Este ensaio foi publicado originalmente em 2022 no portal Izquierda Web.
“Esta é uma década decisiva na qual se estabelecerão os termos da nossa competição com a China, o único concorrente com a intenção de remodelar a ordem internacional e a sua crescente capacidade de fazê-lo.”
Jack Sullivan, Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA
“A inovação tecnológica tornou-se o principal campo de batalha do jogo estratégico internacional.”
Xi Jinping, presidente da China
“O conflito econômico e político entre a China e os EUA é a questão geopolítica mais importante do século XXI, muito mais do que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.”
Michael Roberts, marxista britânico
O objetivo deste texto, dividido em uma primeira parte mais analítica e uma segunda parte dedicada aos debates no marxismo sobre o tema, é dar continuidade à elaboração sobre a China, seu novo lugar na arena mundial como grande potência que os EUA consideram como rival estratégico e as características de seu Estado e sociedade, a partir de um ponto de vista socialista revolucionário. O gatilho para este trabalho foi a realização do XX Congresso do Partido Comunista Chinês, em outubro de 2022, que consagrou um terceiro mandato do líder Xi Jinping. O Congresso, como máxima instância decisória do país, trouxe ratificações e renovações na política chinesa que é necessário examinar à luz de um contexto internacional onde também há confirmação de certas tendências e o surgimento de outras.
Tomamos como ponto de partida um artigo nosso publicado em maio de 2020, China: análisis de un imperialismo en ascenso (disponível em Izquierda Web). No presente texto, procuraremos desenvolver as conceituações esboçadas ali, cujas definições nos aspectos mais estruturais mantemos em todas as suas linhas fundamentais. Ao mesmo tempo, tentaremos avançar em uma atualização e nas precisões e ajustes necessários para dar conta – com a humildade e a cautela necessárias para quem escreve a tanta distância geográfica e cultural, sem conhecimento direto da língua e do país – de uma realidade tão imensa e complexa como a do gigante asiático. Em termos gerais, concebemos este trabalho como complementar ao anterior, focando-nos neste caso mais nas novidades e confirmações de desenvolvimentos já apontados.
Nesse sentido, talvez seja conveniente fazer uma revisão muito sucinta dos principais pontos de apoio dessa análise.
a) Em primeiro lugar, constatava-se a configuração de uma bipolaridade geopolítica crescente entre os EUA e a China, o que representava uma grande novidade em relação ao período imediatamente anterior, tanto se fosse considerado marcado pela “unipolaridade” da hegemonia ianque incontestável – em linhas gerais, nossa posição – quanto se postulasse uma “multipolaridade” sem um centro claro.
b) Neste contexto, caracterizávamos uma mudança clara na política dos EUA em relação à China: da esperança da “cooptação à ordem liberal” que estava por trás do patrocínio da entrada da China na Organização Mundial do Comércio para uma decisão de crescente confrontação estratégica. A “guerra comercial” de Trump só podia ser entendida como uma parte subordinada e um episódio desse choque. Outra novidade aqui foi que, pela primeira vez desde o início da fase de globalização/mundialização da ordem capitalista – consolidada a partir da década de 1990, após a queda do bloco soviético –, o livre comércio e a ação sem restrições das forças de mercado passaram a ficar subordinadas a considerações estratégicas. Trump iniciou o caminho, que agora Biden continua, com ainda mais determinação e coerência do que seu antecessor, de usar ferramentas econômicas como armas geopolíticas.
c) A resposta da liderança do PCCh a esse desafio foi aceitar o convite e aumentar a aposta em dois sentidos. Por um lado, com uma crescente projeção internacional da China como potência, e não mais apenas na ordem regional. Para esse fim, a ferramenta privilegiada foi a iniciativa chamada Nova Rota da Seda (NRS), com a qual a China estabeleceu laços econômicos, políticos e estratégicos com mais de uma centena de países. Por outro lado, a nova hostilidade dos EUA, manifestada em vários campos, mas sobretudo no comercial e na concorrência tecnológica, impulsionava e obrigava a um crescente domínio e autossuficiência neste último aspecto em particular. O papel do Estado, já onipresente, passa a ser fundamental nessa política.
d) O acelerado crescimento econômico — sem precedentes na história recente —, a criação de uma base sólida de infraestrutura e inovação tecnológica de primeira linha mundial e os avanços no plano social, como a eliminação da indigência, colocavam a sociedade chinesa em um nível mais condizente com sua importância global. No entanto, ainda existiam profundas desigualdades e contradições, que faziam com que características de superpotência coexistissem com outras de país “emergente” ou em desenvolvimento.
e) Como resultado destes desenvolvimentos, consideramos que, além de definir a sociedade e o Estado chinês, era necessário levar em conta a consolidação de características propriamente imperialistas, partindo da definição do marxista francês Pierre Rousset de “imperialismo em construção”. Caracterizamos a China como “imperialismo emergente”, no sentido de ser talvez o primeiro caso – o único antecedente possível, e discutível, poderia ser a Coreia do Sul – de um país da periferia que entra no núcleo central dos países imperialistas. Não seria a única característica sem precedentes: ao fato de ter sido um país (semi)colonizado e oprimido durante boa parte da história moderna, acrescenta-se que ele vinha de uma imensa revolução anticapitalista, a de 1949. Essas e outras especificidades obrigavam, dizíamos então, a tentar definições “por aproximações sucessivas e provisórias”, mas que, em nossa opinião, deveriam dar conta do que é possivelmente o maior fato geopolítico do século até agora: a ascensão da China à condição de potência global, que os próprios Estados Unidos designaram – como explicam as palavras do conselheiro de Segurança Nacional americano Jack Sullivan, citado em epígrafe – como principal rival.
É neste contexto que se inscreverão as sucessivas análises, atualizações e precisões, com a intenção já mencionada de dar forma a uma visão mais integral, empiricamente adequada, conceitualmente coerente e metodologicamente criteriosa das mudanças e continuidades da realidade chinesa, bem como de suas perspectivas. Por outro lado, uma estrutura social e uma dinâmica tão complexas como as da China abrem tanto imensas dificuldades para a análise e a intervenção política quanto controvérsias infinitas em todas as correntes políticas e ideológicas. A esse respeito, na segunda parte, tentaremos mediar alguns dos pontos de debate mais candentes no seio do marxismo, em controvérsia com alguns autores cuja elaboração, mesmo que discordemos, nos parece pertinente, valiosa ou sugestiva.
Tradução de Mariah Sinem, do original Presentación.











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