Esta análise propõe uma leitura crítica dos manifestos Pau-Brasil (1924) e Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, a partir da relação entre as vanguardas europeias e a construção de um projeto literário nacional. Nesse sentido, Oswald ressignifica criativamente as influências estrangeiras e as articula sob a perspectiva inovadora do primitivismo – aqui compreendido como força motriz e contraditória da cultura popular brasileira – no centro da produção simbólica e política. Além disso, procura-se destacar o conceito de Antropofagia como um elemento de resistência cultural e ferramenta crítica às estruturas de exploração e dominação.
Identidade literária em debate
ANDRÉ CERQUEIRA
Para analisar e interpretar o aproveitamento que Oswald de Andrade fez dos movimentos de vanguarda modernista, é preciso situá-lo, tanto ele próprio quanto sua obra, em relação ao sentido que a vida primitiva e a primitividade, em geral, alcançaram nas experiências vanguardistas de sua época.
Partimos, portanto, daquilo que Benedito Nunes discorre em sua obra Oswald Canibal sobre o “mal necessário” que os modernistas brasileiros tiveram que enfrentar para a constituição do movimento: as profundas influências europeias na produção literária nacional. O tema do canibalismo foi muito recorrente entre as vanguardas do século XX, e Oswald, predisposto a simpatizar com as revoluções estéticas, pode ter sido fortemente estimulado por essas fontes, especialmente por Blaise Cendrars[1]
Entretanto, as influências vanguardistas em sua obra não são, como aponta Heitor Martins (crítico literário), simples reflexos, decalques ou mimesis dos experimentalismos europeus. Conforme afirma Nunes: “…o estudo das influências no modernismo brasileiro não pode ser orientado segundo uma perspectiva unilateral, que atribua ao nosso movimento a posição de receptor passivo de empréstimos de fora”. (NUNES, 2004. p. 27)
Evidentemente, Oswald de Andrade assimila muito da tradição vanguardista europeia em seus manifestos. Ambos exprimem uma consciência de assimilação produtiva das contribuições do estrangeiro. No entanto, no Manifesto Pau-Brasil, Oswald pretende criar uma proposta singular brasileira, referenciando o “sentido puro” das coisas e dos materiais. O autor propõe uma tese fundamental em seu primeiro documento: a tese de que a originalidade nativa corresponde, através do primitivismo, à contradição inerente à dialética do modernismo, entre a cultura intelectual e a cultura no sentido antropofágico amplo.
Para Oswald, a originalidade nativa compreende os elementos populares e etnográficos da cultura brasileira, outrora marginalizados pelo idealismo doutoresco. Enquanto, para as vanguardas europeias, o primitivo é um objeto estético ou uma metáfora, para Oswald trata-se de um elemento constitutivo da identidade nacional. No Manifesto Antropófago, isso se torna mais evidente à medida que Oswald rompe com a ideia de equilíbrio entre culturas, sem, no entanto, abdicar completamente do processo de assimilação espontânea. O autor reabre o debate sobre a contradição inerente à dialética do modernismo, agora com críticas mais pontuais à cultura intelectual.
A ideia de assimilação é ampliada, atribuindo-se um sentido de revolução espontânea e permanente. Nesse documento, o autor quer usar o primitivo como ferramenta crítica para atingir as estruturas de dominação estabelecidas, tais como a religião, a política, e as hierarquias sociais e étnicas. Aqui, cabe destacar aquilo que já apontava Antônio Candido: “O Manifesto Antropófago nivela a influência dos jesuítas (moral catequética) à influência da mentalidade doutoresca de Coimbra. Ambas teriam sido de caráter paternalista dentro da sociedade patriarcal, cuja superestrutura abrigava a moral sexual da Cegonha, a autoridade do senhor de escravos e o regime da grande propriedade, por oposição à propriedade coletiva indígena.” (NUNES, 2004, p. 32).
O manifesto propõe a inversão do curso das influências estrangeiras que moldaram nossa vida intelectual e a tomada de consciência da originalidade do nosso primitivismo antropofágico, visto como a origem de todas as revoluções.
Nesse sentido, o trecho “Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a linguagem surrealista. A idade de ouro.”, contido no Manifesto Antropófago, remonta à ideia do “selvagem tecnizado”, apontada por Keyserling e incorporada por Oswald em seu projeto estético-político como a figura que sintetiza a capacidade do brasileiro de articular elementos ancestrais e modernos. Assim, ao afirmar que “já tínhamos o comunismo”, Oswald reivindica uma forma de organização social, baseada na coletividade e partilha. Quando diz “já tínhamos a linguagem surrealista”, sugere que nossa expressão cultural sempre foi marcada pela liberdade imaginativa, não dependendo da mediação europeia para sua legitimação. E, ao finalizar com “a idade de ouro”, projeta um ideal utópico de plenitude e autonomia cultural, fundado na superação das estruturas coloniais e na afirmação do primitivismo como força revolucionária.
[1] Blaise Cendrars, poeta e romancista, exerceu papel decisivo na vanguarda europeia do início do século XX. Cendrars foi um dos primeiros a romper com os padrões formais da poesia tradicional, buscando a fusão entre literatura, oralidade popular, colagem e a velocidade do mundo moderno.






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