Declaração de emergência da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie
Fora Estados Unidos da Venezuela!
A agressão trumpista pode abrir uma situação internacional imprevisível e perigosa. A mobilização internacional anti-imperialista é a resposta necessária à agressão imperialista.
Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie
3 de janeiro de 2026
Declaração redigida por Federico Dertaube
É difícil saber, no próprio dia dos primeiros bombardeios dos Estados Unidos à Venezuela e do sequestro de Maduro e Cilia Flores, quais serão as consequências de longo prazo da agressão. O que está claro é que pode ser o ponto de partida de um novo mundo. A impunidade imperialista dos Estados Unidos não é nada nova, a intimidação de Trump tampouco. Mas o que pode estar se abrindo, sim, é algo novo: a extrema direita à frente da principal potência capitalista quer impor uma nova ordem mundial, com maior ou menor acordo com a Rússia e a China.
Na mitologia grega, Pandora era a primeira mulher, à qual os deuses entregaram uma caixa que não devia ser aberta. Por cobiça e curiosidade temerária, ela abriu a caixa que continha todos os males que afligem o mundo. Trump acaba de abrir uma Caixa de Pandora cujo conteúdo agora paira sobre o mundo.
Estados Unidos e Venezuela
A opinião pública internacional, tanto entre as maiorias populares quanto entre as classes dominantes, está dividida sobre a possível guerra que Trump acaba de desencadear sobre a América Latina. A propaganda de justificação da invasão vem sendo bastante eficaz, apesar das terríveis experiências das guerras do imperialismo ianque na história recente.
O regime madurista não tem nenhuma legitimidade. É profundamente odiado por grandes massas de venezuelanos, em especial na diáspora de milhões que passaram a habitar países da região, e desprezado pela maioria dos trabalhadores e do povo de outros países.
Dizíamos por ocasião da fraude eleitoral de meados de 2024:
“A crise daquele que foi o governo mais ‘radicalizado’, popular e forte da ‘onda progressista’ nacionalista burguesa da primeira década do século XXI é um dos fatos políticos mais transcendentais da situação regional. Até a mais rançosa direita, defensora de ditaduras e de políticas econômicas que levaram países como a Argentina a abismos de crise insondáveis, pode se fortalecer agitando o espantalho da Venezuela”.
E depois:
“Do autoproclamado ‘socialismo do século XXI’ passou-se a um regime capitalista autoritário e ultradecadente. Maduro já não se sustenta com o fervor popular com o qual se sustentou Chávez. Seus pilares são as Forças Armadas, generosamente abastecidas pelo Irã, e o apoio de potências em ascensão, competidoras dos Estados Unidos e aspirantes a se tornarem imperialistas, Rússia e China’.
Mas a legitimidade relativa na qual o trumpismo pretende se apoiar só pode ter alcance limitado. Ninguém pensa que as invasões do Iraque e do Afeganistão tenham sido outra coisa senão guerras de saque e destruição imperialista. Começando pelo próprio Donald Trump, que fez duas campanhas eleitorais denunciando-as. E tanto o regime de Saddam Hussein quanto o dos Talibãs tinham ainda menos apoio popular e legitimidade do que o que tem o madurismo. Também se reproduziram por todos os meios internacionais as comemorações de iraquianos derrubando estátuas do ditador.
Mas os rigores do imperialismo se fizeram sentir mais cedo do que tarde. Hoje todo o mundo sabe que os Estados Unidos não levaram “liberdade” nem “democracia”, mas saque e massacres.
As coisas são ainda mais grosseiras do que há 22 anos, sob o governo Bush. Os que fazem propaganda sobre a “liberdade” para a Venezuela trazida à força pelos bombardeiros são sobretudo a direita latino-americana e, em geral, os cães de colo do trumpismo. Milei, por exemplo, foi um dos primeiros a comemorar.
Mas o caso mais patético é provavelmente o de María Corina Machado, que celebrou a agressão e anunciou uma vitória… e depois Trump esclareceu que não consultaram ninguém e que não a deixarão governar.
“Vamos dirigir o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, disse Trump em coletiva de imprensa. “Não podemos correr o risco de que alguém mais tome o controle da Venezuela sem levar em conta o bem do povo venezuelano”. A política de Trump é explicitamente pisotear toda soberania: é que os Estados Unidos transformem a Venezuela em sua colônia.
Trata-se de uma completa novidade em quase um século, e em geral para os Estados Unidos. Todas as agressões imperialistas, ao menos desde a Segunda Guerra Mundial, eram apresentadas como um combate em defesa da liberdade e da democracia. Assim foi no Vietnã, assim foi no Iraque. A justificativa trumpista dos “narcotraficantes” é tão grosseiramente mentirosa que engana apenas aqueles que têm muita vontade de ser enganados. Agora, passaram diretamente a dizer que a Venezuela e seu petróleo lhes pertencem.
A Caixa de Pandora na situação mundial: a ruptura da “lei internacional”
O mais inédito dessa agressão, o mais perigoso, é que ela dá carta branca às principais potências para submeter, sem disfarces, o mundo à lei do mais forte. É exatamente isso que pode significar uma nova ordem mundial, diferente daquela imposta pelos próprios Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
É um aceno para a Rússia na Ucrânia. Também, ainda que de forma mais difícil, pode dar respaldo à China e às suas intenções anexionistas sobre Taiwan. Por que Putin não se sentiria avalizado para fazer alguma acusação a Zelensky e sequestrá-lo? Por que Xi Jinping não se sentiria no direito de pisotear toda a soberania de Taipei?
A era dos impérios coloniais foi a da imposição da lei do mais forte em todos os cantos do mundo. Essa época terminou com a criação da ONU e do “direito internacional”. O imperialismo passou muitas décadas disfarçado de democracia; a partir de 1945, levou esse disfarce às relações internacionais. A lei do mais forte necessitava de legitimidade “democrática”. À frente dessa ordem mundial de imperialismo pseudodemocrático, baseada em supostas regras e consensos entre potências e países submetidos, estavam os próprios Estados Unidos.
A potência estadunidense instituiu sua hegemonia com a dissolução dos impérios coloniais. Deu um verniz “democrático” às suas guerras, seus massacres e seus saques. É o próprio Washington que abandona voluntariamente esse disfarce. Trump não quer esconder que seu regime e sua violência não pretendem se submeter a nenhuma “lei” que seja supostamente igual para todos os países. Sua resposta à decadência da hegemonia incontestada dos Estados Unidos no mundo inclui um ensaio de acordo tácito e conflitivo de repartição do mundo com a Rússia e a China. Podem ser entregues zonas de influência, e as tensões e choques de interesses entre as potências podem se tornar cada vez mais intensos. A agressão dos Estados Unidos à Venezuela é um perigo imenso para as “zonas de influência” das outras duas grandes potências e também pode acelerar a agressividade interimperialista.
Por isso, boa parte das classes dominantes do mundo observa com temor o que acontece na América Latina. Estão acostumadas a ter um Estado próprio e preferem ser sócias menores do imperialismo a terem todo o negócio arrancado de suas mãos. A extrema direita, enquanto isso, está mostrando ao mundo seu desejo de ser colônia. Milei e Corina Machado são os nomes destacados da tropa de puxa-sacos de Trump, de cães de colo que abanam o rabo esperando um osso que raramente chega.
A Caixa de Pandora na Venezuela e na América Latina
As expectativas de “democracia” e “liberdade” de muitos venezuelanos não serão cumpridas. Sob nenhum ponto de vista. Em todos os cenários possíveis de regime imposto pelos ianques, seja com ocupação direta ou com governo fantoche, as perspectivas são muito ruins para as imensas maiorias.
No momento em que escrevemos, não está nada claro quem governará a Venezuela. Por enquanto, o madurismo sem Maduro continua no poder. Não se sabe se alguns setores chegaram a algum acordo com Washington nem por que foi tão fácil levarem o chefe do regime. Por ora, fizeram algumas declarações de rejeição à intervenção, exigiram a devolução de Maduro e chamaram à “calma”, tentando manter o controle. Também não está claro que papel poderá cumprir a direita pró-ianque, que se lambe diante das possibilidades de poder que, por enquanto, estão muito longe de ter.
Há algo muito claro: não existe Estado venezuelano viável, não importa quem esteja à frente, com o plano de apropriação do petróleo anunciado por Trump. Quando chama de “nosso” o petróleo venezuelano, ele demonstra não apenas seu desprezo por toda soberania nacional da Venezuela. Também torna explícito que pouco lhe importa o governo do país. Se os Estados Unidos se apropriassem de seus recursos petrolíferos, a Venezuela não poderia esperar outra coisa senão um colapso ainda mais degradante do que o vivido sob o madurismo.
A classe dominante venezuelana está dividida. Os vendilhões da pátria “escuálidos” da oligarquia clássica comemoram a possibilidade de recuperar todo o poder perdido sob a proteção do imperialismo ianque. Os boliburgueses e as Forças Armadas têm muitos interesses criados em torno do madurismo, que não abandonarão assim tão facilmente. Além disso, apesar de serem minoria, milhões de pessoas continuam acreditando no chavismo e no falso “socialismo do século XXI”. A agressão desencadeada por Trump pode trazer consigo décadas de violência civil entre setores da classe dominante e das maiorias populares. Além, é claro, da própria violência das tropas ianques.
Além disso, a agressão ianque converteu-se automaticamente em uma ameaça concreta para toda a América Latina. Governos moderados como os de Lula, no Brasil, e Petro, na Colômbia, repudiaram rapidamente a agressão porque compreendem perfeitamente o que ela significa. “Esta operação bem-sucedida é um aviso. O que aconteceu com Maduro pode acontecer com outros”. Se a agressão dos Estados Unidos à Venezuela passar impunemente, o governo trumpista se converte automaticamente em uma ameaça à soberania de todos os países do continente.
A Caixa de Pandora na resposta anti-imperialista de massas à agressão dos Estados Unidos à Venezuela
Como no Vietnã, a mobilização anti-imperialista sustentada, a solidariedade dos oprimidos do mundo, pode impor uma derrota aos Estados Unidos.
Vivemos em um mundo muito diferente do dos anos 1970. Inclusive muito distinto do de 2003. A própria classe dominante dos Estados Unidos está profundamente dividida sobre a aventura trumpista na Venezuela. Não existe o consenso imperial sobre o Vietnã e o Iraque. Por isso também Trump inventou a desculpa do narcotráfico para não ter de passar pelo Congresso ianque, que é o único com direito de declarar guerra a outros países. Mais ainda: tudo isso acontece a poucos dias da posse de um governo em Nova York que se diz anti-imperialista e socialista.
A mobilização anti-imperialista mundial é fundamental para frear a agressão dos Estados Unidos à Venezuela. As direções sindicais e autoproclamadas de esquerda, os governos “progressistas” como os de Lula e Petro, os democratas dos Estados Unidos, Mamdani e o governo de Nova York, todos têm a responsabilidade de impulsionar o clamor de massas contra a intervenção militar em solo venezuelano.
Depois de liberar todos os males sobre o mundo, Pandora olhou para dentro da caixa e descobriu que ainda restava algo pequeno lá dentro. Era a “esperança”. A mobilização internacional de massas é essa esperança, a única capaz de colocar um freio nos projetos de opressão colonial e saque imperialista de Trump e seus cúmplices da extrema direita.
Trump pode ter aberto a Caixa de Pandora que desencadeie a resposta internacional de massas contra o imperialismo. A agressão dos Estados Unidos à Venezuela pode ter um efeito rebote de rejeição ao trumpismo.
Fora os ianques da Venezuela e da América Latina!
Que o povo venezuelano decida seu futuro por conta própria, sem intervenção militar nem colonial. Pela mobilização internacional de massas anti-imperialista para colocar um freio em Trump.
A primeira posição da Corrente Socialismo ou Barbárie frente à agressão
Declarações de Roberto Sáenz, dirigente da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie:
“O governo fascistoide de Trump volta às andanças do imperialismo tradicional. O mundo e os povos parecem que têm proprietários: esses governos imperialistas rançosos pretendem passar por cima da soberania popular e dos direitos nacionais. Os países do mundo são seu quintal, onde pretendem fazer e desfazer como melhor lhes parece.
O bombardeio de civis venezuelanos e a captura de Maduro e de sua esposa são um escândalo. Maduro é a degradação de um regime que teve traços nacionalistas burgueses e fez, em seu momento, concessões às massas populares. Trump é a escória reacionária em toda a linha. Defendemos de maneira incondicional o povo venezuelano. Nenhuma solução para os problemas de seu povo pode vir desse desprezível e abusador de mulheres déspota imperialista. A América Latina tem que se colocar de pé contra essa brutal agressão, assim como a população latina explorada e oprimida nos Estados Unidos. Mamdani, agora prefeito de Nova York, tem que mostrar o que vale e chamar a uma imensa mobilização contra Trump na cidade mais importante dos Estados Unidos.
A corrente internacional Socialismo ou Barbárie chama à mobilização anti-imperialista e anticapitalista na América Latina e em todo o mundo contra essa brutal agressão. O capitalismo escorre sangue, lama e imundície por todos os seus poros. Temos que acabar com essa escória. Fora Trump e seu imundo imperialismo da Venezuela. Liberdade para Maduro e sua esposa! Que o povo venezuelano possa decidir livremente seu destino. Coloquemos de pé a América Latina contra a escória imperialista e seus lacaios, como Milei na Argentina. Vamos por um mundo anticapitalista. Abaixo os opressores, acima os oprimidos! O capitalismo não dá mais.”











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