Publicamos abaixo artigo de Santiago Follet, dirigente de SoB França, acerca do que foi o estopim para a massiva greve geral de 18 de setembro na França, onde mais de 800.000 manifestantes foram às ruas em 250 locais diferentes do país.

O estopim de 10 de setembro com o movimento “tout bloquer”, bloquear tudo, demonstrou a força das vanguardas de massa, com forte presença da juventude, que por meio das redes sociais movimentam a sociedade, em várias partes do mundo, a impor limites às provocações autoritárias e ataques contra os trabalhadores e trabalhadoras e contra as classes populares, imprimidas por governos de conciliação de classes que se rendem à extrema direita e ao reacionarismo. Assim foi, entre outros lugares, no Nepal, India, Kenia, Brasil no dia 21 e mais recentemente na Itália.

É a juventude adaptada aos novos meios de comunicação, chamando e organizando os demais setores sociais, mas principalmente a classe trabalhadora, a impor nas ruas barreiras contra orçamentos restritivos na saúde e educação, retirada dos direitos trabalhistas e previdenciários, mas, principalmente contra o autoritarismo e os ataques às liberdades democráticas.

Esses elementos de vanguarda de massas aparecem de alguma forma em outras manifestações mundiais, como as já citadas, mas notou-se fortemente no Brasil do 21 de setembro, em que as redes sociais e a manifestação de artistas de todos os setores da cultura, animaram à classe a mostrar sua reserva de combatividade no seu  palco principal: as ruas.

É preciso então continuar nesse palco e seguir a juventude combativa deste século XXI! 

DA REDAÇÃO

Depois do sucesso de 10 de setembro, tiremos Macron com uma greve geral massiva!

As mobilizações de 10 de setembro foram um sucesso que mudou completamente a situação política na França, abrindo uma nova sequência da luta de classes. A saída antecipada de Bayrou e a nomeação do reacionário Lecornu confirmam a instabilidade de um “macronia” fragilizada, em crise política permanente. Contra o governo dos ricos, a tarefa do momento é nos organizar para derrubar Macron por meio de uma greve geral massiva, a partir das mobilizações de 18 de setembro.(NT: uma massiva greve greve geral em 250 departamentos da França, que promete continuar após o estopim de 10/09)

Por Santiago Follet

Um governo frágil e autoritário em crise política permanente

O governo Macron atravessa um novo capítulo de sua crise política permanente. Após nomeações sucessivas, Macron não consegue indicar um primeiro-ministro capaz de governar a França e se manter no cargo por mais tempo. Nesse sentido, a demissão de François Bayrou é consequência de uma política agressiva contra as maiorias sociais, razão pela qual sua queda é uma vitória da mobilização popular.

De fato, a primeira conclusão política da renúncia de Bayrou é a seguinte: não é possível governar à força de provocações autoritárias e ataques contra os trabalhadores e trabalhadoras e contra as classes populares. Bayrou pagou o preço de sua política antipovo, com seu projeto de orçamento 2026 adaptado às necessidades dos ricos, para financiar o “esforço de guerra”, com o triplo das despesas para o exército e cortes drásticos na saúde, na educação e nos serviços públicos, incluindo a supressão de feriados.

Após a queda do governo Bayrou, Macron decidiu nomear Sébastien Lecornu como seu novo primeiro-ministro, na véspera das mobilizações de 10 de setembro. Tratou-se, mais uma vez, de mais uma nomeação de um político burguês, racista, homofóbico e de direita, que ninguém escolheu. Com essa nomeação, Macron realizou mais uma provocação em relação ao movimento de massas, exasperado pelas ofensivas sociais antidemocráticas.

A sucessão de ministros da macronia testemunha a fragilidade de um governo que tem dificuldade em convencer alguém de sua política belicista e de austeridade. A crise permanente do governo direitista de Macron se explica por sua incapacidade de responder aos problemas das maiorias sociais, recorrendo permanentemente a métodos antidemocráticos para impor um programa que satisfaz apenas às necessidades dos patrões.

O sucesso do movimento de 10 de setembro: o desborde da raiva popular

O primeiro balanço do movimento de 10 de setembro é o de um enorme sucesso para a mobilização operária, popular e da juventude. Um apelo nas redes sociais foi o ponto de partida de um movimento para “bloquear tudo”, em reação às declarações de guerra social do governo demissionário durante o verão. As provocações do ex-primeiro-ministro foram a gota d’água de uma raiva crescente contra Macron que ultrapassa amplamente os limites institucionais. Desde então, assembleias locais foram realizadas por toda a França para organizar uma multiplicidade de ações desde a base, que superaram a passividade das direções sindicais e políticas da esquerda institucional.

No dia 10 de setembro, milhares de pessoas se mobilizaram por toda parte, com forte presença da juventude em cada ação. A jornada começou com bloqueios para impedir a circulação dos transportes. Na região parisiense, ações foram organizadas em Porte d’Orléans, Porte de Paris e, sobretudo, em Porte de Montreuil: uma ação que foi fortemente reprimida pela polícia. Já pela manhã, muitas escolas foram fechadas, assim como numerosos setores de trabalhadoras/es que entraram em greve em nível nacional. Em Paris, milhares de manifestantes convergiram para a praça de Châtelet, a praça da République, a gare du Nord e a praça de Fêtes, em uma multiplicidade de ações simultâneas.

O início do movimento lembra outras mobilizações sociais dos últimos anos, com um acúmulo de experiências de luta contra Macron e seu mundo. Encontra-se aí a espontaneidade dos Coletes Amarelos, mas também a experiência de organização de base dos movimentos pelas reformas da previdência. Encontra-se igualmente a alegria popular que se expressa em total liberdade contra a opressão de um governo autoritário. O certo é que a raiva popular conseguiu sair dos quadros das mobilizações tradicionais, após os fracassos das estratégias perdedoras da Intersindical. O dia 10 de setembro marca o início de uma nova sequência da luta de classes, que permite colocar a questão do poder e das estratégias para acabar com os ataques permanentes do governo Macron.

Tiremos Macron e seu governo dos ricos por meio de uma greve geral!

Após o êxito do movimento de 10 de setembro, a única resposta ridícula do governo às mobilizações foi o anúncio da manutenção de dois feriados, como se isso pudesse pôr fim ao movimento que recém se inicia. Depois da saída de Bayrou, é preciso também derrubar Lecornu, mas igualmente a Macron e todo o regime autoritário da Vª República capitalista. Para isso, é indispensável dar continuidade à mobilização e reforçar os quadros de auto-organização do movimento. Já na próxima semana, é fundamental organizar assembleias gerais em todos os locais de trabalho e estudo, desenvolver as assembleias locais e começar a construir coordenações interprofissionais desde a base.

Ao longo dessa sequência, as direções sindicais e políticas da esquerda institucional não fizeram senão colocar obstáculos à mobilização, sempre na lógica do diálogo social, enquanto a juventude e os trabalhadores superaram amplamente suas estratégias perdedoras. Nesse contexto, a Intersindical convoca um dia de greve nacional em 18 de setembro. É preciso aproveitar essa data e transformar radicalmente seu conteúdo, na continuidade do movimento… Bloqueemos tudo!

Construamos uma greve geral massiva, radical e política desde as bases para derrubar Macron e todo o seu sistema! Junte-se ao Socialismo ou Barbárie para dar vida a essa perspectiva e construir uma outra sociedade!

Imagem de Christophe Simon, AFP – Bloqueemos tudo! o 10 de setembro

Tradução de Martin Camacho de “Après la réussite du 10 septembre, dégageons Macron par une grève générale massive!