“O comunismo é … o Sistema da Comunidade (Gemeinschaftssystem)»
(Engels, 1845)
“O Comunismo não é um Estado que deve ser implantado, um ideal ao qual a realidade deve ser submetida. Chamamos o comunismo de verdadeiro movimento (wirkliche Bewegung) que anula e supera o atual estado de coisas.”
(Engels e Marx, A Ideologia Alemã, 1845-1846)
“Os comunistas alemães se reúnem todos os domingos em frente à Barriere du Trône, na sala de um taberneiro … geralmente 30, muitas vezes 100 ou 200. Eles alugaram o quarto. Lá eles fazem discursos nos quais a morte do rei, a abolição de toda propriedade, a eliminação dos ricos, etc., são pregadas abertamente. Resumindo: a loucura mais horrenda e inaudita. Estou escrevendo para você com pressa, para que aqueles Karl Marx, Moritz Hess… não continuem a lançar os jovens em desgraça”
(Relatório da Polícia Secreta Prussiana em Bruxelas, fevereiro de 1845)
Tradução de José Roberto Silva, do original Marx desconocido: sobre «la ideología alemana» II. De Iquierda Web
Recordava o velho Engels em 1885 que “quando na primavera de 1845 nos encontramos novamente, desta vez em Bruxelas, Marx já havia avançado em direção aos principais aspectos de sua teoria materialista da história (materialistische Geschichtstheorie). Nos propusemos, então, à tarefa de elaborar a teoria recém-alcançada nas mais variadas direções… O comunismo agora não consistia mais em espremer da fantasia um ideal de sociedade tão perfeito quanto possível, mas compreender o caráter, as condições e, como consequência disso, os objetivos gerais da luta travada pelo Proletariado. Nossa intenção não era, de forma alguma, comunicar exclusivamente ao mundo ‘erudito’, em grandes volumes, os resultados científicos por nós descobertos. Nada disso. Nós dois já estávamos totalmente envolvidos no movimento político, tínhamos alguns adeptos entre o mundo educado, especialmente no ocidente da Alemanha e grandes contatos com o proletariado organizado. Fomos obrigados a raciocinar cientificamente sobre nossos pontos de vista, mas considerávamos igualmente importante para nós ganhar o proletariado europeu, começando pelo alemão, para nossa doutrina”. [1] Qual foi o produto desse trabalho de urbanização que devia se expandir, como afirma Engels, em várias Richtungen, em várias direções? Um enorme manuscrito inédito intitulado Die deutsche Ideologie, uma obra que Marx e Engels começaram a escrever quase imediatamente após seu desembarque forçado em Bruxelas, em abril de 1845, e é a evolução-superação lógica tanto dos famosos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 como de A Sagrada Família, escrito por ambos entre 1844-1845. A obra tornou-se não apenas um acerto de contas com várias tendências filosóficas e políticas na Alemanha da época, mas também a certidão de nascimento do próprio Marxismo, já consolidado por meio de um trabalho de sabotagem negativo, de oposição (Marx a chama de den Gegensatz unserer Ansicht gegen die ideologische der deutschen Philosophie gemeinschaftlich auszuarbeiten) e luta política-ideológica. Se considerarmos a obra em termos do número de folhas, é uma longa crítica ao anarquismo individualista de Max Stirner (dit Johann Caspar Schmidt) [2] e aos escritos do filósofo junghegeliano Bruno Bauer de 1844-1845 (ex-padrinho acadêmico e professor de Marx em sua etapa liberal). [3]
É também um momento decisivo em uma escalada na luta ideológica contra o radicalismo liberal, o republicanismo burguês e à esquerda hegeliana. A dura polêmica foi iniciada por Bruno Bauer atacando ao Comunismo e ao filósofo Ludwig Feuerbach em dois artigos furiosos ao longo de 1844: Was ist jetzt Gegenstand der Kritik? [4],Die Gattung und die Masse [5] e em um livro publicado em 1843: Die Judenfrage. [6] Engels e Marx responderam-lhe, ainda como comunistas-feuerbachianos, em Die heilige Familie e em artigos publicados no Deutsch-Französische Jahrbücher [7]; Bauer rebateu, agora atacando tanto o particularismo egoísta de Stirner quanto o de Feuerbach (e por consequência ao comunismo) no artigo Charakteristik Ludwig Feuerbachs, [8] que por sua vez foi acompanhado pelo ataque de Stirner em forma de livro, não apenas contra Feuerbach e o Comunismo, mas implicitamente contra a posição filosófico-política de Engels e Marx refletida em Die heilige Familie; finalmente, como ponto final dessa emaranhada luta ideológica, Engels e Marx compõem sua crítica ampla e definitiva precisamente em Die deutsche Ideologie. Por que especialmente Bruno Bauer e Max Stirner? O próprio Engels , escrevendo sob um pseudônimo e na terceira pessoa, apontou em um artigo de 1845 que “a guerra foi declarada aos filósofos alemães que se recusam a tirar consequências práticas de suas teorias puras e afirmam que o homem não tem nada a fazer senão refletir sobre problemas metafísicos. Os Srs. Marx e Engels que publicaram uma refutação detalhada dos princípios defendidos por B. Bauer, e pelos Srs. Hess e Bürgers se dispõe a refutar a teoria de M. Stirner. Bauer e Stirner são os representantes das últimas consequências a que conduz a filosofia alemã abstrata (abstrakten) e, portanto, os únicos adversários filosóficos importantes do Socialismo, ou melhor, do Comunismo, já que aqui a palavra Socialismo engloba as várias ideias confusas, vagas e indefiníveis daqueles que entendem que algo deve ser feito, mas sem decidir abraçar o Sistema da Comunidade (Gemeinschaftssystem) sem reservas“. [9] O Kommunismus é aqui definido, notavelmente, como um sistema social baseado na ideia de comunidade humana.
O verdadeiro socialismo: O esforço de Engels e Marx para combater essa tendência através da Kritik não parece exagerado ou barroco, como muitos marxólogos sustentam. O prognóstico filosófico-político engelsiano era preciso: a tendência híbrida do verdadeiro socialismo, do wahre Sozialismus, teve uma popularidade inesperada entre a classe média e a aristocracia operária de diferentes regiões da Alemanha, expandindo-se e formando vários grupos ativos (os mais numerosos na Vestfália, Saxônia e Berlim). Engels decidiu examinar criticamente os diferentes socialismos regionais com base nas teorias confusas dos jovens hegelianos e no anarquismo de Stirner em uma data tão tardia como 1847, escrevendo um manuscrito intitulado Die wahren Sozialisten (“Os Verdadeiros Socialistas”) [10] possivelmente um capítulo para completar o Die deutsche Ideologie em uma segunda parte, que ficou inconclusa. A importância que os dois a outorgaram era de tal magnitude que, como sabemos, no Manifesto Comunista mesmo, publicado em 1848, ainda dedicam amplo espaço à luta contra essa corrente teórico-prática, no Capítulo III, seção dos “Socialismos Reacionários”, tendência que se define da seguinte forma: “Os literatos alemães procederam com a literatura francesa profana de um modo inverso. O que eles fizeram foi unir seus absurdos filosóficos aos originais franceses. E assim, onde o original desenvolvia a crítica do Dinheiro, eles escreveram: “expropriação do Ser Humano”; onde se criticava o Estado Burguês: “abolição do Império do geral abstrato”, e assim por diante. Essa interpelação de locuções filosóficas e jargões nas doutrinas francesas foi batizada com os nomes de “filosofia dos fatos”, “verdadeiro socialismo”, “ciência alemã do socialismo”, “fundamento filosófico do socialismo” e similares.” [11] O que o verdadeiro socialismo representava e o que exatamente era na década de 1840? O Engels tardio definiu-o precisamente em 1885: “o ‘verdadeiro socialismo’ difundido por alguns literatos, [é a] tradução da fraseologia socialista francesa ao mal alemão de Hegel e ao amor meloso…” É muito útil analisar esses combates obscurecidos de Engels e Marx porque, como tendência ideológica básica, elas se mostraram mais permanentes do que sua política conjuntural, e hoje podemos considerar a lógica geral de seu argumento de forma relativamente independente da situação histórica particular que a nutriu. Sobre as repercussões histórico-políticas de uma ideologia baseada na “tradução da fraseologia” e a separação entre retórica e prática reacionária, que simplesmente transfere esquemas e visões parciais do mundo, basta recordar aqui o destino do Marx espanhol. O marxismo na Espanha desenvolveu-se, a partir de 1879, precisamente sob a influência desastrosa e a deformação de um Marx descafeinado, em sua pior versão francesa (sob a forma literária vulgar de Jules Guesde, Gabriel Deville, Paul Lafargue, uma mescla híbrida de Malthus, Ricardo e Lassalle), já que até a Segunda República o conhecimento adequado e em primeira mão da obra de Engels e Marx será escolar, deficiente ou inexistente. [12] A difusão da obra de Marx e Engels na Espanha, em escala e qualidade significativas, ocorreu no final da ditadura de Primo de Rivera. Antes da década de 1930, devemos falar de uma penetração muito baixa. Foi apenas a partir de uma data tão tardia para um país europeu como 1931 que se pôde ver a difusão de um verdadeiro Marx, e quando as traduções e edições experimentaram “um salto espetacular”, um parêntese muito curto interrompido pela eclosão da Guerra Civil e pela instauração da ditadura de Franco em 1939. [13] A primeira edição parcial em espanhol de Die deutsche Ideologie foi impressa no México, é de 1938 e leva o título de Ideologia Alemã. [14] Em seu prólogo, o tradutor, que usa o pseudônimo de “Argos”, depois de apontar que é uma tradução direta “longa e cansativa” do alemão, diferenciando-se precisamente do Marx mutilado em suas versões francesas que inundaram mecanicamente o Socialismo espanhol, afirma que: “‘Feuerbach’ constitui o primeiro fragmento da Ideologia Alemã, uma obra de polêmica e exposição doutrinária, escrita conjuntamente por Marx e Engels, em Bruxelas, de 1845 a 1846. Este trabalho não foi publicado durante a vida de seus autores. Aparece pela primeira vez em 1932, na edição de suas obras completas, publicadas sob os auspícios do Instituto Marx-Engels-Lenin, em Moscou. Forma o volume V desta edição”. É sintomático que o tradutor anônimo (e esforçado) tenha enfatizado repetidamente que seu Marx foi tirado diretamente do alemão… o que evitou a contaminação ideológica do transfert francês. A luta contra as formas diversas historicamente de wahre sozialismo não é simplesmente um dado arqueológico ou uma correção filológica, mas uma tarefa pendente e atual, e é nesse contexto que uma obra como Die deutsche Ideologie (DI) se torna importante para nossa posteridade. A discordância básica em 1845 era contra uma tendência política que apoiava uma estratégia ultrarrevolucionária, aplicando à conjuntura uma tática sectária e reacionária, ou seja: uma teoria abstrata intransigente, deduzida do transplante mecânico de textos importados e gerados em outra conjuntura social, mas que se traduzia em uma práxis reacionária. O resultado não poderia ter sido mais desastroso: ideias teóricas precárias já desajustadas de sua fase histórica material concreta, que geraram desvios práticos como resultado lógico.
Se existia uma deficiência sensível no desenvolvimento intelectual de Marx, esta era a ausência de um editor confiável em quase todas as fases de sua vida. As negociações editoriais sobre a publicação da DI foram realizadas pelo camarada Joseph Weydemeyer, uma vez que as editoras da esquerda hegeliana se recusaram a publicar uma crítica tão radical a três grandes luminares dos Junghegelianers, como Bruno Bauer, Ludwig Feuerbach e Max Stirner. Ele convenceu dois ricos simpatizantes comunistas, Julius Meyer e um certo Rempel, na Vestfália, dispostos a adiantar o dinheiro necessário para uma editora. Eles tinham o plano de investir o capital na infraestrutura mínima e na publicação imediata de três obras: o Die deutsche Ideologie, a biblioteca de autores socialistas concebida por Engels e Marx, e uma revista político-filosófica trimestral sob a direção de Engels, Hess e Marx. Quando chegou a hora de desembolsar, os dois capitalistas se retiraram e surgiram dificuldades econômicas e financeiras que, nas palavras irônicas de Mehring, “paralisaram no momento preciso seu espírito de sacrifício comunista“. [15] Weydemeyer continuou a oferecer a DI a diferentes editoras em toda a Alemanha, que o foram rejeitando. Tudo o que restava para o manuscrito era a voracidade dos ratos e o esquecimento injusto.
O primeiro rascunho de Die deutsche Ideologie (DI) foi escrito à mão com a caligrafia de Engels e depois revisado e modificado tanto por Marx como por Engels, portanto, pertencer a um autor em particular já é complicado. A folha em formato alemão (Bogen) foi dividida em duas colunas, texto básico à esquerda e correções e acréscimos à direita, com a famosa e ilegível caligrafia de Marx claramente visível. De acordo com alguns dos biógrafos de Engels, “muito mais da metade do manuscrito que chegou até nós, alguns como rascunho e outra passada a limpo, está escrito com a própria caligrafia de Engels, com correções e intercalações de Marx … No entanto, os manuscritos por si só, a mão que os escreveu, não ajudam, neste caso, a identificar a autoria das diferentes partes da obra. Como a caligrafia de Marx era realmente ilegível e a de Engels era muito clara, Engels muitas vezes não se limitava a limpar as partes já redigidas, mas também pegava a caneta para registrar no papel, em uma primeira versão, as ideias discutidas anteriormente. E não há dúvida de que, sendo o mais solto e mais expedito dos dois, ele assumiria a responsabilidade de escrever este ou aquele capítulo da obra. [16] Mehring, o biógrafo de Marx conhecido como o “Lenin alemão”, apontava em 1918 que a ID merecia o esquecimento porque “se sua polêmica de fundo, já por acaso muito completa, com os irmãos Bauer (A Sagrada Família de 1844) já era difícil de digerir para o leitor, esses dois grandes volumes, de cerca de cinquenta folhas no total, teriam se tornado de ainda mais difícil entendimento. Anos depois, Engels diria, lembrando-se, que apenas a crítica dedicada a Stirner cobria pelo menos tanto espaço quanto o livro do próprio autor criticado, e os fragmentos que foram publicados posteriormente provam que a memória não o enganava. Trata-se… de uma super controvérsia prolixa, e embora não falte um oásis ocasional no deserto, a quantidade de folhas não é abundante. Onde a agudeza dialética dos autores aparece, é para degenerar imediatamente em minúcias e jactâncias pedantescas, às vezes bastante mesquinhas”. Já podemos ver, na própria hagiografia do movimento, a tendência a construir um Marx irreal, a tendência instintiva de erigir um Marxismo unitário, fechado e canônico, cujos textos serão desmembrados e adaptados às demandas do momento, seja à razão do partido ou ao arcano do Estado. O caso foi agravado pelo fato de que esse common sense foi aparentemente legitimado pelo próprio veredicto de autoridade de Engels. A autoridade racional do “Socialismo Científico” foi invocada para fortalecer as demandas espontâneas por justiça social dos trabalhadores da Alemanha e da Europa. O menos importante era conhecer e entender Marx.
A vulgata marxista: problemas editoriais-políticos ou políticos- editoriais?: a DI teve um percurso editorial agitado, um caminho tortuoso em sua divulgação e recepção, como o filósofo Antonio Labriola havia antecipado premonitoriamente no final do século XIX: “muitos dos ardentes renovadores do mundo… eles se proclamaram seguidores das teorias marxistas, tomando como certo o marxismo mais ou menos inventado por seus adversários”. A obra de Marx, incompleta e ainda por conhecer, sofreu, precisamente após a morte de Marx (1883), um violento processo de falsa sistematização e vulgarização. Um fórceps teórico-ideológico devido à crescente urgência do crescimento de um movimento sindical e político maduro na própria Alemanha. O centro dessa irradiação ideológica foi, sem dúvida, o SPD, o partido-guia alemão, inclusive para o próprio Lênin até 1908, que aparentemente guardava com um espírito zeloso o núcleo marxista de seus fundadores. Como dizia um motto da época, o Sozialdemokratische Partei Deutschlands era considerado em todo o Ocidente como “a jóia da organização do proletariado consciente”. [17] Havia razões totalmente materialistas, além do idioma, para essa hegemonia: em primeiro lugar, o SPD era o herdeiro executor das obras publicadas e do valioso Nachlass inédito de Engels e Marx (exceto textos menores e correspondência marginal); o acordo testamentário de Engels sobre seus próprios livros, cartas e manuscritos e dos de Marx é datado de 29 de junho de 1893 em favor dos presidentes do partido, August Bebel e Paul Singer. Em segundo lugar, desde 1897 o SPD era co-proprietário da editora Dietz (editora dos poucos textos publicados até então por Engels e Marx) e a partir de 1906 assumiu a propriedade total dela, tendo um monopólio absoluto e controle ditatorial em termos de acesso e divulgação da obra de Marx. O SPD controlava assim toda a linha de produção, desde as fontes primárias, seleção e edição, até a distribuição do que podia ou não ser conhecido sobre Marx, base indispensável para a consolidação do chamado “Kautskismo”. É lógico definir esta versão de Marx, que chegou até nós intacta até hoje, como “Marxismo da Segunda Internacional” ou mesmo alguns a chamam diretamente de Kautskismus, derivado de Karl Kautsky, o Papa ideológico do socialismo europeu entre 1890 e 1933. [18]. Foi Kautsky quem criou o primeiro órgão do marxismo teórico, o jornal Neue Zeit, em 1883. De acordo com o filho de Kautsky, Benedikt, Engels conseguiu, com os fragmentos soltos deixados por Marx, iniciar a construção de um edifício teórico sólido e unitário, e seu pai teria conseguido, após a morte de Engels em 1895, “fazer um sistema orgânico que realmente representasse o marxismo pela primeira vez“. [19] Foi então, pela primeira vez, que de forma decidida, violenta e ideológica alguns marxistas negaram a outros marxistas sua qualidade de ser, e vice-versa; adjetivos e qualificações caricaturescas apareceram ao lado do termo “Marxismo” (entre aspas). Tendo como linha de demarcação e centro de oscilação ideológica este “sistema orgânico” apadrinhado por Engels e formalizado por Kautsky, podia-se ser um pseudo-marxista, um marxista de palavra, um marxista ortodoxo, um ex-marxista ou, o pior, um renegado (de direita ou de esquerda). Escolasticamente, se debatia (positiva ou negativamente) sobre um Marx irreal e incompleto, o Marx precisamente fixado como um “sistema orgânico” no Kautskismus, no qual o conhecimento adequado, a interpretação adequada de sua obra complexa, era o de menos. Marx se metamorfoseia em uma teoria post-festum, uma enciclopédia de dados com uma concepção evolutiva e tecnocrática da História: é funcional para a autopreservação e legitimação das organizações burocráticas operárias e populares. Não devemos nos surpreender com o baixo conhecimento da obra de Marx entre seus militantes e quadros dirigentes. [20] A expressão prática deste Marxismo “desnaturado” foi incorporada no mítico programa de Erfurt, o modelo para toda a social-democracia europeia para os próximos cinquenta anos. [21]
A obra de Marx, incluindo A Ideologia Alemã, era realmente conhecida após sua morte? Com a morte de Marx, Engels tornar-se-á seu primeiro editor, confrontado com essa gigantesca veia de manuscritos codificados na caligrafia minúscula característica de seu amigo, e cuidadosamente tentou sair do problema preparando a edição dos volumes restantes de O Capital. Uma das razões dadas por Engels para não se mudar para a Alemanha, conforme solicitado pelo recém-criado SPD, era seu desejo de completar o trabalho de edição do Nachlass de Marx que estava em Londres. Como uma espécie de Teofrasto moderno, Engels, aos 62 anos, cuidou da decifração e edição dos manuscritos de seu companheiro, temendo não concluir essa missão, pois, como confessou a Lavrov em carta: “(…) Eu sou o único ser vivo que pode decifrar essa escrita e essas frases abreviadas…” [22] É curioso que Engels, mesmo com Marx vivo, tenha vislumbrado seu papel como editor póstumo, seja por causa das próprias limitações de Marx ou porque ele conhecia o ritmo do trabalho de seu amigo; após a morte de Marx, Engels confessou a Sorge que era melhor se ele tivesse sido levado pela morte. Já que: “(…) viver tendo diante de si numerosas obras inacabadas, devorado pelo desejo de terminá-las e pela impossibilidade de realizá-las – isso teria sido mil vezes mais doloroso para ele do que a doce morte que o levou.“ [23] Quando Marx morreu, a ideia de obras completas, incluindo todas as suas obras juvenis, surgiu imediatamente, apesar do desdém oficial do SPD e de seus ideólogos. Já em 1883, a socialdemocracia russa reunida no Congresso de Copenhague pediu ao SPD alemão que iniciasse uma edição popular abrangente. [24] Um ano depois, em abril de 1884, o próprio Engels comentou sobre a mesma necessidade de Rudolf Mayer, falando da edição mais completa possível dos ensaios dispersos de Karl Marx: “(…) Gesamtausgabe von Marxens zerstreuten Aufsätzen (…)”. [25] Em maio de 1885, foi Hermann Schülter, editor do jornal social-democrata suíço Sozialdemokrat, que propôs a Engels um plano para publicar um volume de compilação dos escritos inéditos de Marx, incluindo os de sua juventude, em uma série futura intitulada “Sozialdemokratische Bibliothek“. [26] Outro visitante russo em Londres, Voden, do grupo de Plekhanov, que estava pressionando pela publicação de todas as “coisas velhas” de Marx, foi convidado por Engels a olhar os manuscritos com uma grande lupa. Voden leu o capítulo de Die deutsche Ideologie, Sankt Max (o “Anti-Stirner”), uma versão mais longa do Kritik para a filosofia hegeliana do direito, e outras partes do Die deutsche Ideologie (as partes contra Bruno Bauer), e ficou horrorizado ao ver como era difícil “decifrar os originais de Marx, cuja caligrafia me fez entender o desespero de seus professores na época de Trier.” Para o próprio Voden, o velho general explicou seu dilema: “Ele deveria passar o resto de sua vida publicando velhos manuscritos da obra publicista da década de 1840, ou deveria (depois de ter publicado o terceiro volume de Das Kapital) editar os manuscritos de Marx sobre a história das teorias da mais-valia?” [28] Nessa mesma reunião, Voden descobriu uma certa apreensão de Engels em relação ao jovem Nachlass de Marx, incluindo Die deutsche Ideologie: “Nossa próxima palestra girou em torno dos primeiros escritos de Marx e Engels. No início, Engels parecia um tanto perturbado por eu ter mostrado meu interesse por eles … Engels perguntou quais foram os primeiros escritos que interessaram a Plekhanov e seus seguidores e qual foi o motivo de seu interesse. Em sua opinião, o fragmento sobre Feuerbach, que ele considerava a mais substancial dessas “coisas velhas”, deveria ser suficiente… Aproveitei a oportunidade para voltar aos primeiros escritos de Marx, implorando a Engels que pelo menos arrancasse os mais importantes do esquecimento imerecido. Afirmei que as Teses sobre Feuerbach não eram suficientes. Engels respondeu que, para penetrar nessas “velhas histórias”, era essencial estudar o próprio Hegel, algo que hoje não era mais da conta de todos. Parece que Engels não teve tempo de publicar todo o Marx disponível e desconhecido ou considerou Nachlass, no contexto do espetacular crescimento eleitoral do SPD, de pouco significado prático e escopo ideológico limitado. Ele argumentou que, embora seu conteúdo tivesse algum interesse, seu estilo semi-hegeliano, que ambos usavam naquele período, em relação a esses textos “intraduzíveis e, além disso, sendo escritos em alemão e com conotações culturais precisas, eles haviam perdido muito de seu significado”. [29] Engels, por exemplo, resistiu a uma tradução francesa da obra de 1857 Kritik: Einleitung, e o mesmo com a edição da correspondência, o Briefwechsel von 1853, cuja linguagem ele descreveu como “incompreensível” para o leitor médio. [30]Quando Marx morreu, a ideia de obras completas, incluindo todas as suas obras juvenis, surgiu imediatamente, apesar do desdém oficial do SPD e de seus ideólogos. Já em 1883, a socialdemocracia russa reunida no Congresso de Copenhague pediu ao SPD alemão que iniciasse uma edição popular abrangente. [24] Um ano depois, em abril de 1884, o próprio Engels comentou sobre a mesma necessidade a Rudolf Mayer, falando da edição mais completa possível dos ensaios dispersos de Karl Marx: “(…) Gesamtausgabe von Marxens zerstreuten Aufsätzen (…)”. [25]
Em maio de 1885, foi Hermann Schülter, editor do jornal social-democrata suíço Sozialdemokrat, que propôs a Engels um plano para publicar um volume de compilação dos escritos inéditos de Marx, incluindo os de sua juventude, em uma série futura intitulada Sozialdemokratische Bibliothek. [26] Outro visitante russo em Londres, Voden, do grupo de Plekhanov, que estava pressionando pela publicação de todas as “coisas velhas” de Marx, foi convidado por Engels a olhar os manuscritos com uma grande lupa. Voden leu o capítulo de Die deutsche Ideologie, Sankt Max (o “Anti-Stirner”), uma versão mais longa da Kritik da filosofia hegeliana do direito, e outras partes do Die deutsche Ideologie (as partes contra Bruno Bauer), e comprovou horrorizado ao ver como era difícil “decifrar os originais de Marx, cuja caligrafia me fez entender o desespero de seus professores na época de Tréveris.” Para o próprio Voden, o velho General explicou seu dilema: “Deveria passar o resto de sua vida publicando velhos manuscritos da obra publicista da década de 1840, ou deveria (depois de ter publicado o terceiro volume de Das Kapital) editar os manuscritos de Marx sobre a história das teorias da mais-valia?” [28] Nessa mesma reunião, Voden descobriu uma certa apreensão de Engels em relação ao Nachlass juvenil de Marx, incluindo Die deutsche Ideologie: “Nossa próxima palestra girou em torno dos primeiros escritos de Marx e Engels. No início, Engels parecia um tanto perturbado por eu ter mostrado meu interesse por eles… Engels perguntou quais foram os primeiros escritos que interessaram a Plekhanov e seus seguidores e qual foi o motivo de seu interesse. Em sua opinião, o fragmento sobre Feuerbach, que ele considerava a mais substancial dessas “coisas velhas”, deveria ser suficiente… Aproveitei a oportunidade para voltar aos primeiros escritos de Marx, implorando a Engels que pelo menos arrancasse os mais importantes de um esquecimento imerecido. Afirmei que as ‘Teses sobre Feuerbach’ não eram suficientes. Engels contestou que, para poder penetrar naquelas ‘velhas histórias’, era essencial estudar o próprio Hegel, coisa que hoje em dia não era mais assunto para qualquer pessoa.” Parecia que Engels ou não tivera tempo de publicar todo o Marx disponível e desconhecido ou considerou Nachlass, no contexto do espetacular crescimento eleitoral do SPD, de pouca significância prática e limitado alcance ideológico. Argumentava que, ainda que seu conteúdo tivesse algum interesse, seu estilo semi-hegeliano que ambos usavam naquele período, em relação a esses textos intraduzíveis e, além disso, sendo escritos em alemão e com conotações culturais precisas, “eles haviam perdido muito de seu significado”. [29] Engels, por exemplo, resistiu a uma tradução francesa da obra de 1857 Kritik: Einleitung, e o mesmo com a edição da correspondência, o Briefwechsel von 1853, cuja linguagem ele descreveu como “incompreensível” para o leitor médio. [30]
Engels faleceu em 1895, deixando inacabada sua missão, que ele mesmo descreveu ironicamente como uma “mera seleção” entre as diferentes versões e diferentes redações trabalhadas por Marx, sempre usando como base a última redação disponível cronologicamente e comparando-a com todas as anteriores. É evidente que, salvo raras e fortuitas exceções (como no caso do capítulo “I. Feuerbach” de Die deutsche Ideologie), Engels privilegiou, quase exclusivamente, o trabalho editorial e de popularização em torno da obra de crítica da economia política e de Das Kapital. Sabemos que essa obsessão engelsiana se devia à tentativa de produzir uma obra orgânica e, na medida do possível, completa e contínua, que pudesse enfrentar a série de críticas que surgiram dos círculos burgueses, dos economistas neoclássicos e da academia. Dessa forma terminou a primeira operação editorial sobre os manuscritos de Marx, realizada por aquele que sempre foi considerado o “segundo violino”. Foi durante esse trabalho de edição que o marxismo foi controversamente constituído como uma doutrina, o que poderia dar uma hipótese plausível de até que ponto e em que medida tais pressões “políticas” externas influenciaram o próprio trabalho editorial de Engels. [31] O único fragmento juvenil de Marx que Engels trouxe à luz de Die deutsche Ideologie foi “I. Feuerbach“, [32] que agora sabemos foi cuidadosamente “editado” quando apareceu em 1888 como um apêndice da edição em forma de livro de seu artigo Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. [33] O falecido Engels se encontra em meio a uma situação histórica sem precedentes, que exige dele novas tarefas dentro de sua obra, não mais de divulgação, mas de polêmica “defesa” do legado de Marx.
BIBLIOGRAFIA
[1] Engels, Friedrich; “Zur Geschichte des Bundes der Kommunisten”, in: Marx, Karl/ Engels, Friedrich; Werke, Band 2, (Karl) Dietz Verlag, Berlin-DDR, 1971, p. 212 (pp. 206-224); em espanhol: “Contribución a la historia de la Liga de los Comunistas”, in: Marx, Karl/Engels, Friedrich, Obras escogidas, vol. III, Editorial Progreso, Moscou, 1974, p. 184-202.
[2] A melhor biografia sobre Stirner continua sendo a de um admirador, o poeta anarquista escocês John Henry Mackay: Max Stirner: His Life and His Work, e.a., Berlim, 1897. Mais atual: David Leopold Stirner: “’The State and I’ Max Stirner’s Anarchism”, em: The New Hegelians. Politics and Philosophy in the Hegelian School; editado por Douglas Moggach, Cambridge University Press, Cambridge, 2006, p. 176 e segs. Stirner não é apenas considerado um dos maiores teóricos do anarquismo individualista, mas também um antecessor fundamental do egoísmo niilista de Nietzsche; há uma grande controvérsia sobre a influência oculta ou vergonhosa de suas ideias na obra de Nietzsche desde o final do século XIX; veja-se um clássico: Levy, Albert; Stirner et Nietzsche, Societé Nouvelle de Librairie et d’Édition, Paris, 1904; mais atual: Brobjer, Thomas, H.; “Philologica: A Possible Solution to the Stirner-Nietzsche Question“; em: Journal of Nietzsche Studies 25 (1), 2003, pp. 109-114. A maioria das compilações de textos anarquistas inclui trechos de Der Einzige und sein Eigentum, como, por exemplo, Irving L. Horowitz, ed., The Anarchists, Dell, New York, 1964; ou a de George Woodcock, ed., The Anarchist Reader, Harvester Press, Hassocks, 1977.
[3] Sobre Bruno Bauer, ver o recente livro de Douglas Moggach; “The philosophy and Politics of Bruno Bauer”; Imprensa da Universidade de Cambridge; Nova Iorque, 2003; Sobre as relações entre Bauer e o jovem Marx, gostaríamos de remeter o leitor ao nosso artigo: “Marx, lector anómalo de Spinoza. (IV)“, on-line em Rebelión: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=106904
[4] Bauer, Bruno; “Was ist jetzt Gegenstand der Kritik?”; en: Allgemeine Literaturzeitung, Monatsschrift, ed. por Bruno Bauer, Verlag v. Eckbert Bauer, Charlottenburg, junho de 1844 (nº 8) pp. 18-26, ahora reimpresso como: Bauer, Bruno; “Feldzüge der reinen Kritik”, posfácio de Hans-Martin Sass, Frankfurt/M, Suhrkamp Verlag, 1968, pp. 200-212.
[5] Bauer, Bruno; “Die Gattung und die Masse“; em: Allgemeine Literaturzeitung, Monatsschrift, ed. por Bruno Bauer, Verlag v. Eckbert Bauer, Charlottenburg, setembro de 1844 (nº 10); pp. 42-44; ahora re-impreso como: Bauer, Bruno; Feldzüge der reinen Kritik, pós-facio de Hans-Martin Sass, Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main 1968, pp. 213-223.
[6] Bauer, Bruno; Die Judenfrage, Friedrich Otto Verlag, Braunschweig, 1843.
[7] Especialmente através de outro texto seminal de Marx, pouco conhecido e interpretado, falamos de “Zur Judenfrage”, publicado em: Deutsch Französische Jahrbücher, 1. Doppellieferung, fevereiro de 1844; agora em: Marx, Karl / Engels, Friedrich; Werke, Band 1, (Karl) Dietz Verlag, Berlim / DDR, 1976, pp. 347-377. Em espanhol: Marx, Karl; «Sobre la Cuestión Judía», in: Escritos de Juventud, FCE, México, 1982, p. 461-490.
[8] Bauer, Bruno; ” Charakteristik Ludwig Feuerbachs «, en: Wigands Vierteljahrschrift III, 1845, pp. 86-146.
[9] Engels, Friedrich; “Rapid Progress of Communism in Germany . III”, em: The New Moral World, nº 46, 10, maio de 1845; em alemão como: “Rascher Fortschritt des Kommunismus in Deutschland. III”, em: Marx, Karl/Engels, Friedrich; Werke, Band 2, (Karl) Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1976, pp.515-520; em inglês: Engels, Friedrich; Escritos de Juventud, FCE, México, 1981, pp. 254-258.
[10] Engels, Friedrich; “Die wahren Sozialisten”, escrito entre janeiro e abril de 1847; em: Marx, Karl / Engels, Friedrich; Werke, Band 4, (Karl) Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1976, pp. 248-290. Veja a carta de Engels a Marx de 15 de janeiro de 1847. Foi publicado pela primeira vez por David Ryazanov na edição MEGA (I) em 1932.
[11] Engels, Friedrich / Marx, Karl; Manifest der Kommunistischen Partei, «c) Der deutsche oder ‘wahre’ Sozialismus»; em: Marx, Karl / Engels, Friedrich; Werke, Band 4, (Karl) Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1976, pp485-488; em espanhol: Marx, Carlos/Engels, Federico; Manifiesto del Partido Comunista, “El socialismo alemán o el socialismo ‘verdadero’” em: Marx, Carlos/Engels, Frederick; Obras fundamentais. Los grandes fundamentos, (4), II, FCE, México, 1988, p. 299.
[12] O mais alto nível de marxismo teórico no período anterior à Guerra Civil o marca a obra do mais destacado dos marxistas espanhóis, Joaquín Maurín. Sobre o tema da difusão de Marx na Espanha: Pedro Ribas Ribas; La introduccion del Marxismo en España (1869-1939). Ensayo bibliográfico, Ediciones de la Torre, Madrid, 1981; ver também: «Bibliografía hispánica de Marx (1869-1939)» e «Análisis de la difusión de Marx en España», in: Anthropos. Marx em España, 100 anos despues, 33-34, Extraord. 4, 1984, pp. 29-53 e 58-63, respectivamente. Na realidade, podemos dizer que todas as versões de Marx que foram popularizadas e reproduzidas na Espanha tiveram a mediação ideológica do Marx francês: “Para os socialistas espanhóis, a ortodoxia está no partido liderado por Guesde e Lafargue… todas as noções e teorias são lidas em francês, em Guesde, em Lafargue, em Deville, e também nos mestres Marx e Engels, menos lidos e talvez mais tarde” aponta José Morato, em: El partido socialista obrero, Ayuso, Madrid, p. 78. Não é por acaso que Perry Anderson falou do enigma histórico espanhol no caso do conhecimento científico de Marx e na geração de teóricos marxistas: “The Spanish case, however, remains an important historical enigma. Why did Spain never produce a Labriola or a Gramsci?…“; em: “Considerations on Western Marxism”, Londres, 1976, p. 28, nota 4; em espanhol: “Consideraciones sobre el Marxismo Ocidental”; Siglo XXI, México, p. 40, nota 4. O jornal teórico do PSOE, El Socialista, principal veículo de divulgação do marxismo em espanhol até meados da década de 1920, traduziu sistemática e mecanicamente os artigos do guesdista Le Socialiste ou de L’Egalité; ver: Santiago Castillo, “De El Socialista a El Capital (Las publicaciones socialistas, 1886-1900)“, in: Negaciones 5, 1978, pág. 42 e segs.
[13] Como aponta Pedro Ribas, ibidem, p. 332 e segs. E. Lamo de Espinosa chega a uma conclusão semelhante: “A primeira coisa que nos impressiona é que, apesar da introdução precoce do marxismo na Espanha – costuma-se indicar a data de 1871, anos em que Lafargue chegou à Espanha – não se pode falar de uma tradição teórica marxista e toda produção intelectual nesse sentido é relativamente pobre“. em: Filosofía y política en Julián Besteiro, Editorial Cuadernos para el Diálogo, Madrid, 1973, p. 182 e segs.
[14] Marx, Carlos/Engels, Federico; Ideología Alemna; Tradução de Argos, Ediciones Vita Nuova, México, 1938.
[15] Mehring, E., Franz; ibid., págs. 133-134.
[16] Mayer, Gustav; Friedrich Engels. Uma biografia, FCE, México, 1978, p. 227. A obra é original de 1919. Sobre a figura do historiador e militante social-democrata Mayer, ver: Gustav Mayer: als deutsch-jüdischer Historiker in Krieg und Revolution, 1914-1920. Tagebücher, Aufzeichnungen, Briefe; Hrg. Gottfried Niedhart, Oldenbourg Wissenschaftsverlag, München, 2009.
[17] Ver a bela obra de Georges Haupt: “El partido-guía: la irradiación de la Socialdemocracia alemana en el Sudeste europeo”, em: El historiador y el movimiento social, Siglo XXI, Madrid, 1986, p. 103-145; também as obras de Eric J. Hobsbawm: “La difusión del Marxismo (1890-1905)”, em: Marxismo e História Social, Universidad Autónoma de Puebla, México, 1983, pp. 101-128 e “Las vicisitudes de las ediciones de Marx y Engels”; em: História del Marxismo. El marxismo en los tiempos de Marx (2); Bruguera, Barcelona, 1979, pp. 298 e segs.; e a colaboração de Franco Andreucci: “La difusión y vulgarización del Marxismo“, em: AA. História del marxismo. Marxismo en la época de la IIª Internacional (1); 3, Bruguera, Barcelona, 1980, pp. 13-88.
[18] Sobre o kautskismo como ideologia funcional à tática parlamentar e baseada em um bizarro “radicalismo passivo”, ver: Matthias, Erich; “Kautsky e y el Kautskismo. La función de la ideología en la Socialdemocracia alemana hasta la Primera Guerra Mundial “, em: Kautsky, Karl; La Revolucion Social. El camino al Poder; Cuadernos de Pasado y Presente, México, 1978, pp. 7-50. Sobre a “integração negativa” e o mecanismo ideológico do Attentismus na social-democracia, o trabalho de Dieter Groh: Negative Integration und revolutioniirer Attentismus: Die deutsche Sozialdemokratie am Vorabend des Ersten Weltkriegs, Propylaen Verlag, Frankfurt/Main-Berlin-Wein, 1973; e de Guenther Roth. The Social Democrats in Imperial Germany, A Study in Isolation and Negative Integration, Bedminster Press, Totowa: 1963.
[19] Advertência preliminar em: Kautsky, Benedikt (Hrsg); “Ein Leben für den Sozialismus. Erinnerungen an Karl Kautsky; J.H.W. Dietz, Hanover, 1954, p. 8 e segs. Sobre o marxismo como uma ideologia segunda internacionalista, ver: Gustafsson, Bob; Marxismo y Revisionismo; Grijalbo, Barcelona, 1975.
[20] De acordo com uma estimativa de 1905, apenas 10% dos membros do SPD possuíam qualquer conhecimento básico dos pensamentos de Engels ou Marx; ver: Kosiol, Alexander; «Organisationen für die theoretische Bildung der Arbeiterklasse»; in: Die neue Zeit: Wochenschrift der deutschen Sozialdemokratie; 24. 1905-1906, 2. Bd., 1906, H. 28, pp. 64-69; Agora online: http://library.fes.de/cgi-bin/neuzeit.pl?id=07.05884&dok=1905-06b&f=190506b_0064&l=190506b_0069
[21] Sobre o contexto político e ideológico da elaboração do programa de Erfurt, ver: Carl E. Schorske; German social democracy, 1905-1917: the development of the great schism, Harvard University Press, Harvard, 1955, p. 2 e segs.
[22] Carta de Engels a Lavrov, 5 de Fevereiro de 1894.
[23] Carta a Sorge, 15 de março de 1883.
[24] Não é por acaso que foi assinado pelo grupo “Emancipación del Trabajo”: Plekhánov, Axelrod e Zasulich em março de 1883. Aqui os dados são do próprio Rjazanov: «Vorwort zur Gesamtausgabe (MEGA)», em: MEGA, Band 1, Frankfurt/ Main, 1927, p. IX-XXVII.
[25] Carta de Engels a Rudolf Mayer, 27 de abril de 1884.
[26] Schülter (1851-1919) escreveu a Engels pedindo ajuda e apoio, essas obras escolhidas apareceriam dentro de um projeto maior de disseminação editorial, o “Sozialdemokratischen Bibliothek”. Naquela época, o general estava trabalhando nos manuscritos de Das Kapital. Engels colaborara com ele no livro sobre o movimento operário inglês: Die Chartistenbewegung in England. Mit Anlangen: a) Rede von Jos. Rayner Stephens, gehalten am. 10 Februar 1839 (…), b) Beschlüsse der Chartisten-Konferenz vom April 1851, Sozialdemokratische Bibliothek, 16, Hottingen-Zürich, 1887. A colaboração é analisada por: R. Merkel-Melis, «Engel’s Mitarbeiter an Hermann Schülters Broschüre ‘Die Chartistenbewegung in England’», in: MEGA-Studien, 1995/1, Dietz Verlag, Berlim, 1995, p.p. 5-32. Sobre a disseminação do Marxismo e da emigração alemã na Suíça, e especialmente o papel de Schülter: F. Schaaf, “Die ‘Sozialdemokratische Bibliothek’ der Schweizerischen Volksbuchhandlung in Hottingen-Zürich u. der German Cooperative Printing and Publishing Co. in London”, in: Marxismus und deutsche Arbeiterbewegung. Studien zur sozialistischen Bewegung im letzten Drittel des 19. Jahrhunderts, hrs.. von H. Bartel, H. Hesselbarth, W. Schöder, Dietz Verlag, Berlim, 1970, pp. 431-484.
[27] Capítulo III de Die deutsche Ideologie.
[28] Se trata do jornalista alemão Alexis Voden, «Talks With Engels», en: AA. VV.; Reminiscences of Marx and Engels, Foreign Languages Publishing House, Moscou, 1957, p, 325-333.
[29] Carta de Engels a Florence Kelley-Wischnewetzky, 25 de fevereiro de 1886, em: MEW, Band 36, (Karl) Dietz Verlag, Berlin/DDR, 1976, p. 452. Embora a afirmação de Engels se refira à reedição de uma obra específica, Die Lage der arbeitenden Klasse na Inglaterra de 1844, essa ideia é transferida para os escritos juvenis de Marx.
[30] Carta de Engels à filha de Marx, Laura Lafargue, 14 de outubro de 1893, em: MEW, Band 39, (Karl) Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1976, p. 146; e carta de Engels ao líder do SPD Wilhelm Liebknecht, 18 de dezembro de 1890, MEW, Band 37, (Karl) Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1976, p. 527;
[31] Esta é a pergunta que Rubel se faz, concluindo que “Marxismo” é um termo abusivo e que Engels, por meio de seu trabalho de sistematização e divulgação, é o primeiro “marxista”. «Na história do marxismo como culto a Marx, Engels ocupa o primeiro plano», em: « La leyenda de Marx o Engels como fundador (1972) », agora em: Marx sin mito, Octaedro, Barcelona, 2003, p. 31. Veja o trabalho de Terrell Carver: Marx & Engels. The intellectual Relationship; Indiana University Press, Bloomington, 1983, especialmente o capítulo 5, “Second Fiddle?”, p. 118 ff., chega à mesma conclusão em outra obra: ” Engels was the first Marxist, and he had a defining influence on Marxism. “; em: “Engels: A Very Short Introduction”; Oxford University Press, Oxford, 2003, p. 38 e segs.
[32] Marx, Karl; ” Thesen über Feuerbach “, en: Marx, Karl/ Engels, Friedrich; Werke, Band 3, Dietz Verlag, Berlim/DDR, 1969, p. 533 y ss..
[33] Engels, Friedrich: “Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie“; en: Marx, Karl/Engels, Friedrich; Werke, Volume 21, Dietz Verlag, Berlim/RDA, 1975, pp. 263/264;





