Na última quarta-feira (09), o governo de Donald Trump anunciou a imposição de um tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos. O valor é exorbitantemente alto, mas o mais desconcertante são as razões abertamente políticas com as quais o presidente americano justificou a sanção.

Victor Artavia

Uma carta que exala imperialismo 

Desde segunda-feira (07), Trump começou a publicar em suas redes sociais as cartas que enviou a diversos líderes mundiais. Todas tinham o mesmo formato, que consistia basicamente em uma saudação “cordial”, uma mentira sobre a relação comercial “deficitária” e o valor da tarifa: 

“É uma grande honra para mim enviar-lhe esta carta, pois demonstra a força e o compromisso de nossa relação comercial, e o fato de que os Estados Unidos concordaram em continuar trabalhando com (nome do país), apesar de ter um déficit comercial significativo com seu grande país”.

No caso do Brasil, foi diferente. A declaração colocou um argumento político em primeiro lugar, o desconforto de Trump com o processo judicial contra o ex-presidente Bolsonaro, devido à tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023:

“Eu conheci e lidei com Jair Bolsonaro, e o respeitei muito […]. A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve terminar imediatamente”.

Além disso, em sua carta, Trump apontou que as empresas de mídia social norte-americanas estão sendo perseguidas no Brasil, aludindo aos conflitos recorrentes entre o judiciário (chefiado por Alexandre de Moraes) e empresas como a X, de Elon Musk. Estas empresas são usadas por figuras da extrema direita brasileira para disseminar suas ideias reacionárias, mentiras e promover suas ações (como aconteceu com os atos golpistas de 2023).  

Isso representa a interferência de Trump na política do gigante sul-americano. Isso é extremamente grave, pois ele pretende submeter as instituições do Brasil aos desígnios da Casa Branca.

Em outras palavras, a carta demonstra que o governo Trump está colocando todo o peso econômico da maior potência do mundo para distorcer as decisões soberanas de outro país. Nesse caso, a de processar um líder golpista de extrema direita. 

 

Além de imperialista, mentiroso!

Por outro lado, também não é verdade que os Estados Unidos têm um déficit comercial com o Brasil. 

De acordo com o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a realidade do comércio é diametralmente diferente, uma vez que o Brasil tem um déficit comercial com os Estados Unidos de U$D 410 bilhões nos últimos 15 anos. 

De fato, dados fornecidos pelo US Trade Representative’s Office indicam que os americanos tiveram um superávit comercial de US$ 650 milhões no primeiro trimestre deste ano, assim como US$ 7,4 bilhões no ano passado. 

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de 10.000 empresas serão impactadas pela imposição das novas tarifas. Obviamente, os empregadores vão repassar o custo da crise para a classe trabalhadora, seja por meio de demissões ou pelo aumento da precarização do trabalho.

 

A resposta tíbia de Lula à investida imperialista

O governo de Lula reagiu de forma bastante passiva à magnitude do ataque. De acordo com o líder brasileiro, sua primeira opção seria “tentar negociar, mas se não houver negociação, a Lei da Reciprocidade Econômica será colocada em prática: se ele (Trump) nos cobrar 50%, nós vamos cobrar 50%”. Ele também não descartou “levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), propondo investigações internacionais, pedindo explicações”.

Dada a gravidade dos fatos, é incompreensível que Lula não tenha denunciado com força a intromissão imperialista representada pela carta de Trump. Pelo contrário, ele assumiu que a disputa é uma questão puramente econômica. Prova disso é que ele está considerando levar o caso à OMC, um órgão que, desde que Trump se tornou presidente, perdeu muita relevância internacional e não regulamenta mais nada. 

Trump representa um novo estilo de imperialismo, que opera sob a lógica da territorialização, ou seja, de ter áreas de influência sujeitas ao seu mandato. Por esse motivo, ele está “dinamitando” a velha ordem mundial e literalmente pouco ou nada se importa com os antigos consensos e instituições pelos quais o mundo pós-guerra foi organizado. Ele está usando mais “hard power”, pois busca transformar a superioridade econômica e militar em ganhos econômicos e políticos.

Lula não vê isso, ou ignora para não confrontar a Casa Branca, com a ingênua suposição de que será capaz fazer o bonapartista estadunidense mudar de ideia por meio de negociações. Em suma, ele leva a lógica da conciliação de classes para a arena internacional e, como está acontecendo internamente no Brasil, não temos dúvidas de que fracassará na tentativa de “argumentar” com Trump (que, por enquanto, descartou qualquer tentativa de negociar com Lula).

 

Derrotar a interferência imperialista nas ruas e exigir a prisão de Bolsonaro

Diante da carta de Trump e sua intenção de submeter o país aos desígnios de Washington, é fundamental promover a mobilização dos mais amplos setores da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres, do movimento negro e indígena e de todos os setores que repudiam o avanço imperialista dos Estados Unidos contra o Brasil.

Não se pode confiar que o governo liberal-social de Lula resistirá ao ataque, porque toda a sua lógica é ceder e negociar. Lula não chama a atenção para mobilizar e radicalizar a luta em um sentido anti-imperialista, o que é compreensível por se tratar de um governo de ampla frente com setores da grande burguesia brasileira historicamente vassala aos interesses ianques. 

A extrema direita bolsonarista, por sua vez, demonstrou sua complacência com uma agressão imperialista de tal magnitude, não deixando dúvidas sobre seu caráter pró-imperialista.

É preciso transformar a indignação em mobilização. Sair às ruas para rechaçar a ingerência imperialista, bem como erguer a bandeira da prisão de Bolsonaro e de todos os golpistas.