Por VICTOR ARTAVIA
1 – Introdução
Entre 1958 e 1962, a República Popular da China (RPC) transformou-se em um laboratório social e econômico de escala continental. Nesse período, Mao colocou em marcha um experimento arriscado de industrialização que, de forma grandiloquente, batizou de Grande Salto Adiante (GSA, daqui em diante). No esforço de conduzir o país asiático na direção do chamado — e equivocado — “bloco socialista” (ou seja, dos Estados burocráticos onde o capitalismo foi expropriado), o dirigente chinês impôs como meta superar a Grã-Bretanha no prazo de quinze anos.
Tratava-se de um objetivo completamente desproporcional, considerando que a economia chinesa era, à época, esmagadoramente rural e atrasada, enquanto os britânicos haviam sido o berço da Revolução Industrial e se consolidaram como a principal potência capitalista até a primeira metade do século XX, quando foram definitivamente superados pelos Estados Unidos em sua posição hegemônica.
Essa aventura burocrática teve consequências humanas e ecológicas devastadoras. Cerca de 45 milhões de pessoas morreram em decorrência da fome, do esgotamento extremo provocado pelo trabalho forçado ou dos castigos severos impostos pelos burocratas maoístas para cumprir as metas arbitrárias determinadas a partir de Pequim.
Além disso, durante o GSA ocorreu a maior destruição de bens imóveis da história da humanidade, uma vez que milhões de casas foram demolidas para que seus escombros fossem utilizados como insumos no processo de industrialização (DIKÖTTER, 2023). Do mesmo modo, vastas áreas florestais foram devastadas em busca de madeira, empregada como combustível nos fornos artesanais rudimentares onde se produzia aço de péssima qualidade.
Da mesma forma, ecossistemas inteiros foram destruídos com a construção de represas gigantescas que, em muitos casos, mostraram-se inúteis devido a erros grosseiros em sua execução ou à completa falta de previsão quanto aos seus efeitos colaterais.
Neste artigo, abordaremos a catástrofe ecológica do GSA a partir de dois ângulos. Em primeiro lugar, explicaremos o produtivismo burocrático que esteve na sua origem, estabelecendo sua relação com o relançamento de novas formas de exploração do trabalho nos Estados burocráticos. Em seguida, trataremos dos principais acontecimentos que compuseram o ecocídio propriamente dito.
2 – A Revolução Chinesa e o surgimento do Estado burocrático
Em 1949 ocorreu a Revolução Chinesa, que deu origem à fundação da República Popular da China (RPC) em 1º de outubro daquele mesmo ano. Não é nosso objetivo realizar uma reconstrução minuciosa desse acontecimento histórico; por isso, limitamo-nos a destacar algumas de suas principais características e a precisar o tipo de Estado que dele resultou.[1]
Cabe assinalar, antes de tudo, que se tratou de uma autêntica e colossal revolução camponesa, responsável por impulsionar uma reforma agrária radical, libertar a nação asiática do sufocante jugo das potências imperialistas e, sobretudo, expropriar o capitalismo.
No campo agrário, por exemplo, em 28 de junho de 1950 foi aprovada a “Lei de Reforma Agrária”, que aboliu o sistema de propriedade da terra favorável aos grandes latifundiários. Essa medida deu início a um processo de distribuição de terras que beneficiou cerca de 300 milhões de camponeses pobres. Ao final de 1952, aproximadamente 47 milhões de hectares haviam sido confiscados e redistribuídos, juntamente com grandes quantidades de ferramentas agrícolas, moradias, animais de tração e alimentos anteriormente acumulados pelos latifundiários (Breve História da República Popular da China, 2023).
No que diz respeito às medidas anticapitalistas, até o final de 1949 já haviam sido expropriadas 2.400 empresas financeiras e 2.858 empresas industriais e mineradoras, nas quais trabalhavam cerca de 1,29 milhão de operários industriais. A partir desse momento, o Partido Comunista da China (PCCh) passou a construir uma base de apoio junto à classe trabalhadora, à qual concedeu determinadas concessões econômicas, ao mesmo tempo em que promoveu a atomização e o controle absoluto das organizações sindicais.
Da mesma forma, foram nacionalizadas as empresas de capital imperialista e abolidos os tratados comerciais desiguais, por meio dos quais as potências estrangeiras haviam espoliado a nação asiática. Com isso, a RPC recuperou o controle das alfândegas, do comércio exterior e das divisas.
Dadas as dimensões continentais do país e o rumo anticapitalista que o processo assumiu, a Revolução Chinesa é, com razão, considerada a segunda maior revolução social do século XX, superada apenas pela Revolução Russa de 1917. Ainda assim, existem diferenças profundas entre esses dois processos revolucionários.
No caso da Revolução Russa, desde o início ela foi protagonizada pela classe trabalhadora, em aliança com outras classes exploradas e setores oprimidos. No plano político, isso se expressou na formação dos sovietes de operários, soldados e camponeses, bem como no peso conquistado pelo Partido Bolchevique no interior do concentrado proletariado urbano. Posteriormente, a revolução degenerou sob a ação de uma contrarrevolução político-social liderada pela burocracia stalinista, cujo resultado foi a perda do poder pela classe trabalhadora e a consequente transformação da URSS em um Estado burocrático, no qual se relançaram novas formas de exploração do trabalho e de opressão social.
No que se refere à Revolução Chinesa, como já apontamos anteriormente, tratou-se de uma revolução essencialmente camponesa. Ou seja, do ponto de vista social, foi conduzida por uma classe de pequenos proprietários — ou por camponeses despossuídos que aspiravam a sê-lo —, embora, de maneira paradoxal, tenha sido rigidamente dirigida pelo Partido Comunista da China (PCCh) e tenha tido em Mao Tsé-Tung sua principal figura.
A classe trabalhadora urbana, ao contrário, não desempenhou qualquer papel como sujeito social, o que foi consequência da dura derrota da revolução de 1925–27, somada à desconfiança do PCCh de Mao em relação ao proletariado e à sua guinada em direção ao campesinato a partir do final da década de 1920.
A esse respeito, Sáenz (2019) observa que o PCCh realizou uma “reforma agrária anticapitalista”, porém de caráter pequeno-burguês e com um viés nacionalista, que nunca se articulou com o proletariado e que, por essa razão, era incapaz de assumir um curso socialista. Além disso, apoiando-se nas análises desenvolvidas por Li Fu-Yen (pseudônimo de Frank Glass, militante trotskista britânico que viveu na China na década de 1930), caracteriza o processo como uma “revolução fria” em razão de seus métodos, uma vez que o maoísmo — enquanto variante burocrático-stalinista — aplicou as reformas estruturais de cima para baixo e estimulou a passividade do movimento de massas:
“Os métodos dos stalinistas estão naturalmente vinculados ao caráter de seus objetivos programáticos. Eles levam adiante a reforma agrária por meios militar-burocráticos. Se for admissível utilizar o termo ‘revolução’ para descrever o curso dos acontecimentos na China, será preciso qualificá-la como uma ‘revolução fria’, na qual as amplas massas desempenharam o papel passivo e secundário que lhes foi previamente atribuído por suas lideranças. Os stalinistas, sem dúvida alguma, contam com o apoio de amplos setores do campesinato. No entanto, não apenas deixam de estimular, como ativamente desencorajam os camponeses a assumir qualquer iniciativa independente. Não há chamados inflamados para que os camponeses se levantem contra os grandes proprietários de terra. Ao contrário, os stalinistas conclamam os camponeses a aguardar a chegada do Exército ‘Vermelho’” (Li Fu-Yen, apud Sáenz, 2019).
Em síntese, desde o início a Revolução Chinesa esteve enquadrada burocraticamente sob a direção do partido-exército maoísta e, embora tenha se radicalizado em um sentido anticapitalista, isso não resultou na conformação de um “Estado operário”, muito menos abriu uma transição ao socialismo.
A experiência do século XX — da qual a Revolução Chinesa constitui um elo central — demonstrou que não é possível definir um Estado como “operário” apenas com base na expropriação do capitalismo. Embora se trate de uma tarefa altamente progressiva, ela é insuficiente para determinar que a classe trabalhadora efetivamente detenha o poder e planeje de forma consciente o curso dos acontecimentos rumo a uma transição socialista.
Esse viés objetivista foi reproduzido pela maioria das correntes trotskistas do pós-guerra ao longo do século XX, que passaram a considerar a RPC como um “Estado operário” pelo simples fato de a burguesia ter sido expropriada, ainda que esse Estado tivesse nascido “deformado” pela direção burocrático-militar imposta pelo maoísmo desde o início. De acordo com essa caracterização “tradicional” — que acabou se tornando conservadora e não resistiu à prova da história —, o fato de a classe trabalhadora real, de carne e osso, não exercer o poder por meio de seus próprios organismos de representação e partidos aparece como um elemento secundário.
Além de definir quais tarefas econômicas ou sociais são realizadas — como a expropriação do capitalismo ou a reforma agrária —, é fundamental determinar quem as executa (a classe trabalhadora e os setores explorados ou a burocracia stalinista, a partir de cima?) e como elas são implementadas (por meio de métodos amparados na democracia operária ou impostas de cima para baixo por uma ditadura burocrática?).
Por isso, a chave para determinar o caráter operário e socialista de um Estado não reside nas disposições legais sobre as relações de propriedade nem em dados econômicos isolados, mas sobretudo em identificar qual classe ou setor social controla efetivamente a chamada “propriedade estatal” e com que objetivos planeja a produção e o consumo.
A título de exemplo, a Constituição da República Popular da China — promulgada em 1954 e emendada em diversas ocasiões — estabelece que o país “é um Estado socialista sob a ditadura democrática popular, liderada pela classe operária e baseada na aliança entre operários e camponeses” (artigo 1º). Afirma ainda que “o poder (…) pertence ao povo” (artigo 2º). A realidade, porém, está muito distante da letra constitucional: a classe trabalhadora jamais exerceu o controle do poder no país, que permaneceu rigidamente dominado pela direção burocrática do PCCh desde a fundação da República.[2]
De fato, o Estado chinês se destaca como um dos mais antissindicais do planeta: desde 1949 até os dias atuais, o direito de greve esteve previsto constitucionalmente apenas entre 1975 e 1981. Por isso, os “sindicatos” existentes — ao menos os oficiais — funcionam como extensões do partido, encarregadas de disciplinar a classe trabalhadora nas fábricas e empresas (LOON-YOU, 2022). Que espécie de “Estado operário” é esse, em que os trabalhadores sequer possuem o direito constitucional de fazer greve?
Em decorrência disso, Sáenz (2019) sustenta que, no caso da Revolução Chinesa, “operou a clássica dialética de vitórias seguidas de derrotas na ausência da centralidade do proletariado, da autodeterminação camponesa e de uma perspectiva internacionalista”.
A burocracia maoísta converteu-se, assim, em uma classe política que, em função do controle autoritário exercido sobre um Estado monopolizador da terra e dos meios de produção, passou, na prática, a se apropriar do mais-valor social em benefício próprio.
Essa categoria foi sugerida por Rakovsky em “Os perigos profissionais do poder” (1928), texto no qual analisou o stalinismo como uma camada burocrática que, a partir de uma diferenciação de funções que lhe permitia obter enormes privilégios, cristalizou uma diferenciação social e se transformou em uma nova categoria social:
“Essa nova categoria social não era uma ‘burocracia operária’, mas algo distinto: uma camada social que havia se separado da classe trabalhadora e adquirido outros fundamentos sociais (ainda que, muitas vezes, seus integrantes proviessem de diferentes estratos dessa mesma classe).
[…]
A essa nova categoria social, Rakovsky a definiu como uma classe política, no sentido profundo de que não se tratava de uma classe social nos moldes tradicionais — isto é, com enraizamento econômico-social próprio —, mas tampouco de uma simples burocracia, um mero epifenômeno ou uma ‘excrecência’ de um poder que, em essência, ainda fosse operário. Tratava-se, precisamente, de uma ‘classe política’ (…): o fenômeno original de uma nova categoria social privilegiada, forjada a partir do monopólio do poder em uma sociedade na qual os meios de produção se encontram estatizados” (SÁENZ, 2024, p. 35–36).
Frank Dikötter (2023), historiador especializado na China, sustenta que no país asiático foram erguidas duas verdadeiras muralhas — ou linhas de separação social. A primeira dizia respeito à distinção entre campo e cidade, sancionada legalmente a partir de 1958 com a implantação de um sistema de classificação que dividia a população entre “habitantes das cidades” (jumin) e “camponeses” (nongmin). Tratava-se de uma adaptação do “passaporte interno” instituído pelo stalinismo na URSS a partir de 1932 que, assim como naquele caso, funcionava como um documento decisivo para o acesso a melhores condições de vida, já que os camponeses não tinham direito a moradias subsidiadas, acesso aos refeitórios estatais nem a benefícios destinados a pessoas com algum tipo de deficiência.
Em segundo lugar, estabeleceu-se uma diferenciação entre as chamadas “pessoas comuns” e os militantes do partido. O Partido Comunista sob Mao constituía uma estrutura altamente hierarquizada, semelhante a um exército — o que não é surpreendente, já que teve origem na guerrilha —, na qual o usufruto dos benefícios estatais obedecia rigorosamente à posição ocupada na pirâmide do poder:
“No topo do partido encontrava-se a direção, que dispunha de residências especiais, protegidas por muros altos, guardas dia e noite e carros com motorista. Lojas exclusivas, com bens escassos vendidos a preços reduzidos, eram reservadas para eles e suas famílias (…) Acima de todos estava Mao, que vivia na opulência, nas proximidades da Cidade Proibida (…) tendo um quarto do tamanho de um salão de baile. Mansões suntuosas, com cozinheiros e serviçais durante todo o ano, estavam à sua disposição (…) Na base da escala encontravam-se os milhões de prisioneiros dos campos de concentração, localizados nas regiões mais áridas do interior do país (…) Eles existiam para quebrar pedra, escavar minas de carvão, carregar tijolos ou arar o deserto por anos a fio, sem qualquer amparo da lei” (DIKÖTTER, 2023, p. 250–251).
Em suma, a República Popular da China surgiu a partir de uma enorme revolução camponesa de caráter anticapitalista; contudo, diante da ausência de organismos de poder baseados na democracia socialista que permitissem aos trabalhadores exercer o poder de forma efetiva, acabou sendo assimilada estruturalmente ao modelo stalinista. Assim como ocorreu em outras sociedades burocráticas não capitalistas, esse processo resultou no relançamento da exploração do trabalho sob formas originais. Esse movimento de burocratização prosseguiu — e se aprofundou — mesmo depois de Pequim entrar em contradição com os gestos hegemônicos de Stalin e romper com Moscou no início da década de 1960.
3 – A fratura metabólica e o produtivismo burocrático
Agora, passaremos a traçar uma relação direta entre as categorias de fratura metabólica e produtivismo burocrático, uma vez que ambas nos permitem compreender as causas que deram origem à catástrofe ecocida ocorrida durante o GSA.[3]
Em primeiro lugar, analisemos o conceito de fratura metabólica, presente nos volumes I e III de O Capital. Marx, sob a influência do químico alemão Justus von Liebig, incorporou a categoria de metabolismo ao seu exame crítico do capitalismo. O termo foi originalmente cunhado para descrever o processo bioquímico por meio do qual um organismo, através de uma série de reações metabólicas, transforma os materiais e a energia de seu ambiente em elementos constitutivos do seu próprio crescimento.
Aplicando essa noção ao estudo das sociedades capitalistas, Marx concluiu que nossa relação metabólica com a natureza foi levada ao limite sob o capitalismo, cuja lógica produtiva consiste em explorar o trabalho humano e espoliar os recursos naturais para se reproduzir “infinitamente” — uma tendência que, inevitavelmente, entra em choque com a finitude do planeta.
Com o tempo, essa dinâmica predatória desencadeou um profundo desequilíbrio na interação metabólica entre os seres humanos e a natureza, agravando-se progressivamente. Em sua busca por ampliar o lucro individual ou corporativo, os capitalistas competem de maneira desenfreada para explorar os recursos naturais e produzir mais valores de troca, mas o fazem em um ritmo que rompe os ciclos regenerativos da própria natureza. Essa unidade contraditória entre os tempos do capital e os tempos da natureza constitui a causa central da fratura metabólica, que, por sua vez, ajuda a explicar a gravidade e a extensão da crise ecológica em curso.
Para Marx, a fratura metabólica era uma consequência direta da relação alienada entre os seres humanos e a natureza, decorrente da “organização concreta do trabalho humano” sob o capitalismo (FOSTER, 2004, p. 245). Por isso, qualquer projeto emancipatório precisaria lutar por “restabelecer a unidade entre humanidade e natureza contra a alienação capitalista” (SAITO, 2021, p. 25).
Por outro lado, o século XX deixou claro que a fratura metabólica não se restringiu às economias capitalistas. Ela também se reproduziu nas sociedades pós-capitalistas de tipo stalinista, nas quais se relançaram novas formas de exploração do trabalho e, consequentemente, se manteve a alienação dos seres humanos em relação à natureza.
Segundo Sáenz (2025), nos países onde o capitalismo foi expropriado, “a força de trabalho manteve o caráter de mercadoria intercambiável por salário”, em razão do baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas — uma limitação material que levou à continuidade de formas de “racionalização do trabalho segundo o valor produzido”.
Por esse motivo, é fundamental que a classe trabalhadora exerça efetivamente o poder, pois somente assim é possível conferir um sentido socialista ao processo de acumulação:
“Se a acumulação resulta em um processo colocado a serviço de uma classe trabalhadora que controla esse excedente, como propõe Marx em sua Crítica do Programa de Gotha, estamos diante de uma acumulação socialista, baseada em mecanismos de ‘autoexploração’, orientada para a superação de toda forma de exploração do trabalho (…) Se, ao contrário, ela se converte, na prática, em uma ‘acumulação estatal’ a serviço de uma burocracia completamente autonomizada da classe trabalhadora — uma ‘classe política’, como vimos —, estamos diante de um fenômeno socioeconômico de outra natureza: o relançamento das relações de exploração do trabalho, ainda que sob formas não orgânicas, não consagradas juridicamente, mascaradas no jargão típico do stalinismo sobre o ‘trabalho puro’ ou em formulações naturalizantes semelhantes (uma espécie de ‘trabalho’ desprovido de determinações sociais)” (SÁENZ, 2025).
Isso nos conduz diretamente ao conceito de produtivismo, que pode ser definido como a “lógica que confunde o desenvolvimento das forças produtivas voltado à satisfação das necessidades da classe trabalhadora com uma dinâmica de produção intensiva”, resultando em um crescimento desproporcional da indústria e na espoliação dos recursos naturais, com o objetivo de “competir com o ritmo produtivo das sociedades capitalistas avançadas” (FERNANDES, 2021, p. 9).
No caso do stalinismo, cabe acrescentar, tratou-se de um produtivismo burocrático, que passou a encarar a produção como um fim em si mesma, isto é, dissociada da satisfação das necessidades de consumo das massas trabalhadoras e completamente alheia à preservação da natureza. Essa lógica impôs a ideia de um desenvolvimento unilateral das forças produtivas, cuja finalidade exclusiva foi assegurar uma acumulação burocrática orientada pelos interesses do Estado, relegando a segundo plano o desenvolvimento da indústria de bens de consumo — vital para a maioria da população — em favor da expansão da indústria pesada e militar.
Para ilustrar esse processo, retomemos o caso da industrialização acelerada impulsionada por Stalin com o Primeiro Plano Quinquenal. A burocracia agitava a palavra de ordem de “conquistar a natureza” para erguer as indústrias soviéticas nas regiões mais inóspitas do território. Além disso, a avaliação dessas supostas “conquistas” era estritamente quantitativa, limitada à contagem de quilômetros de ferrovias construídas ou do número de fornos colocados em funcionamento, sem qualquer consideração pela escassez de bens de consumo que afligia a população ou pela qualidade dos produtos (FITZPATRICK, 2019, p. 16).
Douglas Weiner, autor de Ecologia, Conservação e Revolução Cultural na União Soviética, observa que o Primeiro Plano Quinquenal (1928–1932) foi, gradualmente, perdendo seu caráter “planificado”, à medida que, com o passar dos anos, sofreu sucessivas revisões que elevaram arbitrariamente as metas [4]. Dessa forma, as metas originais foram alteradas de maneira arbitrária e sob pressupostos excessivamente otimistas — um voluntarismo burocrático que encobria os métodos irracionais por meio dos quais se organizava a economia nos Estados submetidos ao controle do stalinismo.
Nesse contexto, a natureza passou a ser tratada como um obstáculo a ser superado para o cumprimento das metas estabelecidas e das cotas impostas, ao mesmo tempo em que começou a ser concebida como um mero reservatório de matérias-primas a serem exploradas de forma indiscriminada:
“Muitos soviéticos politicamente ativos viam a natureza como um obstáculo à construção socialista que precisava ser conquistado (…) Na literatura popular e na imprensa, a antipatia em relação à natureza hostil frequentemente levava os autores a antropomorfizá-la. A natureza era retratada quase como uma força conscientemente antissocialista, que deveria ser suprimida (…) era necessário transformar a natureza e submetê-la à vontade humana desde a raiz” (WEINER, 2024, p. 248).
O maoísmo também reproduziu um produtivismo burocrático e ecocida, ao considerar a natureza como um inimigo interno que precisava ser submetido para o cumprimento das metas econômicas ditas “socialistas” (DIKÖTTER, 2023). Essa visão teve consequências devastadoras para os ecossistemas e para a população do país asiático.
Além disso, Kowalewski (2021) argumenta que a gestão burocrática da economia se apoiou na exploração absoluta do trabalho, com o objetivo de acumular o excedente por meio de métodos coercitivos, como o despotismo fabril, o estajanovismo, o aumento da jornada de trabalho, entre outros.
Isso foi suficiente para que a produção coletiva gerasse um produto superior ao volume total da massa salarial necessária à reprodução dos trabalhadores e trabalhadoras. No entanto, bloqueou o desenvolvimento da inovação técnica voltada a ampliar a exploração relativa — baseada na elevação da produtividade do trabalho —, algo impossível de alcançar na ausência de controle democrático da classe trabalhadora sobre a gestão econômica.
Da mesma forma, o planejamento burocrático deixou de considerar o capital fixo como parte dos custos de produção e do valor das mercadorias, o que resultou em um desperdício absurdo de matérias-primas (SÁENZ, 2023). Por esse motivo, a natureza passou a ser concebida como um reservatório inesgotável de recursos a serem explorados de maneira arbitrária — uma concepção que, inevitavelmente, levou a um padrão produtivo marcado pelo desperdício e por desastres ecológicos.
Na China, assim como ocorreu na URSS e em outros países stalinistas, a burocracia se erigiu como a “inteligência universal” de um Estado que controlava todos os meios de produção e, por consequência, a organização do trabalho, regulamentando-a sob formas burguesas de exploração. A estatização não gerou automaticamente o controle operário sobre as indústrias; ao contrário, reproduziu variantes de poder semelhantes ao despotismo fabril (ARTOUS, 2017).
Em A Revolução Traída (1936), Trotsky advertiu que, diante da enorme concentração de poder nas mãos da burocracia stalinista, seus erros produziam consequências imprevistas e de grande impacto:
“Não há outro governo no mundo que concentre em tal grau, em suas mãos, o destino de um país. Os êxitos e os fracassos de um capitalista dependem — ainda que não inteiramente — de suas qualidades pessoais (…) o governo soviético colocou-se, em relação ao conjunto da economia, na mesma posição que um capitalista ocupa diante de uma empresa isolada. A centralização da economia transforma o poder em um fator de enorme importância. Justamente por isso, a política do governo não deve ser avaliada por balanços sumários e números crus da estatística, mas de acordo com o papel específico da previsão consciente e da direção planificada na obtenção dos resultados” (TROTSKY, 2001, p. 70–71).
Essa citação é de enorme utilidade para compreender os reiterados desastres ecológicos ocorridos tanto na URSS quanto na China. A autopercepção da burocracia como uma “inteligência universal”, cujas decisões seriam infalíveis, combinada a uma centralização sem precedentes do poder econômico, potencializou ao máximo a destruição da natureza em dois países de dimensões continentais.
A isso se soma o fato de Pequim ter entrado em uma disputa áspera com Moscou pela hegemonia do mal chamado “campo socialista” — isto é, o conjunto dos Estados burocráticos. Esse fator de ordem geopolítica incentivou o lançamento de planos de industrialização faraônicos, sustentados em critérios de voluntarismo burocrático, que ceifaram a vida de milhões de pessoas e provocaram a devastação do meio ambiente.
Após esse breve percurso histórico pela Revolução Chinesa e a exposição de alguns dos principais traços produtivistas que caracterizaram os Estados burocráticos, passaremos agora à análise do caso concreto do GSA.
4 – A disputa interburocrática como antesala do Grande Salto Adiante
A morte de Stalin, ocorrida em 5 de março de 1953, abriu um período de intensas disputas e rearranjos entre diferentes setores da burocracia. Embora seus efeitos tenham sido sentidos imediatamente nos corredores do Kremlin, suas repercussões logo se espalharam pelos demais Estados burocráticos onde o capitalismo havia sido expropriado[5].
No caso da China, Mao enxergou nesse cenário uma oportunidade para se projetar como o novo líder do chamado “bloco socialista”. É amplamente conhecido que o dirigente chinês nutria um profundo ressentimento em relação a Stalin, construído ao longo de décadas marcadas por atritos com a política de Moscou, que buscava conter o avanço da revolução.
As tensões não cessaram após o triunfo da revolução em 1949; ao contrário, aprofundaram-se nos anos seguintes. Em primeiro lugar, porque Stalin tratou seu homólogo chinês com arrogância e desprezo, desconfiando dele em razão de sua “independência” de caráter e de seu orgulho pessoal[6]. Em segundo lugar, Mao se ressentiu do apoio aéreo escasso e esporádico que os soviéticos ofereceram às tropas chinesas durante a Guerra da Coreia (1950–1953), o que deixou seus soldados mais expostos ao poderio militar dos Estados Unidos. Para agravar ainda mais a situação, Stalin exigiu que a China pagasse pelo equipamento militar que a URSS empregou nesse conflito.
Por fim — e não menos importante —, tornou-se evidente que a União Soviética pretendia estabelecer relações desiguais com a China, semelhantes às impostas aos Estados satélites do Leste Europeu. Em 1950, Moscou assinou um tratado de assistência mútua com Pequim, prevendo apoio em caso de agressão militar por parte do Japão ou dos Estados Unidos. Como parte desse acordo, os soviéticos concederam uma ajuda militar de 300 milhões de dólares, distribuídos ao longo de cinco anos — um montante irrisório para um Estado de dimensões continentais como a China.
Em contrapartida, Stalin exigiu uma série de concessões econômicas de caráter espoliador, que pouco diferiam dos tratados comerciais abusivos impostos pelas potências europeias no século XIX. A China, por exemplo, foi obrigada a ceder à URSS o controle de Lüshun (Port Arthur) e da Ferrovia Oriental Chinesa, na Manchúria, até meados da década de 1950. Além disso, concedeu direitos de exploração sobre jazidas minerais em Xinjiang.
Diante desse conjunto de fatores, Mao passou a enxergar, após a morte de Stalin, a possibilidade de romper a relação de dependência com Moscou. Ao mesmo tempo, aspirava se afirmar como a grande figura e o eixo político do chamado “bloco socialista” — uma ambição que considerava viável, uma vez que nenhum dos possíveis sucessores no Kremlin lhe parecia à altura. Mao via Khruschov com desprezo, considerando-o um quadro do aparelho que jamais havia dirigido uma revolução, ao contrário dele próprio, que liderara uma guerra de libertação nacional contra a ocupação japonesa e uma revolução anticapitalista em um dos maiores países do planeta, além de ter enfrentado militarmente os Estados Unidos na península coreana.
Como consequência, a produção de cereais e de outras matérias-primas caiu abruptamente, provocando escassez de estoques para abastecer as indústrias nas cidades e uma retração da produção industrial. Além disso, começaram a ser registrados episódios de fome em diversas províncias do país.
Esse cenário desencadeou um debate público que extrapolou os limites da imprensa, no qual a Maré Alta Socialista passou a ser abertamente criticada por “tentar fazer tudo de um dia para o outro”. Mao interpretou essas críticas como um ataque pessoal e como uma reprodução, em escala nacional, das críticas à política agrícola de Stalin formuladas por Khruschov (DIKÖTTER, 2023, p. 35).
Na tentativa de reverter esse revés e ajustar contas com seus opositores internos, Mao impulsionou, em abril de 1957, a campanha das “Cem Flores”. Sua intenção era abrir espaço para a crítica pública a fim de conquistar o apoio de intelectuais e cientistas ao regime, ao mesmo tempo em que identificaria aqueles que se opunham à sua liderança. Dessa forma, acreditava Mao, seria possível evitar a eclosão de uma revolução antiburocrática como a da Hungria, em outubro de 1956: uma abertura controlada permitiria fragmentar a oposição em pequenos “incidentes húngaros”, mais fáceis de serem esmagados.
Mas a realidade é sempre mais complexa do que qualquer plano burocrático. A abertura deu lugar a uma série de críticas profundas à condução burocrática do PCCh — e, em especial, à liderança de Mao. Este passou a acusar seus críticos de “direitistas” e colocou Deng Xiaoping à frente de uma campanha “antidireitista” contra cerca de meio milhão de pessoas, em sua maioria estudantes e intelectuais, que foram deportados para regiões distantes a fim de cumprir trabalhos forçados.
Isso permitiu a Mao consolidar burocraticamente seu domínio sobre o partido e, além disso, o “autorizou” a concluir que os fracassos econômicos da chamada “Maré Alta Socialista” haviam sido provocados por sabotadores direitistas infiltrados no interior do partido. Essa interpretação serviria de ponto de partida para o relançamento de suas campanhas de industrialização acelerada, agora sob a denominação de “salto adiante”.
O pontapé inicial do GSA ocorreu em 1957, depois que Khruschov anunciou que a URSS superaria os Estados Unidos, em quinze anos, em setores centrais da produção industrial. Em resposta, Mao fez declaração semelhante, afirmando que a China superaria a Grã-Bretanha no mesmo prazo:
“Neste ano, nosso país produz 5,2 milhões de toneladas de aço e, dentro de cinco anos, poderemos alcançar entre 10 e 15 milhões de toneladas; cinco anos depois, entre 20 e 25 milhões de toneladas; somem mais cinco anos e chegaremos a algo entre 30 e 40 milhões de toneladas. Talvez eu esteja me vangloriando aqui e talvez, quando tivermos outro encontro internacional no futuro, vocês me critiquem por ser subjetivo, mas falo com base em provas consideráveis (…) O camarada Khruschov nos diz que a União Soviética superará os Estados Unidos em quinze anos. Eu posso lhes dizer que, em quinze anos, nós seremos capazes de igualar e ultrapassar a Grã-Bretanha” (DIKÖTTER, 2023, p. 42).
Esse breve percurso histórico nos permite compreender as razões que estiveram por trás do Grande Salto Adiante, impulsionado por Mao com o objetivo de industrializar a China em tempo recorde e disputar a hegemonia do chamado “bloco socialista” com a URSS. Tratou-se de uma aventura burocrática e voluntarista que acabaria por produzir consequências humanas e ecológicas devastadoras para a população do gigante asiático.
5 – O Grande Salto Adiante e a catástrofe ecocida
Para Mao, a natureza era um inimigo que precisava ser dominado e submetido por meio do esforço das massas. Segundo Dikötter, o líder chinês defendia uma filosofia voluntarista (burocrática, acrescentamos nós), segundo a qual seria possível transformar radicalmente as condições materiais e superar qualquer adversidade na construção do “comunismo”. Por isso, ao lançar o GSA, declarou: “Existe uma nova guerra: devemos abrir fogo contra a natureza” (DIKÖTTER, 2023, p. 230).
Nesse sentido, o maoísmo reproduziu uma visão semelhante à do stalinismo soviético, que, como vimos anteriormente, concebia a natureza como uma “força conscientemente antissocialista que deveria ser suprimida” e submetida “à vontade humana desde a raiz” (WEINER, 2024, p. 248). Trata-se de uma abordagem dualista da relação entre seres humanos e natureza, que exclui por completo a preocupação de Marx em restabelecer o equilíbrio metabólico entre esses dois polos (natureza e sociedade).
As consequências ecocidas inerentes a essa perspectiva se manifestaram plenamente durante o GSA. Em um período de cinco anos, o maoísmo concentrou todos os recursos produtivos, humanos e políticos para travar essa “nova guerra” contra a natureza, provocando um grau extremo de destruição ambiental em múltiplas frentes.
Florestas
As florestas do país foram severamente dizimadas durante o GSA. Entre as principais causas do desmatamento esteve a febre pela madeira desencadeada pela campanha do aço. Com o objetivo de elevar exponencialmente a produção dessa liga metálica, o governo ordenou a construção de uma infinidade de fornos artesanais nos quintais das casas rurais. Assim, da noite para o dia, milhões de camponeses deixaram de arar a terra para se transformar em “ferreiros”.
Além da péssima qualidade do aço produzido em fornos improvisados por pessoas sem qualquer conhecimento técnico, os camponeses devastaram florestas inteiras ao cortar árvores para obter lenha, utilizada como combustível. No condado de Yizhang, em Hunan, dois terços das florestas exuberantes que antes cobriam as montanhas foram derrubados; em 1959, essas áreas já se encontravam completamente devastadas.
Outro fator que intensificou o desmatamento foi a coletivização forçada, que desencadeou uma grave fome em razão da queda abrupta na produção de cereais e de carnes. A isso se somou a escassez de combustível para cozinhar, já que as florestas haviam sido destruídas para alimentar os fornos de aço.
Além disso, como a terra passou a ser formalmente “de todo” o povo, o governo desmontou grande parte do sistema de proteção dos recursos naturais, o que facilitou o furto de madeira como estratégia de sobrevivência. Na região de Wudu, em Gansu, o contingente responsável pela vigilância das florestas caiu de 760 pessoas antes do GSA para menos de 100 em 1962.
O roubo de madeira entre comunidades tornou-se uma prática comum, ao mesmo tempo em que revelava a ruptura dos laços de solidariedade social. Em Huairou, cem agricultores foram enviados à fronteira com o condado de Yanqing, onde cortaram ilegalmente 180 mil árvores em apenas três semanas.
Isso dá a dimensão da dramática situação social vivida pelas massas chinesas, especialmente no campo. “O que está embaixo da panela é ainda mais escasso do que o que está dentro da panela”, dizia um provérbio popular da época. O fogo transformou-se em um bem de luxo, trocado nas chamadas “economias de escambo” das aldeias.
Nesse contexto de desespero provocado pela fome e pela lógica do “salve-se quem puder”, os planos de reflorestamento estavam fadados ao fracasso desde o início. Em 1959, por exemplo, Pequim enviou milhares de voluntários para plantar 2.600 hectares de vegetação protetora na Reserva das Tumbas Ming, mas a comunidade local destruiu mais da metade da área em menos de um ano.
Os incêndios também consumiram enormes porções da cobertura florestal. As emergências causadas pelo fogo se intensificaram em razão do aumento da atividade humana nas florestas, combinado com a escassez de guardas-florestais. Somente em Hunan, 56 mil hectares foram devorados pelas chamas em milhares de incêndios ao longo do GSA. Algo semelhante ocorreu nas planícies de Shaanxi e Gansu, onde foram registrados 2.400 incêndios que destruíram 15 mil hectares na primavera de 1962.
Por tudo isso, entre 1958 e 1962, a devastação das florestas atingiu níveis sem precedentes na China. Em condados da província de Liaoning, perdeu-se 70% da cobertura florestal, enquanto em Kaifeng a destruição chegou a 100%, o que levou à desertificação de 27 mil hectares.
“Nunca antes uma diversidade tão grande de florestas (…) havia sofrido um ataque tão vasto e prolongado” (DIKÖTTER, 2023, p. 233). Uma conclusão que evidencia a dimensão da destruição florestal provocada pela aventura burocrática de Mao.
Água
No que diz respeito às águas, o cenário não foi melhor. A burocracia chinesa ordenou a execução de projetos de irrigação de dimensões faraônicas, com o objetivo de garantir recursos hídricos para as novas plantações. Em sua grande maioria, tratou-se de obras realizadas às pressas e sem qualquer planejamento consistente, cujo resultado foi a desorganização do sistema natural de drenagem e o aumento do risco de enchentes.
Tomemos o caso de Cangzhou, na região de Hebei. Ali, um tufão provocou grandes inundações que deixaram submersa metade das áreas cultivadas. Uma equipe de investigação enviada ao local constatou que o sistema natural de drenagem havia sido destruído pelas obras de irrigação executadas no âmbito dos projetos do GSA.
Da mesma forma, por todo o país foram erguidas obras defeituosas, construídas por centenas de milhões de camponeses famintos e sem qualquer formação técnica adequada. Isso resultou em um desperdício colossal de recursos humanos e econômicos, além de expor comunidades vizinhas a riscos permanentes e a acidentes graves.
Um exemplo dramático foi o projeto destinado a “domar o rio Huai”, que levou à construção das represas de Banqiao e Shimantan entre 1957 e 1959. Em agosto de 1975, um tufão atingiu a região e essas barragens colapsaram, provocando a morte de cerca de 230 mil pessoas, tanto por afogamento quanto por causas indiretas decorrentes da catástrofe.
Em Henan, a situação não foi melhor. Em 1980, romperam-se 2.976 represas — todas elas construídas durante o GSA.
Terra
Embora a expectativa fosse aumentar a produtividade dos solos, ocorreu exatamente o contrário nesse período. Grandes extensões de terras cultiváveis sofreram salinização, em grande medida como consequência dos projetos faraônicos de irrigação em zonas áridas, onde a baixa pluviosidade impede a lixiviação das sais solúveis acumulados e transportados de outras regiões.
Ainda que não existam dados absolutamente precisos, estima-se que entre 10% e 15% de todas as terras irrigadas destinadas ao cultivo de grãos tenham sido perdidas. Esses percentuais, no entanto, variam conforme a região: em Henan, a salinização dos solos saltou de 8% para 28%, enquanto em Hebei perderam-se cerca de 1,5 milhão de hectares.
Além disso, em outras regiões, centenas de milhares de hectares foram desertificados em decorrência do desmatamento realizado para abrir novas áreas de cultivo com espécies inadequadas ao ambiente local. Um exemplo disso é a bacia de Qaidam, onde comunidades foram obrigadas a desmatar 100 mil hectares de arbustos e vegetação desértica nativa para o plantio de cereais. Não demorou muito para que os moradores das comunas abandonassem a região, fugindo da areia que passou a cobrir vorazmente as terras.
Fauna
No que se refere à fauna, ela também foi vítima das campanhas de Mao para eliminar as chamadas “pragas”. Como apontamos no início deste tópico, o dirigente chinês era obcecado pela ideia de mobilizar as massas para conquistar a natureza. Com isso em mente, em 1958 lançou uma convocação para exterminar ratos, moscas, mosquitos e pardais.
Em especial, os pardais passaram a ser vistos como “inimigos” a serem derrotados, pois se alimentavam das sementes dos cereais, afetando as expectativas de aumento da produção agrícola. Para isso, Mao ordenou a mobilização sincronizada da população, que deveria produzir ruídos com tambores e panelas em horários determinados, assustando as aves e obrigando-as a permanecer em voo contínuo até morrerem de exaustão. Milhões de pessoas subiam diariamente aos telhados dos edifícios nas cidades ou às copas das árvores no campo para travar essa “guerra” contra os pássaros. Além disso, destruíam seus ninhos e ovos.
Para além dos inúmeros acidentes provocados pela queda de pessoas de prédios e árvores, o impacto ambiental foi devastador. Em Nanquim, por exemplo, utilizaram-se 330 quilos de pólvora em apenas dois dias para atirar contra os pardais — ainda que, na prática, todo tipo de ave fosse abatido. Da mesma forma, foram empregados iscos envenenados nas florestas, o que levou à morte de lobos, coelhos, ovelhas, galinhas, patos, cães, pombos e diversas outras espécies.
Segundo um relatório de Xangai, a guerra contra as pragas resultou no extermínio das seguintes quantidades de espécimes: 48.695,49 quilos de moscas, 930.486 ratos, 1.213,05 quilos de baratas e 1.367.440 pardais.
Os pardais foram levados à beira da extinção, mas acabaram sendo retirados da lista de pragas quando a burocracia maoísta percebeu que essas aves se alimentavam de insetos. A correção, porém, chegou tarde demais: a partir de 1958, o país foi atingido por severas infestações de insetos que devastaram as colheitas agrícolas. Na província de Hubei, cerca de 15% da safra de arroz foi destruída por uma praga de gafanhotos.
6 – Conclusão
A República Popular da China foi fundada após o triunfo de uma colossal revolução social, protagonizada socialmente pelo campesinato e dirigida politicamente pelo partido-guerrilha liderado por Mao. Esse processo garantiu a independência da nação asiática frente ao imperialismo e se radicalizou em um sentido anticapitalista, por meio da expropriação dos capitalistas e dos grandes proprietários de terra.
Apesar disso, a classe trabalhadora nunca governou o país. Ainda que tenha obtido algumas concessões econômicas impostas de cima para baixo, não participou das decisões relativas ao planejamento da economia e da sociedade como um todo, que permaneceram concentradas nas mãos da cúpula dirigente. Do mesmo modo, o campesinato que protagonizou a revolução e conquistou a reforma agrária acabou, posteriormente, submetido a métodos brutais de exploração do trabalho.
O maoísmo, por sua vez, relançou novas formas de exploração da força de trabalho e desenvolveu um produtivismo burocrático com desdobramentos ecocidas, uma vez que, desde cedo, passou a conceber a natureza como um inimigo a ser derrotado no marco de um novo tipo de “guerra”.
Por esse motivo, nas economias planificadas sob comando burocrático jamais se buscou restabelecer o metabolismo socionatural entre seres humanos e natureza. Ao contrário, essas formações sociais foram palco de alguns dos piores ecocídios perpetrados no século XX.
O “Grande Salto Adiante” constituiu um ato de barbárie ecológica planejada, executado de maneira improvisada por uma burocracia que, ao se enxergar como uma “inteligência universal” capaz de controlar o curso da história, mobilizou todos os recursos do país em nome de metas irracionais. Embora haja controvérsias em torno dos números, pesquisas mais recentes parecem confirmar que, durante o GSA, cerca de 45 milhões de pessoas morreram em decorrência da fome que assolou o país entre 1958 e 1962.
A principal lição que emerge do estudo do GSA é que não pode existir um Estado operário sem uma planificação sustentada na democracia socialista — isto é, sem que a classe trabalhadora e o conjunto das massas exploradas decidam efetivamente o rumo da produção e do consumo, na perspectiva de avançar rumo ao socialismo.
Somente assim será possível romper com as lógicas produtivistas, sejam aquelas promovidas pelo capitalismo, sejam as desenvolvidas pela burocracia stalinista. Trata-se da única via capaz de reverter o desperdício de recursos e a destruição da natureza, orientando a produção social para a criação de valores de uso voltados à satisfação das necessidades materiais da sociedade e, ao mesmo tempo, possibilitando o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas em equilíbrio com a natureza.
Notas
[1] Para aprofundar o balanço estratégico de nossa corrente acerca da Revolução Chinesa, sugerimos a leitura do ensaio China 1949: revolución campesina anticapitalista, de Roberto Sáenz, no qual são analisados elementos históricos e políticos desse acontecimento central da luta de classes no século XX.
[2] Esclarecemos que a permanência do PCCh no poder não significa que a China continue sendo um Estado burocrático. Nossa corrente caracteriza que, no gigante asiático, o capitalismo foi plenamente restaurado e que, atualmente, o país constitui um imperialismo em formação, que entrou de maneira decisiva na disputa pela hegemonia mundial com os Estados Unidos. Para aprofundar o tema, recomendamos a leitura de China hoy: problemas, desafíos y debates, de Marcelo Yunes.
[3] Para a elaboração deste tópico, retomamos diversos trechos de nossas pesquisas La política (anti)ecológica en la URSS e Apuntes críticos sobre el balance del estalinismo
[4] Cabe acrescentar que esse processo também se reproduziu nos Estados do Leste Europeu. Ver Democracias populares y resistencia obrera: una aproximación histórica a los Estados burocráticos del Glacis (1945-1956).
[5] Além disso, esse período foi marcado pela irrupção do movimento de massas em vários países do Leste Europeu, como o levante operário da RDA em 1953, o chamado “Outubro polonês”, a Revolução Húngara de 1956 e o chamado “Maio tcheco”.
[6] Não é por acaso que Stalin teve atritos tanto com Tito quanto com Mao. Ambos tinham em comum o fato de terem dirigido autênticas revoluções de libertação nacional que se radicalizaram em um sentido anticapitalista. Ainda que os regimes que lideraram tenham sido burocráticos, tratava-se de dirigentes que não se submetiam docilmente aos desígnios do Kremlin, ao contrário do que ocorreu com a maioria dos “líderes” de aparato à frente dos Estados satélites do Glacis, impostos diretamente pela URSS.
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