JONATHAN COOK
Tradução de artigo publicado no Sin Permiso com o título “O genocídio de Israel é um grande negócio — e o rosto do futuro”
O Financial Times revelou este mês que um grupo de investidores israelenses, um dos principais grupos de consultoria empresarial do mundo e um think tank dirigido pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair vinham trabalhando secretamente em planos para explorar as ruínas de Gaza como propriedade imobiliária de alto padrão.
Esse consórcio secreto parece estar buscando formas práticas de concretizar a “visão” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de transformar Gaza na “Riviera do Oriente Médio”: converter o pequeno enclave costeiro em um parque de diversões para ricos e uma oportunidade de investimento atraente, uma vez concluída a limpeza étnica de sua população palestina.
Enquanto isso, o governo britânico declarou a organização Palestine Action como terrorista — a primeira vez na história do país em que um grupo de ação direta é proibido pela já draconiana legislação antiterrorista britânica.
Vale notar que o governo de Keir Starmer tomou a decisão de proscrever a Palestine Action após pressão da Elbit Systems, uma fabricante de armas israelense cujas fábricas no Reino Unido foram alvo de ações do grupo para interromper suas atividades. A Elbit fornece a Israel drones assassinos e outras armas fundamentais para o genocídio em Gaza.
Essas revelações vieram à tona quando a relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, publicou um relatório intitulado “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, no qual expõe a ampla participação de grandes empresas nos crimes de Israel em Gaza e os lucros que delas obtêm.
Em entrevista ao jornalista norte-americano Chris Hedges, Albanese, especialista em direito internacional, concluiu: “O genocídio em Gaza não cessou porque é lucrativo. É rentável para demasiadas pessoas.”
Ela enumera dezenas de grandes empresas ocidentais que investiram fortemente na opressão do povo palestino por parte de Israel.
Como a própria Albanese destaca, isso não é novidade. Essas empresas vêm, há anos — e em alguns casos, décadas — explorando oportunidades comerciais ligadas à violenta ocupação israelense dos territórios palestinos.
A transição da ocupação de Gaza para o atual genocídio não representou uma ameaça aos lucros, mas sim um aumento deles. Como diz Albanese: “Os lucros cresceram à medida que a economia da ocupação se transformou em uma economia do genocídio.”
A relatora especial tem sido uma pedra no sapato de Israel e de seus patrocinadores ocidentais ao longo dos últimos 21 meses de massacre em Gaza.
Isso explica por que Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, anunciou pouco após a publicação do relatório que imporia sanções contra Albanese por seus esforços para expor os crimes cometidos por autoridades israelenses e norte-americanas.
De forma reveladora, Rubio classificou as declarações dela — baseadas no direito internacional — como “guerra econômica contra os Estados Unidos e Israel”. Albanese e o sistema universal de direitos humanos da ONU que ela representa parecem ser vistos como uma ameaça ao lucro ocidental.
Uma janela para o futuro
Israel funciona, na prática, como a maior incubadora de empresas do mundo, embora, no seu caso, não se limite apenas a fomentar a criação de startups.
Na verdade, o país oferece às corporações globais a oportunidade de testar e aperfeiçoar novas armas, máquinas, tecnologias, processos de coleta de dados e sistemas de automação nos territórios ocupados. Esses avanços caminham lado a lado com opressão massiva, controle, vigilância, encarceramento, limpeza étnica e, agora, genocídio.
Num mundo com recursos cada vez mais escassos e caos climático crescente, é provável que essas tecnologias inovadoras de dominação encontrem aplicação tanto no plano doméstico quanto internacional. Gaza é o laboratório do mundo corporativo — e uma janela para o nosso próprio futuro.
Em seu relatório de 60 páginas, Albanese escreve que sua investigação: “revela como a ocupação perpétua se tornou o campo de provas ideal para fabricantes de armas e grandes empresas de tecnologia… enquanto investidores e instituições públicas e privadas lucram livremente.”
Esse argumento foi reforçado pela empresa de armamentos israelense Rafael, que divulgou um vídeo promocional do seu drone Spike FireFly, mostrando como ele localiza, persegue e mata um palestino no que chamam de “guerra urbana” em Gaza.
Como observa a relatora especial da ONU, independentemente da questão do genocídio em Gaza, as empresas ocidentais têm obrigação legal e moral de romper laços com o sistema de ocupação israelense desde o verão passado.
Foi quando o mais alto tribunal do mundo, a Corte Internacional de Justiça, determinou que a ocupação israelense — que já dura décadas — constitui um empreendimento criminoso baseado no apartheid e no deslocamento forçado, ou, como Albanese denomina, políticas de “deslocamento e substituição”.
No entanto, o setor empresarial — e os governos ocidentais — continuam aprofundando seu envolvimento nos crimes de Israel. Não são apenas fabricantes de armas que se beneficiam da destruição genocida em Gaza e das ocupações da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.
Grandes empresas de tecnologia, construtoras e fornecedoras de materiais, a agroindústria, o setor de turismo, de bens e serviços e cadeias de suprimentos também aderiram à causa.
E tudo isso é viabilizado por um setor financeiro — que inclui bancos, fundos de pensão, universidades, seguradoras e instituições filantrópicas — ansioso para continuar investindo nessa arquitetura de opressão.
Albanese descreve o conjunto dessas empresas que se associam a Israel como: “um ecossistema que sustenta essa ilegalidade.”
Escapar ao escrutínio
Para essas empresas e seus facilitadores, o direito internacional — o sistema jurídico que Albanese e seus colegas relatores da ONU são incumbidos de defender — representa um obstáculo à busca do lucro.
Albanese observa que o setor empresarial consegue escapar ao escrutínio ao se proteger por trás de outros atores.
Israel e seus altos funcionários estão sendo investigados por crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Quando ela escreveu para 48 empresas advertindo que estavam colaborando com essa criminalidade, muitas responderam que a responsabilidade era de Israel, não delas; ou que cabia aos Estados — e não ao direito internacional — regular suas atividades comerciais.
As empresas, segundo Albanese, conseguem obter seus maiores lucros nas “zonas cinzentas da lei” — leis que elas próprias ajudaram a moldar.
Os caças F-35 da Lockheed Martin, cujo “modo besta” foi exibido por Israel enquanto destruía Gaza, dependem de outras 1.600 empresas especializadas que operam em oito países diferentes, incluindo o Reino Unido.
No final do mês passado, o Tribunal Superior britânico reconheceu que componentes fabricados no Reino Unido usados no F-35 provavelmente contribuíram para crimes de guerra em Gaza. No entanto, decidiu que cabia ao governo Starmer tomar decisões “altamente delicadas e políticas” sobre a exportação dessas peças.
Por outro lado, o ministro das Relações Exteriores britânico, David Lammy, declarou perante uma comissão parlamentar que não cabia ao governo avaliar se Israel estava cometendo crimes de guerra em Gaza com armas britânicas — essa seria “uma decisão que deveria ser tomada por um tribunal”.
A Lockheed Martin também entrou no jogo de empurra. Um porta-voz afirmou: “As vendas militares para o exterior são transações entre governos. Questões sobre essas vendas devem ser tratadas com o governo dos Estados Unidos.”
A conivência das big techs
Albanese também aponta as principais empresas de tecnologia por se integrarem rápida e profundamente à ocupação ilegal de Israel — inclusive por meio da aquisição de startups israelenses que exploram conhecimentos adquiridos com a opressão dos palestinos.
O Grupo NSO desenvolveu o software espião Pegasus para celulares, que hoje é usado para monitorar políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos em todo o mundo.
No ano passado, o governo Biden assinou contrato com outra empresa israelense de software espião, a Paragon. Resta saber se, um dia, descobriremos que os Estados Unidos utilizaram justamente esse tipo de tecnologia para espionar Albanese e outros especialistas em direito internacional, sob o pretexto de que estariam travando a chamada “guerra econômica”.
A IBM treina pessoal militar e de inteligência israelense, sendo fundamental para a coleta e o armazenamento de dados biométricos sobre palestinos. A Hewlett Packard Enterprises fornece tecnologia ao regime de ocupação, ao serviço penitenciário e à polícia israelense.
A Microsoft criou em Israel seu maior centro fora dos Estados Unidos, desenvolvendo sistemas para o exército israelense. Já Google e Amazon têm um contrato de 1,2 bilhão de dólares para fornecer infraestrutura tecnológica ao mesmo.
O renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) colaborou com Israel e com empresas como a Elbit para desenvolver sistemas de armas automatizadas para drones e aprimorar a tecnologia de voo em enxame.
A Palantir, que fornece plataformas de inteligência artificial ao exército israelense, anunciou, em janeiro de 2024, no início do massacre em Gaza, uma parceria estratégica mais profunda — algo que a Bloomberg chamou de “Battle Tech”.
Nos últimos 21 meses, Israel introduziu programas automatizados baseados em IA, como “Lavender”, “Gospel” e “Where’s Daddy?”, para selecionar grande quantidade de alvos em Gaza com pouca ou nenhuma supervisão humana.
Albanese chama isso de: “o lado obscuro da start-up nation, tão enraizado e intimamente conectado aos objetivos e lucros da indústria militar.”
Não surpreende que empresas de tecnologia recorram às difamações de sempre contra a relatora especial e a ONU por expor suas atividades. O Washington Post informou que, após a divulgação do relatório de Albanese, Sergey Brin, cofundador do Google, chamou a ONU de “claramente antissemita” em um chat interno para funcionários.
Campo de concentração
Há uma longa lista de outros nomes conhecidos no relatório de Albanese: Caterpillar, Volvo e Hyundai são acusadas de fornecer maquinário pesado para destruir casas, mesquitas e infraestrutura em Gaza e na Cisjordânia.
Bancos de ponta, como BNP Paribas e Barclays, emitiram títulos do Tesouro para reforçar a confiança do mercado em Israel durante o genocídio e manter suas taxas de juros favoráveis.
BP, Chevron e outras empresas de energia estão se beneficiando dos campos de gás existentes no Mediterrâneo Oriental e dos gasodutos que atravessam as águas marítimas palestinas em frente a Gaza. Israel concedeu licenças de exploração para o campo de gás não explorado de Gaza, localizado no mar, pouco depois de iniciar seu massacre genocida.
O mais recente plano de Israel para criar — segundo suas próprias palavras — um “campo de concentração” dentro de Gaza, onde civis palestinos seriam confinados sob vigilância armada rígida, certamente se apoiará em parcerias comerciais semelhantes às que estão por trás dos falsos “centros de distribuição de ajuda” que Israel já impôs à população do enclave.
Soldados israelenses relataram ter recebido ordens para atirar contra multidões de palestinos famintos que fazem fila para receber alimentos nesses centros — fato que explica por que dezenas de palestinos têm sido mortos diariamente há semanas.
Esses centros, administrados pela enganosa “Fundação Humanitária de Gaza”, foram em parte ideia do Boston Consulting Group, a mesma consultoria que, neste mês, foi flagrada tramando transformar Gaza na “Riviera do Oriente Médio” livre de palestinos, segundo a visão de Trump.
O campo de concentração que Israel planeja construir sobre as ruínas da cidade de Rafah — e que, de forma igualmente enganosa, será chamado de “zona humanitária” — exigirá que todos que entrarem sejam submetidos a um “controle de segurança” com coleta de dados biométricos antes de seu encarceramento.
Muito provavelmente, outros contratados, usando sistemas em grande parte automatizados, controlarão o interior do campo até que, segundo o governo israelense, se possa aplicar um “plano de emigração” para expulsar a população de Gaza.
Albanese aponta numerosos precedentes de empresas privadas envolvidas em alguns dos crimes mais horríveis da história — desde a escravidão até o Holocausto.
Ela conclama advogados e organizações da sociedade civil a moverem ações judiciais contra essas empresas nos países onde estão registradas. Sempre que possível, consumidores devem exercer pressão máxima boicotando tais companhias. Também recomenda que os Estados imponham sanções e um embargo de armas contra Israel.
Além disso, pede que o pressionado Tribunal Penal Internacional — quatro de cujos juízes, assim como ela, estão sob sanções dos EUA — e tribunais nacionais: “investiguem e processem executivos e/ou entidades corporativas por sua participação na prática de crimes internacionais e na lavagem dos lucros obtidos com esses crimes.”
Cultura psicopática
Tudo isso é crucial para entender por que as capitais ocidentais continuam colaborando com a matança de Israel, mesmo quando estudiosos do Holocausto e do genocídio — muitos deles israelenses — chegaram a um consenso firme de que suas ações constituem genocídio.
Os partidos no poder em países ocidentais, como Estados Unidos e Reino Unido, dependem fortemente das grandes empresas, tanto para vencer eleições quanto, após eleitos, para manter sua popularidade promovendo a “estabilidade econômica”.
Keir Starmer chegou ao poder no Reino Unido depois de rejeitar o popular modelo de financiamento coletivo de seu antecessor, Jeremy Corbyn, e, em vez disso, cortejar o setor empresarial com promessas de que o partido estaria a serviço dele.
Essas garantias também foram fundamentais para que a mídia, controlada por bilionários — que havia se voltado ferozmente contra Corbyn, difamando-o constantemente como “antissemita” por suas posições socialistas democráticas e pró-palestinas — pavimentasse o caminho de Starmer até Downing Street.
Nos Estados Unidos, os bilionários têm até um dos seus no poder, Donald Trump. Mas, mesmo assim, sua campanha dependeu de grandes doadores como Miriam Adelson, viúva israelense do magnata dos cassinos Sheldon Adelson.
Adelson é uma das principais financiadoras — de ambos os partidos — que não esconde que sua prioridade política número um é Israel. Uma vez no poder, os partidos ficam, na prática, reféns das grandes corporações em vastas áreas da política interna e externa.
O setor financeiro teve de ser resgatado pelos contribuintes — e continua sendo, através das chamadas “medidas de austeridade” — depois que seus excessos imprudentes afundaram a economia global no final da década de 2000. Os governos ocidentais decidiram que os bancos eram “grandes demais para quebrar”.
Da mesma forma, Israel — o maior incubador mundial das indústrias de armamentos e vigilância — é grande demais para que se permita seu fracasso. Mesmo que cometa genocídio.
Críticos da ascensão das corporações globalizadas nas últimas cinco décadas, como o linguista Noam Chomsky e o professor de direito Joel Bakan, há muito apontam os traços psicopáticos inerentes à cultura corporativa.
As empresas são legalmente obrigadas a buscar o lucro e priorizar o valor para os acionistas acima de qualquer outra consideração. As restrições à sua liberdade de agir assim são praticamente inexistentes, após ondas de desregulamentação impostas por governos ocidentais corrompidos.
Bakan observa que as corporações são indiferentes ao sofrimento ou à segurança dos outros; incapazes de manter relações duradouras; destituídas de qualquer senso de culpa ou capacidade de autocontrole; e propensas a mentir, enganar e fraudar para maximizar seus lucros.
Essas tendências psicopáticas têm se manifestado repetidas vezes — seja na indústria do tabaco, no setor bancário, nas farmacêuticas ou nas empresas de energia.
Por que agiriam de forma diferente quando se trata de buscar lucros associados ao genocídio em Gaza?
Bakan responde àqueles que confundem seu argumento com teoria da conspiração: o comportamento psicopático das corporações nada mais é do que o reflexo das obrigações legais que lhes são impostas como instituições — aquilo que ele chama de sua “dinâmica lógica” — de maximizar lucros e eliminar concorrentes, independentemente das consequências para a sociedade, para as gerações futuras ou para o planeta.
Enriquecer-se com o genocídio
Há muito em jogo em Gaza para os governos ocidentais justamente porque há muito em jogo para o setor empresarial que lucra com o genocídio de Israel.
Governos e empresas compartilham um interesse avassalador em proteger Israel de qualquer escrutínio ou crítica: ele serve como cão de guarda colonial no Oriente Médio rico em petróleo e como fonte de receitas para as indústrias de armamentos, vigilância e encarceramento.
Isso explica por que Trump e Starmer, por um lado, e administrações universitárias, por outro, têm investido tanto capital político e moral para reprimir os espaços — especialmente no meio acadêmico — onde a liberdade de expressão e o direito de protesto deveriam ser mais valorizados.
As universidades estão longe de serem partes neutras. Antes de a polícia desmontar seus acampamentos nos campi, estudantes manifestantes buscavam expor o quanto essas instituições estão profundamente implicadas na economia da ocupação e do genocídio — tanto financeiramente quanto por meio de acordos de pesquisa com o exército e universidades israelenses.
A necessidade de proteger Israel do escrutínio também explica as rápidas medidas adotadas no Ocidente para rotular como “antissemita” qualquer tentativa de responsabilizar Israel ou seu exército genocida.
As medidas desesperadas às quais os governos estão dispostos a recorrer ficaram evidentes neste mês, quando autoridades britânicas e a mídia tradicional desencadearam uma onda de indignação após uma banda punk no festival de Glastonbury gritar “Morte, morte ao exército israelense!”, em referência ao exército genocida de Israel.
E, à medida que o peso da acusação de antissemitismo se enfraquece por seu uso indevido, capitais ocidentais estão reescrevendo suas leis para classificar como “terrorismo” qualquer tentativa de sabotar a economia genocida — por exemplo, interrompendo a produção de fábricas de armas.
A moralidade e o direito internacional estão sendo lançados ao vento para manter a mais lucrativa fonte de renda do Ocidente.
Tudo segue igual
A indispensabilidade de Israel para o setor empresarial e para uma classe política ocidental cativa vai muito além da pequena Gaza. Israel desempenha um papel desproporcional como incubadora de indústrias bélicas em um campo de batalha global no qual o Ocidente busca garantir sua primazia militar e econômica sobre a China.
No mês passado, a elite corporativa global — formada por bilionários da tecnologia, magnatas corporativos, líderes políticos, donos de mídia e altos oficiais militares e de inteligência — reuniu-se novamente na discreta cúpula de Bilderberg, realizada este ano em Estocolmo.
Entre os presentes, estavam os CEOs de grandes fornecedores de “defesa” e fabricantes de armas como Palantir, Thales, Helsing, Anduril e Saab.
A guerra com drones, usada de forma inovadora por clientes militares-chave como Israel e Ucrânia, foi um dos principais tópicos da agenda. A integração mais ampla da inteligência artificial nesses drones parece ter sido um dos pontos centrais das discussões.
O pano de fundo deste ano — como nos anos anteriores — foi a suposta ameaça crescente da China e do “eixo autoritário” que a acompanha, formado por Rússia, Irã e Coreia do Norte. Essa ameaça é vista principalmente em termos econômicos e tecnológicos.
Em maio, Eric Schmidt, ex-CEO do Google e membro do conselho de Bilderberg, escreveu alarmado no New York Times: “A China está empatada ou à frente dos Estados Unidos em várias tecnologias, especialmente na fronteira da IA.”
Ele acrescentou que o Ocidente está em uma corrida contra a China para desenvolver uma IA superinteligente — que daria ao vencedor “as chaves para controlar o mundo inteiro”.
Schmidt, como outros habitués do Clube Bilderberg, prevê que as necessidades energéticas dessa IA superinteligente provocarão guerras cada vez mais intensas pelo controle da energia, para garantir que o Ocidente permaneça no topo.
Como resumiu um artigo do The Guardian sobre a conferência: “Nesta corrida desesperada, onde o vencedor leva tudo, pelas chaves do mundo, e na qual a ‘geopolítica da energia’ ganha cada vez mais importância, as usinas, junto com os centros de dados que elas alimentam, tornar-se-ão o alvo militar número um.”
A matança de Israel em Gaza é vista como desempenhando um papel central na abertura desse “campo de batalha”.
As mesmas empresas que lucram com o genocídio em Gaza se beneficiarão do ambiente mais permissivo — legal e militar — criado por Israel para guerras futuras, nas quais civis mortos são classificados apenas como “baixas acidentais”.
Um artigo publicado em abril na revista New Yorker revelou o dilema enfrentado pelos planejadores militares dos EUA, que se consideram limitados, desde a década de 1980, pelo crescimento de uma comunidade de direitos humanos capaz de formular interpretações independentes das leis de guerra, diferentes das do Pentágono.
O resultado, lamentam os generais norte-americanos, foi uma “aversão generalizada ao risco de danos colaterais” — ou seja, à morte de civis.
Os planejadores do Pentágono querem usar a matança em Gaza como precedente para sua própria violência genocida contra futuros rivais econômicos como China e Rússia, que ameaçam a doutrina oficial norte-americana de “domínio global em todos os domínios”.
Segundo a New Yorker: “Gaza não apenas parece um ensaio geral do tipo de combate que os soldados norte-americanos podem enfrentar. É um teste da tolerância do público dos EUA aos níveis de morte e destruição que esse tipo de guerra implica.”
A revista afirma que a violência genocida desencadeada por Israel está abrindo o “espaço de manobra legal” necessário para cometer crimes contra a humanidade a céu aberto.
Grande parte do esforço das capitais ocidentais para normalizar o genocídio vem da tentativa de apresentá-lo como algo rotineiro e demonizar seus opositores.
Os fabricantes de armas e empresas de tecnologia, cujos cofres se encheram com o genocídio em Gaza, podem ganhar muito mais com uma guerra igualmente devastadora contra a China.
Seja qual for a narrativa que nos vendam, não haverá nada de moral ou existencial na batalha que se aproxima. Como sempre, tratar-se-á de gente rica ansiosa para ficar ainda mais rica.
Fonte: https://jonathancook.substack.com/p/israels-genocide-is-big-business
Traduzido por Martin Camacho de Los negocios y las nuevas tecnologías en el genocidio en Gaza










