dos palestinos terem aguentado condições de vida e de morte insuportáveis, e ainda assim manter a esperança de seguir existindo.
Mas nada disso elimina que esse “acordo de paz” seja uma paz sem justiça: os responsáveis por um genocídio não enfrentam nenhum tipo de consequência por seus atos e seguem armados até os dentes, financiados pela principal potência militar do mundo, talvez de toda a história. Não é pouca coisa: significa que os principais responsáveis pela chacina podem retomá-la a qualquer momento.
Mas o contraste entre a situação atual e o começo deste ano é claro. Em janeiro, Trump anunciava junto a Netanyahu uma “proposta” que partia da limpeza étnica de Gaza, a expulsão completa de todos os palestinos da Faixa. Agora, o acordo de paz inclui uma vaga promessa futura de criação de um “Estado palestino”. O motivo é claro: o governo ianque esbarrou no fato de que não era tão fácil simplesmente passar por cima do povo palestino e da resistência internacional ao genocídio. E esses fatores continuam presentes. O movimento mundial de solidariedade com a Palestina tem que continuar sendo um fator político de peso para poder frear qualquer tentativa de reiniciar a destruição de Gaza.
Dois anos no centro da situação política internacional
Não houve debate ou disputa política internacional nos últimos dois anos que não esteja atravessada por Gaza.
Todo o ativismo internacional, com todas as suas lutas econômicas, políticas ou por liberdades democráticas básicas, teve por bandeira a Palestina. É que os gazatinos são vítimas da forma mais brutal de violência e dominação nas mãos não só de Israel, mas de todos seus aliados: Estados Unidos e o imperialismo clássico, a extrema direita, os capitalistas (que fazem bons negócios com o genocídio).
A Palestina é emblema da luta contra a opressão étnica e racial. Esse tema tem estado no centro de todas as lutas com a ascensão de Trump. A nova direita recolocou a opressão racial e nacional no centro da agenda nos Estados Unidos. Nunca havia desaparecido, mas agora está no centro. É natural que os palestinos, que sofrem a negação da condição de cidadãos onde quer que vão, se convertam em emblema da luta dos imigrantes contra o ICE trumpista.
A Palestina é emblema da luta anti-imperialista. À frente da reação da extrema direita está o projeto MAGA, a tentativa de recuperar a dominação imperialista dos Estados Unidos, ainda que com novas formas. Todas as formas de reação (econômica, política, social) têm figuras como Donald Trump, que duplicam a brutalidade da opressão nacional através de seus movimentos políticos. Isso inclui potências rivais, como a Rússia e sua invasão à Ucrânia; ou a China e suas ameaças sobre Taiwan.
A Palestina é emblema da luta pelos direitos democráticos das maiorias populares. As punições, expulsões e perseguições foram a resposta oficial aos acampamentos nos campus universitários dos Estados Unidos contra o genocídio. Em outros países, a extrema direita simplesmente esmagou toda oposição com repressão: é o caso de El Salvador, Hungria, etc. Em outros lugares tentou, como no Brasil. Em Gaza, existe um único Estado, Israel, que mantém sua população sujeita a um bloqueio histórico e a massacres periódicos. As formas de organização da resistência adotam formas violentas e extremas pela extrema e violenta condição imposta pelo colonizador. A defesa do direito à existência dos palestinos é também a defesa do direito de organizar-se.
A bandeira palestina tremula na maioria das manifestações populares por uma razão. Em janeiro, Trump falava em erradicar completamente os palestinos de Gaza. Outra realidade se impôs. O governo dos Estados Unidos pressionou Netanyahu porque ficou evidente que não podiam escalar a chacina até o fim sem pagar um custo político altíssimo. Era uma possibilidade real que desencadeassem uma crise política internacional que lhes tornaria as coisas muito difíceis. A “solução” extrema, a de passar por cima do povo palestino definitivamente, tornou-se cada vez mais difícil para eles. “Resolver” a questão palestina passou a ser para os Estados Unidos uma urgência crucial, porque era cada vez mais uma crise em crescimento. Mas não puderam impor o que queriam: a liquidação e a derrota da causa palestina. Trump, então, optou pelo acordo e pela concessão.











[…] hegemônico” com sua mediação para que Israel e Hamas assinassem um cessar-fogo. Em outra nota da Esquerda Web analisam-se os pormenores desse plano; em nosso caso, queremos apenas destacar que o presidente […]
[…] Gaza: dois anos depois do 7 de outubro por Federico Dertaube […]