Continuamos nesta segunda parte a edição de nossa intervenção oral no curso de verão de nosso partido e corrente dedicada a alguns capítulos do marxismo e da transição socialista. Em particular, essa segunda parte será dedicada especificamente aos capítulos 5 e 6 de nosso trabalho, referindo-se à problemática do caráter da burocracia stalinista como uma “classe política” nas sociedades de transição inibida [1].
ROBERTO SÁENZ
19 de abril, 2025
“Considerar qualquer ser lá como ele é no absoluto é dizer que se fala dele como um algo; mas que no absoluto, onde A = A, certamente não existe tal coisa, pois lá tudo é um. Contrapor a esse saber que no absoluto tudo é igual para o conhecimento, diferenciado e pleno, ou que ele busca e exige plenitude, ou fazer passar o absoluto como a noite em que, como se costuma dizer, todos os gatos são marrons, é a ingenuidade do vazio como conhecimento. O formalismo (…)”
– Hegel, 2012: 15
1- Marxismo, burocracia e a transição socialista
Para fazer uma ligação com os capítulos 5 e 6, podemos nos referir a certos aspectos da obra de Antoine Artous, um marxista francês, “Marx, the State and Politics (1999)”, que tem a acuidade de apontar um funcionamento diferente das categorias do materialismo histórico na transição (que levantamos em nossa nota anterior). [2] Todas as categorias da transição socialista são “categorias híbridas”. Ou seja, elas estão situadas em um arco de tensão entre o passado capitalista ainda presente e as tendências de desenvolvimento futuro, razão pela qual não são categorias nem puramente econômicas nem puramente políticas. Marx havia apontado claramente que a sociedade de transição ainda estava “na antiga base econômico-social e não em uma base inteiramente nova”, na Crítica do Programa de Gotha [3]. É nesse contexto que entra a definição de Christian Rakovsky da burocracia stalinista emergente como uma “classe política”, uma definição que, como apontamos em nosso volume I, Rakovsky extrai diretamente da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de Marx. Podemos nos perguntar: como é isso, como a burocracia é uma “classe política”, qual é o significado desse conceito? Porque, a priori, o que se observaria, de acordo com os cânones do marxismo tradicional, é uma “contradição em termos” (é óbvio que colocamos aspas porque, para nós, não se trata de uma “contradição”, mas de um evento histórico-factual) [4].
O marxismo conceitua as classes sociais do capitalismo como um fenômeno estritamente econômico-social. Mas acontece que a burocracia stalinista como uma “classe política” escapa aos paradigmas tradicionais. No materialismo histórico funcionando como que “normalmente”, não existe essa “classe política”: a burguesia é constituída historicamente porque tudo é genético-estrutural (mesmo que nos esqueçamos disso devido à cota muito alta de althusserianismo que recebemos nas últimas gerações), a partir da estrutura econômico-social da sociedade. E seu pessoal burocrático, a burocracia como uma categoria social distinta da classe, é forjada no nível do aparato estatal (administração, polícia, exército etc.); eles são seus “representantes”, por assim dizer, no nível do aparato estatal [5].
No máximo, quando se fala – descritivamente – da “classe política” sob o capitalismo, está se nomeando os representantes políticos da burguesia e da pequena burguesia no nível das instituições representativas (uma espécie de “burocracia política”) [6].
Esta última pode ter muitas variantes em cada caso concreto, mas, em última análise, classe social e burocracia são categorias estritamente delimitadas no modo de produção capitalista, onde, além disso, a última depende da primeira. Existe, por assim dizer, a “burocracia burguesa” (o pessoal político diretamente burguês do qual acabamos de falar) e, desde a degeneração da Segunda Internacional, surge o que foi chamado de “burocracia operária”, que é a burocracia dos sindicatos e dos partidos social-democratas, a burocracia da classe operária, que, na caracterização classicamente estabelecida por Lênin, foi forjada a partir da aristocracia operária dos países imperialistas. (Não entraremos aqui nas nuances levantadas pelo nacionalismo burguês, porque, em todo caso, elas não modificam a teoria geral das classes e burocracias sob o capitalismo).
Sob esse esquema-esquemático (nossa paráfrase de Artous), Trotsky durante a década de 1930, mas sobretudo os setores preguiçosos tradicionais do movimento trotskista no segundo pós-guerra, consideravam o stalinismo uma mera “burocracia operária” no contexto de um Estado igualmente “operário” (degenerado ou deformado). Substantivamente, nada havia mudado: tudo era uma “grande felicidade”, eles viviam em uma “nova democracia de nervos e músculos” (Moreno et Al.) [8] Assim, a URSS, a China etc. eram “estados operários” em que a “burocracia operária” era um “estado operário”. Portanto, a URSS, a China etc. eram “Estados operários” onde a classe operária havia sido desalojada do poder político, mas ainda dominava o “poder social” (o “país operário” de Moreno); a burocracia era uma “mera burocracia” subordinada à classe operária que, como classe, ainda exercia sua dominação social nesses Estados. Isso é, de fato, o oposto da definição de Trotsky do stalinismo como “mais do que uma mera burocracia”. Ocorre que o trotskismo tradicional do pós-guerra era mais “trotskista” do que Trotsky, embora, na realidade, fosse menos (Trotsky era mais sutil do que a esmagadora maioria do movimento trotskista até hoje, em pleno e futurista século XXI) [9].
Mandel, um importante representante do trotskismo tradicional do pós-guerra, cujas posições são hoje repetidas como ventríloquos por várias correntes, afirmou que falar de um Estado burocrático era uma “tautologia” porque “todo Estado é burocrático”. Nessas discussões, é preciso lembrar que Mandel parecia não ter em mente as formações “asiáticas”, caracterizadas precisamente por um Estado burocrático: a camada dominante nesses Estados sem classes formais era uma burocracia estatal encarregada da irrigação, colocando-se acima das comunidades camponesas locais que trabalhavam coletivamente a terra. Mas o problema é que, se todo Estado é “burocrático”, ou seja, tem uma equipe burocrático-estatal encarregada dos assuntos da administração “das coisas e das pessoas” (Trotsky), existem “Estados burocráticos” e “Estados burocráticos”: Por meio de um operativo formalista, Mandel des-historicizou a análise das sociedades de transição bloqueadas, bem como negou rotundamente o salto de qualidade do “imperium burocrático” em um e outro caso (o pessoal burocrático de um Estado operário e a burocracia de um Estado operário que deixa de sê-lo). [10]
Por outro lado, várias correntes de pensamento anti-stalinista assumiram a posição – igualmente unilateral – da burocracia como uma “nova classe social” no sentido pleno da palavra: esse é o caso dos teóricos do “capitalismo de Estado” e do “coletivismo burocrático”. [11] Entre os primeiros, a corrente decista e, mais tarde, o marxismo conselhista de Karl Korsch e Paul Matick, assumiram a burocracia stalinista como uma nova classe social no sentido pleno da palavra. O mesmo ocorre com a corrente cliffista, que considerava que, na virada stalinista da década de 1930, a URSS foi transformada em um “capitalismo de Estado” e a burocracia em uma nova classe social própria desse Estado. Por sua vez, o Schachmanismo, embora nunca tenha conseguido explicar o caráter específico do suposto “novo modo de produção histórico” que pensava ter visto nascer, o “coletivismo burocrático”, falará de uma “nova classe social gerencial” destinada a se impor globalmente [12].
É claro que essas últimas definições sempre nos pareceram um “salto mortal”, um tipo de vulgaridade que não explica realmente quais especificidades foram processadas nesse nível nas sociedades não capitalistas de transição frustrada.
Trotsky tinha razão ao se recusar a falar simplesmente da burocracia como uma nova classe social histórica. Essa definição foi, repetimos, não apenas um “salto mortal” político, mas também teórico, um desvio desprovido de nuances e de perspectiva histórica (que, além disso, desarmou a Oposição de Esquerda em uma batalha aberta). [13] Ao mesmo tempo, ele viu a especificidade de uma burocracia como a stalinista, que tinha o monopólio do controle sobre os meios de produção sem ter ao seu lado uma classe social proprietária propriamente dita. Por isso, ele afirmou que a burocracia stalinista era “mais do que uma mera burocracia” (embora um pouco menos do que uma classe orgânica) e, ao mesmo tempo, apontou que “relações inteiramente novas do ponto de vista histórico” haviam sido “estabelecidas entre essa burocracia e os meios de produção, relações que, se cristalizadas, se sustentadas ao longo do tempo, acabariam por liquidar o Estado operário (visto em um curto período, não nas décadas que se passaram até 1989 sem que o pensamento doutrinário trotskista levasse em conta a questão). [14]
A preguiça mental da maioria do trotskismo os fez esperar até 1989 para afirmar que “Trotsky estava certo, com a restauração do capitalismo a burocracia foi transformada em burguesia”. Mas se foi assim, se de fato, com a restauração capitalista pura e simples, uma parte fundamental da burocracia stalinista foi transformada na nova burguesia da Rússia atual ou na nova burocracia burguesa da China atual, a preguiça mental dessas pessoas e seu doutrinarismo são dramáticos: em que categoria marxista se poderia colocar uma burocracia que dominou a ex-URSS por seis longas décadas e vários países no período pós-guerra por quatro décadas e meia? Um novo tipo de burocracia “operária”? Quanta palhaçada!
2- Uma “classe política”
É lógico – ou melhor, ilógico – que, com uma abordagem tão esquemática das categorias do materialismo histórico, a questão não tenha outra “solução” a não ser o doutrinarismo da “burocracia operária” ou do salto mortal de considerar a burocracia stalinista como uma nova classe social no estilo da classe capitalista tradicional: “(…) é a repetição uniforme do mesmo, que não faz mais do que aplicar-se externamente a diferentes materiais, adquirindo a aparência tediosa da diversidade. Quando o desenvolvimento consiste simplesmente nessa repetição da mesma fórmula (…) Se o sujeito do conhecimento se limita a fazer com que uma forma imóvel gire em torno do dado, fazendo com que o material mergulhe de fora para dentro nesse elemento imóvel, isso, nem mais nem menos do que quaisquer ocorrências arbitrárias em torno do conteúdo, não pode ser considerado como o cumprimento do que foi exigido, a saber, a riqueza que brota de si mesmo e a diferença de figuras que é determinada por si mesma. Trata-se, antes, de um formalismo monótono que, se consegue estabelecer diferenças em termos materiais, é simplesmente porque isso estava pronto e era conhecido’ (Hegel, 2012: 14). [15]
Nota-se em Hegel que ele já havia resolvido “antecipadamente” a crítica do tipo de metodologia formalista que acabamos de criticar na nota de rodapé: a riqueza das formas históricas é cancelada pelo dispositivo tautológico de que “um estado operário é um estado operário” ou, simplesmente o oposto: um novo tipo de capitalismo, ambas definições externas à coisa.
Mas é exatamente aí que entra a solução muito mais dialética oferecida por Rakovsky: a burocracia stalinista se constituiu como uma “classe política”, uma definição que aparece, para os cânones esquemáticos do materialismo histórico, como uma “contradição em termos”: se é uma classe, não é política e, se é política, não é uma classe.
Mas acontece que precisamente os desdobramentos históricos originais do século XX viraram o materialismo histórico “de cabeça para baixo” (nesse ponto, Gramsci tem razão em fazer do marxismo um “historicismo” extremo, e não um conjunto de categorias pré-fabricadas para entender a realidade). O fato é que a burocracia stalinista era uma nova camada social que forjou seus privilégios não a partir da base econômico-social da sociedade em transição (embora deva ter havido algo nessa base que tornou possível sua apropriação do excedente: a autoexploração operária, característica de toda transição!) Uma “classe política” porque seu monopólio é o monopólio do poder e, portanto, em uma sociedade em que os meios de produção são estatizados, o monopólio do processo de reprodução social. Assim, a categoria de “classe política” rompe com o senso comum do funcionamento das categorias do materialismo histórico no capitalismo, onde as classes sociais são estruturas estritamente econômicas.
Ou seja, a classe capitalista é constituída por seu monopólio dos meios de produção e aumenta seu capital, sua valorização e sua acumulação de mais meios de produção por meio da exploração do trabalho nos “submundos da produção” (aquilo que está fora do mercado e não é visto, a passagem no volume 1 de O Capital dos capítulos sobre mercadorias e dinheiro para aqueles sobre a produção de mais-valia). Como uma classe capitalista, ela não possui nem precisa de um grama de política. O fato de que, nessa estrutura, a classe que domina no terreno socioeconômico é a classe que domina o Estado, que essa tem sido a mecânica histórica no capitalismo (esquematicamente marcada por Engels no Anti-Dhüring como “a mecânica histórica” tout court, ou seja, como se toda sociedade, toda dominação, se desenvolvesse sob essa forma), não significa que seja assim na transição. De fato, não é: a classe trabalhadora usa sua dominação política para realizar a transformação econômica da sociedade, afirma Marx.
Nessas condições, a classe operária na URSS continuou sendo uma classe social clássica, mas não conseguiu se elevar a uma classe histórica, exceto no auge da Revolução Russa (uma classe chamada a dominar o processo histórico, não para se afirmar como tal, mas para se dissolver no caminho da transformação comunista): ela perdeu o poder para a burocracia. A burocracia era o principal perigo de degeneração da revolução, mas a novidade radical da circunstância foi ofuscada pelo “bicho-papão” do retorno ao capitalismo nas mãos dos pequenos proprietários agrários e urbanos, sem qualquer representação independente real: esse foi o erro político grave de Trotsky e da Oposição de Esquerda como um todo.
Assim, a partir de certo ponto, a estrutura conceitual de Trotsky para entender a degeneração burocrática da URSS foi falsificada: não era a direita bukharinista ou a pequena burguesia agrária e urbana o principal perigo que assediava a URSS, nem a burocracia, nem o “centrismo burocrático” como o “presunto no sanduíche” entre a direita pró-burguesa e a esquerda bolchevique-leninista proletária. Na virada da década de 1930, todas as condições da luta mudaram, e isso não foi percebido a tempo: a burocracia, de bonapartista dentro de um Estado operário deformado, passou a mudar o caráter do próprio Estado ao erradicar a classe operária do poder político e social.
Aqui há, além disso, uma condição de possibilidade ausente no capitalismo: os meios de produção, sua propriedade, não estão dispersos na “sociedade civil”, “espalhados” na economia no sentido amplo do termo, como no capitalismo, mas centralizados. A “propriedade privada” do Estado é uma forma indireta de “propriedade privada” dos meios de produção. De fato, a burocracia nunca chegou a ter direitos formais de propriedade privada sobre os meios de produção (até a restauração capitalista, mas essa é outra história).
3- A necessidade de estudar nossos clássicos (ou as trocas de valor na transição)
Parece que ninguém leu a Crítica do Programa de Gotha (1875). Em geral, é como afirmamos: a análise do marxismo revolucionário não foi colocada em correspondência com a abordagem de Marx e Engels, eles não foram lidos, muito menos estudados entre a militância da esquerda! O Partido Social-Democrata foi fundado na Alemanha com um programa que foi uma negociação entre os marxistas e os lassalistas (o Partido Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Sozialistischen Arbeiterpartei Deutschlands, SADP, que em 1891 assumiria o nome de Partido Social-Democrata Alemão, SPD). Em uma parte desse programa de consenso, afirma-se que “o trabalhador receberá de volta a contribuição total de seu trabalho” (estamos citando de memória), e Marx afirma que “isso é falso, porque há despesas para investimento, para a manutenção dos menos favorecidos, para a educação pública etc.” (novamente, estamos citando de memória). Todo o fruto do trabalho não pode ser devolvido porque, na transição, ainda estamos no reino da necessidade, devemos continuar a trabalhar para sustentar a sociedade (Marx também critica o fato de que se fala do trabalho “como a única fonte de riqueza” e se esquece do substrato material da riqueza: a natureza; esse esquecimento não é acidental, ele se deve à abordagem prometeica da natureza por parte da Segunda Internacional e do stalinismo) [17].
O problema é saber se essa autoexploração é consciente, uma decisão coletiva sobre o que fazer com o trabalho excedente social, ou se é uma imposição unilateral da burocracia: é uma questão bem diferente, porque então voltamos à exploração do trabalho, pura e simplesmente! Na transição, Pierre Naville nos lembra, a lei do valor, as trocas de trabalho humano, ainda se aplicam até certo ponto, na medida em que o trabalho necessário e o trabalho excedente subsistem. Mas se essa transição for socialista, é o coletivo de trabalhadores que decide o que fazer com o trabalho excedente. Com um ângulo anti-stalinista, Farber nos lembra de algo que soa como uma cópia carbono de nossas próprias palavras: “(…) o crescimento econômico é necessário, mas não suficiente, para uma vida melhor. Como Benjamin alertou, o progresso material pode e tem coexistido com o retrocesso social [não é automático que os dois andem juntos, Farber afirma corretamente em outra parte de sua nota, R.S.]. É por isso que a política é fundamental: ela é o meio de decidir o que é produzido, como e para qual benefício” (idem).
A lei do valor continua presente porque a medida da riqueza segue sendo o trabalho humano. Isso é assim pelo menos até que tenhamos abundância e automação da produção, ou, como Marx afirmou nos Grundrisse, quando o trabalhador for colocado ao lado do processo de produção como observador e controlador, e não subsumido a ele (quando a dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo terminar; voltaremos a esse assunto na terceira parte desta nota).
Por decreto político – Lênin, Rosa, Trotsky dixit – as leis da economia não podem ser violadas. A lei do valor ainda funciona até certo ponto; caso contrário, é o reino da pura arbitrariedade, “dirigir à noite com os faróis apagados”, como Trotsky denunciou o plano quinquenal stalinista em 1932 (“A crise do primeiro plano quinquenal”, um texto belo e educativo).
Marx havia deixado claro que as proporções do dispêndio do trabalho humano ainda deveriam ser respeitadas na transição (é uma pena que Marx seja pouco ou nada lido [18]): “No que diz respeito ao ‘Zentralblatt’ [cálculos de valores, RS], o homem faz a maior concessão possível, reconhecendo que, se a palavra valor deve significar alguma coisa, minhas conclusões devem ser aceitas. O infeliz não sabe que, mesmo que não houvesse um capítulo sobre valor em meu livro, a análise das relações reais que apresento conteria a prova e a demonstração da relação real de valor. A conversa fiada sobre a necessidade de provar o conceito de valor vem de uma completa ignorância do assunto e do método científico. Qualquer criança sabe que um país que parasse de funcionar, não digo por um ano, mas por algumas semanas, entraria em colapso. Essa criança também sabe que a quantidade correspondente às várias necessidades requer massas diferentes e quantitativamente determinadas do trabalho social da sociedade. É evidente que essa necessidade de distribuir o trabalho social em proporções definidas não pode ser eliminada pela forma específica de produção social, mas que somente a forma que ela assume pode ser alterada. Nenhuma lei da natureza pode ser eliminada. O que pode mudar, com a modificação das circunstâncias históricas, é a forma em que essas leis operam. E a forma pela qual essa divisão proporcional do trabalho opera em um estado de sociedade no qual a interconexão do trabalho social se manifesta na troca privada dos produtos individuais do trabalho é precisamente o valor de troca desses produtos” (Marx, 1969: 66).
Assim, e para concluir esta segunda parte de nosso curso, podemos apontar: a) que na transição obviamente permanece a “necessidade de distribuir o trabalho social em proporções definidas”; b) que a “forma modificada na qual essas leis operam” são aquelas que trataremos no volume II de nosso trabalho: a combinação dos três reguladores da transição, que são o planejamento, o mercado e a democracia operária; c) que na transição coexistem, até certo ponto, trocas de valor, que nada mais são do que trocas em proporções definidas de trabalho humano e, finalmente, d) que a “classe política” burocrática foi forjada histórica e originalmente porque a perda do poder político da classe operária permitiu que a mesma perdsse o controle da “distribuição do trabalho social em proporções definidas”, “distribuição” que, como qualquer marxista que se preze sabe, é, em primeiro lugar, uma distribuição das condições de produção. Na medida em que significa que o trabalho morto domina sobre o trabalho vivo, na ausência de condições de democracia socialista, essa distribuição significa uma reprodução original das condições de exploração do trabalho.
Mas essa questão não nos levará apenas ao volume II de nosso trabalho, mas também ao capítulo final do curso de verão dedicado à análise do verdadeiro caráter da propriedade estatizada.
Bibliografía
Samuel Farber, “En defensa del progreso”, Sin Permiso, 01/04/25, izquierda web, 14/04/25.
Nicolás González Varela, “Metapolítica de la Transición”, III, izquierda web.
F. Hegel, Fenomenología del espíritu, Fondo de Cultura Económica, Argentina, 2012.
Karl Marx, Cartas a Kugelmann, Editorial Avanzar, Buenos Aires, 1969.
Zeleny, La estructura lógica de El capital de Marx, Grijalbo, México, 1978.
Notas
[1] Usamos a palavra “função” entre aspas porque o marxismo não se trata de uma lógica ‘funcionalista’ abstrata e a-histórica, como parece derivar de algumas das abordagens de Bukharin em seu “Ensaio Popular sobre Sociologia”, criticado por Gramsci.
[2] Artous se queixa de que Trotsky faz com que as categorias do materialismo histórico funcionem na transição de forma semelhante à forma como funcionam no capitalismo, especialmente em In Defence of Marxism, um texto que, de qualquer forma, sempre nos pareceu mais repleto de contradições dialéticas do que é normalmente lido no trotskismo ortodoxo. Como é bem sabido, ele não foi apresentado como uma obra pelo próprio Trotsky, mas após sua morte pelo SWP. Naville faz a mesma observação.
[3] É muito característico o fato de Marx ressignificar Hegel o tempo todo, independentemente do que os marxistas antihegelianos possam pensar. Se Marx tinha, de certa forma, todo o pensamento social anterior em sua cabeça, não há como perder de vista o fato de que seu verdadeiro alter ego era Hegel, assim como o alter ego de Hegel era Kant (a “sobreposição” entre um e outro é colossal).
[4] Sabe-se que a realidade é sempre mais rica do que qualquer conceitualização, uma conceitualização que deve ser ajustada à riqueza do real: “(…) a determinabilidade universal é a unidade do oposto (…) o determinado tem, por sua própria natureza, que se perder em seu oposto, portanto, a razão deve avançar deixando para trás a determinabilidade inerte que apresentava a aparência do permanente, até chegar à observação dele como ele realmente é, ou seja, como ele se relaciona com seu oposto (Hegel, 2012: 152/3). Isso poderia ser parafraseado para a abordagem ortodoxa da experiência da antiga URSS como uma abordagem “inerte”, morta, sem contradições.
[5] Com relação à análise genético-estrutural, podemos nos referir ao marxista polonês J. Zeleny: “A explicação genética e a explicação estrutural não são opostas na obra de Marx, nem funcionam em paralelo ou sucessivamente. Marx está interessado em compreender o modo de produção capitalista como uma estrutura que surge, evolui e perece. A análise teórica que corresponde à realização dessa intenção é a análise genético-estrutural. No mesmo sentido em que em um lugar ele fala de ‘estrutura interna’ (…) ele fala em outro de relações e circunstâncias (…) ‘Conceituar cientificamente’ significa, então, para Marx (…) expressar o caráter de um determinado tipo, organismo ou todo que está em desenvolvimento ou evolução, o que significa praticar uma análise genético-estrutural” (Zeleny, 1978: 24).
E é essa “prática de análise genético-estrutural” que nos permite abordar o conceito de “classe política” para a burocracia stalinista na URSS (bem como para a formação de classes em geral).
[6] A questão não é normalmente considerada, mas, de fato, os políticos burgueses são a burocracia política dessa classe, caracterizando, do ponto de vista marxista, aqueles que passam a vida inteira nos cargos parlamentares ou executivos do regime burguês.
[7] A categoria de “burocracia operária” foi estabelecida a partir do marxismo revolucionário na Primeira Guerra Mundial como a burocracia “dependente” da classe operária. Mas, no caso da classe operária, em vez de ser dependente, a burocracia é usufrutuária da classe trabalhadora, ao contrário do caso burguês, em que sua burocracia é mais funcional do que usufrutuária; uma pequena grande diferença que nos mostra que, no limite, a classe trabalhadora não pode ter uma burocracia “própria” no sentido pleno do termo! É claro que ninguém no marxismo preguiçoso e doutrinário conseguiu sequer pensar nesses problemas (Marx dixit).
[8] Exageramos um pouco na nota de propósito. Moreno percebeu que algo não estava funcionando quando afirmou que, em vez de falar de Estado operário, deveríamos falar de “país operário”… Com muito mais sensibilidade do que Mandel, embora Mandel fosse mais erudito do que Moreno (erudição e sensibilidade teórico-política nem sempre andam de mãos dadas), Moreno percebeu que algo não estava funcionando na definição de Estado operário porque a classe operária não estava no poder, por isso inventou essa definição de “país operário”.
[9] Na academia, não é comum falar do movimento trotskista em suas diferentes variantes para explicar as discussões do marxismo no pós-guerra. Mas isso implica um problema, porque o trotskismo continua sendo até hoje a força militante organizada do marxismo revolucionário. Forças maoístas, até mesmo abertamente stalinistas, embora ainda não guevaristas, estão ressurgindo, mas essas forças não são marxistas revolucionários.
Escrevemos em nosso volume I que parte de nosso esforço teórico é colocar sobre a mesa o marxismo esquecido do período pós-guerra; uma parte substancial dele são os esforços interpretativos do movimento trotskista, cujas correntes, as mais coerentes, deixaram importantes contribuições teórico-políticas.
[10] Podemos afirmar que, quando um “império” burocrático está em vigor, o Estado deixa de ser um Estado operário. A palavra – a circunstância – é tão forte que, se nos basearmos nas definições de Marx de ditadura proletária para caracterizar o Estado ou semi-Estado de transição, é óbvio que, sob esse império, o Estado deixa de ser caracterizado como Estado operário.
[11] Pierre Naville, por sua vez, apresentou a definição de “Socialismo de Estado” para a ex-URSS, mas sustentou que a burocracia não era uma nova classe social histórica.
[12] Nicolás González Varela nos interpreta criativamente em suas notas sobre nosso trabalho, embora em alguns casos nos interprete mal, como quando, depois de afirmar que não enumeramos os espólios que sobreviveram ao processo de involução e reação stalinista (nos referimos a eles brevemente em nossa nota anterior “Materialismo histórico e transição socialista”, parte 1), ele nos atribui uma definição que não é nossa: “Embora não enumere esses despojos que sobreviveram ao processo de reação e involução, acreditamos que [Sáenz] nos fala da expropriação-nacionalização dos meios de produção e do estabelecimento de um novo tipo de capitalismo de Estado, mais democrático, embora de partido único, politicamente e cada vez mais autoritário e repressivo” (“Metapolitica de la transición. A propósito do livro de Roberto Sáenz: El marxismo y la transición socialista”, izquierda web). É estranho, porque em nenhum lugar falamos de “capitalismo de estado” ou da existência, sob Lênin e Trotsky, de um regime do tipo de que Nicolás está falando. O que afirmamos é que houve uma mudança de um “Estado operário com deformações burocráticas”, como Lênin definiu a Rússia Soviética em dezembro de 1920, para um “Estado burocrático com remanescentes proletários e comunistas da revolução”, como Rakovsky o definiu no final da mesma década.
[13] Em todo esse debate, o problema da perspectiva histórica correta é fundamental. É por isso que sempre preferimos falar da degeneração de uma autêntica revolução proletária – da formação social transitória à qual ela deu origem – em vez de falar de um “novo modo de produção”, seja ele “operário” (como Juan Chingo, por exemplo, diz em seus artigos) ou na forma de “capitalismo de estado” ou “coletivismo burocrático”.
[14] Esse tipo de doutrinarismo também é um artifício para derrotistas consumados como Valério Arcary, que veem o mundo desmoronar depois de 1989 sem levar em conta que a classe trabalhadora “soviética” havia sido derrotada desde a década de 1930 e que as classes trabalhadoras da Europa Oriental estavam sendo derrotadas pelos tanques russos nas várias tentativas que ocorreram no decorrer do pós guerra, de revoluções socialistas anti burocráticas (geralmente se esquece que todas essas revoltas, como a de Berlim em 1953, Hungria em 1956, Praga em 1968 e até mesmo a da Polônia em 1980/1, tinham elementos genuínos de revoluções operárias e socialistas com a conformação de formas de duplo poder e tudo o mais).
[15] Entende-se por que Marx, repetidas vezes, defendeu Hegel, o grande dialético da filosofia universal: “Admitamos que esse é um método muito convincente (…) para a ignorância e a preguiça mental pseudocientífica (…) O que esse mesmo Lange diz do método hegeliano e do uso que faço dele é verdadeiramente pueril (…) Lange comete a ingenuidade de afirmar que eu ‘me movo com a mais rara liberdade’ no campo empírico. Ele não suspeita que essa ‘liberdade de movimento no tempo’ nada mais é do que uma paráfrase para o método de lidar com o assunto, ou seja, para o método dialético” (Marx, 1969: 102).
É engraçado ver como Marx considerava o método dialético “bem estabelecido” em comparação com as abordagens expressamente anti dialéticas de Juan Dal Maso. Referindo-se a Trotsky, em cujas páginas o legado dialético de Labriola pode ser visto, ele minimiza a centralidade da dialética em sua “metodologia”: “A dialética desempenha um papel fundamental, mas não substitui, nem pretende substituir, outros modos de raciocínio e argumentação, como os que mencionamos, ligados ao raciocínio dedutivo estudado pela lógica formal clássica, como o raciocínio indutivo. A identificação desses diferentes métodos faz sentido na medida em que nos permite (…) reabrir a questão dos procedimentos lógicos do marxismo de forma mais geral (…)“ (Dal Maso, ”Marxismo y procedimientos lógicos: el caso Trotsky”, izquierda diario 2/03/25).
Para a escola de Dal Maso, “um Estado operário é = outro Estado operário”, um procedimento de lógica formal, que, à maneira positivista e kantiana, exclui a contradição na definição. Fim.
[16] Aqui está uma coisa engraçada que não resiste a nenhuma dialética: se há três pães para distribuir e dez pessoas para distribuí-los, não há como esse “comunismo tosco” (Marx) impedir o retorno da luta de todos contra todos: a socialização da miséria não leva ao comunismo.
Aqui se destaca o bom senso aguçado de um artigo recente de Farber criticando os “des-crescimentistas marxistas”: “Tendo crescido em Marianao, uma cidade próxima a Havana, no início dos anos 50, lembro-me da empolgação e da alegria das pessoas da vizinhança quando as ruas laterais e secundárias de nossa cidade foram pavimentadas e a estrada que ligava Marianao a Havana foi ampliada (…) meus pais, imigrantes judeus poloneses, que apenas alguns anos antes haviam descoberto que suas famílias inteiras haviam sido aniquiladas no Holocausto, participaram desse sentimento esperançoso de progresso material.” Ele acrescenta: “(…) a distância cada vez maior entre os intelectuais e acadêmicos de esquerda que negam o progresso e os ativistas que lutam pelo progresso criou um vácuo teórico-político (…) [Para preenchê-lo] precisamos de uma definição simples de progresso: a eliminação do sofrimento humano desnecessário causado pela escassez e desigualdade materiais e pela impotência dos trabalhadores em suas vidas. Essa definição deve reconhecer que o medo de Rosa Luxemburgo da barbárie é justificado, que a barbárie é uma possibilidade sempre presente, não apenas no futuro distante, mas também no presente.”
“A eliminação do sofrimento humano causado pela escassez material e pela desigualdade requer o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e uma visão anticapitalista do crescimento econômico” (Samuel Farber, “En defensa del progreso”).
[17] Sobre a abordagem da produção indiscriminada e seu impacto negativo sobre o socialismo revolucionário no período pós-guerra e até os dias de hoje, Farber tem uma citação nesse texto que é uma cópia carbono de nossa crítica a Deutscher em um texto anterior (“Deutscherism and Stalinism”, web left): “A busca da modernização a todo custo também tem seus defensores na esquerda. O historiador socialista russo Roy Medvedev argumentou com veemência contra o elogio de Isaac Deutscher a Stalin como um dos maiores reformadores da história por sua rápida industrialização e coletivização da URSS, que, para Deutscher, concretizou muitos dos ideais da Revolução de Outubro”.
“O preço que as pessoas pagaram – o Gulag, a criação deliberada de fomes que levaram à morte de milhões de pessoas – foi enorme, mas apenas demonstrou, segundo Deutscher, a dificuldade da tarefa. Essa análise ‘objetivista’ está acima e fora da história, ignorando como a história foi realmente vivida por seus atores.”
“A crítica de Medvedev enfatiza que os esforços para modernizar a sociedade ou acelerar a produção, se desejáveis em um determinado lugar e época, devem ser avaliados pela forma como a mudança afeta aqueles que serão afetados por ela” (Farber, idem).
De qualquer forma, essa citação é relevante para uma questão central que abordaremos em nosso volume II: a problemática e a distinção entre acumulação primitiva, acumulação socialista e acumulação burocrática.
[18] Isso é interessante: nós, militantes, nos consideramos “marxistas”, mas entre a esquerda militante há pouca ou nenhuma leitura de Marx! Como Lênin afirmou que na parte supostamente mais idealista de Hegel, Hegel era mais materialista (volume 3 da Ciência da Lógica, “A Lógica do Conceito”): “É uma contradição, mas não é menos real” (também não temos a nota exata de Lênin em mãos no momento, mas acreditamos que não estamos traindo suas palavras).
Tradução por Mariah Sinem do original Una interpretación marxista de la burocracia estalinista.





