Por José Roberto Silva 

Dando continuidade a seus ataques econômicos, políticos e bélicos contra o mundo, Trump determinou o deslocamento de três destroieres (USS Gravely (DDG-107), o USS Jason Dunham (DDG-109) e o USS Sampson (DDG-102)), com capacidade de lançamento de misseis AEGIS, Tomahok e Standard e de torpedos ASROC, mais 4.000 fuzileiros navais, para a costa venezuelana sob o pretexto de guerra ao narcotráfico. 

Segundo a porta voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, os “Estados Unidos está preparado para usar todo seu poder” para que o “fluxo de drogas não chegue a seu país“. Acrescentou ainda que o regime de Maduro não é o governo legítimo da Venezuela; é um cartel narcoterrorista. Maduro, na visão deste governo, não é um presidente legítimo; é um chefe fugitivo deste cartel, indiciado nos Estados Unidos por tráfico de drogas. Evidentemente, uma falsa explicação para a reimplementação da política de submissão econômica e política de seu autoproclamado “pátio traseiro”. 

Maduro reagiu mobilizando 4,5 milhões de milicianos bolivarianos, afirmando que defendemos nossos mares, nossos céus e nossas terras. Nós os libertamos. Nós os vigiamos e os patrulhamos. Nenhum império tocará o solo sagrado da Venezuela, nem deve tocar o solo sagrado da América do Sul “. 

Colômbia, México e Brasil se manifestaram contra essa atitude norte-americana que, fundamentalmente, visa impor uma nova ordem mundial que derrube os velhos consensos e ponha fim a influência do imperialismo em ascensão chinês na América. Em que pese que essa movimentação tem um tom de bravata, essa é uma ação que cria um cenário perigoso se for normalizado, por isso tem que ser amplamente repudiada.

O IMPERIALISMO TERRITORIALIZADO DE TRUMP 

O rumo globalista, uma política da burguesia imperialista para abrir mercados e retirar direitos, imposto pelo neoliberalismo em sua forma hegemônica, a partir do início da década de 1990, para além da queda da URSS, destruiu velhas formas de extração de mais valia utilizadas na etapa anterior da guerra fria (o estado de bem-estar social, o fordismo, negociações com o movimento operário, a classe média construída como aristocracia da produção do capital) promovendo a reengenharia da produção e apostando no incremento da extração de mais valia relativa ancorada nos instrumentos da inteligência artificial e, sobremaneira, na reprodução ampliada do capital ao lado da manipulação dos preços de mercado através da modernização tecnológica do mercado financeiro. Decorrente disso, metamorfoseou parte da classe operária num inimigo mais moderno: os trabalhadores de entrega por plataforma que hoje são a vanguarda do movimento dos trabalhadores e trabalhadoras que estão preparando o seu II Congresso Mundial, para 2026, além de produzirem, todo ano, manifestações de porte pelo mundo, principalmente no Brasil.

A par disso,  para poder impor esse ataque direto aos direitos consagrados da classe operária e a inserção de uma nova classe média assentada na autoexploração do “empreendedorismo” e garantir a hiperexploração do trabalho, aumentou sobremaneira a opressão sobre cada camada de organização isolada da classe trabalhadora (juventude, mulheres, gênero) ao lado da negociação pelo cassetete de qualquer atividade política reivindicatória independente. 

Porém, por uma dificuldade de aumentar as taxas de lucro e a acumulação gerada pelo próprio aumento da produtividade mundial, provocou a crise de 2008, hoje já estrutural, agravada pelo episódio da pandemia. Com isso, reacendeu a sanha da burguesia reacionária e da contrarrevolucionária, que com falsos discursos antissistêmicos dirigidos  aos trabalhadores,  construíram paulatinamente, nesse período, organizações e partidos de extrema-direita com um discurso reacionário e de uso da violência contra migrantes, gays, mulheres e do negacionismo do cataclisma climático. 

Com a crise sem solução e diante de uma inflação de alimentos irredutível,  a burguesia mundial, principalmente a americana, resolveu dar suporte a esses movimentos de corte bonapartista (alguns protofascistas) para impor pela força e pela violência, interna e externa, sua dominação, reabrindo a etapa que Lenin, em sua análise do imperialismo no início do século XX, denominou de “imperialismo territorializado”. 

Nesse processo, não valem mais a diplomacia, a negociação, a ONU e a própria OMC: o que vale agora é a submissão econômica e política imposta pelos tarifaços e/ou ataques militares diretos, como no caso do Irâ, esta uma ação ativa, ou as imposições a Ucrânia de entrega de territórios ao imperialismo russo e outra passiva/ativa, na conivência com o genocídio perpetrado por Israel em Gaza. 

É nesse contexto que emergem o trumpismo, o bolsonarismo e o mileismo, cabendo a Trump, o líder do país que vem perdendo hegemonia no cenário mundial e mais atingido pela crise, a implantação e execução dessa nova situação ultrarreacionária em que nos encontramos, tentando restabelecer o domínio americano sobre todo o mundo ou como diz Robert Saenz, dirigente de nossa corrente, “uma determinada dinâmica do mundo se impôs a Trump, uma lógica específica e ele tenta revertê-la, na mesma direção, mas a seu favor.” 

Nesse quadro as teses firmadas na Doutrina Monroe de 1826 da “América para os americanos”, cujo impacto sobre a América Latina foi o de impor uma dependência  completa de seu autodenominado “pátio traseiro”, por meio de intervenções políticas e militares diretas e indiretas, acordos econômicos bilaterais, dão agora um salto de qualidade com a política ultra-reacionaria de Trump: as mediações e ações são determinadas, aplicadas e administradas diretamente por ele. 

A Venezuela, classificada como aliada do “eixo do mal” instaurado por George Bush, comparece como a primeira vítima, de um projeto que, por qualquer leitura, não pode deixar de considerar, a mesma movimentação contra outros países do continente sul-americano, em nome da defesa contra “perseguições políticas”, “combate ao narcotráfico” ou em favor da “liberdade de expressão”. 

DEFENDER A SOBERANIA DO POVO VENEZUELANO 

Entra as diversas manifestações antineoliberais do início deste século, surgiu o Coronel Hugo Chaves, preso por uma tentativa de golpe contra Carlos Andrés Perez em 1992, que se elege presidente em 1998 e sofre uma tentativa de golpe (que incluía partidos de direita, o clero e um setor das forças armadas, apoiados por George W. Bush) a qual durou três dias, fracassando ante um massivo movimento popular que o leva de volta ao palácio e num referendo revogatório no final do mesmo ano, é reconduzido e legitimado como presidente do país. 

Apesar de transformações internas progressistas e da retórica anti-imperialista e anticapitalista, Chavez durante seus sucessivos mandatos até 2013, não rompeu a base econômica venezuelana centrada na produção e exportação de commodities (principalmente petróleo, cujo segundo maior comprador é os EE.UU.), além de ir se impondo autoritariamente contra qualquer manifestação popular contra seu governo, entrando em uma forte crise a partir de 2010, que se estende até hoje. 

Em 2013 falece Chavez e assume seu lugar Nicolas Maduro, então vice-presidente, como uma continuidade do processo anterior, mas que vai se deslegitimando com o tempo, tornando-se cada vez mais autoritário em função da crise econômica de 2008 e das sanções econômicas impostas por Barack Obama em 2015 em nome da segurança interna dos Estados Unidos. 

A partir de então, o fortalecimento de uma burocracia militar de apoio (que se iniciara já com Chaves) na defesa de medidas que instauraram uma enorme crise econômica e social, os trabalhadores venezuelanos sofrem um severo processo de pauperização e, impedidos de se manifestarem de forma independente, entram em um enorme processo de emigração em busca de melhores condições de vida. Segundo a UNICEF, somente no Brasil, entre 2015 e junho de 2024, entraram 568 mil venezuelanos

Não por Maduro, nem pelo imaginário “socialismo do século XXI” chavista, a esquerda independente, em unidade de ação, deve construir fortes manifestações de apoio ao povo venezuelano, por sua soberania, somando-se às ações contra a extrema-direita mundial e latino americana e contra o intervencionismo do imperialismo norte americano no Brasil, na Venezuela e, por extensão, no continente sul-americano como um todo. 

Sem dar nenhum apoio político ao governo boliburgues corrupto de Maduro, agora, a palavra de ordem (além das já existentes) é: “Yankes, go home”