Nos últimos meses, o noticiário nacional está tomado pelo escândalo em torno do banco Master e suas fraudes financeiras, dos injustificáveis investimentos de fundos de pensão públicos e de uma série de relações não republicanas entre ministros da Suprema Corte e políticos burgueses em toda a gama de partidos. No entanto, esse escândalo serve como uma pequena mostra de como todo o mundo político, fundos públicos, órgãos reguladores, Congresso Nacional e Judiciário, e seus agentes, a partir de uma boa remuneração, se articulam para proteger interesses do dinheiro graúdo, mesmo quando isso implica prejuízos bilionários ao erário, risco direto às aposentadorias de trabalhadores e falta de recursos para resolver os principais problemas das massas. Problema que não pode se resolver por vias meramente institucionais: é necessário organizar a luta por uma saída anticapitalista e um Plano Político-Econômico dos Trabalhadores, que estatize o sistema financeiro sob controle dos trabalhadores e apresente uma saída global para a crise e para as demandas dos trabalhadores e dos oprimidos.
ANTONIO SOLER
A arquitetura de uma liquidação
O crescimento acelerado do Banco Master foi sustentado por uma engenharia típica do capital financeiro fictício levada ao extremo: a dissociação entre crédito e liquidez real. O banco expandiu suas operações por meio da emissão agressiva de títulos (CDBs) muito acima do valor de mercado, que eram descaradamente ancorados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), da criação de fundos interligados e da circulação de ativos cujo valor dependia exclusivamente da continuidade do próprio esquema piramidal.
Segundo apurações dos jornais, “fictícias eram também, pelo que se apura, operações de crédito iniciadas pelo próprio Master, que emprestava dinheiro a fundos de propriedade exclusiva do banco ou a empresas de fachada, ciranda que camuflava a operação de fantasia do negócio”[1]. Essa estrutura permitiu inflar artificialmente o patrimônio e simular solidez financeira, mesmo na ausência de lastro econômico real dessas operações.
A captação por meio de CDBs com taxas muito acima do mercado, oferecidos inclusive por grandes corretoras, funcionou como principal mecanismo de atração de recursos. Com o tempo, essa prática assumiu a forma de uma complexa pirâmide financeira, na qual novos títulos eram emitidos para pagar os que estavam vencendo, sem que houvesse geração real de riqueza capaz de sustentar os compromissos assumidos.
Em que pese a operação-abafa – tirar o julgamento da primeira instância e levar as fraudes em torno do Banco Master para o STF, e tentativas de cercear o trabalho da PF feitas pelo ministro José Antonio Dias Toffoli – e os próprios limites de uma investigação sob um Estado burguês, as investigações ainda inconclusas desvelam o esquema financeiro operado pelo Banco Master, que reflete a lógica de todo o capital financeiro.
O material apreendido na investigação contém referências a políticos com foro especial. Investigadores relataram que foram encontrados vários achados com menções a lideranças partidárias e autoridades de alto escalão. Segundo fontes ouvidas, há preocupação de que as investigações contra políticos não avancem por pressões sobre o STF.
O foro privilegiado dos políticos burgueses opera, assim, como mecanismo de proteção desses agentes e do grande capital para que um acordo político por cima possa ser construído. Porém, mesmo que limitadas pelas altas Cortes, as apurações devem tramitar no STF, reacendendo um problema histórico do regime político: a “democracia blindada”[2] aos interesses dos trabalhadores e dos oprimidos que, além de dificultar a responsabilização efetiva das camadas superiores do poder, faz com que as principais decisões de todos os órgãos de poder estejam em consonância com os interesses do grande capital.
Fundos públicos a serviço da ciranda financeira
As operações da PF resultaram em prisões, buscas e apreensões, além da quebra de sigilos bancário e telefônico de dirigentes indicados pela aristocracia política e intermediários do banco. Os dois fundos estaduais com maior exposição ao Banco Master – Amprev e Rioprevidência – revelam um padrão de governança desses fundos capturada pelo bolsonarismo, pelas velhas oligarquias políticas e por setores do governismo.
Esses “dirigentes”, em troca de financiamento privado de campanha eleitoral e outras benesses, não apresentam o menor escrúpulo na hora de colocar em risco a poupança dos servidores públicos. Ambos os casos evidenciam a fragilidade institucional de organismos que administram bilhões de reais em recursos previdenciários, frequentemente dirigidos por quadros indicados por critérios políticos e não por mecanismos de controle democrático dos contribuintes.
No Amapá, a PF investigou crimes de gestão temerária da Amprev por funcionário indicado pelo presidente do Davi Alcolumbre (União Brasil), após aplicações sucessivas que totalizaram cerca de R$ 400 milhões em menos de vinte dias, apesar de alertas do MPF e do TCU. No Rio de Janeiro, com acusações de obstrução de Justiça e ocultação de provas, temos a prisão do ex-presidente do Rioprevidência, indicado pelo governador Cláudio Castro (PL), que aplicou cerca de R$ 1 bilhão, o que reforça a dimensão política do caso.
O envolvimento do Banco de Brasília aprofunda a dimensão pública do escândalo. O BRB tentou adquirir o Banco Master quando este já se encontrava à beira da insolvência e chegou a comprar créditos que, segundo o Banco Central, “existiam apenas em ficção fraudulenta”.
O BC afirmou que a provisão necessária para cobrir as perdas do BRB se aproxima de R$ 5 bilhões. A liquidação do Master acionou o Fundo Garantidor de Créditos em valores próximos a R$ 50 bilhões, custo que será absorvido pelo sistema financeiro e, em última instância, pelos trabalhadores que pagam juros escorchantes em empréstimos e cartões de crédito.
O depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central (30.12.25), Ailton de Aquino, à Polícia Federal constitui um ponto de inflexão na compreensão do caso. Segundo ele, às vésperas da sua liquidação, o Banco Master possuía apenas R$ 4 milhões em caixa – valor absolutamente incompatível com uma instituição financeira de médio porte.
A contradição central do caso foi formulada pelo próprio diretor: “A pergunta central é como alguém que não tinha liquidez poderia gerar tanto crédito, nesta magnitude, para ceder ao BRB”[3]. Esse dado desmonta definitivamente qualquer tentativa de tratar o colapso como evento súbito ou imprevisível. A questão é: se a insolvência do Master era estrutural, por que as agências reguladoras, como o BC e a CVM, não detectaram esse problema? E por que os fundos de pensão públicos que investiram bilhões nesse banco não detectaram o problema?
Master, uma “exceção” que revela a regra
O colapso do Banco Master inicialmente foi apresentado, por setores do sistema político e econômico, como um episódio excepcional: um banco médio, administrado de forma temerária, que sucumbiu a práticas irregulares e acabou sendo liquidado.
Contudo, essa narrativa, em que pese a operação-abafa encabeçada pelo ministro do STF Dias Toffoli, não resistiu ao mínimo exame dos fatos, dos depoimentos de dirigentes do Banco Central, das operações envolvendo bancos estatais e, sobretudo, da extensão do envolvimento de fundos públicos de previdência geridos em sua grande maioria por políticos bolsonaristas e do Centrão, revelando um padrão.
Do ponto de vista financeiro, os fundos públicos servem para amortecer as perdas dos bancos privados que operam com alto risco; o BC e demais reguladores toleram anomalias. Esse sistema se completa politicamente com os agentes do Judiciário, do Congresso e do Executivo evitando, contendo e abafando investigações.
Assim, o caso Master não provocará nenhuma hecatombe financeira pelas dimensões do banco e alcance de suas operações, mas trata-se de uma crise parcial do sistema que revela o modus operandi de todo o todo político-econômico que atua para garantir a acumulação de meia dúzia às custas da maioria da população.
O caso Banco Master, em que pese não ser uma crise financeira sistêmica a partir do estouro de uma bolha financeira ou coisa que o valha, pelo que traz à tona do destrutivo imbricamento – aposentadorias foram colocadas em risco, prejuízos privados foram socializados e instituições atuaram para conter o alcance político da crise – político-econômico entre política burguesa e classe dominante, coloca a necessidade de uma tomada política global do problema.
Como tentativa de surfar a crise e desgastar o governo federal, que tem chefes envolvidos no esquema, setores da oposição pegam assinaturas para uma CPI sobre o caso Master. Mas está sendo costurado, com todos os partidos da ordem e nos Três Poderes, um acordão para abafar o caso. O presidente da Câmara dos Deputados – Hugo Motta (Republicanos) – alegou a existência de uma “fila de CPIs” a ser respeitada; enquanto isso, o presidente do Senado simplesmente silencia.
Mobilizar por uma saída anticapitalista
Como há múltiplos interesses em abafar o escândalo, mesmo que uma CPI fosse montada, como em uma série de outras, não haveria garantia alguma de que houvesse responsabilização dos envolvidos nas fraudes. O caso recente mais notório foi a CPI da Covid, em que, apesar das provas de responsabilidade de Bolsonaro e demais integrantes do seu governo na morte de milhares, a Procuradoria-Geral da República se negou a denunciar o neofascista. Por essa razão, o centro da luta política diante desse escândalo tem que passar por uma alternativa dos trabalhadores.
Nesse começo de ano, estamos diante de uma série de desafios que precisam se combinar com uma resposta política dos trabalhadores e oprimidos em relação ao Banco Master e a outras demandas. Acabamos o ano com duas importantes vitórias dos trabalhadores na greve dos petroleiros e na dos trabalhadores dos Correios. Agora, os povos indígenas, após ocuparem o Terminal da Cargill em Santarém (PA), fizeram o governo recuar no pregão de drenagem do Rio Tapajós, mas a luta é para revogar o decreto assinado por Lula que privatiza os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Além dessa importante vitória parcial dos indígenas, temos a mobilização dos entregadores por aplicativo contra a PL 152 e por suas reivindicações, a luta contra a escala 6×1 e por 30h semanais, a luta contra a anistia aos golpistas e uma série de importantes lutas setorizadas que precisam ser organizadas.
Em relação ao Master, não podemos ficar nos limites da institucionalidade burguesa, como o PSOL defendendo a CPI no Congresso e o PT a saída por meio do BC e do STF. Mas também não podemos nos contentar com uma saída economicista, como o PSTU[4], que defende apenas a estatização do sistema financeiro, ou uma saída abstrata de Assembleia Constituinte sem conexão real com a dinâmica atual da luta de classes, como faz o MRT[5].
A nosso ver, é preciso levantar um programa que passe pelo confisco dos bens de todos os responsáveis pelas fraudes contra os fundos públicos, pela democratização da previdência e estatização do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores. Porém, apenas essas medidas não são suficientes para resolver os problemas colocados; é preciso que a nossa central, a CSP-Conlutas, organize e lute – além de exigir que as centrais governistas (CUT, CTB e outras) também mobilizem – pelo não pagamento da dívida pública, que consome metade do orçamento federal, e contra as isenções fiscais das grandes empresas. Lutas que se dão a partir da construção de um Plano Político e Econômico dos Trabalhadores que se coloque contra todos os ataques do ultrarreacionarismo e do governo e pelas reivindicações mais sentidas nesse momento, como colocado acima. Esse plano precisa ser construído.
Mas não podemos desconsiderar que é necessário, diante da extrema direita que segue perigosa e do governismo, construir um Plano Político e Econômico dos Trabalhadores em âmbito político-eleitoral também. Enquanto setores semi-independentes da esquerda procuram legenda em alternativas governistas, como fez o PCBR ao lançar Jones Manoel pelo PSOL (partido governista), a esquerda independente segue sem uma alternativa política que sirva para disputar a vanguarda lutadora para uma saída anticapitalista e revolucionária para a atual situação.
Para resolver essa lacuna, o PSTU, como única organização da esquerda independente que tem legalidade nacional, deve mudar de postura, que consideramos extremamente sectária, porque não dialoga com as necessidades objetivas das massas e com a vanguarda, e chamar imediatamente à construção de uma Frente Política da esquerda para apresentar uma saída política estratégica diante de uma situação mundial e nacional cada vez mais polarizada, instável e repleta de desafios.
[1] CPI se impõe contra tentativas de abafar o caso Master em
[2] DEMIER, Felipe. Democracia blindada: golpes, contra-reformas e a crise do regime político brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017.
[3] Master só tinha R$ 4 milhões em caixa antes da liquidação, diz diretor do BC à PF em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/01/master-so-tinha-r-4-milhoes-em-caixa-antes-da-liquidacao-diz-diretor-do-bc-a-pf.shtml
[4] Escândalo do Banco Master mostra cumplicidade da Justiça e de políticos com falcatruas dos banqueiros, em:
https://www.opiniaosocialista.com.br/escandalo-do-banco-master-mostra-cumplicidade-da-justica-e-de-politicos-com-falcatruas-dos-banqueiros/
[5] Escândalo Banco Master e a república no bolso dos banqueiros: podres de um sistema que precisa ser enfrentado à esquerda, em:
https://www.esquerdadiario.com.br/Escandalo-Banco-Master-e-a-republica-no-bolso-dos-banqueiros-podres-de-um-sistema-que-precisa-ser










