Por Adam Tooze
Esta transcrição é de uma palestra proferida na Cúpula de Berlim 2025, organizada pelo Forum New Economy, na histórica propriedade Stober. A cúpula reuniu especialistas internacionais para explorar como repensar as políticas industriais, climáticas e de globalização, com o objetivo de construir um futuro mais justo e resiliente, aproveitando o impulso da Declaração de Berlim do ano passado. A YSI tem o prazer de ter participado tanto este ano quanto no anterior, e somos profundamente gratos pela orientação do Forum New Economy, que tem nos ajudado a pensar com mais clareza e coragem sobre os desafios que temos pela frente.
“A pergunta que Thomas Fricke e sua equipe colocaram — ‘Rumo a uma nova ordem mundial: quem vai resolvê-la?’ — não pode deixar de nos preocupar. Mas quero rejeitar algumas tendências que carregamos dentro de nós e que essa pergunta desencadeia, e, em vez disso, incentivar-nos a pensar de outra forma sobre como abordar esse problema.
Não tenho respostas simples para essa pergunta. Vou sugerir a direção na qual talvez possamos encontrar algumas respostas. Mas, acima de tudo, quero refletir sobre essa questão da ordem em si.
Por razões óbvias e válidas, neste momento atual, ansiamos por uma resposta a essa pergunta. E trata-se de um discurso que olha tanto para frente quanto para trás. Ao imaginar algo como uma nova ordem mundial, é difícil evitar falar da antiga, da última.
Para os especialistas em relações internacionais e diplomacia, é claro, trata-se do fim da Guerra Fria. Mas para os economistas, é Bretton Woods. E quase que de forma obsessiva.
É essa obsessão que quero analisar por uns cinco minutos. Na verdade, acho que daria para escrever um artigo bem interessante sobre a frequência com que o The Guardian cobre novos planos de Bretton Woods hoje em dia.
O que foi que aconteceu? Foi em 1944, no verão daquele ano, quando um grupo de figuras-chave desenhou o mapa do mundo — ou seja, o sistema econômico e monetário. Eram personagens carismáticos, entre os quais se destacavam White, pelos americanos, e John Maynard Keynes, pelos britânicos.”
“E no ano passado, por ocasião do seu 80º aniversário, foram realizadas inúmeras reuniões sobre um novo Bretton Woods. E havia razões para isso. Já se vislumbrava, naquele momento, a perspectiva de uma presidência republicana disruptiva. Mas também estava claro que, mesmo com a equipe de Biden — o grupo de democratas mais cooperativo, atlantista e com visão global que poderíamos esperar neste momento — havia tensões profundas na economia mundial.
Havia pressão por parte do Sul Global para pensar em um novo sistema que funcionasse melhor. E estava evidente que a ascensão da China e a agressividade da Rússia estavam colocando sob enorme pressão aquilo que vínhamos tomando como certo: o sistema do pós-Guerra Fria.
E agora, é claro, as coisas se tornaram muito mais dramáticas do que qualquer um de nós poderia imaginar no ano passado. Acho justo dizer isso. Nem mesmo os mais pessimistas quanto a uma presidência de Trump previram: um ataque simultâneo ao sistema comercial da forma mais caprichosa e arbitrária que qualquer um poderia imaginar, e um ataque bastante sistemático ao investimento estrangeiro e ao valor do dólar — mais sistemático do que muitos de nós achávamos possível.
E, à luz disso, pode parecer quase perverso participar do exercício que proponho esta manhã: perguntar por que estaríamos procurando uma nova ordem mundial. Quero dizer, em comparação com essas loucuras, com a insanidade que nos cerca, é óbvio que queremos uma nova ordem mundial, não é?
Mas, por mais óbvia que pareça a resposta, quero insistir nessa pergunta. Do ponto de vista progressista, o que associamos a essa ideia de ordem mundial, a ponto de nos perguntarmos como surgirá uma nova ordem e quem a criará? E por que, em tantas mentes, isso é associado ao momento de Bretton Woods?
Porque pensar assim é um ato histórico. E acredito que isso, de fato, gira repetidamente em torno desse termo. E é útil usar esse hábito mental como uma espécie de diagnóstico.
E, de certo modo, poderíamos dizer que é algo óbvio: trata-se de uma série de bens, uma série de coisas que valorizamos. Ordem em vez de desordem. Inteligibilidade em vez de caos. Tem quase um lado estético. Olhem, controlamos a economia. Realizamos o sonho de tornar transparente algo que era opaco e obscuro.
Há uma promessa de segurança contra a insegurança. E a promessa, talvez, de segurança para a população em geral — um tema que surgiu em muitas conversas, por exemplo, sobre o populismo. Há uma promessa (se não de justiça verdadeira) de algo parecido com uma ordem baseada em normas. Uma espécie de justiça processual, ao menos. Há uma afirmação funcional de que um sistema como esse é mais previsível e que isso impulsiona o investimento, estabelece segurança e reduz a incerteza. Um argumento que se repete em grande parte da econometria.
Lembram-se daqueles estudos feitos durante o primeiro mandato de Trump por equipes de economistas do FMI, que realmente mostraram um efeito mensurável sobre o investimento global causado pelos tuítes matinais de Trump? Mas esse é um argumento que, por exemplo, na tradição da teoria social alemã, remonta a Max Weber.
Além disso, acredito que há algo mais que torna o momento de Bretton Woods particularmente atraente, que é a sensação de que, diante do caos da história, é um momento de ação. Um momento em que pessoas inteligentes se reuniram e elaboraram um plano.
E, claro, para pessoas como nós (isto é, nós mesmos), isso é profundamente sedutor. Porque é muito difícil resistir a esse jogo mental no qual nos imaginamos ali, redigindo o manifesto que alimentará a delegação alemã que irá a um novo Bretton Woods, em algum lugar, onde tudo será resolvido.
Portanto, é um momento de agência. Mas também é — e acredito que isso seja fundamental— um momento de sabedoria. Porque não se trata apenas de agência; é uma agência que funda a ordem. É uma agência autolimitada. É uma agência que não se limita a impor seus interesses ao mundo de maneira musculosa. É uma agência que se autocontrola.
E isso, acredito, é o que torna o momento de Bretton Woods tão inspirador: que, no auge de seu poder, o Reino Unido e os Estados Unidos, ao final da Segunda Guerra Mundial, tenham decidido construir um sistema, em vez de simplesmente seguir adiante com seu poder.
E tudo isso são coisas boas. Mas a forma como essas ideias se agrupam em torno de Bretton Woods — e a maneira como Bretton Woods, oitenta anos depois, serve como uma espécie de totem— alguns poderiam dizer, de forma menos gentil, como uma manta de segurança para pensar a economia internacional— me lembra algo que, em outro contexto, chamei de ficção financeira ou fin-ção.
Também poderíamos chamar de conto de fadas.
Os contos de fadas, como se sabe, têm muitas funções. Mas não recorremos a eles em busca de conselhos práticos — a não ser que o seu problema sejam lobos disfarçados de vovós, princesas adormecidas há mil anos, ou feijões mágicos que seu filho trouxe do mercado depois de trocar a única vaca da família.
Portanto, na minha opinião, o modelo de Bretton Woods precisa ser examinado criticamente.
E, de fato, vou reunir, muito brevemente, todo um time de pessoas para nos ajudar a refletir sobre o que está em jogo aqui: um psicólogo, um historiador, um economista político, um jornalista… e Friedrich Nietzsche.
Um psicólogo perguntaria: por que esse retorno infinito a esse momento fundacional? A que nos agarramos? O que estamos escondendo?
Um lapso revelador, que se ouve com frequência — especialmente em discursos com sotaque alemão — é a confusão quanto à data de Bretton Woods. Muitas vezes, ele é referido como um acordo do pós-guerra, quando na realidade foi um acordo firmado entre o Dia D e o avanço soviético contra o Grupo de Exércitos Centro na Operação Bagration. Foi um momento em que descobrimos a noção de um poder americano benevolente.
Pode-se referir a isso, de forma um tanto grosseira, como o “complexo do papai americano” da Alemanha, não é? Aquela sensação de que existe uma hegemonia americana benigna que mantém a ordem. Isso requer uma narrativa simplificada sobre a origem do poder americano, e Bretton Woods ajuda a fornecê-la.
E depois do psicólogo, passamos ao historiador. Se Harold James — um dos historiadores mais destacados sobre Bretton Woods — estivesse aqui, o que ele nos diria é que, longe de ser uma história com final feliz, Bretton Woods nada mais é do que uma sucessão de desastres.
Temos a conferência de 1944. Depois, a crise monetária do Reino Unido em 1947, que adia sua aplicação. O Plano Marshall é, na verdade, o ‘Plano B’, para evitar ter que implementar Bretton Woods. Depois vem a desvalorização da libra esterlina e de todas as outras moedas europeias, para torná-las mais competitivas — o que representou um enorme choque para seus sistemas. Em seguida, o ‘Plano D’, que é a União Europeia de Pagamentos, entre 1950 e 1958.
E Bretton Woods, tal como foi originalmente concebido, só é realmente implementado em 1958, o que exige um golpe militar e a instauração da Quinta República na França. E é o plano de Jacques Rueff, em colaboração com De Gaulle, que permite à França aderir a Bretton Woods. No início dos anos 1960, o sistema está sob tanta pressão que é preciso inventar as linhas de swap como um remendo para mantê-lo vivo. Em 1967, ocorre o primeiro grande problema do ciclo econômico. E em 1971, o presidente dos Estados Unidos suspende a conversibilidade do dólar em ouro.
Portanto, se viermos a ter um Bretton Woods III — e logo explicarei por que o chamo de III —, ele seria lançado no ano que vem, implementado em 2040 e fracassaria em 2051. Isso é o que um historiador diria sobre Bretton Woods como exemplo real.
E então teríamos que perguntar: até que ponto a narrativa funcional é plausível? Se essa é a verdadeira história de Bretton Woods, quais são as chances de que, comparado à reconstrução, à recuperação tecnológica, a um novo pacto social ou à integração europeia, esse frágil sistema monetário tenha sido realmente o principal motor do crescimento econômico com o qual ele é tão frequentemente associado?
É evidente que há algumas distinções. Poderia ter sido muito pior: a política comercial dos Estados Unidos poderia ter sido totalmente contraproducente — mas não foi.
Mas isso não é o essencial para um argumento eficaz sobre crescimento econômico.
E o curioso é que, se falarmos disso com economistas políticos, eles dirão que não há motivo para surpresa. Porque dirão que grandes organizações desse tipo enfrentam dois problemas fundamentais.
O primeiro é o pecado original: o problema de que atores grandes e poderosos se comprometam efetivamente contra a própria soberania.
Assim, como era de se esperar, na medida em que os Estados Unidos — o ator dominante em 1944 — estavam vinculados ao sistema, esse vínculo era muito frágil. Os EUA mantiveram uma autonomia extraordinária. O dólar estava vinculado ao ouro, e todas as outras moedas estavam vinculadas ao dólar. Os americanos obtiveram um privilégio exorbitante. E o sistema começa quando os americanos dizem que começa, e termina quando os americanos dizem que termina.
Esse é o sistema de Bretton Woods. Essa é sua política fundamental. E é aqui que entra Nietzsche.
Então, por que alguém aceitaria fazer parte desse sistema? Porque são fracos, impotentes e ressentidos. Essa é a posição do subordinado nietzschiano, a posição do ‘cristão’ em Nietzsche, que aceita o cristianismo porque ele protege os impotentes contra a fúria do verdadeiro poder.
É por isso que outras pessoas obedecem às ordens das grandes potências caprichosas: porque as ordens e as regras lhes oferecem algum grau de proteção. Mas, claro, o verdadeiro problema dos subordinados ressentidos dentro de sistemas dominantes como esse é que seu ressentimento é real.
E aí surge o segundo problema: o parasitismo. Os atores subordinados, dentro de sistemas fixos com potências dominantes, estarão sempre sujeitos ao risco de um parasitismo dramático. E não precisamos insistir muito nesse ponto aqui, na Alemanha.
Porque, se nos últimos 80 anos houve um ator menor que se aproveitou de maneira persistente e bem-sucedida de um sistema global hegemônico liderado pelos Estados Unidos, esse ator é este país — a parte ocidental, não esta parte —, a República Federal.
Os enormes superávits sob o sistema de Bretton Woods nos anos 1960 contribuíram significativamente para sua desintegração. E, claro, o notório parasitismo sob a OTAN desde a década de 1990.
Agora, os alemães podem dizer que isso se trata de uma política de defesa sensata, porque estão cercados de amigos. Mas, do ponto de vista dos Estados Unidos, isso parece parasitismo. E esse é o escândalo que estão agora denunciando.
Na verdade, se nos perguntarmos como a Alemanha se comporta quando está em posição de poder, pensemos na zona do euro. Vejamos qual tem sido seu histórico nesse campo.
Nos anos 1970, quando se cogitava que o marco alemão se tornasse uma moeda de reserva, Bonn e Frankfurt fizeram de tudo para impedir isso. Uma das estratégias — para dizer de forma educada — foi a criação da zona do euro.
E todos sabemos que, se tivéssemos nos reunido aqui há dez anos como um grupo de economistas progressistas pensando sobre a zona do euro, muitos dos presentes teriam pensado — e talvez até desejado —: ‘quem dera tivessem criado a zona do euro sem os alemães’, certo?
Uma das peculiaridades de discutir a questão da ordem econômica e seu futuro, aqui e agora, na Alemanha, é que, se houver alguém lá fora planejando uma nova ordem econômica mundial, é possível que não convide os alemães.
Porque, após os últimos 80 anos, se você tivesse que pensar em um ator pouco cooperativo — muito moralista, bastante bem-sucedido, muito ruim em macroeconomia — que você não gostaria que participasse do seu esforço para construir uma nova ordem mundial, a Alemanha estaria bem no topo da sua lista.
E parte do projeto do nosso grupo aqui, afinal de contas, é tentar civilizar o discurso macroeconômico e econômico alemão a tal ponto que isso deixe de ser verdade.
Acho que, se formos honestos conosco mesmos, isso é claramente parte da nossa agenda subjacente aqui. É isso que estamos tentando fazer. E, ainda assim… aqui estamos, fazendo essa pergunta.
Falamos com o psicólogo. Falamos com o historiador. Falamos com o economista político. Falamos com Nietzsche. E ainda estamos fazendo essa pergunta, aqui em Berlim, em 2025, nesta manhã, levando em conta o que está acontecendo no mundo.
Neste ponto, recorro ao jornalista. Porque o jornalista só vai nos perguntar uma coisa: “Agora?”. Agora vocês querem falar sobre ordem econômica mundial? Parece que este é um momento em que as pessoas desejam uma ordem econômica mundial? Não. Este é um momento de violência discricionária.
É um momento de decisões arbitrárias, de disrupção. Pensem: a invasão da Ucrânia por Putin. A guerra comercial de Trump. O Brexit.
Todos eles são movidos por motivos de ressentimento, mas nenhum desses ressentimentos determina a escolha. Da mesma forma que as dificuldades estratégicas de Israel — mesmo que você seja um sionista etnonacionalista convicto — não determinam o caminho que foi tomado e que arrastou tantos amigos de Israel para a cumplicidade com o assassinato em massa e a limpeza étnica. E, nesta manhã, a agressão aberta contra o Irã.
Então, essa pergunta aparentemente inocente — “Ei, Adam, rumo a uma nova ordem mundial, quem vai resolver isso?” — é, na verdade, um vórtice vertiginoso e sangrento. Este não é o momento para contos de ninar reconfortantes. É momento de reunir nossa inteligência para sobreviver. Não para cobrir as crianças com um conto de fadas, mas para entrar num jogo de tiro em primeira pessoa, altamente estressante.
É como se estivéssemos vivendo dentro de um conto de fadas reconfigurado como pesadelo.
O lobo mau nos devorou e estamos dentro do seu estômago, esperando para saber se o caçador virá nos resgatar, para que possamos escapar para a liberdade.
E, nesse momento, sonhamos com novas ordens.
E isso, eu acredito, é escapismo de primeira ordem.
Agora, se dissermos isso nesses termos, faz sentido, acredito. Mas se o colocarmos em um contexto europeu (e aqui me refiro ao Shahin), começa a surgir outro tipo de pensamento: e é que tudo isso nos soa familiar. Tudo isso soa como algo sobre o qual, de fato, temos falado há muito tempo. Temos falado sobre soberania. A soberania significa a capacidade de estabelecer suas próprias regras, ela existe — como nos explicou Carl Schmitt — em uma relação dialética com a ordem. O soberano é aquele que declara a exceção. No entanto, o soberano também é aquele que é reconhecido como tal pelos outros soberanos. Portanto, ele existe em uma espécie de dialética.
Nesse contexto, também temos falado sobre escolha estratégica, alianças e acordos como algo com que a Europa precisa se comprometer. O angustiante é que essa é, na minha opinião, a resposta correta e o caminho a seguir — mas também é essencialmente uma cena do filme Feitiço do Tempo, em que o mesmo vídeo se repete continuamente. Pensemos na desastrosa presidência de dois mandatos de Macron em Paris, que em 2017 articulou pela primeira vez um conjunto de ideias muito alinhadas com aquelas para as quais, na minha opinião, nossa situação agora naturalmente nos conduz, nove anos depois. E todos nós conhecemos o vazio — o vazio no qual caíram essas propostas para a Europa, o progresso e o futuro — por parte da Alemanha.
Acho que o que precisamos reconhecer neste momento é que, embora a linha de raciocínio que apresentei hoje seja convincente, se formos realistas conosco mesmos, também precisamos admitir que já estivemos aqui antes — e que estamos aqui há bastante tempo. E a resposta não veio da Europa. Na verdade, se ainda estamos fazendo essa pergunta nesta manhã de 2025, já sabemos a resposta: embora vejamos o que está acontecendo, não vamos agir. Ou, se agirmos, será tarde demais. O trem já saiu da estação.
Há alguns dias, alguém disse: “Talvez já seja tarde demais para os Estados Unidos.” Acho essa ideia bastante plausível, embora assustadora. O que me preocupa é que isso também possa ser verdade para a Europa. E, nesse caso, para onde estamos indo?
E é com isso que quero concluir. Bem, acredito que todos já sabemos a resposta a essa pergunta. Fazemos essas perguntas como se não soubéssemos as respostas. Mas sabemos. E a resposta, claramente, é a China.
Mas então, ao dizer isso em voz alta, nos deparamos com outro obstáculo. Porque, se você diz que a China vai criar uma nova ordem mundial, é provável que seja visto como belicista — porque esse é o tipo de coisa que faz o Pentágono pedir mais dinheiro — e também como alguém cegamente irrealista. Porque eu não conheço ninguém que realmente ache que sabe o que está acontecendo em Pequim e que acredite que essa seja a ambição da China: criar uma ordem mundial ao estilo dos Estados Unidos. Isso não está nos planos de Pequim.
E é aqui que eu diria que essa mudança de linguagem nos ajuda muito. Porque, se é verdade que a China não está tentando criar uma nova ordem mundial nos moldes americanos, também é inegável e evidente que a China está tentando ordenar o mundo.
Se a China não está simplesmente herdando o mundo que o Ocidente criou — inclusive por meio do imperialismo —, está criando um mundo novo? Sim. Sem dúvida. E está fazendo isso agora mesmo, diante dos nossos olhos. Portanto, essa transição não é apenas uma questão metodológica. Na minha opinião, ela nos ajuda a enxergar melhor.
E com Brad Setser sentado bem na minha frente, como não falar sobre Bretton Woods II, que temos ignorado? Porque a China, no final da década de 1990, criou de forma autônoma um novo Bretton Woods ao fixar sua moeda de forma subvalorizada em relação ao dólar — uma paridade que é realmente muito difícil de romper. Isso gera todo tipo de efeitos colaterais negativos para a própria China, mas eles conseguem administrá-los. É uma forma de afirmar sua soberania dentro desse sistema.
Se nos perguntarmos sobre o sistema comercial mundial, esses dados — que temo que mal sejam percebidos, mas que são bastante impressionantes se observados de perto — vêm de outro observador preocupado, a Autoridade Monetária de Singapura, que, diante da ofensiva comercial de Trump, tenta descobrir o que realmente impulsiona o comércio.
E as partes marrons são aquelas que têm alguma conexão com os Estados Unidos, e quase todas são comércio com os Estados Unidos. A parte mais sensível politicamente, o “rabo que abana o cachorro” da economia mundial, é a barra azul escura. Isso representa aproximadamente 2,5% do comércio mundial, e são as exportações da China para os Estados Unidos. E nem sequer é uma parte desse gráfico que esteja crescendo rapidamente. Isso nos dá uma ideia de quão desorientado se tornou o nosso discurso.
O comércio mundial é dominado por dois atores principais: um bloco realmente grande, que é o comércio interno da União Europeia — a grande fatia central — e depois toda uma série de redes em forma de teia ao redor da China, cada uma constituindo um conjunto de conexões que eu consideraria um ato de construção do mundo, um ato de ordenamento do mundo, com o qual temos que lidar e que moldará o futuro.
Agora, reiterando: se somarmos o investimento estrangeiro da China, seu poder brando, seus vínculos tecnológicos, sua crescente presença militar — isso resulta em uma nova ordem mundial ao estilo americano? Não. Claramente não. Mas isso também é uma distração. Precisamos parar de pensar nesses termos.
O que isso constitui, sim, é uma política de conexão. Pode não ser totalmente coerente, mas acredito que seja bastante deliberada. E há uma lógica — ou, de fato, há múltiplas lógicas diferentes — que estão sendo desenvolvidas em Pequim para organizar e coordenar esses diferentes elementos.
E se há um aspecto disso que considero realmente fascinante e bastante novo, ele me foi sugerido pela agenda que me enviou o Conselho Nacional de Pesquisa para o Desenvolvimento, que assessora o Conselho de Estado — isto é, o braço estatal do governo chinês. Trata-se de um órgão subordinado, mas os dirigentes do Conselho de Pesquisa para o Desenvolvimento são membros do Comitê Central, por isso estão estreitamente ligados ao núcleo do poder.
E eles disseram: “Claro, adoraríamos conversar com você sobre todas as coisas óbvias — os Estados Unidos, a Europa, etc. Mas o desafio que nos preocupa é o desenvolvimento, ou os desafios, do desenvolvimento das grandes nações em escala global. Esse é o verdadeiro problema do qual estamos tratando.”
E isso parece insosso. Poder-se-ia dizer: claro, é lógico que pensem assim. Mas acho que isso me leva à minha conclusão final, que é: pelo que sabemos sobre o futuro que está sendo moldado, é muito provável que ele seja determinado por atores — em particular os chineses — para quem essa questão — o desenvolvimento nacional em grande escala — é um dos três temas que realmente dominam sua agenda.
Está, portanto, muito distante das preocupações da União Europeia, que são pós-nacionais, de médio porte e voltadas para a sustentabilidade. A grande agenda de desenvolvimento nacional é aquela na qual os principais atores que estão ativamente construindo sistemas estão se engajando neste momento.
Acho que todos estamos um pouco impacientes com a China por ainda reivindicar seu status de economia em desenvolvimento. Há áreas muito pobres na China, mas isso não faz muito sentido, certo? No entanto, a menos que entendamos que esse é o objetivo — o desenvolvimento é o objetivo —, não entenderemos realmente do que se trata esse programa de construção do mundo. Não sabemos do que se trata esse programa de energia renovável. O que o torna novo não é o fato de constituir uma ordem ou de substituir os americanos, mas o fato de se tratar, na verdade, da realização de um programa de desenvolvimento em escala global — independentemente de suas consequências, que são espetaculares se pensarmos no equilíbrio ambiental mundial e nas mudanças no equilíbrio de poder no futuro.
Traduzido por Martin Camacho, do original Hacia un nuevo orden mundial: quien lo va a disenar ahora?










