“O que se vê habitualmente é a luta das pequenas ambições (do próprio [interesse] particular) contra a grande ambição (que é inseparável do bem coletivo)”.
Antonio Gramsci

Pedro Cintra, estudante de Letras e militante da Juventude Já Basta!

Se iniciaram na quarta 20 de agosto, o processo eleitoral para o Diretório Central dos Estudantes Alexandre Vannucchi Leme, principal entidade do movimento estudantil da USP, responsável por organizar a luta des estudantes. [1]  Marcado por uma postura inerte e ordinária das correntes, o pontapé da campanha não poderia ter passado mais despercebido pela comunidade universitária. [2]  O momento eleitoral, que deveria servir para debate e síntese, para politizar e alavancar os processos de luta do movimento estudantil, começou lastreado por picuinhas e disputas despolitizadas, que passaram a quilômetros de distância de refletir os inúmeros desafios que temos pela frente.

O descompasso está no fato de que atravessamos uma conjuntura disruptiva que é tudo menos ordinária, caracterizada por perigos reais de ataques aos direitos politicos e econômicos dos trabalhadores e da juventude, como o avanço do golpismo apoiado por Trump para impor a anistia aos golpistas mas também por enormes possibilidades para a luta. Da realidade universitária à situação internacional, o cenário é complexo e cheio de imprevisibilidades. 

Pisamos em um novo mundo em combustão, repleto de enormes crises que se sobrepõem e impõem aes explorades e oprimides históricos desafios. Sob nossas cabeças, vemos o acirramento da disputa geopolítica entre as potências capitalistas para definir suas zonas de influência e repartir um montante de recursos cada vez mais escasso. Este traço observamos no conflito ucraniano, e em escala muito maior, na sanguinária contrarrevolução e no genocidio que o sionismo quer levar adiante com a solução final do povo palestino. Sob o segundo governo Trump, a ave de rapina imperialista estadunidense alça voos cada vez mais ferozes para tentar recuperar a hegemonia global em um mundo polarizado.

Para isso, Trump trava uma guerra tarifária contra o mundo e orquestra, com o apoio devoto do núcleo duro bolsonarista, uma ingerência neo-colonial sem paralelos na história do Brasil. O plano do líder da extrema direita internacional é claro: além de conter a perda de hegemonia em todos os terrenos e expandir o domínio econômico dos Estados Unidos, Trump quer transformar nosso país em um laboratório da extrema direita, assim livrando os golpistas da cadeia e ameaçando nossos direitos democráticos na esteira de uma eleição presidencial que ninguém garante que será reconhecida pela Casa Branca. [3] Além disso, no comando do governo federal, além de aplicar um duro arcabouço fiscal, o lulismo não mobiliza sua base nas ruas para enfrentar Trump e a extrema direita, além de não implementar medidas concretas contra o imperialismo ianque para não desagradar seu pacto com burguesia brasileira parasita e vassala dos EUA. A implementação da Lei de Reciprocidade, ecoada por Lula durante o início da ofensiva trumpista, ficou somente no discurso.  [4]

Aqui em São Paulo, enfrentamos o governo de extrema direita de Tarcísio de Freitas (Republicanos) que avança em seu projeto de privatizações em massa, militarização da educação e extermínio policial nas periferias. Será o governador cachorrinho de Washington e do golpista e genocida Bolsonaro quem escolherá a próxima reitoria da USP neste segundo semestre em processo indireto e sem participação da base. Isso quer dizer que o cenário de ferrenhos ataques aos estudantes e trabalhadores da USP, que segue de vento em popa com a gestão reacionária de Carlotti e Arminda, se aprofundará se não houver uma forte resposta organizada por baixo. 

Entretanto, se o imperialismo, a extrema direita, os governos e reitorias puxam a corda da realidade para a direita, o outro lado do polo, os de baixo, não deixam barato e ensaiam importantes reações de luta em todo o mundo, ainda que com muitas mediações pela política de contenção das burocracias. Com embarcações partindo da Espanha e da Tunísia, vemos uma gigantesca flotilha com ajuda humanitária navegar rumo à Gaza. Sem contar a grande rebelião popular que explode na Indonésia e toda a organização dos trabalhadores por aplicativo que reacende a luta de classes no Brasil e no mundo. Na USP, construímos a dois anos uma das maiores greves da história da universidade pela contratação de professores e melhores condições de estudo depois de décadas de descaso e precarização. 

Processos de luta como estes, que certamente serão cada vez mais comuns daqui para frente, representam o reinício da experiência de luta de uma nova geração que se lança de cabeça a transformar um mundo que nos nega cotidianamente o direito ao futuro. Lutas que podem reverter a atual situação ultrarreacionária e cravar vitórias inimagináveis para os trabalhadores, a juventude, as mulheres, es LGBTQIA+ e todo o conjunto de explorades e oprimides. Em cima da mesa, está não só a possibilidade de conquistar nossas reivindicações na universidade, mas de virar pelo avesso tudo que quisermos com a força da nossa luta!

Mas para isso, é preciso virar do avesso também o movimento estudantil e varrer da frente as velhas direções burocráticas que atravancam a luta em nome de seus pequenos interesses. Nossa tarefa central é organizar es estudantes pela base à altura da batalha: esmagar o imperialismo, prender Bolsonaro e os golpistas com a força das ruas, derrotar a reitoria da vanguarda do atraso e construir direções independentes e revolucionárias que tomem de assalto a luta pelo presente e pelo futuro! 

 

As posições em disputa

Longe de ser um problema de forma, a despolitização e a apatia são produto do conteúdo deste processo eleitoral: as chapas e os programas em disputa. 

Em continuidade a atual gestão, conforma-se a frente renovada de Correnteza/UP, Juntos/MES-PSOL, UJC/PCBR e Rebeldia/PSTU. Para além de uma aliança pautada pelo aparato – dada suas recentes e constantes metamorfoses – , esta é uma chapa adaptada e semi-independente, já que abarca correntes das mais diferentes orientações políticas: desde setores que são diretamente base do governo e pretendem disputá-lo até aqueles setores economicistas que estão na oposição de esquerda à conciliação de classes. Polarizando com o campo majoritário, o objetivo desta chapa é tentar reembalar em uma nova fórmula a atual direção burocrática e estática. Uma aritmética rotineira e desastrada que calcula tudo menos o básico: organizar os estudantes a partir de seus espaços de base para enfrentar o imperialismo e a extrema direita dentro e fora da universidade. De fora do vocabulário des compas, estão nada mais que as centrais batalhas do nosso tempo, uma política muito aquém da necessidade concreta e que desarma a luta des estudantes e da juventude.

À direita, há o bloco do lulismo puro sangue que dirige o campo majoritário do movimento estudantil nacional (UJS/PCdoB, Juventudes do PT, Levante Popular e Juventude Sem Medo/PSOL). Uma frente que agora conta com os setores da direita do PSOL como o Afronte/Resistência que, vale lembrar, compôs a chapa da última gestão do DCE, seus novos inimigos. Este setor defende que as entidades funcionem como verdadeiras correntes de transmissão da política governista de Lula-Alckmin, por isso, levam adiante uma política inerte na UNE, UBES e nas demais entidades de base. Para estes, não há nenhum problema em que os trabalhadores se afundem no austericídio liberal-social, desde que a educação esteja “fora” do arcabouço fiscal de seu querido amigo Fernando Haddad. [5]

À esquerda, temos a frente de unidade da esquerda independente Intifada – Chapa 2 construída por mais de 200 estudantes e conformada pela Juventude Já Basta/SoB, Faísca Revolucionária/MRT e alunes independentes. A partir do acúmulo que sintetizamos no Manifesto por uma Universidade Anticapitalista, conformamos um programa unitário por um DCE independente e pela base que esteja à serviço da luta nas ruas contra o imperialismo, a extrema direita para transformar a universidade pela raiz. Queremos construir uma USP pública, democrática, laica e à serviços dos debaixo. Por isso, construímos o primeiro curso da história da universidade exclusivo para trabalhadores precarizados. Também somos aquelus que apostam na luta ao lado das categorias trabalhadoras para prender Bolsonaro e todos golpistas e também arrancar da reitoria da elite as Cotas Trans, PCDs e vestibular indígena; Despejo Zero no Crusp; Bolsas PAPFE e PUB para toda a demanda com piso de um salário mínimo paulista (R$1.804). 

 

Uma disputa da pequena política

Ainda que com algumas nuances políticas em contraste, as duas principais chapas operam sob uma lógica que se assemelha. Fazem campanhas da pequena política que distanciam es estudantes, e toda uma geração de ativistas, da construção da luta direta nas ruas contra a ingerência imperialista de Trump e a contra-ofensiva da extrema direita. Assim foi a experiência da base estudantil com a atual gestão, e com as anteriores direções uspianas do PT: abandono e esvaziamento dos espaços de base e debates, uma política que nada mais é que a ante-sala da derrota e da desmoralização. 

Distante da realidade política, o início da campanha passou longe de debater o que importa. A discussão foi permeada, para que se tenha ideia, por temas como a organização de festas, sobretudo, após a nota publicada pelos centros acadêmicos de História, Letras e Ciências Sociais contra a festa auto-organizada por estudantes da Letras, uma posição inconsequente que em nada fortalece a luta em defesa da autonomia dos nossos espaços políticos e culturais. [6]

Nossos desafios passam por processar as tarefas de natureza histórica que estamos diante em um cenário em que o rotineirismo e o ordinário não podem estar na ordem do dia. Vivemos uma situação reacionária e de inéditos testes das relações de forças com uma extrema direita que orquestra uma profunda reação social para avançar contra os nossos mais básicos direitos democráticos, fundamentais para batalharmos por melhores condições mais imediatas na universidade e no restante da sociedade. Um exemplo: o triunfo do projeto imperialista de extrema direita coloca em jogo a conquista das cotas trans em outras universidades, algo que já vem acontecendo como na revogação das cotas trans na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FURG) após decisão judicial. 

Abrir caminho a vitórias fundamentais, como a ampliação do acesso à universidade rumo ao fim do vestibular, nos exige abrir condições políticas mais favoráveis, derrotando o imperialismo e o bolsonarismo com mobilizações de rua e deslocando a correlação de forças à esquerda. A luta nas ruas no dia 7 de setembro precisa ser o primeiro passo para dar uma forte resposta à Trump e ao bolsonarismo.  

 

7 de Setembro: tomar as ruas contra Trump e pela prisão de Bolsonaro e todos os golpistas

Os últimos acontecimentos da conjuntura demonstram de forma categórica a necessidade de lutar pela prisão de Bolsonaro e todos os golpistas, bem como de acabar com a polícia militar, os tribunais e todos os restos da ditadura militar. Qualquer forma de anistia que está sendo arquitetada no Congresso, mais ou menos branda que seja, terá um impacto tremendo sobre a polarização política representando um triunfo do bolsonarismo e a legalização do golpe. 

Neste sentido, não podemos deixar de encarar, como fazem as demais chapas que concorrem ao DCE, que a dinâmica política é extremamente perigosa, pois a partir da intervenção imperialista no Brasil e em outros países da América Latina, a extrema direita se fortaleceu e passou a uma ofensiva que ameaça diretamente os direitos democráticos dos trabalhadores e dos oprimidos.

Frente a uma conjuntura disruptiva e perigosa, as eleições do DCE devem estar à serviço da luta consequente contra nossos inimigos dentro e fora da USP. Neste 7 de setembro, em que a extrema direita convoca as ruas para legitimar a ofensiva imperialista e anistiar os golpistas, é dia de sairmos às ruas contra a ingerência imperialista e pela prisão de Bolsonaro e todos os seus capangas golpistas. Tomaremos as ruas por um plano político-econômico anti-imperialista e anticapitalista dos trabalhadores e oprimidos por uma verdadeira independência de nosso país. 

Para enfrentar a atual situação, além de exigir a partir da luta direta que o governo, a CUT e da UNE mobilizem para enfrentar o imperialismo e a extrema direita, é preciso construir um bloco de lutas independente do governo Lula e das burocracias sindicais que atravancam as mobilizações para blindar o acordo do lulismo com a burguesia nacional. Desde a Juventude Já Basta! chamamos todos os setores a conformar um bloco independente e anti-imperialista da USP no ato do 7 de setembro na Praça da República às 9h da manhã. Construa a coluna socialista e revolucionária da Juventude Já Basta! e da Corrente Socialismo ou Barbárie!

 

Notas: 

[1] Com uma importante trajetória de resistência a ditadura burgo militar de 64, nossa entidade carrega o nome de Alexandre Vannucchi Leme, estudante da Geologia e militante da Ação Libertadora Nacional, torturado e assassinado por agentes do DOI-CODI em março de 73. 

[2] Vale lembrar que a proposta inicial da atual gestão do DCE, aprovada no Conselho de Centros Acadêmicos realizado em maio, era uma eleição se iniciasse nos dias 12, 13 e 14 de agosto, pouquíssimos dias após o retorno do segundo semestre letivo. Uma eleição em que todo processo de construção das chapas e de debate político-programático entre a base se realizasse durante as férias. Em outras palavras, um processo sem nenhum pingo de participação efetiva des estudantes, uma manobra burocrática sem precedentes na história recente do movimento estudantil uspiano. 

[3] Quando se trata das ameaças autoritárias da extrema direita, somos aqueles que se colocam na linha de frente da luta nas ruas em incondicional defesa dos direitos democráticos como o direito à organização política, discussão e à greve, por exemplo. Tais garantias não são concessões dos patrões e dos políticos profissionais, são fruto da luta do movimento operário e do conjunto da sociedade. Diferentemente da esquerda ordem, não nos embandeiramos da “defesa da democracia” em abstrato pois é este regime (democrático-burguês) que permite a ascensão de movimentos neo-fascistas e aplica, sob uma forma mais mediada, uma realidade de brutal exploração e violência aos de baixo. 

[4] Por exemplo, o governo federal aplica um duríssimo arcabouço fiscal para garantir o pagamento da trilionária dívida pública brasileira aos banqueiros, empresários e fundos estrangeiros. Ao invés de romper com essa lógica e direcionar esse valor a investimentos massivos na educação e na saúde, Lula segue à risca a batuta do mercado financeiro, do agronegócio e do imperialismo.  

[5] Não é nenhuma coincidência que facilmente encontraremos antigos presidentes e diretores da UNE ocupando cargos em ministérios do governo federal. Por exemplo, Carina Vitral, ex-presidente da entidade, atualmente ocupa a vaga de gerente de projetos do Ministério da Fazenda. 

[6] Leia a nota citada em: https://www.instagram.com/p/DN1GugRQkDu/?img_index=1